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“Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros.”

1 Samuel 15:22

A ordem de DEUS a Saul havia sido clara: “Vai, pois, agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos.” (1 Samuel 15:3) E grande foi a vitória que o Eterno concedeu a Israel. Mas Saul não obedeceu completamente; poupou os melhores bois e as melhores ovelhas e também prendeu o rei de Amaleque, ao invés de matá-lo.

Quando confrontado pelo profeta Samuel ele se esquiva, dizendo que poupou os bois e as ovelhas para que se oferecessem holocaustos ao Eterno; ou seja: na verdade ele não estava poupando os bois e as ovelhas, mas apenas os mataria cerimonialmente, em outro momento.

Esta é a segunda vez em que, quando confrontado, Saul dá desculpas e explicações, tentando justificar sua maneira de agir. A outra vez está relatada em 1 Samuel 13, quando ele, cansado de esperar há dias por Samuel, se antecipa oferecendo ele, mesmo, os holocaustos, ao invés de esperar pelo profeta, como lhe tinha sido ordenado.

Em ambos os casos Saul tenta fazer sua desobediência parecer zelo espiritual. No capítulo 13 é o medo de talvez ter de enfrentar uma batalha com os filisteus sem ter “orado à face do Senhor” (1 Samuel 13:12). Já no capítulo 15 é para oferecer sacrifícios e holocaustos. Na verdade, ao que parece, do ponto de vista de Saul, não só não há motivos para DEUS e Samuel ficarem chateados, mas ambos deveriam admirar e louvar Saul pelo seu zelo espiritual. Em ambos os casos, no entanto, o texto sugere que há outros motivos. No capítulo 13 o próprio Saul aponta que estava com medo que o povo se dispersasse. No capítulo 15 ele explica somente a presença dos bois e das ovelhas e se silencia em relação ao fato do rei de Amaleque ainda estar vivo.

Em 2 Samuel 12 o profeta Natã confronta o rei David pelo assassinato de Urias e o adultério com Bate-Seba. O erro de David parece muito mais grave. O confronto de Natã soa muito mais agressivo. David, a esta altura de seu reinado, também já se tornara um rei mais estabelecido do que Saul jamais o fora. Por isso que a simples admissão de culpa de David soa ainda mais inesperada: “Então disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor. E disse Natã a Davi: Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás.” (2 Samuel 12:13)

Sem desculpas. Sem justificativas. Sem tentar aliviar para si, mesmo.