#137

Depois de selar sua aliança com o povo de Israel (Êxodo 19-24), constituindo-o como reino de sacerdotes e nação santa (vide texto #135), DEUS ordena e dá instruções a respeito da construção do tabernáculo (Êxodo 25-27), detalhando tanto a manufatura dos móveis como também da estrutura. Somente depois disso, a partir de Êxodo 28, que ELE vai estabelecer um sacerdócio para esse tabernáculo.

 

É interessante notar que em todas as ocorrências da palavra sacerdote (kōhēn –כֹּהֵן), ou mesmo da ideia de sacerdote, até este momento em nenhuma vez houve uma conexão espacial. O sacerdote estava relacionado à benção e dízimos (Melquisedeque, texto #134) e ao chamado para obediência (Israel). Agora, no contexto de Arão e seus filhos, o trabalho do sacerdote passa a estar conectado a um lugar: o tabernáculo.

 

O ofício sacerdotal ligado ao tabernáculo envolve uma grande variedade de coisas interessantes. Basicamente, Arão e seus filhos estariam responsáveis por todo o ritual que envolvia dois aspectos interligados: sacrifício e intercessão (Êxodo 29-30; Levítico 1-7). Esse ritual está conectado ao perdão de pecados, que são decorrentes da desobediência da lei. O sacerdote recebe o sacrifício do animal, o coloca sobre o altar de sacrifícios e depois adentra o chamado lugar Santo para interceder pelo pecador (ou sua família) no altar de incenso (essa obviamente é uma explicação breve e bem resumida). Em textos posteriores será trabalhada a dinâmica do serviço do tabernáculo e do santuário de maneira mais completa.

 

O trabalho do sumo-sacerdote e dos sacerdotes, no entanto, não se resumia a isso. Além de representar o povo diante de DEUS e o próprio DEUS diante do povo no ritual diário, nas festas (Levítico 23) no Dia da Expiação (Levítico 16), ele deveria ser um professor da lei e um instrutor para Israel (Levítico 10:8-11; Deuteronômio 31:9-11). Ele também julgaria casos de doenças específicas conectadas ao aspecto espiritual, como a lepra (ver texto #30), lidaria com casos de pureza e impureza ritual ligadas ao santuário, como nascimento de filhos e/ou qualquer fluido corporal (Levítico 12; 15; etc.), e até ocorrências consideradas “civis”, como questão de infidelidade conjugal (Números 5:11-31). O sacerdote receberia o dízimo de tudo aquilo que Israel produzisse quando entrasse na terra de Canaã (Levítico 27:30-34) e, por não ter porção de terra para que pudesse plantar, viveria desses dízimos e das ofertas (Números 18:8-32; etc). Por fim, seria responsável por abençoar o povo de Israel (Levítico 9:22-24; Números 6:22-27 – também ver texto #57). O sacerdote em Israel seria então uma mistura de professor, juiz, administrador e líder religioso/espiritual, servindo num lugar específico. Há também as leis quanto ao serviço dos sacerdotes e elas são extensas: regulações sobre sua alimentação, seu casamento, seu aspecto físico, enterro de familiares, conduta cotidiana, etc.

 

É importante notar que, como no caso de Melquisedeque, o sacerdócio araônico também envolvia dízimos, ofertas e o ato de abençoar; assim como o sacerdócio de Israel, o sacerdócio araônico também envolvia obediência a uma série de leis. Agora, com o tabernáculo, o sacerdócio passa a estar relacionado a um lugar e esse lugar agrega a função sacerdotal o aspecto de sacrifícios e intercessão, bem como regulamentação de toda a vida do povo, desde aspectos religiosos a civis.

 

O que chama à atenção nessa ampliação da função sacerdotal, é que ao mesmo tempo há uma delimitação de sua atuação no sentido espacial. Outro fator curioso e vital na compreensão desse ofício é a sobreposição intencional: Israel será sacerdote para as nações; a tribo de Levi será sacerdote para Israel; os filhos de Arão serão sacerdotes; Arão será o sacerdote sobre todos os sacerdotes. Há uma especificação e, ao mesmo tempo, uma generalização do ofício. Todos são sacerdotes. Os levitas são sacerdotes. Os filhos de Arão são sacerdotes. Arão é o sumo-sacerdote.

 

O que Israel é para o mundo, Arão seria para Israel. Da mesma maneira que o que Arão era para Israel, Israel deveria ser para o mundo.

 

Sob essa perspectiva não é difícil compreender muitos dos ensinos messiânicos, principalmente no discurso de Jesus em João 17.

 

Nessa relação, o sacerdócio de todos os santos é possível pelo sacerdócio do Santo e deve ser exercido na imitação dEle.