#124

Em O idiota, de Fiódor Dostoiévski, o Príncipe Míchkin, comentando sobre um tempo passado em uma aldeia remota de língua francesa, diz: “[…] seus pais ficaram zangados comigo porque, no fim das contas, as crianças não podiam passar sem mim e estavam sempre aglomeradas ao meu redor, e o mestre-escola acabou virando meu primeiro inimigo por causa das crianças. […] sempre me deixou perplexo a ideia de como os grandes conhecem mal as crianças, os pais e as mães conhecem mal até os próprios filhos. Não se deve esconder nada das crianças sob o pretexto de que são pequenas e ainda é cedo para tomarem conhecimento. Que ideia triste e infeliz! E como as próprias crianças reparam direitinho que os pais acham que elas são pequenas demais e não entendem nada, ao passo que elas compreendem tudo. Os grandes não sabem que até nos assuntos mais difíceis a criança pode dar uma sugestão sumamente importante.” Em 2 Reis 5:1-19, lemos a história de Naamã. Naamã, um poderoso general sírio, estava fragilizado com lepra. Sem mais esperanças, o general ouve uma jovem menina israelita cativa afirmar que o profeta Eliseu, que estava em Samaria, poderia restaurá-lo da doença. Imediatamente, com a permissão do rei sírio, Naamã vai até o profeta com muitos presentes. O profeta, sem sequer sair da sua casa, informa ao general que fosse até o Jordão e se lavasse sete vezes no rio. Indignado, Naamã foi até o rio, mergulhou sete vezes, e após o último mergulho, o texto afirma, “sua carne se tornou como a carne de uma criança” (v.14). Como é comum ao texto bíblico,...

#112

Para responder, mesmo que parcialmente, a pergunta que termina o texto #102, vamos à Gn 32 e 33. Estes dois capítulos narram uma das cenas mais emocionantes de toda Bíblia Hebraica, o reencontro de Jacó e Esaú. Antes deste reencontro, a última informação que temos sobre a relação dos irmãos aparece em Gn 27:41, onde lemos: “Passou Esaú a odiar a Jacó por causa da benção, com que seu pai o tinha abençoado; e disse consigo: Vêm próximos os dias de luto por meu pai; então matarei Jacó”. Temendo uma vingança do irmão, nos vv. 3-5 e 13-19 do capítulo 32, Jacó envia mensageiros ao encontro de Esaú para preparar o caminho com presentes, ou melhor, apaziguar a ira do irmão com presentes. Todavia, a resposta que recebe dos mensageiros é simplesmente: “Fomos a teu irmão Esaú; também ele vem de caminho para encontrar contigo, e quatrocentos homens com ele”.  Jacó teme a notícia e divide o grupo em dois bandos (v.7). E com ele, o leitor participa da espera. Não se sabe o que acontecerá neste encontro. Ou melhor, se seguirmos o anúncio de Gn 27:41, com certeza não será nada bom. Nesta espera, Jacó ora (vv.9-12). Esta oração não tem um paralelo simplesmente com as promessas em Gn 28:15 ou 31:13. O retorno referido por Jacó não se relaciona simplesmente com os capítulos 27-28, mas, acima de tudo, com o retorno de Abraão. Jacó aparece completando a jornada de 3 gerações. Em Jacó, a família de Abraão finalmente retorna à terra, escoltados (Gn 32:1-2). Dentre os vários detalhes desta narrativa, vemos uma palavra que marca este reencontro,...

#111

Nos textos #107 e #108 estivemos tratando do texto de Zacarias 3. Chegamos agora ao verso 9 do referido capítulo. Lemos: “Porque eis aqui a pedra que pus diante de Josué; sobre esta pedra única estão sete olhos; eis que eu lavrarei a sua escultura, diz o Senhor dos Exércitos, e tirarei a iniquidade desta terra, num só dia.” Um dos problemas desse verso é entender o significado da expressão “um dia”. No hebraico, echad (אחד) não é apenas um numeral, também pode funcionar como adjetivo em alguns casos, descrevendo um aspecto distinto do substantivo que o diferencia. Aqui, entendemos ser esse o caso. O dia é único porque não há outro igual. A expressão “um dia” aparece em outros textos, tais como Isaías 9:14, 10:17, 47:9, 66:8 e II Crônicas 28:6, contudo, somente em II Crônicas temos a evidência de que é um dia literal e específico, pois nos textos de Isaías esta expressão parece se referir a um dia de juízo futuro, indefinido temporalmente, mas singular quanto ao acontecimento que ocorrerá. Neste sentido, o “um dia” de Zacarias 3:9, por também estar no contexto de uma profecia (como os texto de Isaías), pode ser específico quanto ao “o que” ocorrerá, mas indefinido em relação ao “quando” e “por quanto tempo” vai ocorrer. Anterior à expressão está o verbo “tirar” (“tirarei a iniquidade da Terra em um só dia”), na qual aparece o verbo hebraico mush (מוש) e que tem um sentido total e eterno (como em Isaías 54:10, 59:21, se referindo a aliança de paz que jamais será tirada). O dia em questão, portanto, é um tempo em...

#86

Sobre o próprio texto do Decálogo, uma série de nuances valem ser ressaltadas: primeiro, de aspectos gerais e, depois, específicos. Em primeiro lugar, o Decálogo não é parecido com as prescrições habituais da lei bíblica, até por não especificar as punições. É, inclusive, a forma de categóricos imperativos e proibições apodícticas dos mandamentos em Êxodo 20:3-17 mais um fator de relação com as formulações dos tratados de aliança do AOM (Antigo Oriente Médio). Além disto, o fato de não apresentarem caráter casuístico demonstra serem uma espécie de padrão conceitual de conduta, ou seja, o objetivo é o bem-estar da comunidade e a motivação é positiva (a obediência a DEUS, o DEUS que libertou) e não negativa (a punição). O texto do Decálogo começa com a expressão “teu DEUS” em Êxodo 20:2 e termina com “teu vizinho” em Êxodo 20:17. Esta, inclusive, parece ser a divisão que se tem adotado ao tratar do Decálogo: uma primeira parte se prende a ordens direcionadas ao relacionamento entre DEUS e o homem e a segunda parte se constitui de ordens direcionadas ao relacionamento entre os homens. Quanto à divisão destas duas seções, alguns consideram que os quatro primeiros mandamentos estão direcionados a DEUS e os seis últimos ao próximo. Outros sugerem que os três primeiros se orientam a DEUS e os sete últimos ao próximo. A divisão interna do texto, entretanto, parece sugerir uma linha de forte coesão textual. O uso das expressões “teu DEUS” e “teu próximo” como fatores de divisão parecem indicar isto, visto que “teu DEUS” aparece cinco vezes nas cinco primeiras palavras do Decálogo, e “teu vizinho” aparece apenas...

#85

Há muito o texto de Êxodo 20 (e Deuteronômio 5) é arrolado como similar aos tratados de suserania do Antigo Oriente Médio, em especial aos tratados políticos Hititas. Esta similaridade se dá pela presença de seções comuns no processo de se regular a relação entre entidades diferentes; no caso dos tratados políticos, entre o suserano e o vassalo; no caso bíblico, DEUS e o povo. Teólogos diversos apontam, inclusive, para a inovação desta situação no que se refere à religião, visto que o mais comum no Antigo Oriente Médio (AOM) era mostrar o relacionamento entre a divindade e o homem comum através de um conjunto de intermediários, enquanto no caso bíblico, DEUS estabelece, diretamente, um relacionamento com o povo que Ele escolheu. Aliás, o próprio texto bíblico se refere a Êxodo 20:2-17 com a ideia de aliança, pois temos em Êxodo 34:28 a expressão “palavras da aliança, as dez palavras” (tradução literal do hebraico). E assim ficou conhecido o texto, tanto que os judeus de Alexandria, no Egito, traduziram para o grego como deka logoi, ou seja, decálogo. Outros fatores no próprio texto apontam para sua singularidade. Por exemplo, em Êxodo 20:1 temos uma construção hebraica única no Pentateuco: “E disse DEUS todas estas palavras, dizendo […]”. Ela é única, pois seu endereço é indeterminado, o que quer dizer que não é indicado a quem DEUS fala. São as únicas palavras, no Pentateuco, ditas por Ele sem a intermediação de Moisés ou quaisquer outras pessoas. Isto assinala um viés universal, pois a indeterminação do discurso faz com que o mesmo seja estendido a todos. Ao mesmo tempo, a mesma indeterminação também individualiza a mensagem...