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“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Levítico 19:18

Na literatura sapiencial do Antigo Oriente Médio a discussão de questões éticas era recorrente e seu foco geralmente o dia-a-dia do ser humano e seu relacionamento com os outros. A ética, no entanto, não fazia parte da preocupação do mundo religioso em geral, que via a religião como mágica (convencer os deuses a fazerem o que você deseja); com exceção de Israel.

A relação distintiva entre a preocupação com o outro e a religião não só pode ser notada em Gênesis 1:27, ao se apontar que todos seres humanos foram criados à imagem e semelhança de DEUS, mas também em alguns discursos proféticos.

Em Isaías 1:2-3, por exemplo, é dito: “criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim […]”; “o boi conhece seu possuidor, e o jumento o dono de sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende.” Apesar de apresentarem atitudes religiosas, o povo de Israel é reprendido por DEUS por falta de conhecimento. E aqui já enxergamos o cerne da questão. Biblicamente conhecer a DEUS significa se preocupar com o outro. Isto é visto claramente na sequência do mesmo capítulo, nos versículos 15 e 17: “Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas”.

O profeta Jeremias também parece apontar para a mesma linha de raciocínio ao dizer (Jeremias 22:16): “Julgou a causa do aflito e do necessitado, porventura, não é isso conhecer-me, diz o SENHOR”. Conhecer a DEUS implica, também, em ver no outro a imagem de DEUS.

Contudo, isto tem se tornado cada vez mais penoso em uma sociedade que enfatiza o individual. Claramente não existe dignidade sem a capacidade de ficar sozinho. A solidão é um processo necessário paras as incursões na histeria da sociedade. No entanto a solidão genuína é uma busca da genuína solidariedade. O homem sozinho é um conceito. Ele está inserido numa comunidade. Com meus contemporâneos eu vivo, sofro e me alegro. Para o homem, ser, significa ser junto com outro. Sua existência é coexistência.

Lucas 10:25-37 nos orienta a como lidar com a questão fundamental da religião, proteger a imagem de DEUS no outro. Um intérprete da lei se aproxima de Jesus com a intenção de coloca-lo à prova. Ele pergunta o que deveria “fazer para herdar a vida eterna”. De cara vemos na pergunta do intérprete, duas palavras que não combinam juntas, “fazer” e “herdar”. Apesar da perspectiva do intérprete estar completamente equivocada, Jesus, respondendo àquele homem, faz uma pergunta que o deixa completamente desconcertado e provoca nele a necessidade de citar Levítico 19:18: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. E aqui, nos deparamos com uma história conhecida.

Um homem foi roubado na estrada e deixado semimorto. Quem é o homem ferido? Filho de quem? Pai de quem? Judeu? Samaritano? Jesus elimina qualquer possibilidade de identificação. Ele está impotente para pedir socorro, ou oferecer uma recompensa. O ferido está inteiramente nas mãos do “outro”. Um sacerdote e um levita passam, e não dão a mínima para aquele homem. E então, a maior das improbabilidades acontece. Um samaritano (aparentemente de um povo de difícil relacionamento com alguns judeus) representa a perfeição de amor ao outro. O samaritano, golpe de intolerância racial, social, religiosa e “denominacional”, coloca aquele homem em seu animal e o auxilia pagando todos os gastos para sua recuperação.

Ao final desta história Jesus faz uma pergunta ao intérprete que subverte a pergunta a pergunta inicial. Ela mostra que mesmo na perspectiva errônea do intérprete sobre o que deveria ser “feito” para herdar, ele não entendia o cerne da questão. O Messias pergunta: “Qual dos três foi o próximo?”

Na pergunta de Jesus o próximo é quem pratica a ação. O próximo não é o objeto da ação, mas o sujeito dela. Não é a quem se serve, mas aquele que serve. Quem é o meu próximo? Não interessa. A pergunta que deve nos interessar é: Sou eu o próximo para qualquer um?