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“Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro.”

Mateus 21:28-31a

Há muito que se dizer a respeito desta parábola de Jesus. Lembrei dela estes dias e resolvi lê-la novamente, com um pouco mais de atenção. Curioso é que na minha memória havia muitas outros informações no texto que, na verdade, não estão lá. Fato é que eu costumava lê-lo já com uma interpretação pré-texto (algo que creio que acontece com muitos de nós mais freqüentemente do que gostamos de admitir). Esta é uma tentativa de me despir disto no máximo de minha capacidade.

A primeira coisa que me chama à atenção é que esta parábola deveria, segundo sua própria lógica, fazer menção de 4 tipos de filho (ao invés de apenas dois): o que diz que vai e vai; o que diz que vai e não vai; o que diz que não quer, mas vai; e o que diz que não quer e não vai. No entanto, só há menção de dois, denominados de “primeiro” e “segundo”. Os personagens que não são contraditórios –para o texto– não são interessantes, aparentemente.

O “primeiro” em nenhum momento afirma que não vai. Ele apenas responde que “não quer”. Do “segundo” não há nenhum indício de que ele não tem a intenção de agir de acordo com sua afirmação; o texto não diz se ele respondeu que ia apenas para agradar ao pai, ou se ele realmente achava que iria; também não sabemos o motivo pelo qual acaba não indo. Não há, também, sinal algum de que o pai tenha ficado triste com a resposta do primeiro e feliz com a resposta do segundo. Interessante é que neste contexto você não agrada ao pai dizendo o que você acha que ele quer ouvir, mas fazendo o que ele lhe pede. (“Se me amais, guardai os meus mandamentos.” João 14:15)   

Para esta parábola, não importa o que você diz; importa o que você faz. Não importa o que você quer; importa como você age. Você não é o que você quer ou diz; você é o que você faz.

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” Mateus 7:21

E qual a vontade do Pai? “Amarás o Senhor teu DEUS de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” Mateus 22:37-40

Moisés não queria, mas foi. Jeremias não queria, mas foi. Jonas não queria de maneira alguma, mas até ele acabou indo.