#129

No Novo Testamento a unção é um tema recorrente. Em 2 Coríntios 1:21-22 Paulo afirma: “Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo e nos ungiu é Deus, que também nos selou e nos deu o penhor do Espírito em nosso coração.” Aqui, a unção parece acessível a todos. Além disso, aparentemente, há uma associação entre a unção e o Espírito. Mesmo que de maneira não tão clara, em 1 João 2:27, por exemplo, lemos: “Quanto a vós outros, a unção que dele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nele, como também ela vos ensinou.” Esta associação, no entanto, não é peculiaridade apenas do Novo Testamento. Em Zacarias 4:2 o profeta vê um candelabro todo de ouro e um vaso de azeite em cima com tubos que alimentam as lâmpadas deste candelabro. Sem entender a visão, o profeta pergunta: “o que é isto?”. Em Zacarias 4:6 o anjo que falava com o profeta, afirma: “Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel: Não por força, nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos.” A mensagem é clara, o azeite, símbolo do Espírito, alimenta a luz do candelabro. O Espírito sustenta a luz ainda acesa. Um pouco antes, em Zacarias 3:8, vemos uma promessa com tons messiânicos ao DEUS afirmar que faria vir o seu servo, seu Renovo. O tema do Renovo surge também em Isaías 4:2 e 11:1-2. No segundo dos dois textos é dito que este... leia mais

#128

Ainda sobre a unção, vimos no último texto bíblico da semana passada (#127), 1 Reis 19:14-16, algo curioso: a unção de um rei estrangeiro, Hazael, da Síria. Entendendo a unção relacionada à eleição divina, nada impede que vejamos estrangeiros sendo ungidos por profetas. Isaías 45:1 é um exemplo disso: “Assim diz o SENHOR ao seu ungido (לִמְשִׁיחוֹ֮ – limshiho), a Ciro […]”. O rei Ciro, rei estrangeiro, é chamado de ungido (מָשִׁיחַ –  mashiah). Quanto aos reis de Israel, a unção aparece somente em casos quando há uma aparente sucessão real irregular, ou quando o rei é o primeiro de sua casa. Por exemplo, em 1 Samuel 10:1, dentre outros fatores, por ser o primeiro rei, Saul é ungido. Em 1 Samuel 16:13 Davi é ungido enquanto Saul ainda está reinando. Em 1 Reis 1:39 vemos Salomão sendo ungido, porque que ele não era o sucessor legal direto ao trono. Em 2 Reis 11:12, Joás é ungido enquanto Atalia ainda está viva. E em 2 Reis 23:30, Joacaz é ungido, sendo que também não era o sucessor legal direto ao trono. Não é em todos os casos que a unção realizada pelo profeta, sacerdote ou outro representante de DEUS possuía uma função legal intrínseca. Davi não teve o trono em suas mãos no dia seguinte da realização de sua unção pelo profeta Samuel. Assim, nota-se no texto bíblico, especificamente no caso de Davi, um caminho inverso da unção. Próximo a receber o trono, após a morte de Saul, Davi começa a ser reconhecido como o escolhido por DEUS para guiar Israel. Neste momento pode-se notar, em 2 Samuel 2:4... leia mais

#127

A Bíblia é permeada por ações simbólicas convencionais: caminhar entre as partes de animais, compartilhar uma refeição, furar a orelha de um escravo, cobrir uma mulher com manto, remover as sandálias, dentre outras. Como qualquer outro livro, através de seus textos, a Bíblia carrega um vasto número de ações convencionadas com seus próprios significados de acordo com o momento. Uma destas ações, que carregava vasto significado, era a unção. Nota-se que a prática da unção em textos ugaríticos e egípcios ocorrem em contextos e com funções diferentes. Na vida privada do Antigo Oriente Médio, a unção parece estar associada tanto para propósitos higiênicos como cosméticos. Alguns acreditavam que a unção possuía poder inerente de cura. Na esfera legal, a unção muitas vezes aparece associada a compras, relações de suserania e vassalagem, instituição de reis substitutos e também, em alguns casos, do próprio rei em si. No texto bíblico, vemos a unção de objetos, sacerdotes, reis e em uma situação, um profeta. Em Êxodo 28:41, quanto aos sacerdotes recém escolhidos (Arão e seus filhos), lemos: “[…] e os ungirás, e consagrarás, e santificarás, para que me oficiem como sacerdotes”. Logo em seguida, em Êxodo 30:22-30, vemos todas as especificações de como deveria ser preparado este óleo da santa unção. Primariamente, a unção parece ter a função de conferir/dar algo àquele que é ungido. Em Êxodo 29:29 lemos: “As vestes santas de Arão passarão aos seus filhos depois dele, para serem ungidos nelas e consagrados nelas”. A expressão “para serem ungidos” (לְמָשְׁחָ֣ה– lemashehah), aparece em Números 18:8 em referência às ofertas dadas aos sacerdotes quando DEUS diz: “dei-as” (לְמָשְׁחָ֣ה– lemashehah). A... leia mais

#126

“[…] Não é bom que o homem esteja só […]” Gênesis 2:18 A palavra hebraica tov (tradicionalmente traduzida como “bom” ou “belo”) se repete muitas vezes em Gênesis 1 e 2. O uso desta repetição é apenas uma das inúmeras ferramentas literárias que os autores bíblicos utilizavam para destacar uma ideia importante em contextos específicos (dentro de um capítulo/história) ou amplos (ligando ideias e conceitos separados por capítulos dentro de um mesmo livro ou até mesmo em livros diferentes). Dentro da narrativa de Gênesis 1 o uso extenso da palavra oferece algumas possibilidades interpretativas interessantes: a) DEUS não cria em isolamento, DEUS Se comunica, avalia, e compartilha Sua percepção de Sua própria criação; b) a criação não era meramente bela, ela era boa e carregava em cada estágio possibilidades para expansão e domínio (a humanidade deveria dar continuidade à criação através de seu domínio); c) em última instância, DEUS é aquele que determina/sabe o que é bom. Partindo do ponto de vista de que DEUS é um ser que determina/sabe o que de fato é bom para a humanidade o uso da expressão “lo tov” ou “não é bom” em Gênesis 2:18 aparece como uma surpresa. Após plantar uma árvore do conhecimento do bem e do mal, DEUS mais uma vez se apresenta como aquele que sabe a diferença do que é e não é bom para o ser humano. Desta forma, o ser humano parece não receber o livre arbítrio na criação em si, mas liberdade de escolha dentro de um sistema em que DEUS determina e estabelece os limites do que é bom e ruim. É DEUS... leia mais

#125

“O homem age como se ele fosse o moldador e mestre da linguagem, quando na verdade é a linguagem que permanece o mestre do homem.” Martin Heidegger – Poetry, Language, Thought 215. Há milhares de anos, filósofos, escritores, profetas, e pensadores de diversas áreas discorrem a respeito do papel, da função e da estrutura da linguagem. Tendo como foco desde a semântica até o apparatus social que influencia a maneira como certas palavras se comportam dentro dos mais diversos contextos, o pensar a respeito da linguagem se desenvolveu e evoluiu até Derrida sugerir, através de inúmeros mecanismos de desconstrução, que a linguagem nos conduz ao abismo do nada, porque, afinal, sem linguagem, nada podemos dizer a respeito da linguagem. Ainda assim, a Bíblia oferece uma possível perspectiva sobre a natureza e a função da linguagem. Gênesis 1 indiretamente fala a respeito de linguagem. No princípio DEUS cria os céus e a terra e esta criação ocorre através da PALAVRA. A ligação entre PALAVRA e REALIDADE –o quebra cabeça dos filósofos de todos os séculos– chama à atenção. A linguagem não é usada meramente para informar, mas para fabricar a própria natureza da realidade que nos cerca. O ato de pronunciar “haja luz” de fato criou a realidade da luz. Nosso acesso à realidade desde então é através da linguagem. A linguagem –como também o tempo– são condições que precedem a própria existência da raça humana. Antes do nosso tempo e de nossa linguagem já havia tempo e linguagem. A escuridão do mundo anterior à criação é quebrada pela luz que surge através do ato de falar. Como a frase... leia mais

#124

Em O idiota, de Fiódor Dostoiévski, o Príncipe Míchkin, comentando sobre um tempo passado em uma aldeia remota de língua francesa, diz: “[…] seus pais ficaram zangados comigo porque, no fim das contas, as crianças não podiam passar sem mim e estavam sempre aglomeradas ao meu redor, e o mestre-escola acabou virando meu primeiro inimigo por causa das crianças. […] sempre me deixou perplexo a ideia de como os grandes conhecem mal as crianças, os pais e as mães conhecem mal até os próprios filhos. Não se deve esconder nada das crianças sob o pretexto de que são pequenas e ainda é cedo para tomarem conhecimento. Que ideia triste e infeliz! E como as próprias crianças reparam direitinho que os pais acham que elas são pequenas demais e não entendem nada, ao passo que elas compreendem tudo. Os grandes não sabem que até nos assuntos mais difíceis a criança pode dar uma sugestão sumamente importante.” Em 2 Reis 5:1-19, lemos a história de Naamã. Naamã, um poderoso general sírio, estava fragilizado com lepra. Sem mais esperanças, o general ouve uma jovem menina israelita cativa afirmar que o profeta Eliseu, que estava em Samaria, poderia restaurá-lo da doença. Imediatamente, com a permissão do rei sírio, Naamã vai até o profeta com muitos presentes. O profeta, sem sequer sair da sua casa, informa ao general que fosse até o Jordão e se lavasse sete vezes no rio. Indignado, Naamã foi até o rio, mergulhou sete vezes, e após o último mergulho, o texto afirma, “sua carne se tornou como a carne de uma criança” (v.14). Como é comum ao texto bíblico,... leia mais

#123

Em Êxodo 7-11 encontramos as conhecidas “pragas do Egito”. A resposta de Faraó ao primeiro encontro com Moisés e Arão foi bem clara: “Naquele mesmo dia, pois, deu ordem Faraó aos superintendentes do povo e aos seus capatazes, dizendo: Daqui em diante não torneis a dar palha ao povo, para fazer tijolos, como antes; eles mesmos que vão e ajuntem para si a palha. E exigireis deles a mesma conta de tijolos que antes faziam; nada diminuireis dela; estão ociosos e, por isso, clamam: Vamos e sacrifiquemos ao nosso DEUS”. DEUS fala mais uma vez com Moisés e Arão (Êxodo 6:28-7:6), mas, desta vez, elementos a mais fariam parte da tentativa de persuasão ao Faraó: sinais e maravilhas (אֹתוֹת e מוֹפְתִים). Curiosamente, com exceção de Êxodo 11:1 e 1 Samuel 4:8, todos os textos que se referem aos acontecimentos no Egito entre os capítulos 7 a 11¹ os denominam como sinais e maravilhas.² Isso, sem contar que no caso de 1 Samuel 4:8 a palavra “praga” (מַכָּה) ser proferida pela boca de filisteus. Estas perspectivas diferentes quanto aos mesmos eventos trazem à tona uma questão: a quem, afinal, foram direcionadas as pragas? Êxodo 7:3 diz que estes sinais e maravilhas tinham como alvo Faraó, contudo, ao mesmo tempo, as pragas foram direcionadas a todos os egípcios – “saberão os egípcios que eu sou o SENHOR, quando estender EU a mão sobre o Egito e tirar do meio deles os filhos de Israel” (verso 5). Somando-se ao Faraó o povo egípcio, talvez as pragas também tenham possuído a função de fortalecer a fé de Israel no DEUS de seus pais.... leia mais

#122

“[…] não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” 1 João 3:18 Em textos anteriores já tentamos estabelecer o conceito do Cristianismo como sendo essencialmente de ações. Uma das maiores confusões no âmbito cristão, no entanto, está relacionado à concepção de ação. Ações são qualificadas como cristãs ou não cristãs –religiosas ou seculares– não pela ação em si mas por um conceito pré-determinado que avalia essas diferenciações. Isto parece contrastar com a articulação de ações encontrados na Bíblia. A identidade cristã e/ou denominacional não está relacionada a uma interpretação ou a um conceito prévios, mas à própria ação em si. Um exemplo (João 13:35): Jesus diz que pessoas reconheceriam seus discípulos se estes amassem uns aos outros. Não existe aqui uma definição de discipulado distinta do ato de amar. A ausência de tal distinção implica na fria realidade: se você não ama, logo não possui aquilo que o definiria como discípulo. Tendo isto como base, posso seguir afirmando, por exemplo, que eu não acredito no amor. Não acredito no amor como um objeto, como algo que tenho e ofereço, como um conceito ou uma idéia abstrata; não acredito na existência deste tipo de amor. Este amor é uma fabricação. Pois uma vez que amor deixa de ser uma ação e passa a ser um objeto/conceito/idéia, este amor deixa de ser amor no sentido bíblico da palavra. Amor, de fato, é um dos temas mais profundos e complexos da Bíblia. Parece ser o tema que menos entendemos em teoria e ao mesmo tempo o que mais negligenciamos na prática. A Bíblia contém inúmeros exemplos que nos ajudam... leia mais

#121

Ao lermos a respeito das três últimas pragas que caem sobre o Egito em Êxodo 10 e 11, alguns detalhes curiosos chamam à atenção. Já em uma primeira leitura, nota-se que essas três pragas são diferentes tanto em relação a suas atividades como quanto à severidade dos acontecimentos. Na praga dos gafanhotos (8a praga), é dito que eles  “devoraram toda a erva da terra e todo o fruto das árvores que deixara a chuva de pedras; e não restou nada verde nas árvores, nem na erva do campo, em toda a terra do Egito”. Na 9a praga há uma escuridão que impossibilita aos egípcios enxergarem uns aos outros (verso 23) e na 10a, por fim, há a morte dos primogênitos. Muito embora pareçam tão diferentes entre si, nas três últimas pragas há um elemento comum: a escuridão. Na 9a praga a escuridão é auto evidente; a respeito da 8a praga é dito: “porque cobriram a superfície de toda a terra, de modo que a terra se escureceu” (verso15); e na 10a praga, tudo acontece à meia-noite. Êxodo 12:29 diz: “Aconteceu que, à meia-noite, feriu o SENHOR todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se assentava no seu trono, até ao primogênito do cativo que estava na enxovia, e todos os primogênitos dos animais”. Desta maneira o próprio texto sugere perguntar: Porque há uma presença tão incisiva da escuridão nas últimas pragas que caem sobre o Egito? Dentre alguns fatores, nota-se que a escuridão é sinônimo da própria condição de escravidão. Da mesma forma que os israelitas não podiam sair do Egito para adorar... leia mais

#120

“[…] quem pecou?” João 9:2 Já refletimos em outros textos a respeito da natureza do que é, de fato, Cristianismo (lembrando que, como mencionado no texto #71, esta palavra sequer aparece nas Escrituras Sagradas). O propósito aqui é considerar a possibilidade de que Cristianismo talvez não seja nada além de um corpo de ações relacionadas a Cristo. Não necessariamente uma idéia (algo abstrato), mas ações. Se há certas ações, há Cristianismo. Se não as há, não há Cristianismo. Gênesis 2 afirma, logo após à criação do homem, que não é bom que este viva só. Tradicionalmente usa-se este texto para afirmar o plano divino com relação ao casamento entre um homem e uma mulher. Curioso, no entanto, é que uma das características mais fundamentais do que significa ser humano, é relacionar-se. Como diria Heschel: a verdadeira existência culmina em co-existência. Juntos, homem e mulher foram criados para refletir a imagem de um DEUS que também existe na esfera das relações (Pai-Filho-Espírito). Relacionarmo-nos e relacionamentos –a maneira como tratamos uns aos outros– está no âmago do que significa sermos humanos. Isto se torna evidente não apenas na maneira como Cristo vivia, mas estava no cerne daquilo que Ele ensinava. Jesus era sensível às necessidades das pessoas não com foco nas necessidades, mas nas pessoas. Se a verdadeira existência (ou existência plena) é a co-existência, é do bem estar do outro que depende meu próprio bem estar. E esta sensibilidade parece ser um dos requisitos para o corpo de ações que caracterizam o Cristianismo. Pois onde há sensibilidade, ressoa aquilo que Cristo fazia e ensinava. João 9:1-3 diz: “E, passando Jesus,... leia mais

#119

Além de todos os aspectos que vimos nos últimos 3 textos (#116, #117, #118), Cântico dos Cânticos (CdC) possui uma infinidade de temas, elementos e assuntos a serem explorados, como por exemplo, o próprio papel da mulher, que, ao longo do livro não apenas inicia os contatos e as descrições do amado, como também demonstra e verbaliza livremente seu desejo, inclusive sexual. As metáforas e as imagens são desafiadoras, já que estamos distantes histórica e linguisticamente do momento em que o livro possivelmente tenha sido escrito por Salomão. Para concluir esta pequena série sobre este livro desafiador, é importante notar a relação do mesmo com o de Gênesis, mais especificamente no tema do jardim do Éden. Em Gênesis 2-3 este jardim é descrito (2:8-17) e apresentado como o lugar onde o primeira casal viveria. Como vimos no texto #49, a relação do homem, Adão, com o o jardim e da mulher com o homem carregam uma notória relevância com o conceito de imago Dei. Agora, com esta ideia em mente, é possível fazer algumas relações importantes. Em Gênesis 2 homem e mulher estão juntos, no jardim, plenos, sem vergonha um do outro; já em Gênesis 3, em virtude do pecado, se distanciam e se escondem um do outro, envergonhados (veja o texto #50). A punição de ambos, precisamente a da mulher (Gênesis 3:16), acarretaria em um problema de relacionamento. Quando vamos para o outro jardim, de Cântico dos Cânticos, homem e mulher começam separados, mas buscam um ao outro incessantemente. Ela e ele não se envergonham de seus desejos e não se escondem um do outro. Ao contrário de... leia mais

#118

Um outro elemento interessante em Cântico dos Cânticos (CdC) é a água. E embora apareça implicitamente algumas vezes, este texto vai focar apenas em suas aparições explícitas. A primeira ocorre justamente quando a amada é chamada pelo amado de “jardim fechado” (Cantares 4:12), algo que foi visto no texto #116. Está escrito: Jardim fechado és, minha irmã, uma noiva um jardim fechado, uma fonte selada. Seus renovos um pomar de romãs como todos os seus frutos excelentes henas com nardos. Nardo e açafrão, cálamo e cinamomo, com todas as árvores de incenso, mirra e aloés com todas as principais pimentas (ou especiarias). Fonte dos jardins és; poço de águas vivas e correntes do Líbano. (Cantares 4:12-15) Nesta fala do amado ele faz algumas importantes afirmações: Ela não é apenas um jardim fechado, mas uma fonte de águas selada. O verbo selar, ḥatam (חתם), é o verbo clássico para o ato de fechar um documento com o selo de quem o escreve e aparece em diversos contextos desta maneira (inclusive em textos famosos como Daniel 9:24, 12:4 e 9, ou Jeremias 32). Basicamente, denota um selo de autoria e/ou de posse. A mesma raiz aparece como substantivo em outra parte de CdC, a dizer, em seu ápice: “Coloca-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre teu braço…” (Cantares 8:6). Aqui é a amada que pede para que ela se torne um documento do amado. Ela é uma fonte de água, selada. Posse do amado, carrega o selo dele e somente ele pode e deve usufruir desta água, que é exatamente o que acontece em Cântico dos Cânticos 5:1... leia mais

#117

Na mesma seção da aparição das flores conectadas à primavera e ao amor, também aparece a ideia de frutos prontos para a colheita, no caso, os figos: “Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem. Pois eis que o inverno passou, e a chuva cessou e se foi; as flores aparecem na terra; o tempo do cântico chegou; a voz da rolinha é ouvida na nossa terra; a figueira já dá seus figos, e a videira está florescendo, dando sua fragrância. Levanta-te amada minha, formosa minha e vem!” (Cântico dos Cânticos 2:10-13) Este texto tem um paralelismo polissêmico[1] interessante: a palavra “cântico”, do hebraico zmyr (זמיר), também pode ser traduzida como “poda”, ou seja, a polissemia está em que as duas traduções são possíveis e, não só isso, o poeta deve ter usado exatamente esta palavra para que os dois significados soassem simultaneamente. Quer dizer, o tempo do amor não é apenas do cântico e das flores, é também da poda, da colheita. O tempo do amor não envolve apenas a beleza, há também trabalho a ser realizado. A variação no uso dos frutos é extremamente interessante e significativa ao longo do livro. O tempo do amor é descrito em termos de colheita, mas a relação dos amantes está mais para a transformação destes frutos maduros em algo diferente, como o vinho. As vinhas florescem, há o convite. Mas quando há o encontro, não são as uvas, mas sim o vinho que é evocado (Cântico dos Cânticos 1:2 e 4:10, entre outros). Para ficar mais claro, vejamos o exemplo das romãs: elas aparecem em Cântico dos Cânticos cerca de seis... leia mais

#116

As flores são comumente usadas na Bíblia Hebraica (BH) para evocar o caráter transitório da vida (como por exemplo no Salmo 103:15-16; Jó14:2; Isaías 40:6-8). Já em Cântico dos Cânticos elas aparecem conectadas à primavera e ao amor. Isto, porque já em 2:10-13 o amado convida a amada a desfrutar o amor com o exato argumento de que a primavera chegou e as flores apareceram na terra. Este tema, das flores brotando ligadas ao tempo de amar, reaparece em 6:11 e 7:12-13. A flor mais mencionada em Cântico dos Cânticos (CdC) é a shushan (שׁוּשַׁן). Das 17 aparições dela na BH, 8 estão em CdC e mais 4 no livro de Salmos. A Septuaginta a traduz como krinon e a Vulgata como lilium, mais conhecida como Madonna de Lilly, uma flor antiga que pode ser datada em, aproximadamente, 1500 a.e.c. Talvez seja uma referência ao lótus (ou lírio da água) que pode ter sido importado do Egito. Uma das ocorrências desta flor em CdC aparece em 7:2 (ou 3), onde lemos: “O teu umbigo é taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre é monte de trigo, cercado de lírios.” Esta ocorrência está dentro de uma das seções chamadas de wasf (que, em resumo, são um estilo poético típico caracterizado pela descrição física minuciosa). Uma rápida análise aponta que quando é a mulher que está realizando as descrições, ela geralmente começa pela cabeça, se utilizando de imagens (ou metáforas) mais ligadas à realeza e construções materiais, usando elementos que denotem força; já ele, ao descrevê-la, começa dos pés e vai subindo ou da cabeça e vai descendo, com... leia mais

#115

2 Reis 22 relata o episódio em que o rei Josias encontra o Livro da Lei dentro do Templo e, em seguida, efetua uma das maiores reformas oficiais relatadas na Bíblia Hebraica. Logo de início, provavelmente preparando o leitor para o livro que seria encontrado, o escritor bíblico, ao apresentar o jovem rei Josias como aquele que לֹא־סָ֖ר יָמִ֥ין וּשְׂמֹֽאול  (lo’-sar yamin usmo’l – “não se desviou nem para a direita nem para a esquerda” verso 2), remete ao livro de Deuteronômio (Deuteronômio 5:32; 17:11, 20; 28:14)[1]. Josias é o rei que ouve as palavras e “anda no caminho do SENHOR” (Deuteronômio 5:33). Após ouvir as palavras do livro e considerá-las, numa atitude de humildade, Josias rasga suas vestes (evento mencionado no texto #25 aqui da TMR). No entanto, o texto não termina neste ponto. Logo após ouvir as palavras do livro, Josias ordena que a profetisa Hulda fosse consultada acerca das palavras daquele livro. E a resposta dela vem em forma de duas profecias: uma a Judá (versos 16-17) e uma a Josias (versos 18b-20). Ambas começam com a fórmula do mensageiro (“assim diz o SENHOR”) e seguem com as especificações de punição, ou não. Judá teria de lidar com o que já estava estipulado em Deuteronômio 28:15-28, as maldições da aliança. Todavia, a Josias é prometido que seria reunido em paz à sepultura e não veria o mal que seria trazido àquele lugar. Curioso ver que este é um dos primeiros relatos bíblicos descarado de alguém que encontra a palavra de DEUS de forma escrita e aplica às circunstancias presentes. E ao encontrar o Livro da Lei,... leia mais

#114

“não temas…” Matheus 1:20 Passaram-se as festas de final de ano e já nos encontramos naqueles dias sem muito significado ou sequer afazeres. Talvez ainda estejamos um pouco de ressaca (emocional) do desgaste particular da celebração de natal. Porque muito embora celebremos o nascimento de Jesus como se fosse algo próximo de nós e de nossa realidade, a verdade é q ele não está; seguramente está mais próximo da situação das mães e crianças em Aleppo! Mas este não é um texto sobre a não-comemoração do Natal do dia 25 de dezembro. Este texto é uma tentativa de encontrar algo na narrativa do nascimento de Jesus que seja significativo para nós, especialmente nestes dias sem significado, nestes dias de início de ano. A busca é por algo que legitimamente seja compatível com nossa situação. Ou seja: este é um texto egoísta. Matheus 1:18-20 diz: “Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, ela se achou ter concebido do Espírito Santo. E como José, seu esposo, era justo, e não a queria infamar, intentou deixá-la secretamente. E, projetando ele isso, eis que em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria como tua esposa.” O texto abre com “o nascimento foi assim”, mas ao invés de falar da jornada a Belém, da questão de não haver lugar para se hospedarem, do bebê na manjedoura com pastores e anjos cantando, o texto e a mensagem do anjo têm outra prioridade. Uma prioridade que nos encontra na nossa situação confortável do século... leia mais

#113

João, no capítulo 1 de seu Evangelho, traça um paralelo com o primeiro verso da Bíblia (Gênesis 1:1) “No princípio criou Deus o céu e a terra.” Em sua releitura deste verso, lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez.” (João 1:1-3) Em João 1:14, no entanto, ele afirma: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” Segundo o relato de João, a ação criadora de DEUS no princípio, é efetuada por aquele que Se fez carne e habitou entre nós, a dizer: Jesus. Jesus é o agente da criação. Ele é DEUS, Criador do céu e da terra. Ele é Elohim em Gênesis 1 e Ele é Adonai em Gênesis 2. Interessante observar esta reivindicação em todo o livro de João. Quer seja através da validação e do testemunho da maior sumidade religiosa dos últimos 400 anos da história de Israel (João Batista, em João 1:29), quer seja através da ação de Jesus de purificar o templo em João 2, ou até mesmo no encontro de Jesus com Nicodemos e a mulher samaritana em João 3 e 4… Em tudo, João parece tentar demonstrar não apenas que Jesus é DEUS, mas que DEUS –o DEUS da Aliança– se fez carne, tornou-se um de nós e se transformou em Jesus (como Jacques Doukhan gosta de ressaltar). Todos... leia mais

#112

Para responder, mesmo que parcialmente, a pergunta que termina o texto #102, vamos à Gn 32 e 33. Estes dois capítulos narram uma das cenas mais emocionantes de toda Bíblia Hebraica, o reencontro de Jacó e Esaú. Antes deste reencontro, a última informação que temos sobre a relação dos irmãos aparece em Gn 27:41, onde lemos: “Passou Esaú a odiar a Jacó por causa da benção, com que seu pai o tinha abençoado; e disse consigo: Vêm próximos os dias de luto por meu pai; então matarei Jacó”. Temendo uma vingança do irmão, nos vv. 3-5 e 13-19 do capítulo 32, Jacó envia mensageiros ao encontro de Esaú para preparar o caminho com presentes, ou melhor, apaziguar a ira do irmão com presentes. Todavia, a resposta que recebe dos mensageiros é simplesmente: “Fomos a teu irmão Esaú; também ele vem de caminho para encontrar contigo, e quatrocentos homens com ele”.  Jacó teme a notícia e divide o grupo em dois bandos (v.7). E com ele, o leitor participa da espera. Não se sabe o que acontecerá neste encontro. Ou melhor, se seguirmos o anúncio de Gn 27:41, com certeza não será nada bom. Nesta espera, Jacó ora (vv.9-12). Esta oração não tem um paralelo simplesmente com as promessas em Gn 28:15 ou 31:13. O retorno referido por Jacó não se relaciona simplesmente com os capítulos 27-28, mas, acima de tudo, com o retorno de Abraão. Jacó aparece completando a jornada de 3 gerações. Em Jacó, a família de Abraão finalmente retorna à terra, escoltados (Gn 32:1-2). Dentre os vários detalhes desta narrativa, vemos uma palavra que marca este reencontro,... leia mais

#111

Nos textos #107 e #108 estivemos tratando do texto de Zacarias 3. Chegamos agora ao verso 9 do referido capítulo. Lemos: “Porque eis aqui a pedra que pus diante de Josué; sobre esta pedra única estão sete olhos; eis que eu lavrarei a sua escultura, diz o Senhor dos Exércitos, e tirarei a iniquidade desta terra, num só dia.” Um dos problemas desse verso é entender o significado da expressão “um dia”. No hebraico, echad (אחד) não é apenas um numeral, também pode funcionar como adjetivo em alguns casos, descrevendo um aspecto distinto do substantivo que o diferencia. Aqui, entendemos ser esse o caso. O dia é único porque não há outro igual. A expressão “um dia” aparece em outros textos, tais como Isaías 9:14, 10:17, 47:9, 66:8 e II Crônicas 28:6, contudo, somente em II Crônicas temos a evidência de que é um dia literal e específico, pois nos textos de Isaías esta expressão parece se referir a um dia de juízo futuro, indefinido temporalmente, mas singular quanto ao acontecimento que ocorrerá. Neste sentido, o “um dia” de Zacarias 3:9, por também estar no contexto de uma profecia (como os texto de Isaías), pode ser específico quanto ao “o que” ocorrerá, mas indefinido em relação ao “quando” e “por quanto tempo” vai ocorrer. Anterior à expressão está o verbo “tirar” (“tirarei a iniquidade da Terra em um só dia”), na qual aparece o verbo hebraico mush (מוש) e que tem um sentido total e eterno (como em Isaías 54:10, 59:21, se referindo a aliança de paz que jamais será tirada). O dia em questão, portanto, é um tempo em... leia mais

#110

No final do agora chamado ensino fundamental, me apresentaram um rapaz, neto de um poeta, o nome dele era Matheus. Ele me presenteou com um livro do seu avô, Ferreira Gullar. Até hoje me recordo da sensação de ler os versos do poeta maranhense: euforia. Ferreira Gullar foi a minha porta de entrada na poesia. A porta de entrada de um mundo que tornava o meu mundo melhor, mais belo, mais profundo, mais rico, mais nobre. Os “Sete Poemas Portugueses”, do livro A Luta Corporal foram os primeiros poemas que li e me recordo com clareza. Anos depois, obtive uma gravação de áudio em que o próprio poeta os declamava. Sua voz dava vida aos versos que já viviam em mim: “Nada vos oferto/ além destas mortes/ de que me alimento/ Caminhos não há/ mas os pés na grama/ os inventarão”. Minha adolescência foi pontuada pela leitura constante de diversos de seus livros. Aprendi sua história durante as aulas de literatura do ensino médio e me encantei ainda mais. Um homem envolvido na história do país, na luta pela liberdade, mas um homem de pensamento livre, crítico até das próprias posições, artísticas ou políticas. Em 1997, por convite do Matheus, compareci ao lançamento de Cidades Inventadas, um livro de contos, e pude apertar a mão do poeta pela primeira vez. Seus traços eram finos, o jeito dócil, a voz pausada e grave. No meu último ano na Faculdade de Letras do Centro Universitário Adventista de São Paulo, em Engenheiro Coelho (UNASP-EC), escrevi meu TCC sobre seu livro Barulhos, para mim o melhor de todos. No final da minha escrita,... leia mais

#109

“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto.” João 12:24 A tragédia desta semana pesa sobre todos. Podemos tentar mudar de assunto, focar em política, no futebol, nos afazeres do dia-dia, mas a morte precipitada de jogadores, comissão técnica, jornalistas, líderes e funcionários de aviação ronda os pensamentos de todos os brasileiros. E como uma sombra estes pensamentos nos acompanham nas veredas de nossas rotinas. “Há tempo para nascer e tempo para morrer” diz o sábio de Eclesiastes. Enquanto o nascimento irrompe em choro e gritos de alegria, a morte introduz o silêncio. Morte traz silêncio. Esta semana fomos confrontados mais uma vez com a fragilidade da vida. Enquanto a tendência da humanidade é buscar motivos –técnicos ou teológicos– do porquê disto ter acontecido, o que resta no fim do dia é apenas o silêncio. Podemos entender as causas do acidente, podemos recapitular os textos bíblicos que falam sobre vida e morte, podemos chorar, lamentar, compadecermo-nos, mas quando apagamos a luz e deitamos em nossos leitos o que nos resta é o silêncio. Principalmente para os membros das famílias que perderam entes queridos no vôo, mas também para nós, em em outras circunstâncias: o que permanece é o silêncio. Talvez seja justamente por isto que Paulo, quando escreve aos Tessalonicenses a respeito da morte, enfatiza a quebra do silêncio em três etapas. Três é um número peculiar. Um número na Bíblia que significa a morte completa. Jonas fica 3 dias na barriga de um grande peixe, Lazaro estava morto por 3 dias antes de Jesus aparecer no quarto... leia mais

#108

Em Zacarias 3:5-6 nós lemos: “E disse eu: ponham-lhe um turbante limpo sobre a cabeça. Puseram-lhe, pois, sobre a cabeça um turbante limpo e o vestiram com trajes próprios; e o Anjo do Senhor estava ali, protestou a Josué e disse: […]”. A palavra hebraica que é utilizada para turbante é tsaniph (צניף). Apesar desta palavra ocorrer poucas vezes e em um contexto de festa, outro substantivo derivado da mesma raiz, mitsnefet (מצנפת) é um termo técnico para designar especificamente a mitra sacerdotal (que aparece cerca de 12 vezes no Antigo Testamento) em textos como Êxodo 28:37 (aqui referindo-se ao diadema que ficaria enrolado no turbante), além de outras 10 vezes em Êxodo e Levítico, e uma vez em Ezequiel 21:26, onde também há uma referência ao diadema. Ou seja: as referências de Zacarias 3 ao santuário continuam de maneira evidente. O sétimo verso é uma confirmação da aliança com vocábulos semelhantes aos de Levítico 26 e Deuteronômio 28-30 e uma promessa de que o purificado e justificado por DEUS poderia julgar nos átrios celestiais: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Se andares nos meus caminhos e observares os meus preceitos, também tu julgarás a minha casa e guardarás os meus átrios, e te darei livre acesso entre estes que aqui se encontram.” Neste texto outros indícios do sacerdócio e do Dia da Expiação são evocados: intercessão e juízo.  Isto porque, ao entrar no santuário no Dia da Expiação e dirigir o serviço litúrgico, o sumo-sacerdote representava todo Israel e, portanto, intercedia por ele (Levítico 16:11, 16 + 19), mas também, por se tratar de um dia de purificação... leia mais

#107

Zacarias 3:1 começa dizendo: “Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do Anjo do Senhor, e Satanás estava à mão direita dele, para se lhe opor”.  A imagem que o profeta está passando é a de um julgamento onde há o juiz (Anjo do Senhor), o acusador (Satanás) e o acusado (Josué, o sumo sacerdote). A presença do Anjo do Senhor e de Satanás deixa nítido que a cena se passa em um plano celestial. No verso dois aparece: “Mas o Senhor disse a Satanás: O Senhor te repreende, ó Satanás; sim, o Senhor, que escolheu a Jerusalém, te repreende; não é este um tição tirado do fogo?” Parece haver uma clara ligação entre o Anjo de Senhor (malach Yhwh – מַלְאַ֣ךְ יְהֹוָ֑ה) do verso primeiro e o próprio Senhor do segundo verso (Yhwh – יְהֹוָ֑ה).  Quanto ao “tição tirado do fogo”, podem-se fazer duas inferências interessantes: uma diz respeito ao cativeiro babilônico, ou seja, Israel havia sido liberto do cativeiro por DEUS (o cativeiro neste caso pode ser literal ou espiritual, visto ser Babilônia também um símbolo do pecado, muito embora pelo contexto histórico de Zacarias é mais comum inferir-se um contexto literal de cativeiro); outra diz respeito ao serviço do santuário, mais especificamente às brasas que ficavam sob o altar de incenso. Algo que também chama a atenção é que, no Dia da Expiação, Yom Kippur, o sumo-sacerdote deveria retirar as brasas do altar e colocá-las no incensário e levá-las para além do véu (Levítico 16:12-13).  O terceiro verso: “Ora, Josué, trajado de vestes sujas, estava diante do Anjo” é interessante porque coloca... leia mais

#106

“aparta de ti esse vinho…” 1 Samuel 1:14 Abro este texto com um pensamento de Kierkegaard: “Os escribas e Fariseus se tornaram tão santos, e santas as pessoas sempre se tornam quando elas divinizam a ordem estabelecida, até que sua adoração faz de DEUS um tolo: debaixo da premissa de adoração e honra a DEUS, eles adoram a sua própria invenção [a ordem estabelecida].” O problema de Kierkegaard não era apenas de seu tempo. É nosso, também. É da igreja cristã moderna. É do Israel da antiguidade. Qual problema? A ordem, a organização estabelecida por homens debaixo da premissa da realização do trabalho de DEUS, é, na realidade, voltada apenas para interesses próprios. Anos após a decadência espiritual de Israel descrita no livro de juízes, Israel se encontra desolada. O autor de 1 e 2 Samuel compara a situação de Israel à incapacidade de Ana gerar filhos. Israel é como seu ventre: um território infrutífero. A liderança espiritual de Israel se encontra tão corrompida quanto a nação, mas estão fartos, estão satisfeitos, estão acomodados. O autor sutilmente mostra esta realidade em 1 Samuel 1:9: “Eli, sacerdote, estava sentado num trono junto a um pilar no templo do Senhor.” O uso da palavra trono (no hebraico kisse) neste contexto chama à atenção. A liderança espiritual se tornara liderança política. O assento do sacerdote se transformou em trono. A marca da corrupção espiritual tanto nos tempos de Eli, como nos tempos de Kierkegaard e hoje, é a mudança “assento” para “trono”. Interesses pessoais, corruptos, gananciosos, cobertos de prerrogativas e linguajares religiosos, são mais importantes do que os seres humanos a quem... leia mais

#105

“Lembra-te de mim, quando te for bem…” Gênesis 40.14 José é um personagem atípico. Enquanto todos os patriarcas antes dele tiveram contato direto/vísivel com DEUS, José não teve esta mesma experiência. É como se José fosse um prenúncio daqueles que mais tarde seriam reconhecidos como os que “não viram e creram”. Ao mesmo tempo, a Bíblia não registra nenhum pecado específico ou falha pública cometida por José. A tentativa de achar um pecado sequer na vida de José sempre será frustrada. Normalmente leitores se limitam em reconhecer que ele era mimado e que falava dos erros de seus irmãos ao seu pai. Elie Wiesel observa que “Jacó não recusava nada a José. Ele era dono das roupas mais bonitas, pois ele gostava de ser considerado gracioso e elegante. Ele tinha fome por atenção. Ele sabia que era o favorito e frequentemente se gabava disto… Arrogante, vaidoso, insensível aos sentimentos de outras pessoas, dizia livremente o que lhe vinha à cabeça [e por isso] foi odiado, maltratado e finalmente vendido pelos seus irmãos.” Estes aparentes problemas familiares saciam a sede do leitor de fazer com que José se pareça com qualquer um de nós. E a intenção, na verdade, é esta, mesmo. As tentativas de encontrar qualquer pecado ou desvio de caráter na vida de José são, no fundo, tentativas de humanizar o personagem que, do modo como é apresentado e descrito na narrativa de Gênesis, é perfeito. Mas, afinal, em que aspecto José é como um de nós? Depois de ser vendido por seus irmão, depois de percorrer todo o caminho ao Egito, depois de ser vendido como escravo,... leia mais

#104

“…a paz que carrego é uma carta que não fala nada de mim.” (Cartão Postal, Lorena Chaves e Marcos Almeida) Das palavras hebraicas que os cristãos em geral conhecem, שָׁלוֹם (shalom) talvez seja uma das mais populares. Lembro-me de, quando criança, cantar uma canção que dizia “Shalom, meu amigo, Deus é contigo até o fim”. Nessa música, a expressão funciona como um cumprimento, desejando paz. Cristãos sabatistas às vezes incorporam a expressão judaica Shabbat Shalom que é correspondente ao nosso “Feliz Sábado” ou “Bom Sábado” e expressa a satisfação do descanso sabático. Ou seja, usamos shalom para paz e também para prosperidade. Schökel define shalom como “paz, tranquilidade, serenidade, calma, concórdia; prosperidade, bem-estar, felicidade, sossego.” Ele ainda destaca que os conceitos de paz e prosperidade são inclusivos, se complementam, às vezes enfatizando um ou outro, mas sempre juntos. Outros dicionários acrescentam ainda significados como “completude” e “integridade”, que resgatam o significado da raíz da palavra, שָׁלַם (shalam). Shalom é mais do que paz/tranquilidade/calma e mais do que prosperidade/bem-estar. Shalom é completude. Paz completa. Exatamente por conta desta profundidade de significado que pode ter parecido absurdo o que Deus ordenou que Jeremias dissesse ao povo exilado na Babilônia na carta do capítulo 29 do livro do profeta. Jeremias ainda estava em Jerusalém e endereçou a carta aos cativos que foram levados por Nabucodonosor junto com “o rei Jeconias, a rainha-mãe, os oficiais, os príncipes de Judá e Jerusalém e os carpinteiros e ferreiros”(Jeremias 29:2). Esta investida da Babilônia é narrada em 2 Reis 24 e 2 Crônicas 36 e já havia sido prevista pelo profeta. Nabucodonosor havia levado parte da... leia mais

#103

“E disse a mulher para Elias: agora sei disso: tu és homem de DEUS e a palavra de YHWH[1] na tua boca é verdade.” (1 Rs. 17:24) A análise da narrativa de 1Reis 17 apresenta um mesmo tema repetido duas vezes, o sustento. O autor começa o capítulo com o discurso do profeta Elias para o rei Acabe dizendo que as chuvas cessariam, o que remete as maldições da aliança presentes no livro de Levítico e de Deuteronômio. Nesse discurso alguns elementos são importantes para a narrativa: a expressão חַי־יְהוָה אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל, (Tão certo como vive YHWH, DEUS de Israel) e o uso da conjunção אִם (se). Após a fala do profeta ao rei, vem a palavra de DEUS (v.2) e dá a Elias uma ordem de partir para o ribeiro de Querite e onde será sustentado por corvos. A construção do discurso divino é: צִוִּיתִי לְכַלְכֶּלְךָ (Determinei te sustentar). DEUS determina aos corvos que sustentem Elias. Esse primeiro ato termina com a agua do ribeiro acabando. O autor repete muitos elementos no segundo momento da história. Essa segunda seção começa com a palavra de DEUS novamente vindo a Elias (v. 8) com uma nova ordem para partir, agora em direção a Sarepta. Ele também determina uma viúva para sustentar Elias (צִוִּיתִי לְכַלְכֶּלְךָ). Elias parte e chegando lá se encontra com a viúva e pede água e pão, e em um discurso bem similar ao de Elias ela usa a frase חַי־יְהוָה אֱלֹהֶיךָ (tão certo como vive YHWH, teu DEUS) e a conjunção אִם (se). O autor parece repetir os mesmos elementos para induzir o leitor a imaginar que... leia mais

#102

Como vimos no texto anterior (#101), em Isaías 54:8, DEUS diz a Jerusalém: “em um momento de cólera, escondi de ti o rosto, mas logo me compadeci de ti, levado por amor eterno”. Um dos verbos que marcam o livro de Isaías é o verbo “esconder” (סתר, “esconder”). Não somente isso, mas, dos profetas da Bíblia Hebraica, Isaías é um dos que mais utiliza o verbo associado à palavra “face” (“escondi de ti o rosto”/ histartî pānay – פָנַ֥י הִסְתַּ֨רְתִּי). Para a elucidação desta expressão convém irmos a Êxodo 33. De particular importância na relação entre “face” (na sua forma plural, pānîm – פָּנִ֣ים) e DEUS, o capítulo 33 parece fazer parte de uma unidade (capítulos 32 a 34), que trata, dentre outras coisas, de modos diferentes da presença de DEUS no meio do povo de Israel. Após a destruição do bezerro de ouro e a punição do povo, DEUS promete enviar “seu mensageiro” (malʾāḵî yēlēḵ lep̱āneyḵā – מַלְאָכִ֖י יֵלֵ֣ךְ לְפָנֶ֑יךָ – 32:34) diante da “face” de Moisés. Por mais que tenha prometido não abandonar o povo, a presença por meio de seu mensageiro aparentemente não é vista como algo que encerra o assunto da presença de DEUS para Moisés. Na tenda da congregação, Moisés usa da oportunidade de falar com DEUS face a face (pānîm ʾel-pānîm – פָּנִ֣ים אֶל־פָּנִ֔ים – 33:11) para perguntar a DEUS quem ELE enviaria. Logo em seguida, DEUS responde: “minha presença irá contigo” (“minha face irá contigo” – פָּנַ֥י יֵלֵ֖כוּ – pānay yēlēḵû – verso 14). Assim, vemos que em Êxodo 33:14 e 15 pānîm serve para expressar um senso da presença pessoal de DEUS. Da mesma forma,... leia mais

#101

Em Êxodo 34:6, logo após Moisés interceder pelo povo depois do episódio do bezerro de ouro, Moisés afirma que DEUS é “compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade”. Dentre as palavras e expressões em referência ao ETERNO ‘erekh ‘apayim (אֶ֥רֶךְ אַפַּ֖יִם), traduzida como longânimo, merece especial atenção. Literalmente, ‘erekh ‘apayim tem o sentido de “nariz longo” ou “respiração longa”. Enquanto a raiva é caracterizada por uma respiração violenta, tal expressão está associada à ideia de paciência quanto à ira. Em Naum 1:6 lemos: “quem pode suportar sua indignação? E quem subsistirá diante do furor da sua ira? A sua cólera se derrama como fogo, e as rochas são por ele destruídas […]”. Ao ouvir sobre tão assombrosa ira divina, normalmente associamos tal imagem ao contexto humano que associa ira à perda de controle, compulsão ou algum tipo de perturbação momentânea da mente. A ira de DEUS, todavia, não acontece dentro dos limites da irracionalidade. Pelo contrário, parece que funciona como uma reação ocasionada pela conduta do homem. Não é uma ira explosiva e cega, mas, ao contrário, algo voluntário, com propósito. Uma espécie de indignação justa, como em Salmos 7:11: “DEUS é justo juiz, DEUS que sente indignação todos os dias.” Assim, por mais que o tópico da ira divina normalmente tenha uma atmosfera negativa na maioria de nossas discussões, tal tópico parece ser um álibi em meio a uma sociedade que sofre anestesiada. Em meio a tanta insensibilidade, a ira divina surge como um grito contra a indiferença ao mal [1]. A mensagem da ira divina inclui um chamado ao retorno. Em Jeremias 18:11 lemos:... leia mais

#100

A história é simples. Um pai e dois filhos. O mais moço pede a antecipação da herança e some no mundo. Vai morar em uma terra distante e, sem nenhuma inteligência, gasta tudo. A cidade em que ele decidiu viver é acometida por uma crise e ele passa fome. Certo dia, em meio a sua tragédia, “cai em si” e lembra: “os servos de meu pai tem fartura de pão” (verso 17). Surge uma idéia: “voltarei, reconhecerei meu erro e pedirei para ser recebido como servo”. Esse é um fragmento da narrativa do capítulo 15 do evangelho de Lucas. O texto revela vários aspectos curiosos da natureza humana e, talvez por conta disso, tenha se tornado tão emblemático para tantos pregadores. A narrativa da triste trajetória do filho segue até o momento em que o texto diz que, de tanta fome, ele “desejava comer o que os porcos comiam” (verso 16). Imediatamente após segue a fala do filho, “caindo em si” (verso 17)… Ele se lembra do pai porque tem fome. O pai, que outrora estava morto, passa a ter vida, porque a partir de agora o pai surge como solução para o seu problema. O que se segue é a formulação do discurso que legitimaria a volta: “pequei contra o céu e contra ti, já não sou mais digno de ser chamado teu filho” (verso 18). Ele tem fome, cai em si, e ensaia uma fala que pode funcionar. Está claro: a fome o desumaniza. O filho é incapaz de pensar no pai por qualquer outro motivo que não seja este: “na casa de meu pai os servos... leia mais