#208

Nessa semana comemorou-se o Natal. E, sem entrar em discussões quanto à precisão exata da data do evento comemorado, nesse dia recordamos o nascimento de Jesus.    Relendo talvez a narrativa mais detalhada do nascimento nos Evangelhos (Lucas 2:1-20) dois detalhes me saltaram aos olhos. Em primeiro lugar, é curioso que os primeiros a serem informados sobre o nascimento de Jesus foram os pastores. Obviamente esse detalhe não carrega nada de novo àqueles que já conhecem a história.   Contudo, me fascina os primeiros avisados do ocorrido serem pessoas que não faziam parte de uma elite da sociedade. Os pastores de ovelhas eram homens humildes. Eram homens simples. Não eram líderes religiosos ou líderes políticos; eram pessoas comuns. Mesmo assim, os anjos os visitam (2:10), da mesma forma que haviam visitado o sacerdote Zacarias (1:13), trazendo boas novas para todo o mundo. Aqui, vemos os humildes do cântico de Maria (1:52) sendo exaltados por meio de um anúncio de graça.   O sinal por meio do qual esses homens identificariam o Salvador (2:11) contribui para sublinhar o fácil acesso a essa boa nova: “encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura” (2:12). A grandiosidade do evento e do anúncio angelical é desproporcional em relação ao seu sinal. O Salvador envolto em faixas numa manjedoura. Talvez pelo fato de conhecermos tão bem o relato, não há surpresa ao vislumbrarmos o bebê na manjedoura. Devido a tantas representações dessa história das formas mais diversas, não percebemos a grandiosidade desse relato. Aqui também há uma mensagem complementar à escolha dos pastores como primeiros destinatários: a graça carrega um sabor inusitado...

#207

Gênesis 1:26-28 fala da criação da humanidade em termos reais (veja #49, por exemplo). A criação de macho e fêmea ocorre concomitantemente. Ambos recebem a mesma função (realeza) e são imagem e semelhança de DEUS, com as mesmas ordens, inclusive. Em Gênesis 2:4-25 o homem e a mulher são criados em momentos distintos, ambos imitando o Criador em funções distintas (cuidar e guardar; ser ajudadora) e estão unidos fortemente. Nos dois relatos a atuação de ambos não carrega nenhum tipo de superioridade[1]. Gênesis 3 marca uma mudança no papel da mulher na narrativa.   Na maior parte das vezes as mulheres na narrativa bíblica não são nomeadas e quando o são, é porque desempenham um papel negativo na história. Elas, as mulheres, são personagens absolutamente secundárias nas narrativas. Entretanto, aqui ou ali temos uma personagem feminina como protagonista: Raabe, Débora e Jael, Ester, Rute, Naomi. Muito raramente a Bíblia Hebraica (BH) menciona o nascimento de um personagem feminino e todos os anúncios de nascimento dados a uma mulher estéril são de homens. O caso de Diná, filha de Jacó, cujo nome não é explicado e nem sua descendência relatada, diferentemente de todos os seus 12 irmãos, é emblemático. Mesmo a morte das mulheres na BH é relatada somente quando a história envolve algo importante para o personagem masculino da história.   Recentemente Yair Zakovitch chamou à atenção para um detalhe curioso: mesmo nos livros dedicados inteiramente a mulheres, como Ester e Rute, o início e o fim são narrativas de personagens masculinos; em Ester o livro abre com Assuero e termina com Mordecai; em Rute o livro começa com...

#206

Alguns detalhes bíblicos são muito curiosos. Um deles talvez seja o aspecto da descrição dos personagens. Raramente um personagem é descrito detalhadamente e o mesmo ocorre também em relação a paisagens. Em Cântico dos Cânticos (CdC), no entanto, isso é revertido. As descrições são minuciosas, não apenas dos personagens, como também dos cenários em que estes se encontram. Alguns poemas de CdC, chamados de wasf, são conjuntos de metáforas descritivas dos corpos dos amantes, feitas por ambos. Ou seja, neste sentido, entre as narrativas bíblicas e o CdC há uma inversão. Essa é, aliás, uma de várias inversões entre as diversas narrativas bíblicas e CdC.   Outra inversão se dá quanto à beleza. Beleza não é uma característica muito presente na Bíblia Hebraica (BH), a não ser que ela se torne importante para alguma narrativa. Por exemplo, só se sabe que Sara é bonita no contexto da viagem de Abraão ao Egito, quando ele “mente” a respeito dela ser sua irmã (veja o texto anterior, #205). Abigail (1 Samuel 25:3) já é apresentada como formosa e sensata, apesar de estar casada com Nabal. No final ela acaba se tornando esposa de Davi. Bate-Seba é descrita primeiro em termos de formosura, antes mesmo de seu nome ser mencionado e, obviamente, sua beleza leva o rei Davi ao pecado (2 Samuel 11). O filho de Davi, Amon, deseja a própria irmã, porque ela era bonita (2 Samuel 13). A beleza de José em Gênesis 39 acaba lhe causando problemas com a mulher de Potifar e o fato da mãe de José ser também declarada bela, acaba por ocasionar o desprezo de...

#205

Muitos estudantes iniciantes da Bíblia Hebraica (BH) têm a pretensão de achar um único e inequívoco sentido para o texto (ou os textos) que estudam. A “certeza” de que existe apenas uma maneira correta de ler o texto é, infelizmente, derivada da arrogância e da ignorância de tais estudantes, pois quanto mais experientes no estudo da BH se tornam, mais certos estarão de que a ambiguidade não só é um “problema” recorrente no texto, como muitas vezes até mesmo um recurso comum utilizado pelo narrador ou poeta.    Um primeiro exemplo de ambiguidade tanto na narrativa quanto na poesia é o uso da expressão “irmã”. Michael Fox já argumentava em 1985 que a expressão era comum e conhecida na poesia de amor egípcia. Sendo assim, é possível que os egípcios realmente tenham sido enganados com seu uso por Abraão em Gênesis 12 e que o próprio Abraão a tenha usado com esse propósito. Assim, “irmã” implicaria não somente um laço sanguíneo para os egípcios, mas também uma palavra de conotação sexual-afetiva por seu uso na literatura poética.    Essa ambiguidade no uso de “irmã” também se faz presente em Cântico dos Cânticos (CdC). Em diversos momentos o homem/amante[1] chama a mulher/amante de irmã, claramente com sentido sexual-afetivo, como em CdC 4:9-10: “Arrebataste-me o coração, minha irmã, noiva minha (…). Que belo é o teu amor, ó minha irmã, noiva minha (…)” (ARA). O amor do homem em CdC é dirigido à sua irmã, não no sentido literal incestuoso. A expressão “irmã” carregaria um sentido de profundo conhecimento e companheirismo, ainda que no sentido erótico. Já em CdC 8:8, por...

#204

Uma série de textos anteriores já lidou com alguns aspectos literários de Cântico dos Cânticos (#116 #117 #118 e #119) e nessa nova sequência, mais uma vez esse livro fantástico será o tema central. Em um primeiro momento serão trabalhadas algumas ligações interessantes com outros textos da Bíblia Hebraica e, em um segundo momento, o papel da mulher será abordado de maneira específica.   Dentre as diversas ligações intertextuais de Cântico dos Cânticos (CdC), as com uma gama de textos de Gênesis sempre chamam mais à atenção, principalmente pelas ligações entre os jardins (abordado em #119, mas superficialmente). Por exemplo, a palavra “mandrágoras” aparece somente duas vezes na Bíblia Hebraica (BH), justamente em Gênesis 30 e em CdC 7.    Na narrativa do relacionamento conturbado de Jacó com suas duas mulheres, Raquel e Lia, desde o início há um jogo de palavras que é retomado em CdC. Jacó encontra Raquel em um poço de água (Gênesis 29) em uma cena que parece ser uma repetição da história da mãe de Jacó, Rebeca, que também fora encontrada em um poço de água (Gênesis 24). Aliás, Robert Alter aponta como certas cenas se repetem diversas vezes, numa espécie de modelo; nesse caso, Rebeca, Raquel e Zípora (uma das sete filhas do sacerdote de Midiã) são introduzidas na narrativa bíblica junto a um poço de água.   A sequência da história em Gênesis 29 mostra os verbos “beber” e “beijar” (Gênesis 29:10-11), sendo que é Jacó quem dá de beber à Raquel e a beija. Em CdC 8:1-4 a ordem é invertida, primeiro o “beijar” e depois o “beber”, sendo a mulher...