#189

Em 1 Reis 17:1 lemos pela primeira vez na Bíblia a respeito de Elias. Sua aparição é abrupta. O texto relata que Elias se apresenta diante do rei Acabe (rei de Israel) e afirma: “Tão certo como vive o Senhor, DEUS de Israel, perante cuja face estou, nem orvalho nem chuva haverá nestes anos, segundo a minha palavra.”    Já nesse primeiro versículo muitos detalhes importantes saltam aos olhos. Primeiro, o fato de não recebermos nenhuma informação a respeito do papel que Elias desempenhava na sociedade israelita, somente que ele era “tesbita, dos moradores de Gileade”. E é desta maneira que este desconhecido ao leitor, surge diante do rei, e anuncia uma grande seca.   A história continua e nos versos 2-6 lemos um novo episódio deste capítulo. A palavra do SENHOR vem a Elias, refrão que se repete ao longo do capítulo, ordenando que ele vá à torrente de Querite, fronteira do Jordão. Sem questionar, ele obedece. Lá, Elias tem acesso à água e é alimentado por DEUS através de corvos que o visitam duas vezes no dia.   Contudo, de maneira surpreendente, no verso 7, lemos que a torrente se secou, porque não chovia sobre a terra. Mais uma vez, vem a palavra do SENHOR a Elias, e lhe ordena que vá à Sarepta, onde uma mulher lhe daria comida. Elias, sem questionar, obedece.   Contudo, antes de partir para o episódio seguinte do mesmo capítulo, é fundamental analisarmos algo propositalmente não mencionado até então. A região de Sarepta, pertencente a Sidom, era um local com grande concentração de adoradores de Baal. Apesar de, ao começar o...

#188

A respeito das guerras descritas na Bíblia Hebraica, é importante primeiro entender algo sobre o mandamento “não matarás”. Em Êxodo 20:13 é uma das estipulações da aliança entre DEUS e Israel. Um dos fatores diferenciadores dessa estipulação de um corpus legal típico do Antigo Oriente Médio (AOM) é a ausência de explicação do assunto bem como da pena para a transgressão. Além disso, o termo usado na passagem específica é o verbo raṣah (רצח) que, de acordo com estudiosos do hebraico, traz a ideia de matar com uso de força. é importante notar que esse verbo não aparece em contexto de mortes em batalha ou em defesa própria, muito menos em casos de suicídio. O verbo é usado em diversos contextos, mas o que parece ser sua tônica é um crime contra a vida de alguém dentro da comunidade (mesmo que não do povo). Ou seja, as mortes ocorridas em guerras não pertencem a esse mandamento.   As guerras, por sua vez, não eram empreendidas pelo povo de DEUS para estabelecer sua religião, e sim para julgar a maneira vil com que os povos viviam (ver Gênesis 15:15-16, por exemplo). Os comportamentos canaanitas são vastamente conhecidos pelos historiadores. Eles podem não ter sido o povo mais violento e promíscuo da face da terra, mas com certeza não eram vítimas inocentes. A resposta simples aqui é: não é uma religião que legitima uma guerra; mas a justiça divina sim (ver Amós 1-2, por exemplo).   Outro aspecto importante é entender que as guerras que Israel empreendia eram dirigidas por DEUS e conduzidas do Seu jeito. Um exemplo de quando isso...

#187

Depois da reflexão a respeito da memória (ou a falta dela), o Pregador passa a falar de si mesmo. O maior e mais irrefutável argumento de sua conclusão inicial –tudo passa e, por isso, nada vale a pena– é a sua própria jornada. A primeira parte de sua jornada é dedicada à sabedoria. Ele a buscou e a encontrou: “Eis que me engrandeci e sobrepujei em sabedoria a todos os que antes de mim existiram em Jerusalém” (Eclesiastes 1:16). Sua conclusão, no entanto, é de que a sabedoria aumenta a dor (Eclesiastes 1:18), o que parece ecoar em uma música popular brasileira: “pena não ser burro, assim não sofreria tanto”.    A segunda parte da jornada é dedicada ao trabalho. O pregador realizou muita coisa. Na verdade, o verbo “fazer” (עשה) aparece 7x em Eclesiastes 2:4-11. A conclusão é semelhante, pois o trabalho não satisfaz e também não permanece. O trabalho não dá יתרון (ver texto anterior). Sabedoria e trabalho não permanecem debaixo do sol.   Depois dessa descrição pessoal de sua jornada em busca do que permanece, o Pregador retoma parte do argumento inicial: não há memória de nada. Tanto sábio quanto ignorante morrerão do mesmo jeito e ninguém se lembrará de ambos (Eclesiastes 2:12-17). E as obras que fizemos, as coisas que construímos serão deixadas como herança para alguém que ele não tem como prever ser sábio ou ignorante (Eclesiastes 2:18-19), alguém que não fez nada para receber aquilo e que talvez não lhe dê valor (Eclesiastes 2:21).   No fim, o maior inimigo da memória é a morte. O Pregador vê que a morte iguala a...

#186

Eclesiastes é um livro que chama muito à atenção. O pregador (qohelet) fala à congregação (qahal) sobre suas impressões acerca da existência. Sua fala inicial, no verso 2, é carregada de uma negatividade profunda: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador, vaidade de vaidades, tudo é vaidade”.   A palavra para vaidade é הבל, que significa vapor, fumaça, efemeridade. הבל é algo passageiro, que começa e logo termina. Seu primeiro uso na Bíblia Hebraica (BH) é como substantivo próprio, o nome Abel (Gênesis 4), narrativa tratada diversas outras vezes nesse site. Seu uso na BH é relativamente curto, em torno de 70 vezes, sendo que em Eclesiastes ela ocorre quase 40 vezes, ou seja, para este livro é tremendamente importante. O superlativo no hebraico, “vaidade de vaidades”, acontece 7 vezes, 2 vezes logo no segundo verso do livro.    Tudo é passageiro, tudo acaba, ainda que injustamente (a relação com a história de Abel é profunda). A afirmação categórica do Pregador precede à pergunta básica e que dá rumo a tudo que será escrito/pregado depois. A pergunta é: “Qual é o ganho para o homem de todo o seu trabalho em que trabalha debaixo do sol?” (Eclesiastes 1:3)   Em primeiro lugar, em uma observação mais simples, nota-se que o Pregador restringe o universo da sua pergunta ao “debaixo do sol”. Essa expressão, que ocorre exclusivamente em Eclesiastes, aponta para o fato do Pregador não estar preocupado com o metafísico ou transcendente; sua pergunta se restringe a seu universo observável. Naquilo que posso ver, naquilo que consigo aferir, sem levar em conta o intangível e imponderável, qual é o ganho?...

#185

Dando seqüência às reflexões a respeito de Gênesis 11:1-9, existem incontáveis maneiras de dividir a estrutura desse texto, algumas mais mirabolantes do que outras. Sem recorrer a muita forçação de barra e se mantendo dentro de um nível de razoável consenso no meio acadêmico, chegamos à seguinte estrutura: ABXB’A’ (tipo os EPs de OS ARRAIS)   A – vv1-2 narrativa B – vv3-4 fala direta (homem) X – vv5 centro da narrativa B’ – vv6-7 fala direta (DEUS) A’ – vv8-9 narrativa   Há, aqui, pelo menos 4 ironias que podem ser identificadas no texto:   1.) O que os seres humanos não queriam? Ser espalhados por toda a terra. O que acontece no final? São espalhados por toda a terra.   2.) O que os seres humanos queriam com a construção da cidade e da torre? Chegar até aos céus. E o que acontece duas vezes na narrativa? DEUS desce. Primeiro pra ver, porque a cidade e a torre eram tão pequenos que “lá de cima” ELE sequer as conseguia ver. Depois, novamente, pra confundir a sua linguagem.   3.) O que mais os seres humanos queriam? Eles queriam “fazer um nome para si”. Ao DEUS confundir as línguas, os nomes de todas as coisas mudam. Ao ponte de sequer conseguirem se comunicar.    4.) Babel, na verdade, não significa “confusão”. Bab significa “porta” ou “portal” e “EL” significa “DEUS”. Os pós-diluviando denominaram sua cidade “a porta de DEUS” ou “o portal para DEUS”. A palavra em hebraico para confusão é balal. É como se o escritor bíblico quisesse criar uma equivalência: querer se babel (porta para DEUS)...

#184

1 Ora, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar. 2 Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinar; e habitaram ali. 3 E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. 4 Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. 5 Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; 6 e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. 7 Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. 8 Destarte, o SENHOR os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade. 9 Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra e dali o SENHOR os dispersou por toda a superfície dela. (Gênesis 11:1-9)   A narrativa de Gênesis 11:1-9, que conta o episódio referente à torre de Babel, apresenta algumas curiosidades.   Primeira coisa importante: Babel e Babilônia são a mesma coisa. São apenas versões lingüísticas distintas em línguas diferentes, do mesmo modo que Genéve (francês), Genebra (português) e Genf (alemão) são maneiras diferentes de se referir a uma mesma cidade. Não se sabe ao certo porque nas...