#135

Como visto no texto anterior, Melquisedeque, um rei caananita, é o primeiro sacerdote assim nomeado na Bíblia Hebraica. Depois dele, ainda em Gênesis, aparecerá um sacerdote de Om (capítulos 41, etc), sempre ligado à história de José no Egito. Em Êxodo, o primeiro sacerdote é Jetro, sogro de Moisés (Êxodo 3, etc) e é somente em Êxodo 19 que vemos a palavra “sacerdote” (כּהן) conectada a Israel de alguma maneira.

 

O contexto mais amplo envolve a libertação do Egito, os diversos milagres que DEUS operou com o povo ainda cativo (as pragas) e durante o início da peregrinação (maná, codornizes, vitória em guerras, etc). Agora, Israel está acampado na região do Sinai, quase 50 dias depois da Páscoa. Eles estão esperando, uma vez que a nuvem/coluna parou no alto de um monte (quando a nuvem parava, eles acampavam).

 

O contexto mais específico se refere à aliança que DEUS estava prestes a firmar com Israel. O texto de Êxodo 19 é justamente o início da seção da aliança, que depois segue com os 10 mandamentos, uma série de aplicações desses mandamentos e, por fim, o selamento dessa aliança em Êxodo 24. Basicamente, a chegada ao Sinai e tudo que acontece entre Êxodo 19-24, é uma espécie de ápice da formação de Israel e do seu relacionamento com DEUS. Já se tratou aqui, na Terceira Margem do Rio, do Decálogo (#85, #86 e #87). Agora, no entanto, o assunto é o chamado ao sacerdócio.

 

A fala divina começa com um lembrete da libertação maravilhosa e milagrosa provida por ELE a Israel quando da saída do Egito (19:4) e segue com o convite a obediência à aliança que seria então firmada. O texto diz assim:

 

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis minha propriedade particular entre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êxodo 19:5-6, ARA).

 

As palavras de um texto desta importância evidentemente não são acidentais. Primeiro, a palavra traduzida como “propriedade particular”, sĕgullâ (סְגֻלָּה), aparece pouquíssimas vezes na Bíblia Hebraica (BH), especificamente oito. Em seis dessas ocorrências ela se refere ao povo como um todo (Êxodo 19:5; Deuteronômio 7:6; 14:2; 26:18; Salmo 135:4; Malaquias 3:17) e em outras duas a tesouro real (Eclesiastes 2:8; 1 Crônicas 29:3). O uso nos dois últimos textos citados e a etimologia provável apontam que se refere a algo de valor adquirido. Na BH o sentido dela parece ser primordialmente espiritual.

 

Israel é, portanto, um tesouro de DEUS no meio das nações. Apesar de possuir toda a terra, ELE escolhe Israel como posse. Entre todos, Israel. Isso não implica que as outras nações não lhe pertencem, mas, sim, que Israel Lhe é um tesouro. Esse tesouro é comissionado a ser reino de sacerdotes. Não há templo ainda. Não há ofício levítico instituído ainda. Há um reino em que todos são sacerdotes. Um povo santo (gôy qādôš – (גוֹי קָדוֹשׁ, separado. De toda terra há um reino separado; e separado para o ofício sacerdotal.

 

Novamente, assim como em Melquisedeque, não há lugar específico. Há, sim, uma ideia de que esse sacerdócio deveria ser exercido em toda a terra. Diferentemente do contexto de Melquisedeque, aqui não há menção de dízimo nem de benção a outros. Há sim a ideia de que sacerdócio tem de ver com obediência à aliança e testemunho da ação divina em prol de Israel, Sua propriedade particular.

 

Assim, 1 Pedro 2:9 carrega uma alta carga de Êxodo 19:5-6 –“Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz”– isso, porque ele usa as mesmas terminologias, inclusive a mesma raiz grega usada na Septuaginta para traduzir sĕgullâ, além de nação santa e sacerdócio real.

 

Isso denota que Pedro aplica o mesmo princípio para os que creram no Messias. O “sacerdócio de todos os santos” é uma revisitação da realidade da aliança do Sinai. Não há uma inovação ou uma ruptura. Há uma confirmação e um chamamento. Quem crê no Messias recebe a mesma missão. O povo passa a ser povo dEle, Sua possessão, quando entra em aliança com Ele para ser o que Ele sempre esperou que fosse, no passado e no presente. O chamado (antes e agora), a escolha (antes e agora) envolve serviço sacerdotal de todos e não de apenas alguns. Um serviço não para os que são povo particular, mas para todos os povos da terra.