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Em Êxodo 34:6, logo após Moisés interceder pelo povo depois do episódio do bezerro de ouro, Moisés afirma que DEUS é “compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade”.

Dentre as palavras e expressões em referência ao ETERNO ‘erekh ‘apayim (אֶ֥רֶךְ אַפַּ֖יִם), traduzida como longânimo, merece especial atenção. Literalmente, ‘erekh ‘apayim tem o sentido de “nariz longo” ou “respiração longa”.

Enquanto a raiva é caracterizada por uma respiração violenta, tal expressão está associada à ideia de paciência quanto à ira.

Em Naum 1:6 lemos: “quem pode suportar sua indignação? E quem subsistirá diante do furor da sua ira? A sua cólera se derrama como fogo, e as rochas são por ele destruídas […]”. Ao ouvir sobre tão assombrosa ira divina, normalmente associamos tal imagem ao contexto humano que associa ira à perda de controle, compulsão ou algum tipo de perturbação momentânea da mente.

A ira de DEUS, todavia, não acontece dentro dos limites da irracionalidade. Pelo contrário, parece que funciona como uma reação ocasionada pela conduta do homem. Não é uma ira explosiva e cega, mas, ao contrário, algo voluntário, com propósito. Uma espécie de indignação justa, como em Salmos 7:11: “DEUS é justo juiz, DEUS que sente indignação todos os dias.”

Assim, por mais que o tópico da ira divina normalmente tenha uma atmosfera negativa na maioria de nossas discussões, tal tópico parece ser um álibi em meio a uma sociedade que sofre anestesiada. Em meio a tanta insensibilidade, a ira divina surge como um grito contra a indiferença ao mal [1].

A mensagem da ira divina inclui um chamado ao retorno. Em Jeremias 18:11 lemos: “[…] Assim diz o SENHOR: Eis que estou forjando mal e formo um plano contra vós; convertei-vos, pois, agora, cada um do seu mal proceder e emendai os vossos caminhos e as vossas ações.” Desta forma, vemos que o chamado da ira é um chamado para cessar a ira. Um de seus propósitos é: arrependimento.

Em nenhum lugar em toda a Bíblia é dito que a ira divina dura para sempre. A ira passa; já o amor dura para sempre (Jeremias 31:3; Salmo 100:5; 106:1).

Na escuridão causada por DEUS, há DEUS.

Em Is 54:8 lemos as palavras de DEUS a Jerusalém: “em um momento de cólera, escondi de ti o rosto, mas logo me compadeci de ti, levado por amor eterno.”

[1]  The Prophets, Abraham Joshua Heschel, p. 363.