#145

“…eu sou o homem solitário de Deus…” Travis Bickle em Taxi Driver   Taxi Driver é provavelmente considerado um dos três melhores filmes do diretor Martin Scorcese. Sua peculiaridade em relação aos outros filmes do diretor e até mesmo dos demais filmes de Hollywood dos anos 70 se dá pela harmonia incrível entre o roteiro (escrito por Paul Schrader) e a maneira como Scorcese desenvolveu e escolheu as imagens do mundo do protagonista, Travis Bickle (interpretado pelo famoso Robert De Niro). Tendo em vista que este é um filme dedicado a desenvolver o conceito de solidão, as primeiras imagens já mostram o mundo de Travis: ou dentro das paredes metálicas de seu taxi, ou em seu pequeno apartamento com travas de ferro nas janelas. Quer seja na rua ou em casa Travis vive aprisionado em sua própria solidão. Ele conversa consigo mesmo, escreve em seu diário, e durante o filme todo esboça algumas das razões que construíram sua condição: os males da sociedade nova-iorquina. Travis encontra fora de si mesmo a raiz de sua condição solitária. Quer seja com uma loira educada e trabalhadora ou com uma loira drogada e prostituta Travis falha em conseguir se conectar a outros seres humanos. Incapaz de lidar com sua realidade, ou de até mesmo compreender que suas observações do mundo se dão por suas próprias escolhas e não por influência externa, Travis decide agir. A última cena do filme registra um estouro de violência ao Travis tentar resgatar uma prostituta de seus donos e acaba por se tornar um herói para a mesma sociedade de que antes se distanciava.   O que...

#144

“Já naquela altura, depois de tanto abuso, era impossível distinguir homem do porco.” Orwell, A Revolução dos Bichos.   “A Revolução dos Bichos de Orwell” junto com “1984” quase podem ser considerados livros proféticos. Além de esclarecerem nuances de males muitas vezes imperceptíveis de governos e regimes políticos ao redor da Segunda Guerra Mundial, as idéias imersas nesses livros anteciparam tendências que seriam marcantes na sociedade e na política tempos depois. No caso de “A Revolução dos Bichos”, uma das idéias centrais é a forma como revoluções pontuais carregam o risco de voltarem atrás nos princípios básicos que as originaram. Os animais da Fazenda Manor decidem se rebelar contra seus donos humanos, e na promessa de ordem e progresso, acabam numa situação muito pior do que antes pela ganância dos porcos (que se tornaram os líderes da revolução). A ganância dos humanos, no fim do livro, é bem menor do que a ganância dos porcos. Os abusos dos humanos no começo do livro são menores do que os abusos dos animais no fim do livro e, como na frase acima, a situação chega ao ponto de ser impossível distinguir entre humano e animal. No livro, a revolução atinge sua maturidade quando se torna moralmente igual ao objeto de seu ataque original. Orwell aqui toca numa veia central da conduta humana: a ilusão dos grandes discursos e a fragilidade da fé no próprio ser humano.   A Bíblia desenvolve a mesma temática em diversos livros e histórias. A narrativa de David no livro de 1-2 Samuel é terreno fértil para traçar um paralelo entre as Escrituras e Orwell. Muito embora...

#143

“A minha graça te basta […]” 2Co 12:9   Dentre os vários personagens em O Idiota, de Dostoiévski, o príncipe Michkin merece destaque. A sociedade de São Petersburgo, da qual ele faz parte, é por Dostoiévski retratada como trivial e superficial. Afetação e pose são epidêmicas entre pessoas que se avaliam mutuamente pela quantidade de dinheiro que possuem, pelo tipo de famílias das quais se originam e pelas pessoas que conhecem. O príncipe é recebido em seus salões com cautela, apenas devido à possibilidade de ter conexões com a nobreza. Mas desde o início é alvo de suspeitas. Ignorando a importância dos nomes e da posição social, obviamente não se encaixa.   Desde o início, o príncipe dá a todos a impressão de ser simplório e ingênuo. Ele passa a impressão de não saber como o mundo funciona. As pessoas supõem que ele não possui experiência nas complexidades sociais. É um inocente em relação ao mundo real. Um idiota.   Contudo, pouco a pouco, sem que ninguém saiba explicar o que está acontecendo, o príncipe se torna a pessoa mais importante para essa gente, gente obsessiva e louca por fama, sexo ou dinheiro. Em várias situações, pessoas se interessam por ele afim de usá-lo. Mas ele não é “usável”. Porque ele não é bom em nada, ele simplesmente é bom. No meio da loucura de intrigas de pessoas lutando pelos seus objetivos, ele emerge como alguém importante apenas por sua humanidade. Nastácia Filipovna, das figuras psicologicamente mais intrigantes do romance (uma espécie de Maria Madalena, uma mulher atormentada pelos seus próprios demônios, e explorada pela sociedade), tem na pessoa...

#142

“…elas [as classes baixas] crescerão… com um ódio ‘instintivo’ aos livros e às flores.” O Diretor em “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley   No livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley o mundo pós-utópico descrito pelo autor é marcado por manipulações genéticas que conduzem e determinam a procriação humana e a condicionam ao lema globalista do estado mundial: comunidade, identidade, estabilidade. Seres humanos, já antes de nascerem, possuem função, personalidade e um lugar específico na sociedade (lugar este que são estimulados a valorizar e amar). Curiosamente, as classes baixas, neste estado mundial, são determinadas –através de diversos métodos aparentemente comportamentalistas– a desenvolverem ódio e rejeição a livros e flores. Nas palavras do diretor de “Incubação e Condicionamento” a rejeição aos livros faria com que as classes mais baixas não tivessem acesso ao conhecimento/sabedoria e a rejeição às flores, por sua vez, faria com que as classes baixas se concentrassem no trabalho nas fábricas e não em distrações da natureza.   Huxley se encaixa em um grupo de autores que “profetizaram” certas características que hoje estão presentes no mundo moderno, antes que estas características existissem. Autores como Ray Bradbury (Farenheit 451) e George Orwell (1984) anteciparam, décadas atrás em suas respectivas obras, muito do que hoje é a realidade ao nosso redor. Parte da razão do porque a Bíblia continua –para a Terceira Margem do Rio– um objeto de estudo fascinante mesmo milênios depois de sua elaboração se dá por esta mesma característica: a habilidade de descrever e antecipar de fato quem o ser humano é e/ou passaria a ser.   O texto de Gênesis 1-2, por exemplo, delineia...

#141

“A vida acaba onde o ‘Reino de Deus’ começa.” Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, 30.   Um dos textos mais estranhos na Bíblia Hebraica é Êxodo 24:8. Depois de DEUS miraculosamente libertar o povo de Israel do Egito, depois de DEUS cuidar do povo no deserto, depois de DEUS fazer conhecidas suas “palavras”, Moisés ouve da boca de DEUS o que é conhecido como “o livro da aliança”. Várias leis são estabelecidas visando o futuro do povo e suas relações com as nações vizinhas, e no fim desse discurso, em Êxodo 24:3, o povo responde positivamente ao que DEUS estabelece com as seguintes palavras: “Tudo o que o Senhor tem falado faremos.” Após essa afirmação, a aliança entre DEUS e o povo é ratificada através de sacrifícios, e finalizado com um rito atípico, que é quando chegamos ao texto estranho de Êxodo 24:8: “Então tomou Moisés aquele sangue, e espargiu-o sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor tem feito convosco sobre todas estas palavras.” O sangue dos sacrifícios é aspergido sobre o povo. Mantenha isso em mente.   N. T. Wright no livro How God Became King identificou bem um problema que ignoramos. Se fôssemos convocados a contar a história dos Evangelhos de forma resumida, a história provavelmente seguiria (como no Credo de Nicéia): “Jesus nasceu, Jesus viveu, Jesus morreu, e Jesus ressuscitou.” Curiosamente, não é assim que os Evangelhos (especialmente os Sinóticos) apresentam a história. Wright argumenta corretamente que a idéia central dos Evangelhos é falar sobre o Reino de Deus. E de fato, uma leitura rápida de Mateus já mostra a...