#12

Festas ligadas à colheita eram comuns no Antigo Oriente Médio (AOM). Recolher as primícias da terra e entregá-las ao sacerdote no Santuário era parte das festividades de Israel (Números 28:26 relaciona a oferta das primícias à festa das Semanas, ou Pentecostes). Mas Deuteronômio 26:1-11 nos apresenta algumas nuances exclusivas, entre elas, o fato de ser uma cerimônia individual e não coletiva. O sujeito deveria comparecer diante do sacerdote e fazer duas declarações. A primeira declaração é em primeira pessoa do singular, feita ao sacerdote e parece inserir o declarante dentro do contexto do cumprimento da promessa da aliança feita aos antepassados: “Declaro hoje para YHWH, teu Deus, que entrei na terra que jurou YHWH para nossos pais para nos dar.”[1] A segunda é mais longa, contida entre os versos 5 e 10. Ela começa em primeira pessoa do singular, mas logo muda para a primeira pessoa do plural; isto, porque, basicamente, o israelita contaria a história de todo o povo (de Abraão até a entrada em Canaã). Esse resumo foca na libertação que YHWH proveu, libertando Israel das mãos do Egito. Ao término do resumo histórico, o ofertante volta a usar uma construção em primeira pessoa e termina dizendo: “e agora, eis que trago o princípio do fruto do solo que Tu me deste, YHWH!” e então, o indivíduo deveria se prostrar e se alegrar por todas as bênçãos de DEUS. Depois de relembrar a história de Israel e falar a respeito de DEUS, o homem fala com DEUS.

Há, também, outras facetas deste texto que acabam por saltar aos olhos:

1) a construção inicial é única no Pentateuco – o verbo tomar (לקח – laqaḥ), seguido do substantivo primícia/princípio preposicionado (מראשׁית – mereʼšit)[2];

2) o nome de DEUS (יהוה  – YHWH, o tetragrama sagrado) aparece 14 vezes[3];

3) o verbo dar (נתן – natan) ocorre 7 vezes, tendo seis delas DEUS como aquEle que dá: 4 vezes uma referência à dádiva da terra, 2 à dádiva dos frutos da terra; o outro uso, curiosamente, divide o texto e é uma referência ao que o Egito deu ao povo – servidão (v. 6)

O que é mais relevante no texto bíblico é que o foco da solenidade não era o poder de DEUS sobre a natureza e nem a óbvia bênção material simbolizada pelos frutos na cesta. O foco da cerimônia era o papel de DEUS na história de Israel desde a promessa da Terra feita a Abraão até aquele momento em que o adorador se encontrava diante do sacerdote. As duas declarações visavam lembrar ao indivíduo exatamente isto, o cuidado divino desde um tempo anterior a ele mesmo, inserindo-o numa história maior que a sua e de sua família. Hoje, ao agradecer e relembrar o que ELE fez por cada um de nós ao longo deste ano, me torno parte de uma história maior. Afinal, a essência no reconhecimento da soberania divina repousa na gratidão do homem para com o seu Criador.

ELE nos insta a valorizarmos a presença e a fidelidade dEle em cumprir a promessa e não o Seu poder sobre a natureza e as coisas.

ELE nos insta a, diante dEle, individualmente, valorizarmos o contexto coletivo em que estamos inseridos e não em tirar selfies religiosos.

ELE nos insta a vermos além do hoje, além do agora, além do eu.

Existe uma realidade maior do que aquela imediata que nos cerca…

[1] Tradução própria, salvo indicação contrária.

[2] Aliás, o substantivo em questão (ראשׁית) aparece diversas vezes se referindo a grãos, óleo, vinho, mel, etc, além de ser usado em contextos não agrícolas, como em Gn 1:1, por exemplo.

[3] Em 10 dessas vezes, é acompanhado do outro designativo divino,  ʼElohim (אלחים).