#195

Voltando a falar de genealogias (como no texto 169), a fala de Lameque referindo-se ao nascimento do seu filho Noé é, em si, uma forte quebra da estrutura textual da genealogia de Gênesis 5. A construção das genealogias nesse capítulo é repetida e funciona da seguinte maneira: um personagem vive tantos anos e gera um filho, depois que gerou o filho, vive mais tanto tempo e tem filhos e filhas, todos os seus dias são apresentados e então é dito que ele morre. Há apenas duas exceções: Enoque (Gênesis 5:21-24) e Lameque (Gênesis 5:28-31). 

 

Acerca de Enoque o texto diz que ele andou com DEUS e Este o tomou (lqḥ) para Si. A segunda vez em que o verbo lqḥ aparece, tendo DEUS como sujeito e o homem como objeto, quebra a estrutura da genealogia e parece antecipar algo exatamente pela referência a Gênesis 2:15, a primeira vez em que DEUS lqḥ um homem.

 

A sequência genealógica volta ao normal, com Matusalém, para então sofrer nova quebra com o nascimento de Noé, de quem é dito: “Pôs-lhe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o Senhor amaldiçoou.” (Gênesis 5:29)

 

Essa frase contém alguns elementos de destaque. Primeiro, é a segunda vez em que a raiz nûaḥ (descansar) aparece, sendo a primeira exatamente em Gênesis 2:15. Em 2:15 é o verbo usado para a ação divina de colocar (ou, literalmente, descansar) o homem no jardim e em 5:29 é o nome do filho de Lameque. As duas quebras de estrutura genealógica em Gênesis 5 parecem conectar-se com Gênesis 2:15 e o contexto do jardim do Éden.

 

De qualquer forma, Noé trará nḥm (consolo e conforto) do ʿṣḇ (trabalho). Nesse verso ʿṣḇ parece possuir uma ideia de trabalho bem concreta, pelo paralelo com ʿśh (fazer), mas o verbo nḥm tem um sentido de disposição interna, já que muitas vezes aparece associado a conforto de enlutados. Logo, parece também haver uma dimensão de sofrimento mental/emocional relacionado ao trabalho.

 

A palavra ʿṣḇ (trabalho) reaparece aqui, em Gênesis 5:29, depois de ter aparecido pela primeira vez em Gênesis 3:16-17, quando funciona como punição divina à mulher em sua capacidade de conceber e ao homem com relação ao seu trabalho com a terra. Noé é o que vai consolá-los não apenas do trabalho, mas também do sofrimento do trabalho de suas mãos que veio após o pecado.

 

Esse trabalho sofrido é “desde a terra” (min-hāʾădāmāh) que é amaldiçoada (ʾrr). A construção “desde a terra” (min-hāʾădāmāh) aparece três vezes em Gênesis 2 (versos 7, 9 e 19), todas com sentido positivo, pois é a terra (ʾădāmāh) dando vida (ao homem, às árvores e aos animais). Depois reaparece com Caim em Gênesis 4, duas vezes, só que com o sentido negativo, de morte e maldição: o sangue do seu irmão clama “desde a terra” e ele, Caim, é maldito “desde a terra” (4:10-11). Assim, a expressão min-hāʾădāmāh reaparece em Gênesis 5:29 completando três vezes o sentido negativo. Além disso, é a segunda vez que min-hāʾădāmāh está ligada ao verbo ʾrr.

 

Tudo isso parece indicar que Gênesis 5:29 conecta-se com 3:17 e 4:10-11. A constatação da maldição, no entanto, é feita de maneira distinta em relação a Gênesis 3 e 4, pois Lameque soa esperançoso de que a maldição possa ter fim. A esperança repousa sobre Noé e esse anúncio de enredo parece se cumprir ainda nessa seção, no último verso, quando o narrador afere um juízo de valor a Noé, dizendo: “Porém Noé achou graça diante do Senhor.” (Gênesis 6:8)

 

As quebras genealógicas de Gênesis 5 parecem apontar um caminho interpretativo interessante: depois de ter seu primeiro filho, a vida de Enoque muda e ele passa a andar com DEUS; e Lameque vê no seu filho a esperança do fim da maldição. De certo modo, o filho é o centro na quebra narrativa nos dois casos. Ele, o filho, é o que muda o relacionamento do pai com DEUS e é ele, o filho, que é a esperança final do pai.

 

Biblicamente falando, na experiência da paternidade, o filho é fator decisivo na vida do pai.