#162

“Quão silencioso terá sido este mar; quão preparado para o assombro da palavra!” George Steiner   No texto Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem Walter Benjamin afirma que no “haja” e no “Ele chamou” presentes nos primeiros versículos de Gênesis 1, vemos uma clara relação entre o ato criador e a linguagem. Tudo começa com a onipotência criadora da linguagem divina, e ao final, a linguagem incorpora a si o criado, ela o nomeia. Para Benjamin:   “Em DEUS o nome é criador por ser palavra, e a palavra é saber por ser nome. ‘E DEUS viu que isso era bom’, isto é: Ele conheceu pelo nome. A relação absoluta do nome com o conhecimento só existe em DEUS, só nEle o nome, porque é intimamente idêntico à palavra criadora, é puro meio do conhecimento. Isso quer dizer: DEUS tornou as coisas cognoscíveis ao lhes dar nomes. Mas o homem só nomeia as coisas na medida em que as conhece.”[1]   Em outras palavras, o homem é aquele que conhece na língua em que DEUS cria. Sua essência é a linguagem em que ocorreu a criação. Contudo, de acordo com Gênesis, ao criar o homem, DEUS não o cria a partir da palavra, e ele não o nomeia. DEUS pôs no homem a linguagem que Lhe havia servido como meio da criação. DEUS descansou após depositar no homem seu poder criador. Em Gênesis 2:19-20a lemos: “Havendo, pois, o senhor DEUS formado da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e...

#160

“É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” Gênesis 3:1   Gênesis 2 antecipa muitos dos temas que serão centrais na narrativa do capítulo seguinte. Em Gênesis 2, DEUS faz homem, animais e árvores do solo e da terra. Na narrativa da queda em Gênesis 3 animais, humanos e árvores serão personagens principais. Quando DEUS planta um jardim para o ser humano em Gênesis 2 o texto indica algumas peculiaridades importantes para o desenvolvimento da narrativa. Esses detalhes podem parecer, em uma primeira leitura, aparentemente descritivos. O verso 9 indica que “do solo Deus fez brotar toda sorte de árvores agradáveis (do verbo chamad, desejável) à vista, e boas (tov, bom) para alimento.”   Gênesis 3 desenvolve a idéia da queda e da introdução do pecado no mundo não como uma ação pontual de Adão e Eva, mas como um processo que inclui inúmeras ações resultando na expulsão do jardim e uma vida longe do ideal divino para o ser humano.   Por mais que para muitos o pecado de fato ocorre apenas quando a mulher come do fruto proibido, a narrativa parece indicar uma complexidade maior para o debate e da elaboração do que significa “pecado” em Gênesis 3 (curioso notar, inclusive, que a palavra “pecado” sequer é mencionada).   “Pecado” em Gênesis 3, e no decorrer de toda a Bíblia, é um processo. O processo começa no nível epistemológico. Na avaliação de possíveis interpretações da realidade (no caso da narrativa da queda, a palavra de DEUS sobre a árvore e a palavra da serpente). Quando a serpente, contrariando DEUS, indica que o...

#159

Abraão recebeu a visita de DEUS em sua tenda e comeram juntos um cordeiro com coalhada (Gênesis 18:7-8). Depois a conversa entre eles se estendeu para a reafirmação da aliança, com a promessa de que Sara e ele, Abraão, realmente teriam um filho no ano seguinte (Gênesis 18:9-10). Os diálogos em Gênesis 18:9-14 lembram muito Gênesis 17, com diversos ecos, incluindo a risada duvidosa da promessa, tanto de Abraão (Gênesis 17:17), quanto de Sara (Gênesis 18:13).   Depois desse papo, o narrador apresenta algo raro na narrativa, um diálogo interno do próprio DEUS. Essa fala interna já apareceu em um momento crucial, Gênesis 8:21-22 na história de Noé. Aqui, DEUS se questiona se deveria ocultar algo do Seu eleito, se deveria conversar a respeito de tudo, já que o escolheu para praticar a justiça e o juízo, abençoando as nações da terra (Gênesis 18:17-19). A fala de DEUS consigo mesmo é irônica, principalmente pelo diálogo que se segue, onde DEUS diz a Abraão que vai verificar se Sodoma e Gomorra são tão pecadores quanto se tem dito. DEUS, aparentemente, vai investigar se as alegações de prática pecaminosa lá correspondem a verdade (Gênesis 18:20-21). Ora, DEUS não precisaria investigar nada, como de fato acontece na sequência, quando os dois seres angelicais descem até Sodoma e vão até a casa de Ló (Gênesis 19).   Abraão havia libertado o rei de Sodoma e seus habitantes de um cativeiro, história narrada em Gênesis 14. Agora, algumas décadas depois (talvez duas), DEUS resolve destruir as duas cidades. O diálogo entre Abraão e DEUS depois do anúncio de destruição é particularmente interessante, pois aponta...

#157

[Obs.: Neste último final de semana a Terceira Margem do Rio participou de uma vigília organizada pela IASD central de Taguatinga. Tiago Arrais falou a respeito de sola scriptura e, mais tarde, cantou algumas de suas canções; Edson Nunes falou de sola gratia; Lucas Iglesias falou de sola fide e solus Cristus; Leonardo Gonçalves falou de soli Deo gloria e cantou duas canções em hebraico; Felipe Valente também cantou; e tivemos a participação especial de Gabriel Iglesias, que apresentou algumas de suas canções. O ingresso para este evento havia sido estipulado em forma de alimentos não perecíveis que seriam doados para um assentamento do MATR (Movimento de Apoio ao Trabalhador Rural) que regularmente é atendido e assistido por voluntários da IASD central de Taguatinga. Pedimos para que pudéssemos pessoalmente participar da entrega destes alimentos. Ao chegarmos no local, a situação era calamitosa; faltava água e não se sabia quando um carro pipa poderia suprir as necessidades mais básicas e para piorar, um dos membros daquela comunidade, Antônio, havia acabado de falecer. Fizemos uma pequena programação para os membros daquela comunidade que não foram ao enterro de Antônio. Visitamos a viúva, Geralda, que acabara de retornar do funeral de seu marido, e, em uma pequena capela em que não caberiam mais de 20 pessoas, cantamos alguns hinos e Lucas orou por ela e sua família. O texto que segue é fruto destes acontecimentos.]   Hoje orei com quem ficou. Dura é a dor de ficar ao ver partir. Em toda perda, por mais que uma parte de nós também se vá, sofremos com a aridez do ficar. O dia da...

#156

A narrativa do dilúvio está em duas seções dentro do primeiro livro da Bíblia. A primeira parte aparece no final da terceira seção de Gênesis, que se iniciou em Gênesis 5:1 (“Este é o livro da genealogia[1] de Adão”) e compreende uma espécie de anúncio de enredo, terminando em Gênesis 6:8. A segunda parte está na quarta seção de Gênesis, começando em 6:9 e terminando em 9:29.   O que conecta uma parte à outra é, obviamente, o personagem Noé. Noé é apresentado duas vezes de maneira breve, antes de se tornar o centro das atenções da narrativa que começa em Gênesis 6:9 (“Eis a história[2] de Noé”). Em sua primeira apresentação, na genealogia de Adão, seu nome é explicado por seu pai, Lameque: “Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o SENHOR amaldiçoou” (Gênesis 5:28).   Noé, cujo nome significa “descanso” (da raiz nḥ) carrega a esperança de seu pai de que ele traga descanso da maldição dada por DEUS em Gênesis 3:17-19. Depois dessa primeira apresentação, o estado da terra nos dias de Noé é descrito em Gênesis 6:1-7. Basicamente o que se pode resumir é que havia intensa promiscuidade e violência. A narrativa em Gênesis 6:11-12, por exemplo, ratifica esse estado constante de violência com a construção frasal “estava cheia de violência” e com “pois corrompida está toda carne do seu caminho sobre a terra”.   A descrição negativa de Gênesis 6:1-7 culmina numa declaração em que o personagem Noé é novamente introduzido: “E Noé achou graça nos olhos de Deus” (Gênesis 6:8). Essa declaração soa fora de...