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“E disse a mulher para Elias: agora sei disso: tu és homem de DEUS e a palavra de YHWH[1] na tua boca é verdade.” (1 Rs. 17:24)

A análise da narrativa de 1Reis 17 apresenta um mesmo tema repetido duas vezes, o sustento. O autor começa o capítulo com o discurso do profeta Elias para o rei Acabe dizendo que as chuvas cessariam, o que remete as maldições da aliança presentes no livro de Levítico e de Deuteronômio. Nesse discurso alguns elementos são importantes para a narrativa: a expressão חַי־יְהוָה אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל, (Tão certo como vive YHWH, DEUS de Israel) e o uso da conjunção אִם (se).

Após a fala do profeta ao rei, vem a palavra de DEUS (v.2) e dá a Elias uma ordem de partir para o ribeiro de Querite e onde será sustentado por corvos. A construção do discurso divino é: צִוִּיתִי לְכַלְכֶּלְךָ (Determinei te sustentar). DEUS determina aos corvos que sustentem Elias. Esse primeiro ato termina com a agua do ribeiro acabando.

O autor repete muitos elementos no segundo momento da história. Essa segunda seção começa com a palavra de DEUS novamente vindo a Elias (v. 8) com uma nova ordem para partir, agora em direção a Sarepta. Ele também determina uma viúva para sustentar Elias (צִוִּיתִי לְכַלְכֶּלְךָ).

Elias parte e chegando lá se encontra com a viúva e pede água e pão, e em um discurso bem similar ao de Elias ela usa a frase חַי־יְהוָה אֱלֹהֶיךָ (tão certo como vive YHWH, teu DEUS) e a conjunção אִם (se).

O autor parece repetir os mesmos elementos para induzir o leitor a imaginar que o sustento da viúva acabaria como acabou a água na primeira seção. Isso fica evidente com o uso dos mesmos elementos nas duas seções.

Mas Elias intervém na história e diz que “do pote a farinha não acabará e do frasco o óleo não faltará” (v.14). Assim imagina-se que nada mais irá acabar para a viúva, que outro fim está reservado para a história.

Há duas palavras nesse capitulo que parecem ser centrais para o entendimento da história e da repetição. Um é o verbo היה (ser, acontecer, existir) e o outro é o substantivo דבר (palavra, coisa), que também aparece uma vez como verbo.

O verbo היה marca a passagem do tempo nessa narrativa. Aparece 8x nesse capitulo e aponta para dois acontecimentos: 1) quando DEUS fala com Elias; 2) quando as coisas acabam: a chuva, a água do ribeiro e a vida do filho da viúva. Quer dizer, tirando o momento em que a Palavra de DEUS vem para Elias (v. 2 e 8), o verbo é usado nos momentos em que algo acaba. No verso 17 esse verbo aparece pela única vez 2x, um fato que parece apontar para o clímax da narrativa e é nesse contexto que o filho da viúva morre.

Mesmo com a intervenção de Elias para que a farinha e o óleo não acabassem, parece que algo deveria mesmo acabar na história.

O substantivo דבר é repetido 10x no texto: 5x DEUS é sujeito (v.2, v.5, v.8, v.16, v.24); 3x o sujeito é Elias (v. 1, v.15, v.16); 1x a viúva é o sujeito (v. 13) – que é o uso central da palavra; 1x é usado no sentido de coisa, isto é, sem sujeito (v.17). Esse substantivo vai em um crescente até o verso 16, onde está escrito “palavra de Elias” e “palavra de YHWH” juntos. O verso seguinte apresenta esse substantivo sem sujeito e é justamente nesse verso que o garoto morre e a palavra de DEUS e do profeta Elias cessam. Até esse momento na narrativa todas as falas de Elias foram como o porta voz de Deus, em nenhum momento foi ouvida a voz pessoal de Elias.

Mas, no momento mais crítico, na morte de uma criança inocente, onde era mais necessário a palavra de DEUS e do profeta, ela não está lá. E nesse momento o Elias “profeta” se cala e o Elias “homem” fala.

A fala de Elias também é uma interpretação da história, pois ele diz para DEUS: “Adonai, meu Deus, também sobre esta viúva que eu moro fizeste mal por matar seu filho”. Elias parece perceber o padrão: onde ele chega as coisas acabam.

Ele reclama com DEUS.

Mais um detalhe importante de notar é que em toda narrativa o nome de DEUS é sempre acompanhado de um designativo de terceira pessoa, “DEUS de Israel” (v.1, por exemplo) ou segunda pessoa, “teu DEUS” (v.12, por exemplo). Agora, em sua fala no verso 20, Elias usa a primeira pessoa: YHWH meu DEUS (יְהוָה אֱלֹהָי).

Então, Elias se estende sobre o menino três vezes, o mesmo número de coisas que acabam: a chuva, a água do ribeiro e a vida do menino. É nesse momento que Deus ouve e faz o fôlego voltar ao menino. Elias leva o menino a mãe e diz: “vive” (וַיֶּֽחִי). O verbo agora é חיח (reviver, viver, ser restaurado) que é muito próximo do verbo que guia a narrativa, היה. Essa proximidade dos verbos parece apontar para uma reversão na história, pois DEUS muda a sucessão de eventos (וַיְהִי) e restaura (וַיֶּֽחִי) o que havia acabado.

A viúva já havia visto DEUS agir por intermédio de Elias no caso da farinha e do óleo, mas foi somente quando Elias se despiu do manto de profeta de DEUS e clamou como homem, de maneira pessoal, “meu YHWH”, que a viúva reconheceu o “homem de DEUS”.

A fala da viúva fecha o capitulo: “agora sei disso: tu és homem de DEUS e a palavra de YHWH na tua boca é verdade”. Só depois que Elias tira o manto de profeta, daquele que fala sempre em nome de DEUS, e reclama com ELE, é que a viúva reconhece que ele é homem de DEUS.

Leonid Primo

[1] Maneira acadêmica de se referir ao tetragrama sagrado.