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Na Bíblia Hebraica, principalmente, a descrição que se tem de paternidade é de fracasso. Pais errantes aqui e acolá. Nos casos em que a narrativa se desenvolve suficientemente em algum núcleo familiar –nem sempre isso acontece– as evidências de fracasso se avolumam. Não importa quem seja o pai. Isaque, Jacó, Eli, Samuel, David, entre outros, são clássicos e fáceis exemplos desses fracassos.

 

Na verdade, o primeiro grande “fracasso” paterno é do próprio DEUS. ELE cria homem e mulher, seus filhos, à Sua imagem e semelhança, e eles se tornam desobedientes. Adão e Eva, com seus dois primeiros filhos, também experimentam o gosto amargo do fracasso paternal quando Caim assassina Abel. E poder-se-ia continuar esta seqüência quase que infinitamente…

 

A mais importante lição da paternidade é justamente essa: a liberdade, derivada de um amor ilimitado. Talvez por isso a Bíblia não se preocupe em esconder tantos e tantos fracassos, inclusive do Pai de todos.

 

Quando seu filho nasce, o que um pai mais deseja é livrá-lo de todos os perigos, de todas a escolhas ruins, de todo e qualquer sofrimento. Você deseja que ele nunca experimente derrotas amargas e perdas dolorosas. Esse desejo é fruto de um amor inexplicável. Mas, seu filho –tão semelhante a você e, ao mesmo tempo, um outro ser humano, distinto– inevitavelmente vivenciará tudo aquilo de que você o quis proteger… mais cedo ou mais tarde.

 

Na verdade, quanto mais experiências de vida ele tiver, quanto mais escolhas ele fizer, tanto mais livre e consciente ele será para tomar decisões sozinho e de maneira madura. A paternidade ensina o fracasso, porque é impossível proteger nossos filhos não só do mundo que os cerca, mas também deles mesmos. Ao mesmo tempo, na liberdade que eles têm de escolher e viver, está o maior tesouro do amor. Amá-los quando erram, amá-los quando caem, amá-los quando fazem tudo de maneira diferente da que faríamos, quando são derrotados, quando são machucados e até quando machucam… Amar sem limites, ainda que não concordemos com todas as decisões deles e até as reprovemos.

 

DEUS concedeu aos seres humanos a oportunidade de experimentarmos o que ELE experimentou: um amor sem limites, baseado na dádiva da liberdade de escolha de nossos filhos.

 

ELE, o Pai, nos deu a bênção de sermos pais, experimentando o gosto –por vezes amargo– da liberdade, mas também o gosto, constante, do amor que excede todo entendimento. Talvez por isso, a primeira vez que a palavra “amor” aparece na Bíblia, seja justamente para descrever o amor de um pai por um filho (Gênesis 22:2).

 

Dotar seus filhos de liberdade plena significa colecionar fracassos. Mas cada fracasso é uma oportunidade de demonstrar e praticar amor. Pois é somente na liberdade que o verdadeiro amor é experimentado.