#202

Como foi visto em um texto anterior, a estrutura de Gênesis 1:3 a 31 aponta para uma unidade coesa entre os seis dias, que formariam um bloco indivisível. Essa unidade literária é quebrada no início de Gênesis 2, quando o autor não utiliza nenhum refrão anterior. Ainda que retome alguns verbos (“criar”, “fazer”, “abençoar”) e a expressão “céus e terra”, há uma clara cisão textual que marca o sétimo dia:   E terminou os céus e a terra e todo seu exército. E terminou Deus no dia sétimo o seu trabalho que tinha feito E descansou no sétimo dia de todo o seu trabalho que tinha feito E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou Porque nele descansou de todo o seu trabalho que tinha criado Deus para fazer [1]   Durante todo o relato, as ações de DEUS são dirigidas à criação. Há sempre algo acontecendo que envolve os três elementos de Gênesis 1:2 – terra desértica e sem vida; escuridão; águas. Aqui, em Gênesis 2:1-3, entretanto, a ação não possui ligação com o que é criado, pois a criação está terminada. A ação está relacionada ao próprio DEUS. No sétimo dia, diferentemente dos outros seis, Ele faz algo em relação a si mesmo: descansa.   Como se lê acima, o sábado é abençoado e santificado em virtude da ação de DEUS de descansar. O verbo usado aqui, שׁבת (šbt), tem seu significado relacionado à ação de cessar alguma atividade. Essa cessação, no entanto, não implica em uma simples pausa momentânea, mas no fim de todas as ações relacionadas a cessação: “A referência é consistentemente à cessação...

#201

“A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes instruções: pregai que está próximo o reino dos céus.” Matheus 10:5, 7   Lucas 12:35-48 narra a parábola do servo vigilante. Jesus abre a história dizendo: “cingido esteja vosso corpo, e acesas as vossas candeias… sede vós semelhantes a homens que esperam pelo seu senhor, ao voltar ele das festas de casamento; para que quando vier a bater à porta, logo lha abram. Bem-aventurados aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontre vigilantes.”    Uma má compreensão do que significa o Reino nos Evangelhos pode causar sérios problemas de interpretação textual assim como problemas na vivência do Evangelho. Para muitos o Reino é equivalente ao céu e atuar pelo Reino na terra é equivalente à devoção pessoal, e atuação individual e comunitária em igrejas. Curiosamente não haviam igrejas ainda durante a vida de Jesus (muito menos manuais de devoção pessoal) e pouco do que ele disse se aplicava ao que hoje entendemos por igreja (prédios com paredes e bancos e/ou instituições religiosas), mas quando o conceito de Reino nos Evangelhos é interpretado como uma realidade futura, o que segue fatalmente será confusão.   Se o Reino é uma realidade futura, o presente serve apenas para meu preparo espiritual para “não perder” o Reino futuro. Quando projetamos o Reino como uma realidade futura interpretamos nossa vida de discipulado como uma vida de preparo para o futuro. Buscamos construir nossa relação com DEUS pelo viés de inúmeras disciplinas espirituais que nos manterão debaixo daquilo que pensamos ser a vontade de DEUS: ir a cultos, orar sem cessar (literalmente), nos afastar de...

#200

É fim de primeiro semestre de 2016, sala do curso de teologia, 3º ano. Um professor, dos que mais admiro, reúne a turma para assistir a um filme: Spotlight. Um drama biográfico a respeito da equipe de jornalismo investigativo do The Boston Globe, laureada com o Prêmio Pulitzer por Serviço Público em 2003 por despir ao mundo o sistemático acobertamento dos casos de pedofilia no interior das paróquias de Boston. O que mais me marcou em todo o filme foi a frase dita por uma personagem, justificando o silêncio da comunidade (que estava ciente dos casos, mas que os ignorava pelo papel social que a Igreja desempenhava nela): “É preciso um bairro inteiro para abusar de uma criança.”   Isso jamais saiu de minha cabeça e me ensinou algo que considero universal: para exercer violência, basta ser humano. O debate que segue, no contexto eclesiástico, portanto, é desafiador, mas necessário: Somos nós também, enquanto comunidade religiosa, capazes deste tipo de corporativismo? A resposta a essa pergunta tem dois “sim”; um evidentemente negativo e outro positivo (e até mesmo indispensável).   Começo pelo segundo “sim”. Ele decorre de um aspecto essencial da literatura profética bíblica: a vulnerabilidade. Aparentemente, ser vulnerável é parte inerente de ser profeta. O profeta, mais que aquele que revela o futuro, é aquele que vê o que DEUS vê e diz o que DEUS quer dizer. Durante esse processo o profeta, enquanto indivíduo, muitas vezes não entende nem concorda com o que DEUS mostra. Ele testemunha daquilo que vê enquanto ao mesmo tempo protesta contra aquilo que vê: mais usualmente, violência praticada no meio e por...

#199

Durante as últimas semanas (e muito provavelmente pelas próximas duas também) a tensão no país parece impossível de ser ignorada. Apesar do Brasil ser um país em que não há furacões, terremotos ou tsunamis e em que o fundamentalismo religioso diga respeito mais à estética do vestuário e/ou cabelos compridos que por genocídios, a violência difundida através das redes sociais ou em grupos de whatsapp nesses últimos dias tem sido tão assustadora quanto as catástrofes acima mencionadas.    Semelhantemente às torcidas organizadas de futebol, o “nós” versus “eles” parece estar ameaçando o verdadeiro valor do ser humano. Ao reduzirmos pessoas a partidos políticos e candidatos, temos repetido o padrão de interações visível, por exemplo, no trânsito: se eu sou motociclista, obviamente, os carros, os ônibus, e os pedestres são um problema para o bem-estar da minha locomoção; se sou taxista, os carros de passeio são descuidados; se sou ciclista, falta cidadania aos outros. Coincidentemente, todos erram e, desgraçadamente, apenas eu sei dirigir. Assim, nasce o ódio.    Como diz o historiador Leandro Karnal[1]: “Ao vociferar contra os outros, o ódio também me insere numa zona calma. Se berro que uma pessoa x é vagabunda porque nasceu na terra y, por oposição estou me elogiando, pois não nasci naquela terra nem sou vagabundo”. Não tenho certeza se sou muito bom, mas sei que o outro partido é muito ruim, logo, ao menos, sou melhor do que eles.   O problema desse ódio, que nada mais é do que um autoelogio, é a falsa certeza e a falaciosa autoconfiança que dele provém. No final das contas, ambas corroem o diálogo. Afinal,...

#198

A palavra Bíblia significa, literalmente, livros. Um aspecto curioso é que esse conjunto de livros chamado “Livros” também está cheio de referências a livros. Em Deuteronômio lemos que Moisés escreveu um cântico e o livro da lei (ver os textos 130 e 131); em Jeremias há o livro (rolo), contendo palavras de Jeremias que é destruído pelo rei de Judá (ver os textos 25 e 115); há o livro que Ezequiel deve comer; os livros abertos diante do trono do Ancião de dias em Daniel; o livro que é doce e amargo em Apocalipse; o livro das bênçãos e maldições citado também por Daniel em sua oração; etc.   Há também uma série de ordens para que coisas sejam escritas e mesmo menções de algo ser escrito: é dito que Moisés escreveu os mandamentos (na segunda vez); que Baruque escrevia o que Jeremias ditava; o rei Davi escreve uma carta que acaba por levar Urias à morte; há uma mão misteriosa escrevendo em uma parede no livro de Daniel; o profeta Daniel diz ter escrito exatamente o que viu em visão; Jesus escreve no chão ao ser testado no episódio da mulher adúltera; o próprio DEUS aparece escrevendo em pedra em Êxodo.   Fora isso, há os diversos textos em que livros são lidos diante do povo, que os escuta, como em Êxodo, Josué, Reis, etc. Claramente a ideia da palavra escrita é importante na Bíblia. Deuteronômio 28:58-59 alerta que a leitura do livro é o que os manteria longe da apostasia e manteria a aliança. Obviamente não só a leitura, mas a ação decorrente dessa leitura. O livro...

#197

No texto anterior (#196), foi apontada a ênfase bíblica na ideia da palavra escrita e sua leitura. Uma outra ênfase interessante na Bíblia é contar e repetir. É uma espécie de modelo alternativo para a leitura. Em Êxodo 12 e em Deuteronômio 6, no estabelecimento da Páscoa, por exemplo, as comemorações futuras deveriam precisamente conter o ato de contar toda a história da Páscoa para as crianças. Basicamente, a observância plena da Páscoa incluía a repetição da história da Páscoa para que todos soubessem o porquê daquela celebração.   Em Êxodo 12:26-27 a forma desse estatuto está resumida, enquanto em Deuteronômio 6:20-24 está mais expandida. Tanto em uma quanto em outra, no entanto, a história não deve ser contada como um ensinamento, uma aula. Não deve ser contada à revelia da vontade da criança, como se fosse uma obrigação. Nos dois textos é a criança que deve perguntar primeiro. A ideia do contar não está associada ao “falar ao vento”, mas, sim, ao desejo de ouvir e saber mais. Possivelmente, ao observar todos os preparativos e as festividades envolvidas na festa da Páscoa, a criança sentiria curiosidade e então perguntaria aos pais sobre tudo aquilo.   Como já visto em outro momento (textos #12 e #26), Páscoa é memória. Ao recontar a história, inclusive, deve-se colocar em primeira pessoa do singular ou do plural: “quando DEUS nos tirou do Egito”, “eu era escravo no Egito”, etc. Sem a repetição da história, não há memória e, portanto, não haverá significado para o presente.   Não há nada místico nesse contar e repetir. Há apenas o fator identitário. A história dos...