#13

Não é incomum percebermos a admiração que o mundo inteiro acalenta por gestos de patriotismo, manifestações públicas que pleiteiam “direitos e garantias fundamentais”, atos cívicos cristalizados em palavras de ordem, ou até mesmo pela simples, porém emblemática, observação da flâmula da pátria amada contra o vento, enquanto um hino torna dramática a cena que faz encher os olhos dos desavisados.

O que na maioria das vezes escorre de nossos sentidos é a maneira como esses elementos podem se tornar uma excelente ferramenta de manipulação social a serviço de interesses escusos. Dentre as muitas variáveis do assunto, gostaria de chamar à atenção para o ódio como instrumento de unificação e construção de identidade. Poderíamos citar muitos exemplos, mas falemos dos mais familiares e contemporâneos, como o ufanismo produzido no pós primeira guerra pela Alemanha e pelos Estados Unidos da América. No primeiro, encontramos a figura do “bode expiatório” encarnada no judeu como explicação para os males sofridos; no segundo, diferentemente do primeiro, na figura do inimigo externo seja ele o próprio nazista, vietcong, russo, norte coreano, iraquiano, iraniano, palestino, etc. com o intuito de gerar medo e dependência do estado. Guardadas as relevantes diferenças entre os modelos acima dispostos (principalmente em relação às particularidades dos processos históricos que definem esse “outro ofensor”) me atenho aqui ao fato de que ambos estados constroem suas identidades consolidadas por solidariedade de grupo a partir de um inimigo publicamente construído. Aqui, a palavra xenofobia, para além de seu significado etimológico, se traduz em uma espécie de mel que alivia o amargor causado pelas relações sociais caóticas que constituímos. Nos conforta a falsa idéia de que somos coesos. Melhor dizendo, quanto mais eu afasto o “outro diferente”, melhor eu “harmonizo” a sociedade na qual me insiro. No que diz respeito aos precedentes históricos, se há algo que aqui podemos afirmar categoricamente é que, até hoje, nada se mostrou mais eficaz na unificação dos homens em torno de objetivos comuns quanto a identificação do inimigo, assim como o traçar dos objetivos específicos de aniquilação do mesmo, seja ele interno (Alemanha) ou externo (EUA).

Na busca de um exemplo prático e elucidativo, encontramos o que freqüentemente acontece em qualquer ambiente corporativo. Colegas de trabalho reiteradamente são estigmatizados uns pelos outros, o que impede a boa convivência, o espírito de cooperação e, não raras vezes, diminui o rendimento nas tarefas profissionais propostas. Sendo extremamente variáveis, os estigmas são gerados por questões econômicas, culturais, étnicas, de gênero, etc. Entretanto, todos esses fatores impeditivos de aproximação se mantêm enrijecidos até o momento em que o chefe do setor toma uma decisão impopular. A partir daí os lacres da distância se rompem e aqueles que nunca se mostraram inclinados a sequer uma refeição em comunidade agora saem para almoçar com relativa frequência, porque o assunto que norteia as novas relações é o famigerado homem que os prejudicara. Daqui pra frente não só devem como precisam andar juntos pelo simples fato de terem a quem odiar em comum. O mesmo poderíamos dizer do condomínio onde residimos, da escola onde estudamos e, porque não, da instituição religiosa à qual pertencemos. Freqüentemente, não importando os diferentes ambientes que permeamos, construímos laços e nos definimos a partir do ódio. Diante desta frágil definição do que somos, damos relativa e aparente harmonia aos nossos ajuntamentos e nos reconhecemos como um corpo de solidariedade, porque aprendemos a desenvolver uma espécie de violência surda, que vez ou outra eclode de maneira “irracional” quando o inimigo comum aparece, ou se convola em profunda crise existencial quando o “outro ofensor” é desentrincheirado. Debaixo dessa lógica, a existência só possui significado enquanto temos a quem odiar. Nos aglutinamos em “times” e buscarmos vitórias em virtude de um deleite estrutural que sentimos no fracasso alheio. Melhor do que vencer, é vencer alguém. Em nós, há um estranho e horroroso prazer na dor do outro.

Por contraponto imediato a esta lógica, a Bíblia mais escancaradamente os relatos sobre a vida de Jesus Cristo contido nos evangelhos, muito embora também esteja contido em muitos outros lugares nos propõe uma maneira alternativa de construção de identidade. O motivo pelo qual o discurso desse personagem histórico se torna tão intrigante talvez seja a maneira como ele devasta algumas certezas incontestes. Num cenário social onde o “natural” seria a sedimentação da identidade a partir de uma trincheira contra Roma, onde o messias em seu papel político/histórico se tornaria o elemento de coesão contra aquele inimigo comum, Jesus que naquela ocasião se auto-intitulava “messias” esvazia a ordem imposta e propõe que os laços de pertencimento social deveriam se constituir a partir do amor pelos seus pares, não! pelos seus inimigos, até. Ora, aqui não cabe discutir se tal proposição é socialmente viável, mas mesmo que para alguns isso se configure uma utopia social, não se pode excluir a importância de tal subversividade. Um dos motivos pelos quais parte significativa da liderança judaica do primeiro século o rejeita enquanto messias não se dá, talvez, por ignorarem os elementos profético-históricos que o apontavam como tal, mas pelo fato de Jesus se mostrar tão intolerante à assimilação de uma identidade gerada a partir do ódio, que, por trágica ironia, fora o mesmo que deu ocasião à violência da cruz. Talvez, mesmo que por interpretação romântica à sua história, não seria leviana a afirmação de que Ele venceu o mundo porque, antes disso, venceu uma racionalidade que propunha um sentido para a existência a partir da exclusão do outro. E para além de sua vitória onde curiosamente todos se constituem vencedores em sua morte dialeticamente propõe que o êxito  humano pressuponha a derrota do eu, onde aquilo que me identifica com ele e com o próximo passa a ser a inexistência de um inimigo comum.