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“A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes instruções: pregai que está próximo o reino dos céus.”

Matheus 10:5, 7

 

Lucas 12:35-48 narra a parábola do servo vigilante. Jesus abre a história dizendo: “cingido esteja vosso corpo, e acesas as vossas candeias… sede vós semelhantes a homens que esperam pelo seu senhor, ao voltar ele das festas de casamento; para que quando vier a bater à porta, logo lha abram. Bem-aventurados aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontre vigilantes.” 

 

Uma má compreensão do que significa o Reino nos Evangelhos pode causar sérios problemas de interpretação textual assim como problemas na vivência do Evangelho. Para muitos o Reino é equivalente ao céu e atuar pelo Reino na terra é equivalente à devoção pessoal, e atuação individual e comunitária em igrejas. Curiosamente não haviam igrejas ainda durante a vida de Jesus (muito menos manuais de devoção pessoal) e pouco do que ele disse se aplicava ao que hoje entendemos por igreja (prédios com paredes e bancos e/ou instituições religiosas), mas quando o conceito de Reino nos Evangelhos é interpretado como uma realidade futura, o que segue fatalmente será confusão.

 

Se o Reino é uma realidade futura, o presente serve apenas para meu preparo espiritual para “não perder” o Reino futuro. Quando projetamos o Reino como uma realidade futura interpretamos nossa vida de discipulado como uma vida de preparo para o futuro. Buscamos construir nossa relação com DEUS pelo viés de inúmeras disciplinas espirituais que nos manterão debaixo daquilo que pensamos ser a vontade de DEUS: ir a cultos, orar sem cessar (literalmente), nos afastar de pecadores e de pecados pessoais –atividades que não são necessariamente más, mas quando realizadas com a motivação errada colocam o praticante numa situação não menos condenável que os próprios Fariseus. A projeção do Reino como uma realidade futura não apresenta apenas uma dicotomização do Reino na história –preparo no presente e Reino no futuro– mas uma dicotomização individual onde parte da minha vida é terrena, e a outra parte, espiritual. As coisas que faço no dia a dia (trabalho, estudo, limpar a casa, etc.) são atividades passageiras. Fomos feitos para outra pátria, diz o clichê, logo, vamos viver passivamente o presente ao “esperarmos” o futuro chegar. Qualquer “ação social” nesse contexto é vista como apenas uma atividade dentro do meu “preparo” para o Reino futuro. 

 

Não podemos nos frustrar. Até mesmo os discípulos de Jesus não entenderam a magnitude do que significava o Reino. Na ceia antes da morte de Jesus, no fim da jornada de Jesus com os discípulos na terra, depois de tudo o que Jesus havia ensinado para eles, os discípulos ainda discutem quem seria o maior no Reino (veja Lucas 22:24-30). Nós, como os discípulos no passado, falhamos em entender as coisas essenciais. A interpretação de “buscar o Reino de DEUS em primeiro lugar” hoje em dia é acordar cedo pra fazer culto, pois mais uma vez, minha vivência na realidade do Reino agora é apenas de preparo. E eis aqui uma das maiores iniquidades do cristianismo moderno: negar a vida agora para alcançar algo no futuro, e entender que a vivência do Reino gira em torno de mim e do meu preparo individual. Isso é basicamente o oposto do que Jesus tinha em mente. Jesus ensinou que o Reino estava próximo não apenas temporalmente (com relação ao Reino futuro que viria com sua vinda) mas próximo no sentido espacial. Em cada cura, em cada fala, em cada ensino Jesus antecipava o futuro. A vivência no Reino de acordo com Jesus não é a negação da vida no presente para alcançar o Reino futuro mas sim a vivência do futuro agora! Ele curava porque no futuro não haverá doença, ele ensinava porque no futuro teremos o conhecimento de Deus e O veremos face a face… a vida de Jesus era pautada pela inauguração do Reino de Deus ao antecipar o Reino futuro no presente. Assim, todo aquele que nasce no Reino vive como Jesus vivia, negando qualquer passividade presente e vivendo ativamente antecipando o futuro em todas as esferas da vida. 

 

De volta à parábola do servo vigilante. Tradicionalmente entendemos que o preparo do servo é uma devoção pessoal para receber o senhor, que seria Jesus, na sua segunda vinda. Mas quando entendemos que a realidade do Reino já começou através da vida de Jesus, passamos a viver o futuro agora, e este estado de alerta tem pouco a ver com devoção pessoal, mas, sim, com uma constante disposição de servir, pois essa é a verdadeira devoção a DEUS (veja 1 João 1:6-7). De encontrar durante o dia oportunidades de serviço, de fazer com que as atividades cotidianas sejam executadas pela realidade do serviço, e entendendo que a vinda do senhor não acontece apenas na segunda vinda, mas toda vez que encontramos alguém com necessidade. Pois o senhor é encontrado naqueles que tem fome, sede, naqueles que estão nus, e em tantos outros ao nosso redor carentes da manifestação do reino futuro no presente. O servo vigilante não se prepara para o tempo do fim, mas vive a vida agora servindo àqueles que estão ao seu redor, pois sabem que encontram o rosto do senhor no rosto de suas criaturas. E esse é o verdadeiro “preparo” para o futuro: a vivência do futuro agora.

 

Repito o texto inicial, “bem-aventurados aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontre vigilantes” e Jesus adiciona: “em verdade vos afirmo que ele há de cingir-se, dar-lhes lugar à mesa e, aproximando-se, os servirá.” No sermão da montanha Jesus já havia ensinado que “felizes são os que tem fome e sede de justiça pois serão fartos.” Ao vivermos uma vida de serviço agora, vivemos uma vida atrelada a de Cristo, uma vida de antecipação do Reino futuro agora, e vivenciamos a verdadeira comunhão com Ele e com suas criaturas, servindo os outros e sendo servidos pelo senhor que vem elusivamente na necessidade do outro, e virá de novo para que todo o olho o veja.