#197

No texto anterior (#196), foi apontada a ênfase bíblica na ideia da palavra escrita e sua leitura. Uma outra ênfase interessante na Bíblia é contar e repetir. É uma espécie de modelo alternativo para a leitura. Em Êxodo 12 e em Deuteronômio 6, no estabelecimento da Páscoa, por exemplo, as comemorações futuras deveriam precisamente conter o ato de contar toda a história da Páscoa para as crianças. Basicamente, a observância plena da Páscoa incluía a repetição da história da Páscoa para que todos soubessem o porquê daquela celebração.   Em Êxodo 12:26-27 a forma desse estatuto está resumida, enquanto em Deuteronômio 6:20-24 está mais expandida. Tanto em uma quanto em outra, no entanto, a história não deve ser contada como um ensinamento, uma aula. Não deve ser contada à revelia da vontade da criança, como se fosse uma obrigação. Nos dois textos é a criança que deve perguntar primeiro. A ideia do contar não está associada ao “falar ao vento”, mas, sim, ao desejo de ouvir e saber mais. Possivelmente, ao observar todos os preparativos e as festividades envolvidas na festa da Páscoa, a criança sentiria curiosidade e então perguntaria aos pais sobre tudo aquilo.   Como já visto em outro momento (textos #12 e #26), Páscoa é memória. Ao recontar a história, inclusive, deve-se colocar em primeira pessoa do singular ou do plural: “quando DEUS nos tirou do Egito”, “eu era escravo no Egito”, etc. Sem a repetição da história, não há memória e, portanto, não haverá significado para o presente.   Não há nada místico nesse contar e repetir. Há apenas o fator identitário. A história dos...

#196

Desde que se começa a estudar literatura, ainda nas aulas de Língua Portuguesa do agora Ensino Fundamental, um destaque importante é dado ao autor e ao momento histórico em que ele viveu ao escrever sua obra literária. Muitas vezes as aulas de Literatura, tanto no Ensino Médio, quanto na Faculdade de Letras, se tornam mais uma análise de contextos socioeconômicos e históricos do que análise literária propriamente dito. É evidente que isso tem o seu valor. A história de vida do autor, seu lugar de origem, o país em que vivia, as circunstâncias sociais, tudo isso pode ajudar a entender melhor a obra, ou nuances dela.    Por exemplo, saber que Ferreira Gullar estava exilado quando escreveu o famoso Poema Sujo é vital para entender o final dele, principalmente. Depois de anos fora do Brasil, morando em Moscou, Santiago e Lima, ele estava em Buenos Aires quando finalizou o poema com as palavras:    cada coisa está em outra de sua própria maneira e de maneira distinta de como está em si mesma   a cidade não está no homem do mesmo modo que em suas quitandas praças e ruas   A cidade –o Rio de Janeiro– estava com ele, nele, ainda que ele estivesse em outra cidade, mas ao mesmo tempo não estava. Essa leitura baseada no contexto e que está presente no poema, pode auxiliar na compreensão, mas não revela uma conclusão mais aprofundada: o poeta está no poema e o poema está nele, mas de maneiras distintas.   Quer dizer, o contexto histórico, socioeconômico, etc., me ajuda a entender literatura, mas não resolve tudo. Se uma...

#195

Voltando a falar de genealogias (como no texto 169), a fala de Lameque referindo-se ao nascimento do seu filho Noé é, em si, uma forte quebra da estrutura textual da genealogia de Gênesis 5. A construção das genealogias nesse capítulo é repetida e funciona da seguinte maneira: um personagem vive tantos anos e gera um filho, depois que gerou o filho, vive mais tanto tempo e tem filhos e filhas, todos os seus dias são apresentados e então é dito que ele morre. Há apenas duas exceções: Enoque (Gênesis 5:21-24) e Lameque (Gênesis 5:28-31).    Acerca de Enoque o texto diz que ele andou com DEUS e Este o tomou (lqḥ) para Si. A segunda vez em que o verbo lqḥ aparece, tendo DEUS como sujeito e o homem como objeto, quebra a estrutura da genealogia e parece antecipar algo exatamente pela referência a Gênesis 2:15, a primeira vez em que DEUS lqḥ um homem.   A sequência genealógica volta ao normal, com Matusalém, para então sofrer nova quebra com o nascimento de Noé, de quem é dito: “Pôs-lhe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o Senhor amaldiçoou.” (Gênesis 5:29)   Essa frase contém alguns elementos de destaque. Primeiro, é a segunda vez em que a raiz nûaḥ (descansar) aparece, sendo a primeira exatamente em Gênesis 2:15. Em 2:15 é o verbo usado para a ação divina de colocar (ou, literalmente, descansar) o homem no jardim e em 5:29 é o nome do filho de Lameque. As duas quebras de estrutura genealógica em Gênesis 5...

#194

“…é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha…” Matheus 19:24   Jesus termina o discurso do sermão da montanha com uma série de paralelos. Duas estradas, duas árvores, dois fundamentos. Por séculos autores de diferentes tradições e culturas tentaram decifrar a primeira série de paralelos: porta e caminho. O desafio do texto é simples: não existe um precedente próximo que esclareça o que significa a porta estreita e o caminho estreito assim como a porta larga e o caminho largo já que porta e caminho são introduzidos no discurso apenas no final. Com os paralelos que seguem esse problema não existe. As árvores representam indivíduos que produziriam ou não bons frutos, isto é, ações em harmonia com a vontade do Pai. Os dois fundamentos Jesus também explica: os que ouvem as palavras e não praticam são como o homem que constrói no fundamento instável da areia, e o homem que constrói na pedra representa aqueles que ouvem e praticam as palavras de Cristo.   E aqui estamos, diante de duas portas e dois caminhos, sem uma explicação de Jesus. A falta de um esclarecimento fez e faz com que muitos se sintam livres para inferir no texto aquilo que consideram mais importantes dentro de suas respectivas teologias/sistemas/cosmovisões pessoais. Eis aqui o perigo de toda teologia: falar de DEUS de modo à prioridade ser uma consonância com meu sistema teológico ao invés de uma coerência com o texto em si.   O texto de mateus 7:13-14 diz: “Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz para a perdição, e são muitos...

#193

No texto anterior foi feito um breve retrospecto dos encontros entre DEUS e Abrão, da evolução da promessa contida naquela aliança e das implicações da decisão de Sarai e Abrão de envolverem Agar neste contexto. Além disso, pincelou rapidamente a providência de DEUS na vida da escrava egípcia que, naquele momento, estava vulnerável dentro de uma relação de dominação.   Após a promessa feita para Agar (Gênesis 16:10-12), a narrativa segue com um novo encontro entre DEUS e Abrão. O capítulo 17 do livro de Gênesis revela uma série de nuances que mereceriam uma abordagem mais ampla, portanto, longe da pretensão de dar conta desta complexidade, gostaria de propor uma observação sobre alguns aspectos do referido capítulo.    Primeiramente DEUS novamente repete a promessa, afirmando que Abrão seria pai de muitas nações (versos 2-4) e muda seu nome para Abraão. O mesmo acontece com Sarai, que passa a ser chamada Sara. Na Bíblia, a mudança do nome possui várias implicações. Em muitas situações, por exemplo, o nome aponta para um fato na história do personagem, evidenciando que a partir daquele acontecimento o indivíduo experimentaria um outro sentido de vida. Este aspecto fica claro na narrativa quando DEUS dá o nome Isaque (aquele que ri) num contexto em que Abraão cai sobre seu rosto e ri (verso 17). Por motivos óbvios, é no mínimo engraçado imaginar que um homem de cem anos e uma mulher de 90 anos teriam condições de gerar um filho, principalmente levando em consideração o agravante de que Sara era estéril. Ou seja, aqui o nome do filho conta um fato marcante na trajetória dos pais...