#60

Gênesis 4 já foi assunto aqui (texto #44), mas voltar a ele se torna mais uma vez necessário. Algumas nuances precisam ser mais bem exploradas.

Cain, o personagem principal, mata seu irmão, Abel. pelo simples motivo deste ter sua adoração (sacrifício) reconhecido por DEUS e ele, Cain, não (Gênesis 4:5-8). O motivo é o relacionamento DEUS-homem. O primeiro assassinato no relato bíblico é entre irmãos e por motivo religioso (ou espiritual, como queira).

Cain se ressente da atenção que aquilo que Abel faz recebe de DEUS. Cain acha que aquilo que ele fez merece, no mínimo, a mesma atenção. Uma disputa religiosa/espiritual (que só existia na cabeça de Cain) conduz ao assassinato.

Após a morte de Abel DEUS inicia o segundo diálogo do texto, que é também o segundo diálogo entre ELE e Cain (Gênesis 4:9-15).

Antes de tratar deste diálogo é importante notar a sutileza com que o narrador aborda a ironia do descontentamento de Cain. Cain, que teve a oferta rejeitada, é procurado duas vezes por DEUS para conversar e apesar da punição divina, recebe uma marca graciosa que o manterá vivo. Abel, que teve sua oferta aceita, não conversa com DEUS e não é mantido vivo por ELE. Ou seja, Cain quer o que Abel tem com DEUS, mas não percebe o que ele mesmo tem com ELE.

Voltando ao segundo diálogo: após a pergunta divina inicial sobre o paradeiro de Abel, Cain responde: “Não sei. Guardador do meu irmão sou eu?”(Gênesis 4:9). O distanciamento agora é total. O irmão, o outro, não é minha função. Não é meu problema. “Por que entre eu-tu precisa haver o ele?”.

As relações deste texto tão antigo com o que vivemos hoje, em diversos lugares do mundo, são infinitas. O motivo daquela disputa permanece. A atitude de Cain permanece. Sua fala ecoa nas ações daqueles que em nome dELE matam os que dELE são filhos.