#119

Além de todos os aspectos que vimos nos últimos 3 textos (#116, #117, #118), Cântico dos Cânticos (CdC) possui uma infinidade de temas, elementos e assuntos a serem explorados, como por exemplo, o próprio papel da mulher, que, ao longo do livro não apenas inicia os contatos e as descrições do amado, como também demonstra e verbaliza livremente seu desejo, inclusive sexual. As metáforas e as imagens são desafiadoras, já que estamos distantes histórica e linguisticamente do momento em que o livro possivelmente tenha sido escrito por Salomão. Para concluir esta pequena série sobre este livro desafiador, é importante notar a relação do mesmo com o de Gênesis, mais especificamente no tema do jardim do Éden.

Em Gênesis 2-3 este jardim é descrito (2:8-17) e apresentado como o lugar onde o primeira casal viveria. Como vimos no texto #49, a relação do homem, Adão, com o o jardim e da mulher com o homem carregam uma notória relevância com o conceito de imago Dei. Agora, com esta ideia em mente, é possível fazer algumas relações importantes. Em Gênesis 2 homem e mulher estão juntos, no jardim, plenos, sem vergonha um do outro; já em Gênesis 3, em virtude do pecado, se distanciam e se escondem um do outro, envergonhados (veja o texto #50). A punição de ambos, precisamente a da mulher (Gênesis 3:16), acarretaria em um problema de relacionamento.

Quando vamos para o outro jardim, de Cântico dos Cânticos, homem e mulher começam separados, mas buscam um ao outro incessantemente. Ela e ele não se envergonham de seus desejos e não se escondem um do outro. Ao contrário de Gênesis 3, eles não querem se cobrir, mas descobrir um ao outro. Isto tudo aponta para um retorno a Gênesis 2 e uma inversão de Gênesis 3.

Muito embora em Gênesis 2-3 a descrição do jardim do Éden seja feita em forma de narrativa e o do jardim de Cântico dos Cânticos esteja em forma de poesia (o que poderia denotar um propósito distinto de seus conteúdos), é possível perceber que a história do Éden é de perda de um status e a de Cântico dos Cânticos a do reencontro deste status. O jardim em Gênesis que se torna inacessível ao primeiro casal em virtude do pecado, e que é o lugar do afastamento, em Cântico dos Cânticos é redescoberto na mulher e se torna o lugar onde se deliciam um no outro e se encontram intimamente. É na mulher amada e com a mulher amada que ele –eles, na verdade– descobrem a bênção narrada na história do Éden (Gênesis 2:24-25).

O poeta de Cântico dos Cânticos, sutilmente, demonstra que existe a possibilidade de retorno a um jardim de delícias, de prazer e de plenitude, onde homem e mulher, como casal, podem desfrutar de uma intimidade ímpar. Não é um lugar perfeito, como o Éden, visto que em CdC há encontros e desencontros, solavancos de relacionamento e também afastamentos, mas nos momentos de encontro, há sim plenitude dele nela e vice-versa.

Todos estamos fora do jardim do Éden. Alguns de nós ansiamos retornar (mesmo que não o saibamos explicar). Segundo o livro de Cântico dos Cânticos, é no amor do casal que se recupera parcialmente o que se perdeu em Gênesis 3 com a queda. E ao mesmo tempo é o amor vivido entre o casal que se torna um vislumbre da restauração do novo Eden.

Esta imagética, inclusive, aparece em alguns profetas (Isaías 51:3; 58:11; Jeremias 31:12). Por isso, ao ler Cânticos, esta metáfora do jardim é uma das mais importantes e impactantes. Perdemos, mas podemos encontrar.

Assim, Cântico dos Cânticos é a nostalgia de amantes plenos num lugar e relacionamento de perfeita harmonia, onde somente o amor prevalece.