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O texto de Gênesis 4 não encontra paralelos reais na literatura mesopotâmica. É um texto de narrativa sumária e cheia de lacunas. Nada é muito explicado e os diálogos ocupam cerca de dois terços da história neste capítulo. Além disso, há uma série de ligações textuais importantes entre Gênesis 4 e o capítulo anterior, Gênesis 3. Uma delas, facilmente percebida, é o uso do verbo yada’ (ידע) que aparece quatro vezes em ambos. Tematicamente, as ligações também são interessantes, pois em ambos há ofensa contra DEUS, diálogo entre criatura e Criador e uma punição endereçada ao humano. Em Gênesis 3 os diálogos giram em torno da morte (a serpente promete que não haveria morte; DEUS termina Seu discurso punitivo falando de morte) e em Gênesis 4 somos formalmente apresentados à morte. A primeira história fora do ambiente perfeito criado por DEUS é exatamente uma história de morte.

Eva dá à luz dois filhos, Cain e Abel. O nome de Cain (קין) é explicado no texto e pode ser derivado da raiz que significa adquirir qanah (קנה), ou seja, o nome pode significar “adquirido”, ou “formado”, ou até mesmo “criatura”. O nome de Abel, no entanto, não é explicado. Esta apresentação diferenciada acaba sendo um anúncio de enredo: Cain e Abel são diferentes. A próxima diferença no texto é o trabalho que ambos exercem: Cain trabalha a terra e Abel cuida do gado (Gênesis 4:2). Ambos vão adorar ao SENHOR e o texto, sutilmente, apresenta uma diferença entre as ofertas: a oferta de Cain é simplesmente o fruto da terra (4:3), mas a oferta de Abel é descrita com duas palavras – primícias ou primogênitos do seu rebanho e também suas partes de gordura (4:4). A sutileza está em passar a idéia de que a oferta de Abel foi melhor pensada, preparada, etc. A oferta de Abel é validada; a de Cain não. Aqui percebemos que não é apenas o gesto de ofertar a DEUS que é levado em conta, mas o que envolve este gesto; tanto o que é ofertado, quanto o como se oferta. Mais importante que o gesto em si, é a intenção dele. 

Um aspecto interessante da construção do texto é em relação aos nomes dos irmãos. Em Gênesis 4:1-2 a construção é Cain – Abel – Abel – Cain; em Gênesis 4:3-5 a mesma repetição acontece. Já em Gênesis 4:8-9 há o rompimento com este padrão e a sequência Cain – Abel é repetida três vezes (duas na narrativa, uma na sentença divina). Essa quebra na sequência quiasmática dos nomes no texto se dá exatamente no momento da morte de Abel pelas mãos de seu irmão Cain. Após isto, de Gênesis 4:10 até Gênesis 4:25, o nome de Abel desaparece da narrativa e a referência a ele se dá como o irmão de Cain.

Umberto Cassuto aponta um fator crucial nesta narrativa quanto aos nomes de ambos: o nome Cain aparece 14 vezes e o de Abel apenas sete, ou seja, a metade. Portanto, a história parece ser a história de Cain e não a de Cain e Abel. Além disso, DEUS fala apenas com Cain.

Gênesis 4:17-24 (após a maldição lançada por DEUS sobre Cain) apresenta a genealogia de Cain. Mas onde está a descendência de Abel? Ela não aparece, porque não existe. Assim a história de Abel (הבל) acaba por se tornar como o significado do seu nome: vapor, sopro, nada. Toda a história de Abel parece ser injusta: homem fiel, que obedece, que adora em gesto e em intenção, morre; e morre uma morte covarde pelas mãos do seu próprio irmão. A história de Abel é um lembrete de quão injusta é a vida. A fidelidade, a obediência e a devoção a DEUS não são sinônimos de uma vida longa, fácil e de sucesso; pelo contrário! –muitas vezes é sinônimo de dor, injustiça e morte.

Abel não teve semente, não teve seu nome carregado por filhos e filhas, mas Hebreus 11:4 fala do testemunho que ele deu como algo ainda vivo: o sacrifício que Abel oferece a DEUS, é o que ele mesmo acaba se tornando… e é por isso que seu testemunho permanece vivo.

Gênesis 4:25-26 termina de maneira similar ao começo do capítulo. Em Gênesis 4:1 Adão e Eva coabitam, como volta a acontecer em Gn 4:25. Novamente, como em Gênesis 4:1, é a mulher que dá nome ao filho (Gênesis 4:25). O nome dado a Cain em Gênesis 4:1 tem relação com DEUS, como também o nome de Sete (Gênesis 4:25). Em Gênesis 4:1-2 são dois nascimentos: Cain e Abel. Em Gênesis 4:25-26 também são dois nascimentos: Sete e Enos. Esta relação não é, obviamente, por acaso. No final de uma história em que o ímpio parece ter ganhado, o narrador (Moisés) aponta um consolo: DEUS continua próximo, DEUS continua sendo invocado.

A morte do justo, do fiel, não é um fim. O testemunho dele continua e, por isso, o nome dELE continua a ser evocado e se fazendo presente.

Nossa vida e nosso nome podem vir a ser como o de Abel. Que nosso testemunho perdure como o dele. Parafraseando a música: e que o meu nome morra com meu corpo, mas que o nome de DEUS permaneça em tudo. E que meu testemunho, ainda que silenciado pela morte, invoque o nome dELE.