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“…EU não subirei no meio de ti… e quando o povo ouviu esta má notícia, pôs-se a prantear.” Êxodo 33:3-4

O livro de Êxodo expõe a realidade da “presença de Deus” através de outra realidade: “a ausência de Deus”. O livro começa com uma série de eventos. Israel e seus filhos entram no Egito, José morre junto com toda aquela geração, e um novo Faraó que desconhece José aparece na narrativa para pôr um fim no crescimento –que está diretamente ligado às promessas de DEUS para Adão e Eva no jardim do Éden– dos Israelitas no Egito.

E a pergunta é: onde está DEUS?

No início do livro DEUS não está. A primeira vez que o texto entrega ao leitor qualquer direção com relação à localização de DEUS é em Êxodo 2:23: “e subiu a DEUS o seu clamor por causa de sua servidão”. DEUS ouve o choro, se lembra de Sua aliança com Abraão, e explica seu plano de ação no capítulo seguinte para Moisés.

O livro começa com ausência, e agora, enfatiza a presença divina que irá agir pelo povo.

Depois de diversos capítulos narrando as ações visíveis de DEUS para a libertação do povo e para a manutenção do povo no deserto, a história muda. O povo acostumado a ser guiado pela presença divina e com a figura de Moisés por perto, pela primeira vez se encontra num contexto onde tanto DEUS como Moisés estão ausentes. Ambos estão no alto do Sinai, discutindo o futuro do povo. E neste contexto o povo fica impaciente, negligente, e um deus que estaria sempre com eles –um deus que eles poderiam manipular– é criado e adorado (Êxodo 32). A adoração neutraliza a angústia de não ter DEUS ou Moisés por perto.

O resultado deste pecado é a possibilidade da ausência momentânea se tornar permanente. DEUS fala pra Moisés seguir com o povo, Ele promete enviar um anjo, mas como o texto no topo da página diz, DEUS, mesmo, não iria mais subir com o povo. Quando o povo entende que a presença que os guiou até então possivelmente não estaria mais por perto, eles entendem a gravidade de sua situação. O que faz Israel reconhecer sua condição diante de DEUS no deserto é a possibilidade –que eles nunca haviam considerado até então– de que DEUS poderia não mais se fazer presente entre eles.

O livro começa com ausência, DEUS manifesta sua presença, e agora o povo entende a possibilidade de DEUS se fazer ausente outra vez.

Os capítulos 33-34 de Êxodo –talvez o agrupamento de capítulos mais belos na Bíblia Hebraica– narram o resto da história. Moisés intercede pelo povo, Deus renova a aliança, e promete guiar o povo mais uma vez.

De todas as lições que podemos tirar desta sequência de capítulos, vale ressaltar uma que se aplica diretamente à nossa atual realidade. Como Moisés no alto do monte, hoje também vivemos a angústia de uma ausência momentânea de nosso libertador, Jesus, o novo Moisés. A história nos ensina que este senso da ausência é fundamental para entendermos nossa condição diante de DEUS. Assim, nossa reação diante da ausência de Cristo é semelhante a do povo. Como eles, entendemos que a melhor maneira de remediar, de neutralizar a angústia da ausência de Jesus, se encontra numa adoração que celebra a presença constante de um Cristo ausente, e de um DEUS elusivo que ainda fala através do Espírito na Palavra. O arrependimento de Israel serve como exemplo para nós, pois ao descobrirmos a frieza da realidade da ausência de Jesus, como eles, precisamos em contrição esperar e, por meio do outro Consolador, nos jogar na Palavra. Pois só na Palavra poderemos ser desfeitos, e refeitos, na graça do Cristo distante…que ainda fala.