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Em 1 Reis 19:1-3 lemos: “Acabe fez saber a Jezabel tudo quanto Elias havia feito e como matara todos os profetas à espada. Então, Jezabel mandou um mensageiro a Elias a dizer-lhe: Façam-me os deuses como lhes aprouver se amanhã a estas horas não fizer eu à tua vida como fizeste a cada um deles. Temendo, pois, Elias, levantou-se, e, para salvar sua vida, se foi, e chegou a Berseba, que pertence a Judá; e ali deixou o seu moço.”

 

Ironicamente, logo após um evento de intensa manifestação divina no capítulo anterior, Elias teme morrer nas mãos de Jezabel. As frases curtas e com enfoque nas ações, intensificam a atmosfera de pânico e urgência. A rapidez do relato é inversamente proporcional à distancia que Elias percorre. Basicamente, o profeta cruza o território de Israel de norte a Sul. 

 

Assim, quando ao leitor é permitido um tempo para respirar, ouvimos da boca do profeta as seguintes palavras: “Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais.” Curioso é que aqui, o pedido que Elias faz a DEUS está diretamente relacionado ao motivo de sua fuga. Elias, aquele que foge de Jezabel porque teme sua morte, pede pela morte. Provavelmente aqui temos um insight relacionado ao pedido. Se realmente quisesse morrer, provavelmente Elias não fugiria. Talvez o pedido de morte, revele algo mais profundo do que o “simples” pedido de morte. Elias parece desiludido, pois mesmo tendo sido o instrumento através do qual todo aquele espetáculo no monte Carmelo havia sido proporcionado, o rei e a rainha continuam iguais. 

 

A frase “pois não sou melhor do que meus pais” parece auxiliar o que se passa com o profeta. Ao dizer isso, primariamente, o profeta indica que se ele falhou é porque a demanda foi excessiva, grande demais. “DEUS esperava que eu fosse igual a meus antepassados, mas não sou. ELE esperava que eu convertesse todos e inclusive o rei, mas isso não foi possível”. Ao pedir que DEUS tire sua vida, Elias “coloca DEUS em uma encruzilhada”. Na mente do profeta, se DEUS aceita o pedido de morte, o libera de sua tarefa e admite que foi excessiva. Se ELE não aceitar, deve ao profeta explicações quanto ao seu insucesso (aos olhos do profeta). Em ambos os casos, o profeta se liberta do peso de sua responsabilidade.

 

A mentalidade e o desejo de ausência de responsabilidades se torna clara através da atitude de Elias. Ele se deita e dorme. O Anjo aparece e lhe indica que se levante e coma. Elias até come, mas se deita mais uma vez para dormir. Mais uma vez o anjo aparece e diz: “Levanta-te e come porque a sua jornada é mais do que suficiente”, curiosamente a mesma palavra para suficiente aqui (rab) é a que aparece no início do discurso de Elias quando ele diz “basta”. Em outras palavras, “você diz que é muito o que você tem passado? Muito é até onde você chegou nessa jornada fugindo da sua comissão!”  É como se o anjo dissesse: “Você já foi longe demais, seu lugar não é aqui. Volte para o lugar de onde veio!” 

 

Contudo, Elias continua e vai para ainda mais longe. Ele desce ao monte Horebe, monte onde, tal qual no Carmelo, DEUS se manifestou grandiosamente ao povo de Israel. E aqui, somente aqui, DEUS oferece uma “resposta” à indagação do profeta. Elias se esconde numa fenda da rocha no monte Horebe e Deus passa por ele. Contudo, o texto afirma que um grande vento passou, mas o SENHOR não estava no vento. Um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto. Um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo. Mas depois do fogo, surge um cicio tranquilo e suave e Elias ouve a DEUS.

 

Esse cicio tranquilo e suave, literalmente pode ser traduzido como “o som de um silêncio profundo”. O que é a definição do som de um silêncio profundo? Não há como explicar. E essa é a chave para compreensão do que Elias experimenta. Pois é na inabilidade de compreender, que compreendemos. 

 

O rei não mudou depois do episódio do Carmelo. Contudo, não foi apenas ele que permaneceu o mesmo. Elias é o mesmo. Elias vai à procura de respostas, pois segundo sua visão, sua tarefa fracassou. Seu comissionamento não cumpriu com o esperado. Contudo, diante do MISTÉRIO, Elias começa a compreender que nem tudo nos planos DELE é vento, terremoto, ou fogo. A incapacidade de alcançar e compreender a maneira pela qual ELE age, deve nos bastar…