#20

Datas específicas e eventos populares parecem ser uma espécie de gatilho que dispara a arma da moralidade de determinados segmentos religiosos, que, na verdade, parecem sempre estar em busca de motivos –excusos ou não– para atirar. Como diria uma certa música: “que a lei seja sobre eles e a graça sobre mim.”

Carnaval, com sua origem histórica e seu ritual facilmente condenável –e não somente religiosamente, mas social, filosófica e economicamente também– é um prato cheio. Há uma clara necessidade de mostrar a distinção entre os ditos fiéis e os por estes fiéis denominados de infiéis. A força do argumento é a rendição aos prazeres do “mundo” em detrimento da manutenção de uma espécie de “santidade”. Neste caso, a santidade está baseada no que deixo de fazer e que “os outros” fazem; seja ver um filme, freqüentar determinado lugar, comer algo, ler algo, beber algo, etc. Esta santidade, fiada na oposição eu x eles, é exaltada por líderes religiosos que dizem não temer “chamar o pecado pelo nome”; e o nome é sempre o de práticas que os outros fazem… o dito “mundo”.

A prática de “tornar-se” santo às custas do que os outros fazem não é nem nova, nem muito santa, na verdade. Começou no Éden, com Adão se desculpando às custas de sua mulher e ela, por sua vez, às custas da serpente. A tática é a mesma: olhe para o outro que você verá que meu erro não é tão grande assim (ou no caso ideal: nem vai olhar pro meu erro).

Outro excelente exemplo é o da mulher adúltera (João 8:1-11). Alguns líderes religiosos, neste caso fariseus, com o intuito de colocar Jesus em uma armadilha moral, trouxeram até ele uma mulher apanhada em adultério. Segundo a lei bíblica (Lv. 20:10, Dt. 22:22-24) deveria haver pena de morte para ambos –mulher e homem– uma vez pegos em flagrante. Mas foi mais conveniente jogar apenas a mulher na roda. Usaram a lei de maneira parcial (apenas a parte que lhes era agradável e que atendia a seus critérios e/ou sua ideologia). Cegados pela vontade de condenar o pecado, chamá-lo pelo nome e exigir de Jesus uma punição para ele e já embriagados pela prospecção de sangue derramado, esqueceram-se de que a própria lei que clamavam querer cumprida estava sendo violada. Não é de se estranhar sua perplexidade quando o Mestre disse: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire a pedra” (João 8:7). “Acusados pela própria consciência, foram-se retirando um a um…” (João 8:9). O que Jesus fez, ao invés de lhes dar uma aula sobre a lei presente no Pentateuco, foi lhes ensinar uma lição maior, sobre a natureza humana: quer chamar o pecado pelo nome? Comece chamando o seu pecado pelo nome. Pare de se esconder atrás do pecado alheio! Pare de construir sua “santidade” às custas do pecado do outro.

O que surpreende no texto, é sua continuação. Duas cenas de juízo elaboradas por Jesus são providenciadas por João. Na primeira, uma discussão acalorada sobre testemunho verdadeiro que parece ter se originado como conseqüência do episódio da mulher adúltera, Cristo diz: “Vós julgais segundo a carne, eu a ninguém julgo. Se eu julgo, o meu juízo é verdadeiro, porque, não sou eu só, porém eu e aquEle que me enviou” (João 8:15-16). Basicamente, o juízo daqueles religiosos, tão ávidos por condenação, por ver o sangue da infiel ser derramado, era um juízo carnal; tão carnal quanto o pecado que ela havia cometido ao adulterar. Jogar a mulher adúltera na roda é fácil. Difícil é saber-se tão pecador quanto ela e, por isso, tão dependente da graça e perdão do Messias quanto ela.

A segunda cena de juízo aparece após Jesus curar um cego no sábado. Como não poderia deixar de ser, Jesus é profundamente atacado pelos (mesmos?) fariseus do episódio anterior, e aqui aproveita mais uma oportunidade para comentar a respeito de Seu juízo ao dizer: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam…” (João 9:39). O juízo que de fato mais se alinha com o de Cristo é aquele que busca restaurar o ser humano antes de condená-lo. E esta é a radicalidade do ministério de Jesus. Enquanto muitos (incluindo João Batista) pensavam que Jesus viria para pôr o machado à raiz, Jesus queria o oposto: restaurar a raiz e regar a árvore até ela produzir frutos.

Condenar é fácil. Difícil mesmo é entender que o perdão e, principalmente, a restauração e transformação de vida, são as verdadeiras mensagens do Reino, o verdadeiro Evangelho, as verdadeiras boas novas. Minha santidade, afinal, não é baseada na minha relação com os outros, mas com ELE – “sede santos, porque EU, o Senhor vosso DEUS, Sou santo” (Lv. 19:2, entre outros); e esta relação com ELE nos torna agentes de restauração com ELE. 

Obs.: Recomendamos também a leitura complementar do texto de Luiz Felipe Pondé aqui.