#73

Continuando na história de Esaú e Jacó, há cinco coisas que merecem ser analisadas, de acordo com o texto de Gênesis 25 e 27:

1. serviço

– A palavra avad ocorre nas 3 partes da história e enfatiza o serviço de Esaú. No entanto, a mesma palavra aparece na história de Jacó repetidas vezes: servindo Labão (Gênesis 29:15,18,20,25,27,30; 30:26,29; 31:6,41); a DEUS (32:1); e até a Esaú (32:17,19; 33:14). Todos os pontos da narrativa mostram o oposto do anúncio em Gn 25 e 27. Jacó termina até mesmo como servo de Lea (Gênesis 30:16)! Ele foge do irmão que seria seu servo, para servir seu tio e sua mulher. Aquele que deveria ser senhor se torna servo. Ele mesmo se coloca desta maneira em Gênesis 30:26.

– O encontro entre Jacó e Esaú, que deveria ser o cumprimento do anúncio feito desde o início da história de ambos, é o oposto disso: Compare Gênesis 32:17-18 com 27:29 e 33:6,7,9; até o final da história de Gênesis não vemos o cumprimento desta profecia e/ou do anúncio de enredo.

2. fertilidade

Gênesis 27:28a//27:39b

– As bençãos de fertilidade são todas de Jacó e neste sentido nada é dado a Esaú.

– De alguma maneira isso se cumpre na história de Jacó parcialmente com seu crescimento (30:43,27), mas há, também, toda a questão esterilidade das mulheres e a briga entre elas para gerar filhos; no entanto duas mulheres e suas concubinas parecem indicar q sua descendência seria, de fato, numerosa.

–  Em Gênesis 32:14-15,22 isso fica patente. Gênesis 33:11 – “aceita o presente” birkat q vem de beraka (bênção): Jacó quer compartilhar sua benção, aquela que fora roubada de Esaú (Gênesis 27:41).

– Gênesis 33:9 e 36:6 descrevem Esaú como alguém fértil e com bênçãos; em nada semelhante à “bênção ” que recebera do pai Isaque.

3. divisão

– Toda a história de Jacó e Esaú parece fazer cumprir Gênesis 25:23, até que o final da história reverta isto. Gênesis 33:4; 35:29 e 36:6-8 descreve a reconciliação dos irmãos. A futura separação até ocorre, mas não por contenda e, sim, pelo “excesso de prosperidade” de ambos; o motivo é outro, não a briga.

4. vivendo pela espada

– Em Gênesis 27:40a a benção de Esaú envolve algo de violência, mas é Jacó que vive esta realidade! Chereb (espada) aparece em Gênesis 31:26; 34:26 e, depois, na história de José 48:22 e 49:5 (que lembra Gênesis 34).

– No momento do reencontro, ao invés se usar espada, Esaú corre e abraça (Gênesis 33:4).

5. terra/benção

– Apesar de Jacó ter crescido e sua família tenha se tornado numerosa, seu irmão aparece igualmente próspero.

– A terra de Jacó é a de suas peregrinações, enquanto Esaú e seus descendentes já possuem terra própria. Jacó e seus descendentes ainda vão descer ao Egito para lá, como escravos estrangeiros, servir outro povo (Gênesis 37:1 com foco em 36:7).

– Jacó, que deveria ser bênção –como seu avô foi chamado a ser em Gênesis 12 (e o foi em diversos momentos)– não se torna bênção. Como o palavreado por ele mesmo utilizado parece apontar em Gênesis 34:30, ele, lá, se torna odiado.

Até o final de Gênesis, nada do que é proposto no enunciado da narrativa se concretiza. Jacó não vê. Jacó não vive. Ele não tem terra. Ele não tem senhorio. Gosto de como o autor de Hebreus elabora este dilema: Isaque abençoa coisas que ainda aconteceriam… pela fé.

Somente em Números o que fora profetizado por Isaque parece se apresentar em relação a Esaú (Números 20:14), onde ele é apresentado com espada na mão, séculos depois. E somente em 2 Samuel, na narrativa das conquistas de Edom, enfim Esaú/Edom aparece servindo a Jacó (2 Samuel 8:14), muitos séculos depois.

Já Isaías, Jeremias, Ezequiel e outros profetas, como ainda Obadias, se referem a um Edom conquistado e derrotado em um juízo final que DEUS traria. A história acaba por tornar-se escatológica, ou seja, referente ao final dos tempos.

Já em relação a Jacó, praticamente nada se cumpre enquanto este ainda vive. Ele, mesmo, nada vê. Somente séculos mais tarde as profecias se cumpririam. Jacó espera na promessa. Ele não sabe como. Ele não entende como. Angustiado, antes do encontro com seu irmão, Jacó fica sozinho. Luta com um ser divino (Gênesis 32). Luta com DEUS. E tem o seu nome mudado. Recebe um novo nome: Israel!

A promessa, muitas vezes, parece distante, parece impossível. E nada parece conspirar a favor de seu cumprimento. Mas ainda que não enxerguemos, a caminhada prossegue e precisamos ter fé. Fé naquEle que promete. Fé de que, a seu tempo, mesmo que séculos depois, DEUS cumprirá sua promessa.