#194

“…é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha…” Matheus 19:24

 

Jesus termina o discurso do sermão da montanha com uma série de paralelos. Duas estradas, duas árvores, dois fundamentos. Por séculos autores de diferentes tradições e culturas tentaram decifrar a primeira série de paralelos: porta e caminho. O desafio do texto é simples: não existe um precedente próximo que esclareça o que significa a porta estreita e o caminho estreito assim como a porta larga e o caminho largo já que porta e caminho são introduzidos no discurso apenas no final. Com os paralelos que seguem esse problema não existe. As árvores representam indivíduos que produziriam ou não bons frutos, isto é, ações em harmonia com a vontade do Pai. Os dois fundamentos Jesus também explica: os que ouvem as palavras e não praticam são como o homem que constrói no fundamento instável da areia, e o homem que constrói na pedra representa aqueles que ouvem e praticam as palavras de Cristo.

 

E aqui estamos, diante de duas portas e dois caminhos, sem uma explicação de Jesus. A falta de um esclarecimento fez e faz com que muitos se sintam livres para inferir no texto aquilo que consideram mais importantes dentro de suas respectivas teologias/sistemas/cosmovisões pessoais. Eis aqui o perigo de toda teologia: falar de DEUS de modo à prioridade ser uma consonância com meu sistema teológico ao invés de uma coerência com o texto em si.

 

O texto de mateus 7:13-14 diz: “Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que acertam nela), porque estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela.” 

 

Multidões entram por uma porta larga, que se abre para um caminho largo que termina na perdição. Por outro lado, uma minoria consegue encontrar uma porta estreita que se abre para um caminho estreito que termina na vida. 

 

A imagem de dois caminhos/maneiras de viver é recorrente na Bíblia. Em Deuteronômio Moisés propõe dois caminhos: um que leva à vida (atrelado à Lei, a seguir a DEUS, e à bênção de DEUS) e um que leva à morte (atrelado à idolatria). O livro de Salmos abre com dois caminhos: o caminho dos justos (que não se detém no caminho/ações de pecadores e encontram prazer na lei de DEUS), e o caminho dos ímpios (que é como a palha ao vento, pratica perversidade). O livro de Provérbios também propõe dois caminhos: o caminho da sabedoria e o caminho da tolice.

 

A imagem do caminho por si mesma é importante. A Bíblia como um todo, na imagem dos caminhos, ilumina a real vontade de DEUS para o ser humano. A ênfase da imagem não está no pensamento, em idéias, mas no ato de caminhar, indicando que cada caminho representa uma forma de vida, uma maneira de se conduzir. E assim, terminando o seu discurso na montanha, Jesus fala de duas portas e dois caminhos. 

 

Quando eu era mais novo as explicações desse texto me assustavam. Eu ouvia que poucos encontram a porta estreita porque poucos conseguem alcançar o nível de santidade necessário para passar pela porta. Eu ouvia que era necessário abrir mão de açúcar, de carne, de um estilo de música e vestimentas e de todo e qualquer prazer que existe no “mundo” para que eu encontrasse a porta e fosse capaz de passar por ela. Pra piorar, depois de encontrar a porta, existe um caminho estreito, um caminho difícil. Conduta, conduta, conduta. Porta e caminho, eu aprendi, diziam respeito à conduta, estilo de vida e formas externas. 

 

Curiosamente nada disso parece estar no radar e nas prioridades de Cristo. Inclusive, grande parte do discurso até aqui no sermão do monte é voltado justamente contra a postura dos fariseus que se preocupavam com conduta, estilo de vida e formas externas, um sistema que exigia do pobre e do ser humano comum um nível de santidade e de formatação externa quase inalcançável. E se de fato a conclusão do sermão está em continuidade com o restante do discurso, propor uma formatação externa como a mais viável interpretação pode representar exatamente o oposto do que Jesus quis ensinar. 

 

Jesus falava contra os altivos, os orgulhosos, os ricos em suas próprias obras. A porta e o caminho estreito (no grego, pequeno, comprimido) propõe um “apequenamento”. Mais tarde Jesus irá ensinar que Ele, afinal, é o caminho e a verdade que conduz à vida. Poucos reconheceram Cristo como o Messias durante seu ministério e de acordo com o paralelo das duas portas e caminhos muitos falham em encontrar a porta e o caminho estreito. É pequeno demais, é inviável demais. Salvação apenas por Jesus? Impossível! Jesus ao se encarnar se apequenou, se fez um de nós e mostrou uma forma de vida pautada pela igualdade. Amar o outro exige enxergar o outro como igual, isto é, envolve muitas vezes um apequenamento existencial, relacional, ético. E em continuidade com a movimentação da encarnação, o caminho do discipulado é o caminho do apequenamento. Mais fácil seria e é seguir uma lista mirabolante de regras, que também resultam num apequenamento humano alternativo, do que abrir mão do nosso orgulho religioso. Precisamos seguir a Cristo, mas para fariseus antigos e modernos isso não é suficiente, uma longa lista de deveres e requerimentos é proposta, apequenando cada vez mais o ser humano até o professo seguidor de Cristo se tornar um anão espiritual, preocupado apenas em cumprir a lista do que de fato seguir o caminho de apequenamento do Mestre. 

 

As multidões entram pela porta larga e pelo caminho largo porque o caminho do mundo é identificado, na Bíblia como um todo, como o caminho da idolatria, do culto ao eu, das castas e hierarquias e diferenças. É o caminho mais natural. E dentro do caminho largo existe espaço para a idolatria religiosa dos fariseus, que, pensando estar agradando a DEUS com suas listas e regras, estavam, na verdade, adorando a si mesmos, se distanciando de seres humanos diferentes deles, se engrandecendo ao ponto de perder de vista o outro, e, consequentemente, a porta estreita. Despercebidamente, esses e tantos outros entre nós trilham o caminho do legalismo, que é de fato o caminho largo, pois nele, apenas o apequenamento e a salvação em Cristo não parecem ser o suficiente.

 

Duas portas, dois caminhos. Duas formas de vida e duas religiões. No Evangelho de Lucas o autor narra um episódio em que os discípulos, ao invés de se aproximarem de Jesus para entenderem o que ele quis dizer ao anunciar sua morte, decidem discutir quem entre eles seria o maior. Nesse contexto Jesus toma uma criança e diz: “Quem receber a esta criança a mim me recebe.” Em Matheus, num contexto bastante similar, Jesus diz: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.” 

 

O caminho de Cristo é o caminho do apequenamento; e apenas crianças, os que se tornam humildes como o próprio Mestre, encontram a pequena porta que conduz a vida.