#139

“Tu és este homem.” 2 Samuel 12:7a   A narrativa dos dois livros de Samuel é marcada por duas quedas. No primeiro livro, a desobediência do rei Saul diante do pedido divino para aniquilar os Amalequitas em 1 Samuel 15; no segundo livro, a sequência de ações que levaram o rei David a matar um homem para ficar com sua esposa em 2 Samuel 12. Saul poupa a vida de um inimigo estrangeiro, contrariando a ordem divina; David, por sua vez, não poupa a vida de um estrangeiro amigo, contrariando a ordem da vida.   Kierkegaard no livro For Self Examination usa a narrativa da queda de David para fazer uma crítica aguda à maneira com que lemos o texto bíblico. David havia cometido um erro grave. Até a visita do profeta Natã, no entanto, a rotina seguia normalmente no palácio. É como se uma rotina estivesse encobrindo tudo o que fora feito, bom ou ruim. O profeta Natã sabia com quem estava lidando. O rei, além de guerreiro, era poeta, um pensador. E diante do poeta de Israel, Natã oferece, ironicamente, uma curta e trágica história:   “Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. O rico possuía muitíssimas ovelhas e vacas. Mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; e ela tinha crescido com ele e com seus filhos; do seu bocado comia, e do seu copo bebia, e dormia em seu regaço, e a tinha como filha. E, vindo um viajante ao homem rico, deixou este de tomar das suas ovelhas e das suas vacas para assar para o viajante que viera a...

#138

Depois da escolha de Arão e seus filhos como sacerdotes e da tribo de Levi como responsável pelo cuidado e manutenção do Santuário (ver Números 3-4) as leituras e discussões em torno do sacerdócio se resumem a exatamente isso: o que cada um fazia (com papel de destaque para o sumo-sacerdote).   Desta maneira alguns personagens –por exemplo Samuel que serviu como sacerdote (1 Samuel 2-3), ou de Salomão ao oferecer sacrifícios no Templo em sua inauguração (1 Reis 8)– são tratados como exceções ou problemas textuais. No Novo Testamento o próprio papel de Jesus como sacerdote é discutido, visto que ele não era descendente de nem de levitas, tampouco de Arão. Mesmo o famoso texto de sua relação com Melquisedeque (Hebreus 5) é motivo de debate.   Entretanto, é importante notar algo anterior ao estabelecimento do Santuário: o destaque dado ao primogênito. Antes de chamar Israel de “reino de sacerdotes e nação santa”, DEUS o chama de primogênito (Êxodo 4:22). A última praga derramada no Egito, inclusive, possui essa mesma ligação com a primogenitura (Êxodo 12-13).   Na narrativa da construção do Santuário do deserto há uma passagem que também menciona os primogênitos, não só dos animais, mas dos filhos do povo. Quando o texto trata das festas que Israel celebraria, especificamente a Festa dos Pães Asmos (diretamente ligada com a Páscoa), DEUS deixa claro que todo primogênito é dEle: “Todo o que abre a madre é meu, o que abre a madre de vacas e ovelhas. O jumento, porém, que abrir a madre, resgata-lo-ás com cordeiro; mas, se não o resgatares, será desnucado. Remirás todos os primogênitos...

#137

Depois de selar sua aliança com o povo de Israel (Êxodo 19-24), constituindo-o como reino de sacerdotes e nação santa (vide texto #135), DEUS ordena e dá instruções a respeito da construção do tabernáculo (Êxodo 25-27), detalhando tanto a manufatura dos móveis como também da estrutura. Somente depois disso, a partir de Êxodo 28, que ELE vai estabelecer um sacerdócio para esse tabernáculo.   É interessante notar que em todas as ocorrências da palavra sacerdote (kōhēn –כֹּהֵן), ou mesmo da ideia de sacerdote, até este momento em nenhuma vez houve uma conexão espacial. O sacerdote estava relacionado à benção e dízimos (Melquisedeque, texto #134) e ao chamado para obediência (Israel). Agora, no contexto de Arão e seus filhos, o trabalho do sacerdote passa a estar conectado a um lugar: o tabernáculo.   O ofício sacerdotal ligado ao tabernáculo envolve uma grande variedade de coisas interessantes. Basicamente, Arão e seus filhos estariam responsáveis por todo o ritual que envolvia dois aspectos interligados: sacrifício e intercessão (Êxodo 29-30; Levítico 1-7). Esse ritual está conectado ao perdão de pecados, que são decorrentes da desobediência da lei. O sacerdote recebe o sacrifício do animal, o coloca sobre o altar de sacrifícios e depois adentra o chamado lugar Santo para interceder pelo pecador (ou sua família) no altar de incenso (essa obviamente é uma explicação breve e bem resumida). Em textos posteriores será trabalhada a dinâmica do serviço do tabernáculo e do santuário de maneira mais completa.   O trabalho do sumo-sacerdote e dos sacerdotes, no entanto, não se resumia a isso. Além de representar o povo diante de DEUS e o próprio DEUS...

#136

“[7]Persuadiste-me, ó Senhor, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu, e prevaleceste; sirvo de escárnio todo o dia; cada um deles zomba de mim. [8]Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do Senhor um opróbrio e ludíbrio todo o dia. [9]Então disse eu: Não me lembrarei dele, e não falarei mais no seu nome; mas isso foi no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; e estou fatigado de sofrer, e não posso mais. [10]Porque ouvi a murmuração de muitos, terror de todos os lados: Denunciai, e o denunciaremos; todos os que têm paz comigo aguardam o meu manquejar, dizendo: Bem pode ser que se deixe persuadir; então prevaleceremos contra ele e nos vingaremos dele. [11]Mas o Senhor está comigo como um valente terrível; por isso tropeçarão os meus perseguidores, e não prevalecerão; ficarão muito confundidos; porque não se houveram prudentemente, terão uma confusão perpétua que nunca será esquecida. [12]Tu, pois, ó Senhor dos Exércitos, que provas o justo, e vês os rins e o coração, permite que eu veja a tua vingança contra eles; pois já te revelei a minha causa. [13]Cantai ao Senhor, louvai ao Senhor; pois livrou a alma do necessitado da mão dos malfeitores.” Jeremias 20:7-13   A tensão relacionada a poder e domínio, no lamento de Jeremias 20:7-13, é desenvolvida por uma série de repetições de palavras, principalmente פתה (pātah – persuadir) e יכל (yākhōl – prevalecer/permanecer).   O profeta protesta contra a persuasão de DEUS (verso 7), contra qual ele não é capaz de prevalecer (verso 9). Os inimigos também esperam pela...

#135

Como visto no texto anterior, Melquisedeque, um rei caananita, é o primeiro sacerdote assim nomeado na Bíblia Hebraica. Depois dele, ainda em Gênesis, aparecerá um sacerdote de Om (capítulos 41, etc), sempre ligado à história de José no Egito. Em Êxodo, o primeiro sacerdote é Jetro, sogro de Moisés (Êxodo 3, etc) e é somente em Êxodo 19 que vemos a palavra “sacerdote” (כּהן) conectada a Israel de alguma maneira.   O contexto mais amplo envolve a libertação do Egito, os diversos milagres que DEUS operou com o povo ainda cativo (as pragas) e durante o início da peregrinação (maná, codornizes, vitória em guerras, etc). Agora, Israel está acampado na região do Sinai, quase 50 dias depois da Páscoa. Eles estão esperando, uma vez que a nuvem/coluna parou no alto de um monte (quando a nuvem parava, eles acampavam).   O contexto mais específico se refere à aliança que DEUS estava prestes a firmar com Israel. O texto de Êxodo 19 é justamente o início da seção da aliança, que depois segue com os 10 mandamentos, uma série de aplicações desses mandamentos e, por fim, o selamento dessa aliança em Êxodo 24. Basicamente, a chegada ao Sinai e tudo que acontece entre Êxodo 19-24, é uma espécie de ápice da formação de Israel e do seu relacionamento com DEUS. Já se tratou aqui, na Terceira Margem do Rio, do Decálogo (#85, #86 e #87). Agora, no entanto, o assunto é o chamado ao sacerdócio.   A fala divina começa com um lembrete da libertação maravilhosa e milagrosa provida por ELE a Israel quando da saída do Egito (19:4) e...

#134

O desenvolvimento da ideia de sacerdócio na Bíblia Hebraica é bem interessante e acrescenta camadas interpretativas que podem ajudar o leitor do Novo Testamento a entender diversas passagens relacionadas a Jesus ou mesmo ao notório “sacerdócio de todos os santos” (1 Pedro 2:1-10). A primeira figura sacerdotal bíblica é Melquisedeque. Em hebraico seu nome significa “rei justo”. Sua aparição é súbita e, de certa forma, intrusiva na narrativa de Abrão. Após vencer uma batalha importante contra diversos reis (Gênesis 14:1-16), o rei de Sodoma vai ao seu encontro (Gênesis 14:17) –lembrando que Abrão tinha ido lutar para libertar seu sobrinho, Ló, que morava em Sodoma– entretanto, de repente, antes desse encontro, aparece Melquisedeque. A narrativa do encontro do patriarca com o rei de Sodoma continua em Gênesis 14:21, mas em 14:18-20 temos essa intromissão, três versos em que um personagem é introduzido e, logo depois, desaparece. Sua aparição indica que ele era rei de Salém (da raiz “paz” – שלום) e sacerdote do DEUS Altísissimo (Gênesis 14:18). Vários aspectos curiosos saltam do texto: 1) o primeiro sacerdote que aparece na Bíblia Hebraica, um kōhēn (כֹּהֵן), é um rei de um povo canaanita, que não parece estar ligado a Abrão e sua linhagem; 2) a maneira como ele, Melquisedeque, é relacionado a DEUS é genérica (não usa o tetragrama sagrado – יהוה) e ainda com terminologia canaanita “altíssimo” (‘elyôn – עֶלְיוֹן). No entanto, o mais curioso é realmente a sequência em que Melquisedeque fala e o fato de Abrão responder com uma ação inédita: E ele o abençoou e disse: “Abençoado seja Abrão pelo Deus Altíssimo, criador* dos céus e...