#185

Dando seqüência às reflexões a respeito de Gênesis 11:1-9, existem incontáveis maneiras de dividir a estrutura desse texto, algumas mais mirabolantes do que outras. Sem recorrer a muita forçação de barra e se mantendo dentro de um nível de razoável consenso no meio acadêmico, chegamos à seguinte estrutura: ABXB’A’ (tipo os EPs de OS ARRAIS)   A – vv1-2 narrativa B – vv3-4 fala direta (homem) X – vv5 centro da narrativa B’ – vv6-7 fala direta (DEUS) A’ – vv8-9 narrativa   Há, aqui, pelo menos 4 ironias que podem ser identificadas no texto:   1.) O que os seres humanos não queriam? Ser espalhados por toda a terra. O que acontece no final? São espalhados por toda a terra.   2.) O que os seres humanos queriam com a construção da cidade e da torre? Chegar até aos céus. E o que acontece duas vezes na narrativa? DEUS desce. Primeiro pra ver, porque a cidade e a torre eram tão pequenos que “lá de cima” ELE sequer as conseguia ver. Depois, novamente, pra confundir a sua linguagem.   3.) O que mais os seres humanos queriam? Eles queriam “fazer um nome para si”. Ao DEUS confundir as línguas, os nomes de todas as coisas mudam. Ao ponte de sequer conseguirem se comunicar.    4.) Babel, na verdade, não significa “confusão”. Bab significa “porta” ou “portal” e “EL” significa “DEUS”. Os pós-diluviando denominaram sua cidade “a porta de DEUS” ou “o portal para DEUS”. A palavra em hebraico para confusão é balal. É como se o escritor bíblico quisesse criar uma equivalência: querer se babel (porta para DEUS)...

#184

1 Ora, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar. 2 Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinar; e habitaram ali. 3 E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. 4 Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. 5 Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; 6 e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. 7 Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. 8 Destarte, o SENHOR os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade. 9 Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra e dali o SENHOR os dispersou por toda a superfície dela. (Gênesis 11:1-9)   A narrativa de Gênesis 11:1-9, que conta o episódio referente à torre de Babel, apresenta algumas curiosidades.   Primeira coisa importante: Babel e Babilônia são a mesma coisa. São apenas versões lingüísticas distintas em línguas diferentes, do mesmo modo que Genéve (francês), Genebra (português) e Genf (alemão) são maneiras diferentes de se referir a uma mesma cidade. Não se sabe ao certo porque nas...

#183

A palavra grega pathos, comumente traduzida como “paixão”, não possuía conotação positiva em suas primeiras figurações. A ideia de pathos implicava para os gregos em um estado ou condição na qual algo acontece ao ser humano, algo do qual ele é uma vítima passiva.    O termo foi aplicado a emoções como “dor” por se acreditar que estes estados eram frutos de ações externas ao ser humano. Isso produzia a noção de que aquela pessoa estaria controlada por aquela paixão. A pessoa afetada estaria, assim, em uma relação de dependência. Esse estado era considerado como um sinal de fraqueza, já que a dignidade do homem envolvia o controle de suas emoções através da razão. O homem vulnerável a essa emoção adquiria status de doente (o que é patológico se refere à doença).    Contudo, no texto bíblico, nitidamente a fonte do mal não se encontra na emoção, no coração inflamado[1]. Pelo contrário, o mal está associado à dureza de coração, indiferença e insensibilidade. Ao invés de obliterar essa realidade, os escritores bíblicos, muitas vezes, consideram estas emoções como sendo inspiradas e/ou até divinas; afinal, o envolvimento emocional e a participação apaixonada são partes inevitáveis da existência religiosa.   Os salmos estão carregados de emoção, os profetas são inundados pela paixão. Para alguns gregos, o estado ideal do homem era a apatia. Para o escritor bíblico, o estado ideal do homem é a simpatia.   Diferente da passividade compreendida pelos gregos, aquele que é invadido pela paixão divina, age. Como afirma o Salmo 111:10: “O temor do Senhor é o principio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam”....

#182

“Há mais ídolos do que realidades no mundo…” Friedrich Nietzsche   …e dentre esses inúmeros ídolos, um dos mais influentes e abrangentes é uma religiosidade e um discipulado divorciado das palavras de Jesus. Pois por mais que Jesus tenha deixado as diretrizes de como deveríamos viver enquanto discípulos, milhares de anos depois estamos discutindo estratégias, métodos e maneiras de discipular, de alcançar pessoas do mundo para atraí-las para dentro de nosso contexto.   E não me entendam mal, caros leitores. Não há nada de errado em pensar, em discutir estratégias e métodos; o problema aqui é transformar o que Jesus disse em algo que ele não disse. De fazer de nossas palavras as palavras de Jesus. De forjar uma imagem de discipulado de acordo com nossos ritos e costumes e dizer que “este é o deus que nos tirou da terra do Egito.” (Êxodo 32:4)   Antes de estratégias, antes de métodos, antes de entender cultura e sociedade precisamos entender a fria realidade de que só pode discipular quem já é discípulo. Entendam, a leitura dos Evangelhos limpa nossos olhos para nos dar as condições de enxergar o que é realidade e o que é idolatria. Entender que só pode discipular quem é um discípulo e discutir métodos é uma realidade. Discutir métodos sem entender ou ser um discípulo é idolatria.    Diante disso a questão seria: o que de fato qualifica alguém como discípulo, ou, o que é um discípulo?    A resposta pode ser variada pois cada Evangelho irá apresentar um ângulo diferente de Jesus e, consequentemente, o que significa seguir a Jesus será apresentado de forma...

#181

“E entrando na casa do fariseu, reclinou-se à mesa.” (Lucas 7:36)   Uma vida, um ministério, um discipulado marcado por correria e falta de tempo acaba matando a espiritualidade genuína. Eugene Peterson observa que uma vida/ministério/discipulado assim é essencialmente preguiçoso “pois é fazer o mais fácil ao invés do mais difícil… É encher nosso tempo com nossas próprias ações ao invés de prestar atenção na ação de DEUS.”    E isso é tão verdadeiro. A experiência religiosa de nossos dias é marcada por correria. É marcada pela urgência da breve volta de Jesus e nossa participação ativa nesse evento vindouro, pela luta incessante contra os nossos pecados e incoerências, pela busca de uma profunda e consequentemente longa devoção pessoal diária. Mas como não temos tempo, essa correria e essas inúmeras expectativas acabam, de fato, matando a verdadeira espiritualidade.    Jesus teve apenas três anos de ministério nessa terra, e no evangelho de Lucas existem pelo menos cinco instancias em que Jesus “se reclina” na mesa para comer com alguém (fariseus, discípulos, publicanos). O ministério de Jesus era marcado por momentos assim. Momentos à mesa com pessoas, momentos de oração longe das multidões, momentos de conversa ao andar por inúmeras estradas empoeiradas de Israel, momentos de aparente inatividade.   Tenho notado as consequências de uma vida de correria e de inúmeras tarefas no meu trabalho. Passei anos carregando o peso da correria, o peso de achar que trabalho contínuo resultaria em maiores resultados e na minha aceitação como “bom trabalhador”. Mas nesse semestre especificamente decidi mudar algumas coisas nesse cenário. Ao invés de fazer muito “por DEUS” decidi reduzir minhas...