#26

Páscoa é memória.

Se você é de origem judaica, essa data relembra a saída do povo de Israel do Egito. Você irá se reunir com sua família e amigos e vai seguir todo o Seder. Vai cantar diversas canções que o remeterão à infância (“Ma Nishtana”, “Avadim Hayinu”, etc.), vai comer muito bem e terminar a noite celebrando a promessa da vinda do profeta Elias, do Messias e tudo isso na Jerusalém reconstruída.

Se você é cristão, essa data relembra a morte de Jesus na cruz. Você irá se reunir com sua comunidade religiosa e vai participar de cultos com mensagens espirituais especiais, talvez passando cada um dos últimos passos da vida do Messias. No final dela, vai participar da cerimômia de Santa Ceia que o remeterá ao seu novo nascimento (batismo) e vai terminar a noite celebrando a promessa da volta de Jesus e da Nova Jerusalém.

Entretanto, a Páscoa judaica e cristã estão interligadas profundamente não somente em sua origem, mas também em seu propósito. A Santa Ceia cristã é a re-significação dos símbolos judaicos, já que Jesus, o Messias, deu novo sentido ao pão sem fermento (matsa) e ao vinho, participando da cerimônia judaica (Lucas 22:14-20). O propósito era justamente celebrar uma nova libertação, um novo Êxodo proporcionado pela morte do Primogênito da Criação, do Cordeiro Pascal.

A origem e o propósito da Páscoa sempre foi esse: apontar para a libertação (Êxodo 12:26-27).

O que chama à atenção é, no entanto, um ingrediente sutil em ambos os momentos, tanto da primeira Páscoa, quanto da re-significação dela com o Messias: o tempo em que ocorrem.

Não o tempo de contexto, mas o tempo do evento.

Ambas são comemoradas antes que aquilo que celebram aconteça…

Os israelitas no Egito pintaram os vergalhões de suas portas, comeram o cordeiro com ervas amargas e pão sem fermento celebrando a saída do Egito, celebrando o fim da escravidão quando ainda eram escravos e ainda estavam no Egito (Êxodo 12:1-28).

Os discípulos e Jesus comeram o pão sem fermento, símbolo do corpo do Servo sofredor, e beberam o vinho (Matheus 26:26-29), símbolo do sangue do Messias cortado (Daniel 9:27), celebrando a morte do Mestre quando Ele ainda estava vivo com eles.

A Páscoa, portanto, é mais do que memória. A páscoa é antecipação. Não é apenas olhar para aquilo que foi feito e terminado no passado. É olhar para aquilo que ainda será feito no futuro.

A Páscoa, portanto, é quando judeus e cristãos deveriam olhar para além daquilo que já ocorreu e celebrar o que ainda vai ocorrer.

A antecipação de ambos –a esperança– é a mesma: que a próxima Páscoa seja na Jerusalém de ouro…

לְשָׁנָה הַבָּאָה בִּירוּשָׁלַיִם