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Eclesiastes é um livro que chama muito à atenção. O pregador (qohelet) fala à congregação (qahal) sobre suas impressões acerca da existência. Sua fala inicial, no verso 2, é carregada de uma negatividade profunda: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador, vaidade de vaidades, tudo é vaidade”.

 

A palavra para vaidade é הבל, que significa vapor, fumaça, efemeridade. הבל é algo passageiro, que começa e logo termina. Seu primeiro uso na Bíblia Hebraica (BH) é como substantivo próprio, o nome Abel (Gênesis 4), narrativa tratada diversas outras vezes nesse site. Seu uso na BH é relativamente curto, em torno de 70 vezes, sendo que em Eclesiastes ela ocorre quase 40 vezes, ou seja, para este livro é tremendamente importante. O superlativo no hebraico, “vaidade de vaidades”, acontece 7 vezes, 2 vezes logo no segundo verso do livro. 

 

Tudo é passageiro, tudo acaba, ainda que injustamente (a relação com a história de Abel é profunda). A afirmação categórica do Pregador precede à pergunta básica e que dá rumo a tudo que será escrito/pregado depois. A pergunta é: “Qual é o ganho para o homem de todo o seu trabalho em que trabalha debaixo do sol?” (Eclesiastes 1:3)

 

Em primeiro lugar, em uma observação mais simples, nota-se que o Pregador restringe o universo da sua pergunta ao “debaixo do sol”. Essa expressão, que ocorre exclusivamente em Eclesiastes, aponta para o fato do Pregador não estar preocupado com o metafísico ou transcendente; sua pergunta se restringe a seu universo observável. Naquilo que posso ver, naquilo que consigo aferir, sem levar em conta o intangível e imponderável, qual é o ganho?

 

Em segundo lugar está exatamente o entendimento da palavra traduzida como “ganho”. Em hebraico, יתרון vem do verbo יתר, e pode significar “aquilo que sobra, que permanece”, “suplemento”, “excedente” ou ainda, “valor, significado”. Portanto, a questão não é bem em relação ao ganhar financeiro, mas ao valor, ao significado da existência, aquilo que vai permanecer, sobrar ou exceder o trabalho ao qual o homem devota sua vida.

 

Essa pergunta é a mola propulsora de toda a reflexão. De tudo o que eu faço, de todo o meu trabalho, de toda a minha existência, o que vai ficar? A resposta, dada antes mesmo da pergunta, no verso 2, é que tudo vai passar, tudo vai desaparecer. Debaixo do sol, nada possui valor. Nada fica. Nada permanece.

 

O argumento inicial do Pregador se desenrola nos versos 4 ao 11. Nele, o motivo para a resposta negativa em relação ao valor da existência é duplo. Em Eclesiastes 1:4-8 ele elabora a primeira parte do motivo com base na observação de ciclos, repetições, usando para isso exatamente a repetição de palavras. “Geração” (1:4), “sol” (1:5), “vento” (1:6), “rios” e “mar” (1:7) aparecem duas vezes em seus respectivos versos. Os verbos “ir” (1:4, 6, 7) e “vir, ir” (1:4, 5) também são repetidos. A impressão é que a repetição visa criar a ideia de monotonia, tédio: “Todas as palavras são tediosas, não consegue o homem dizê-las; não é satisfeito o olho de olhar; não é cheio o ouvido de ouvir” (1:8).

 

O verso acima cria exatamente uma tensão que, por vezes, nos passa desapercebida. Tudo é monótono e tedioso, mas o homem não se cansa e nada o satisfaz. Apesar do ritmo repetitivo, o homem permanece em busca de algo além da repetição.

 

A segunda parte do argumento inicial, Eclesiastes 1:9-11, é recheada de assonância no som do “s”. Essa aliteração produz um chiado muito interessante, como se fosse um sussurro. Esse sussurro é como um segredo contado em voz baixa e diz: nada será lembrado. O que é, já foi e ninguém se lembra. O que será, também já foi e ninguém se lembrará.

 

A memória, ou melhor, a falta dela, encerra todas as coisas no mesmo lugar: o esquecimento. Em Eclesiastes 2:16 ele retoma a mesma ideia (que vai se repetir algumas outras vezes no livro, como veremos nos próximos textos): “Não há lembrança do sábio mais do que do tolo para sempre”. Quer dizer, se foi sábio, ou tolo, ninguém se lembrará. A falta de memória do que se repete é, possivelmente, o motivo da insatisfação crônica do ser humano e de sua busca por algo mais.

 

O curioso é a palavra usada para “memória” (Eclesiastes 1:11), זכרון: “Não há memória”. Essa palavra aparece pela primeira vez na BH relacionada à Páscoa (Êxodo 12:14) e depois associada a diversos rituais e datas importantes ligadas ao Templo.

 

Assim, uma conclusão que se pode tirar do texto é que sem memória do que foi e do que é, do que Deus fez e faz, nada do que fizermos permanecerá ou terá significado. Não importa o quanto algo se repita, continuará havendo uma insatisfação latente e tudo será apenas passageiro. 

 

A memória é o primeiro fundamento da permanência, do valor, do excedente. O meu ganho está no que lembro, especificamente ligado ao que ELE fez e faz.