#136

“[7]Persuadiste-me, ó Senhor, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu, e prevaleceste; sirvo de escárnio todo o dia; cada um deles zomba de mim. [8]Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do Senhor um opróbrio e ludíbrio todo o dia. [9]Então disse eu: Não me lembrarei dele, e não falarei mais no seu nome; mas isso foi no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; e estou fatigado de sofrer, e não posso mais. [10]Porque ouvi a murmuração de muitos, terror de todos os lados: Denunciai, e o denunciaremos; todos os que têm paz comigo aguardam o meu manquejar, dizendo: Bem pode ser que se deixe persuadir; então prevaleceremos contra ele e nos vingaremos dele. [11]Mas o Senhor está comigo como um valente terrível; por isso tropeçarão os meus perseguidores, e não prevalecerão; ficarão muito confundidos; porque não se houveram prudentemente, terão uma confusão perpétua que nunca será esquecida. [12]Tu, pois, ó Senhor dos Exércitos, que provas o justo, e vês os rins e o coração, permite que eu veja a tua vingança contra eles; pois já te revelei a minha causa. [13]Cantai ao Senhor, louvai ao Senhor; pois livrou a alma do necessitado da mão dos malfeitores.”

Jeremias 20:7-13

 

A tensão relacionada a poder e domínio, no lamento de Jeremias 20:7-13, é desenvolvida por uma série de repetições de palavras, principalmente פתה (pātah – persuadir) e יכל (yākhōl – prevalecer/permanecer).

 

O profeta protesta contra a persuasão de DEUS (verso 7), contra qual ele não é capaz de prevalecer (verso 9). Os inimigos também esperam pela persuasão do profeta para que também possam prevalecer contra ele (verso 10). Estas conexões verbais provocam um certo paralelismo entre YHWH e os inimigos do profeta como forças opressivas.

 

Este paralelismo também é sustentado através da maneira que a seção de queixa (versos 7-10) é desenvolvida. Os problemas do profeta –tanto sofrer sob a palavra de DEUS quanto o sofrer sob a perseguição dos inimigos– são apresentados alternadamente e de maneira justaposta: versos 7a, 8a, e 9 associados ao sofrimento do profeta em relação a DEUS; e versos 7b, 8b, e 10 associados ao sofrimento do profeta em relação aos inimigos.

 

Além disso, a alternância positivo-negativo associada ao verbo yākōl, indiretamente também dá suporte a este paralelismo. Enquanto YHWH é bem sucedido com o profeta, os inimigos, por fim, “não prevalecerão” (וְלֹא יֻכָלוּ – wǝlō’ -yūkhālû).

 

E aqui temos o ponto central do lamento. É justamente a inabilidade do profeta em suportar YHWH, cuja palavra se tornou poderosa de forma irresistível, que garante que a tentativa de persuasão por parte dos inimigos também falhará.

 

O Senhor é כְּגִבּוֹר עָרִיץ (kǝgibôr ‘ārîṣ – como poderoso guerreiro) para Jeremias. Os dois termos, separadamente, carregam detalhes curiosos. Enquanto גִּבּוֹר (gibôr – guerreiro/herói) é um termo que aparece associado a ações salvíficas (Deuteronômio 10:17; Salmos 24:8; Isaías 42:13; Sofonias 3:17), עָרִיץ (‘ārîṣ – violento/perverso) normalmente aparece associado a atos tiranos e perversos (Salmos 37:35; 54:5; 86:14; Jeremias 14:21).

 

O verbo pātah, que aparece no verso 7 duas vezes como um par (piel-nifal) conhecido como ação-resultado, aparece outra vez na perícope no verso 10. Na primeira aparição ele é usado como uma queixa contra YHWH, enquanto na segunda vez aparece como uma afirmação dos inimigos (“então prevaleceremos”).

 

No verso 7 DEUS persuade (פתה), é mais forte (חזק – ḥāzaq) e prevalece (יכל). No verso 10 os inimigos de Jeremias têm esperança de que o profeta seja persuadido (פתה) para que eles prevaleçam (יכל). Contudo, no verso 10 não vemos a aparição do verbo חזק (“ser forte”). Afinal, como é dito na sequência no verso 11, o Senhor é como “um poderoso guerreiro” para Jeremias. Logo, seus inimigos “não prevalecerão” (יכל – v. 11).

 

O paradoxo do lamento é que uma das razões que fazem com que Jeremias se queixe de DEUS é justamente a solução para que ele se veja livre dos seus inimigos: YHWH é mais forte.