#79

“…o que é então a Cristandade? Não é a ‘Cristandade’ a tentativa mais colossal de servir a Deus sem seguir a Jesus, como Ele ordenou…?”

Kierkegaard

O texto #71 conclui da seguinte maneira: precisamos desenvolver a honestidade e a coragem de dizer que o “Cristianismo” nos nossos dias não existe… e que esta confissão nos conduza de volta ao texto Bíblico… precisamos redescobrir o que significa, de fato, Cristianismo na Bíblia, pois, atualmente, ele simplesmente não existe.

Conclusão dura? Sem dúvidas. Para quem não leu o texto #71 esta conclusão não elimina a realidade de que muitos dentro do que se chama de Cristianismo, de fato vivem a realidade do Reino em suas vidas; que vivem uma antecipação do fim em sua própria existência e ação; que vivem uma orientação de vida voltada ao serviço e não meramente aos próprios interesses; que entendem o texto na ação, e não apenas na esfera cognitiva.

O reconhecimento de que Cristianismo não existe deve nos conduzir de volta ao texto para que possamos reconstruir aquilo que –em algum momento da história– ficou pelo caminho. Se tivéssemos apenas os Evangelhos como base/fonte para reconstruir o que hoje chamamos de Cristianismo, como seria este Cristianismo? Uma breve leitura de Mateus 5-7 ou Mateus 23 já mostraria quão longe estamos desta realidade.

A leitura dos Evangelhos é uma leitura perigosa. Mas enquanto pensamos que textos mais explícitos com relação à ética Cristã (como Mateus 5-7 e 23) são uma afronta à atual situação do “Cristianismo”, outros textos, que também romantizamos, costumamos ler sem entender o imperativo ético.

Mateus 4 por exemplo inicia com Jesus sendo levado para o deserto para ser tentado como Adão e Eva foram, como Israel foi, e como nós somos. Citando os próprios textos de Deuteronômio, que remetem à imagem das tentações de Israel no deserto, Jesus passa pela prova, e no final  da narrativa recebe duas das três promessas que o Diabo lhe faz; mas através de sua atitude de dependência de DEUS (proteção dos anjos e alimento).

Mas um dos detalhes que passa despercebido na narrativa da tentação de Jesus é a topografia que o texto apresenta:

A primeira tentação ocorre no deserto.

A segunda tentação ocorre no pináculo do templo.

A terceira tentação ocorre no alto de uma montanha.

A progressão é clara. E o que o Diabo oferece no último estágio, no topo, no ápice das tentações é: glória. Enquanto nos preocupamos com questões paralelas e periféricas, o texto diante de nós revela duas interpretações com relação a orientação da existência humana. A do Diabo se encontra na subida, no alcançar objetivos à despeito da vontade DEUS, na glória de estar no topo. Jesus, porém, ao contrário da Igreja Cristã durante a idade média (que em muitos aspectos é igual a muitas igrejas cristãs hoje em dia) rejeita a tentação da glória de estar no topo e apresenta no restante do Evangelho de Mateus sua própria concepção de glória (a glória que Ele carrega em si mesmo, em Suas ações). Para Jesus, a glória não está na subida, mas na descida. Sua encarnação revela a verdadeira orientação da existência, a verdadeira glória. O Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir; os últimos serão os primeiros… esta é a verdadeira glória aos olhos do Pai, manifestadas na vida do filho.

Num cenário Cristão onde “a subida” como orientação de vida aparece em todos os níveis da igreja –do irmão/irmã que busca ser eleito para algum cargo na igreja apenas pelas aparências até o pastor que vive um ministério de carreira e ascenção, até o líder religioso que denigre seu compasso moral ao buscar benefícios próprios ou uma promoção– a topografia do deserto se torna um grave diagnóstico.

Líderes religiosos, membros leigos, e todo ser humano na subida, todos aqueles que orientam suas respectivas existências na direção da glória do topo deveriam tremer diante da realidade que o texto apresenta. Cristianismo como caminho de subida é a melhor maneira de seguir Jesus sem seguir a Jesus. É se acomodar dentro de uma tradição em nada relacionada ao modo de viver apresentada nos Evangelhos. A alternativa é o caminho para baixo. O caminho do serviço, da cruz e da morte.

O Caminho.