#184

1 Ora, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar. 2 Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinar; e habitaram ali. 3 E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. 4 Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. 5 Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; 6 e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. 7 Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. 8 Destarte, o SENHOR os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade. 9 Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra e dali o SENHOR os dispersou por toda a superfície dela. (Gênesis 11:1-9)   A narrativa de Gênesis 11:1-9, que conta o episódio referente à torre de Babel, apresenta algumas curiosidades.   Primeira coisa importante: Babel e Babilônia são a mesma coisa. São apenas versões lingüísticas distintas em línguas diferentes, do mesmo modo que Genéve (francês), Genebra (português) e Genf (alemão) são maneiras diferentes de se referir a uma mesma cidade. Não se sabe ao certo porque nas...

#183

A palavra grega pathos, comumente traduzida como “paixão”, não possuía conotação positiva em suas primeiras figurações. A ideia de pathos implicava para os gregos em um estado ou condição na qual algo acontece ao ser humano, algo do qual ele é uma vítima passiva.    O termo foi aplicado a emoções como “dor” por se acreditar que estes estados eram frutos de ações externas ao ser humano. Isso produzia a noção de que aquela pessoa estaria controlada por aquela paixão. A pessoa afetada estaria, assim, em uma relação de dependência. Esse estado era considerado como um sinal de fraqueza, já que a dignidade do homem envolvia o controle de suas emoções através da razão. O homem vulnerável a essa emoção adquiria status de doente (o que é patológico se refere à doença).    Contudo, no texto bíblico, nitidamente a fonte do mal não se encontra na emoção, no coração inflamado[1]. Pelo contrário, o mal está associado à dureza de coração, indiferença e insensibilidade. Ao invés de obliterar essa realidade, os escritores bíblicos, muitas vezes, consideram estas emoções como sendo inspiradas e/ou até divinas; afinal, o envolvimento emocional e a participação apaixonada são partes inevitáveis da existência religiosa.   Os salmos estão carregados de emoção, os profetas são inundados pela paixão. Para alguns gregos, o estado ideal do homem era a apatia. Para o escritor bíblico, o estado ideal do homem é a simpatia.   Diferente da passividade compreendida pelos gregos, aquele que é invadido pela paixão divina, age. Como afirma o Salmo 111:10: “O temor do Senhor é o principio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam”....

#182

“Há mais ídolos do que realidades no mundo…” Friedrich Nietzsche   …e dentre esses inúmeros ídolos, um dos mais influentes e abrangentes é uma religiosidade e um discipulado divorciado das palavras de Jesus. Pois por mais que Jesus tenha deixado as diretrizes de como deveríamos viver enquanto discípulos, milhares de anos depois estamos discutindo estratégias, métodos e maneiras de discipular, de alcançar pessoas do mundo para atraí-las para dentro de nosso contexto.   E não me entendam mal, caros leitores. Não há nada de errado em pensar, em discutir estratégias e métodos; o problema aqui é transformar o que Jesus disse em algo que ele não disse. De fazer de nossas palavras as palavras de Jesus. De forjar uma imagem de discipulado de acordo com nossos ritos e costumes e dizer que “este é o deus que nos tirou da terra do Egito.” (Êxodo 32:4)   Antes de estratégias, antes de métodos, antes de entender cultura e sociedade precisamos entender a fria realidade de que só pode discipular quem já é discípulo. Entendam, a leitura dos Evangelhos limpa nossos olhos para nos dar as condições de enxergar o que é realidade e o que é idolatria. Entender que só pode discipular quem é um discípulo e discutir métodos é uma realidade. Discutir métodos sem entender ou ser um discípulo é idolatria.    Diante disso a questão seria: o que de fato qualifica alguém como discípulo, ou, o que é um discípulo?    A resposta pode ser variada pois cada Evangelho irá apresentar um ângulo diferente de Jesus e, consequentemente, o que significa seguir a Jesus será apresentado de forma...

#181

“E entrando na casa do fariseu, reclinou-se à mesa.” (Lucas 7:36)   Uma vida, um ministério, um discipulado marcado por correria e falta de tempo acaba matando a espiritualidade genuína. Eugene Peterson observa que uma vida/ministério/discipulado assim é essencialmente preguiçoso “pois é fazer o mais fácil ao invés do mais difícil… É encher nosso tempo com nossas próprias ações ao invés de prestar atenção na ação de DEUS.”    E isso é tão verdadeiro. A experiência religiosa de nossos dias é marcada por correria. É marcada pela urgência da breve volta de Jesus e nossa participação ativa nesse evento vindouro, pela luta incessante contra os nossos pecados e incoerências, pela busca de uma profunda e consequentemente longa devoção pessoal diária. Mas como não temos tempo, essa correria e essas inúmeras expectativas acabam, de fato, matando a verdadeira espiritualidade.    Jesus teve apenas três anos de ministério nessa terra, e no evangelho de Lucas existem pelo menos cinco instancias em que Jesus “se reclina” na mesa para comer com alguém (fariseus, discípulos, publicanos). O ministério de Jesus era marcado por momentos assim. Momentos à mesa com pessoas, momentos de oração longe das multidões, momentos de conversa ao andar por inúmeras estradas empoeiradas de Israel, momentos de aparente inatividade.   Tenho notado as consequências de uma vida de correria e de inúmeras tarefas no meu trabalho. Passei anos carregando o peso da correria, o peso de achar que trabalho contínuo resultaria em maiores resultados e na minha aceitação como “bom trabalhador”. Mas nesse semestre especificamente decidi mudar algumas coisas nesse cenário. Ao invés de fazer muito “por DEUS” decidi reduzir minhas...

#180

No relato da Criação, as primeiras palavras que DEUS dirige ao homem e à mulher são uma bênção cujo início abriga três imperativos: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra…” (Gênesis 1:28). Deste modo as criaturas são convocadas a expandir, por meio da atividade reprodutiva, a obra do Criador. A fala divina introduz o tópico da geração de descendentes, uma das linhas de força no livro de Gênesis, que atravessa suas narrativas e se torna ainda mais visível nas diversas genealogias descritas nele. Enquanto as listas genealógicas confirmam a multiplicação dos seres humanos ao exibir o desfile das gerações num ritmo linear, algo reforçado pelo caráter formulaico do registro, as narrativas patriarcais guardam uma circunstância que desafia o cumprimento daquele mandato inaugural: a presença recorrente da esterilidade. Esta condição desestabiliza a progressão natural desenhada nas genealogias, pois estabelece um limite incontornável à capacidade humana de gerar, solicitando, assim, uma intervenção divina.    Sarai é a primeira personagem bíblica apresentada como estéril (Gênesis 11:30), o que alimenta uma tensão formidável com o fato de seu marido Abrão receber a promessa divina de que ele seria o pai de uma grande nação (Gênesis 12:1-3)[1]. Ao longo da trajetória do casal, os dois se empenham em resolver essa questão, porém as sucessivas revelações de DEUS ao patriarca mostram que, a fim de concretizar o Seu anúncio inicial, Ele delineou uma resolução que não cabia nas possibilidades humanas. Para entender a singularidade da ação divina na gravidez de Sara[2], basta comparar as descrições que o narrador oferece acerca do processo de concepção em Gênesis 4, onde são registrados os primeiros nascimentos da história humana,...

#179

Quando falamos em “adoração”, nossa mente imagina um lugar de adoração a DEUS ou em um culto a DEUS. Pensamos assim porque, na Bíblia, a adoração está quase sempre relacionada à uma atitude de reverência a DEUS. No entanto, a palavra “adorar” não vem qualificada de sinceridade e boas intenções. “Adorar” não é um adjetivo; é um verbo que designa uma ação. Por isso, mesmo quando dizemos que vamos adorar, nossas intenções podem estar carregadas de orgulho e hipocrisia.    Por exemplo, quando os visitantes do Oriente chegaram a Belém da Judeia, eles disseram ter vindo para encontrar o menino rei e O “adorar”, no grego, proskynéō (Matheus 2:2). Por outro lado, Herodes também disse a eles que queria ir “adorar” o menino Jesus (Matheus 2:8). Todos pretendiam adorá-lO. Uns, com sinceridade de coração; Herodes, com aparência de adoração e falsa intenção de prestar culto.   Outro equívoco é pensar que a adoração tem lugar e hora marcados. Por isso, há pessoas que esperam chegar até ao local público de culto para, então, cultuar. A mulher samaritana também achava que a adoração tinha de ser feita em um lugar determinado (para os samaritanos, o local eram os montes Gerizim e Ebal) e argumentou com Jesus: “Nossos pais adoraram neste monte e você diz que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar” (João 4:20).   A resposta de Jesus desmonta a noção de que a adoração está ligada a um lugar fixo, a um modelo litúrgico, a um sistema eclesiástico ou a um dia de culto: “A hora vem em que nem neste monte nem em Jerusalém adorarão...