#167

“O essencial é invisível aos olhos”. Saint-Euxpéry   Considerando a presença do marcador textual Lech Lecha (sai-te) podemos dividir a narrativa abraâmica em pelo menos dois momentos cruciais, nos quais o verbo ra’ah (ver/olhar) desenvolve um papel estrutural.   Lech Lecha aparece pela primeira vez em Gênesis 12:1, texto no qual o ainda Abrão é convidado a participar de um movimento; movimento esse que parece ser do concreto para o não-concreto; do palpável para o intangível. Abrão é chamado a abandonar o seu passado: “sai da casa de teu pai” (Gênesis 12:1). Nesse sentido ele passaria a viver uma realidade bem próxima à de sua esposa, apresentada numa genealogia sem qualquer indicação de ancestralidade. Sarai não tem pai. É uma filha de ninguém. Exatamente o que Abraão passaria a ser.   A mesma expressão Lech Lecha reaparece em Gênesis 22 como uma espécie de revisitação do drama da primeira partida. Contudo, há uma mudança de perspectiva. Se por um lado, em Gênesis 12, Abraão deve se desenraizar de seu passado, em Gênesis 22, Abraão deve se desligar de sua única conexão com o futuro: Isaque, o filho da promessa. Ao matar Isaque, Abraão mataria sua descendência, sua promessa e sua história. Abraão sofreria um tipo de “esterilidade”, o que novamente traz a lume a imagem de Sarai: a mulher que era estéril e não podia ter filhos.   E é nesse contexto dramático que o verbo ra’ah assume o papel de criar: expectativa, conflito e resolução.   No primeiro caso o patriarca deve sair de casa por um motivo: uma terra que lhe será mostrada (ra’ah). O verbo “mostrar”...

#166

As “palavras de Amós” (1:1) são marcadas pelo sofisticado uso das raízes שׁוב (šwb) e הפך (hapak) e pela exaustiva repetição da sentença “assim diz” כֹּ֚ה אָמַ֣ר (kō ʾāmar) –um total de 15 aparições em todo o livro. Esta expressão figura mais de 480 vezes na Bíblia Hebraica e usualmente tem como sujeito יהוה (yhwh). Ela recebe o nome de fórmula do mensageiro em razão da proposição formal “assim diz o rei” כֹּ֚ה אָמַ֣ר הַמֶּ֔לֶךְ ‎(kō ʾāmar hammelek) praticada pelos arautos que eram enviados (šlḥ) a representá-lo (ver 2 Reis 1:11).   As 8 primeiras ocorrências seguem uma estrutura homogênea. Elas estabelecem uma progressão de intensidade às advertências de juízo a Damasco, Gaza, Tiro, Edom, Amom e Moabe, tendo por clímax Judá e Israel. Entre os vários marcadores repetidos, está a raiz שׁוב (šwb) “voltar, volver, virar-se”, apresentada aqui na forma causativa לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ (lōʾ ʾăšîbennû), literalmente: “não o farei voltar [castigo implicíto]”. Segue-se, portanto, a seguinte estrutura: “Assim diz o Senhor […] não retirarei (farei voltar) o castigo […]”:   1:3 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:6 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:9 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:11 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:13 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 2:1 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 2:4 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 2:6 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃   Ao final do capítulo 2 e início do 3 temos o resultado da progressão: o juízo incide agora com exclusividade sobre os “filhos de Israel”...

#165

Conforme já observado no texto #89, o livro de Jonas se destaca entre a literatura profética pela grande medida no uso do recurso da ironia. Elaborada com a intenção de ser reconhecida, a ironia constantemente convida o leitor para participar de sua percepção e construção. Dessa maneira, este recurso exige uma relação bem próxima entre o leitor e o texto, tornando o leitor em um participante ativo na história.   De forma geral, a ironia é composta por alguns requisitos básicos que facilitam seu reconhecimento; neste texto destaco o elemento da “oposição”. A oposição é, basicamente, incongruência articulada na distinção entre o que se espera e o que realmente acontece. E, claro, para o leitor atento, as incongruências não passam despercebidas. A seguir algumas delas:   Apesar de o livro já iniciar com uma série de expectativas frustradas, oposições e contrastes, a resposta de Jonas ao capitão do navio chama à atenção por ser a primeira fala do profeta no livro. Até então ele havia iniciado uma série de ações para “fugir da presença do SENHOR” (1:3), mas nada havia sido dito por ele. No entanto, em meio à sua fuga, sua primeira fala é: “Sou hebreu e temo ao SENHOR, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jonas 1:9).   Se não fosse pelo contexto, que linda profissão de fé! Jonas no meio da tempestade, entre os pagãos, dá seu testemunho. Declara pertencer ao povo escolhido e crer na onipotência de DEUS e em seu domínio sobre terra e mar. Contudo, esta declaração soa completamente estranha aos olhos do leitor que tem acompanhado o...

#164

Diz o Tolo em seu coração: não existe DEUS corrompem, fazem obra abominável. Não existe feitor bom. YAHWEH do céu olha contra os filhos dos homens para ver se existe sábio procurador de DEUS. Todos apóstatas juntos são corruptos. Não existe feitor bom não existe nem um. (Salmos 14:1-3).[1]   Os três primeiros versos do Salmo 14 iniciam revelando contrastes entre o tolo e o sábio. Apesar do salmo começar com a fala do tolo negando a existência de DEUS, essa negação não é feita abertamente, como fica claro pelo uso do substantivo prefixionado בְּלִבֹּו (no coração). O salmista aponta que o tolo não sai pelas ruas gritando para todos ouvirem que DEUS não existe, mas ele o diz para si mesmo. Ele nega a existência de DEUS dentro do seu coração. Ainda no primeiro verso do poema há uma conexão entre a fala do tolo com o ato de se corromper. Essa conexão parece ressaltar que a negação de DEUS, feita pelo tolo, não está operando no nível das palavras, mas no nível das ações, isto é, o tolo nega a DEUS através do que ele faz.   Neste salmo vê-se uma forte conexão entre o pensar e o agir. O que o tolo, segundo o salmo, pensa, tem influencia sobre o que ele faz. De modo contrário, se o tolo se envereda por caminhos corruptos e perversos, ele nega a realidade de DEUS. Nesse sentido, a pergunta levantada seria, “quem é o tolo?”. A resposta é bem simples, qualquer pessoa. Inclusive quem se auto-intitula parte do povo de DEUS (como inclusive parece ser um dos principais alvos da crítica do salmista)....

#163

“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim […]” João 17:20   Em João 17 vemos claramente pelo menos um conceito-chave da Reforma de maneira explicita: Soli Deo Gloria (glória somente a Deus). Contudo, antes de mais nada, vale contextualizarmos esta oração de Jesus. Em João 12:1-8 vemos componentes que são ecoados à frente nos capítulos 13-16. Jesus havia ceado em Betânia e, naquela ocasião, Maria lava os pés de Jesus e, por fim, narra-se a entrada triunfal em Jerusalém em que há a aclamação: “Hosana! Hosana! Rei de Israel!” Nos capítulos seguintes, Jesus ceia com os discípulos, lava seus pés e ouve, após a oração, a aclamação: “Crucifica-o! Crucifica-o!” (19:15). Aclamação esta voltada ao, como dizia a placa sobre a cruz, “Rei dos Judeus” (19:19). Os capítulos que antecedem a oração são marcantes para que possamos compreendê-la. Jesus termina seu ministério e, aparentemente, seus discípulos parecem não compreender nada do que se estava passando. Dos capítulos 13 a 16 ouvimos de discípulos diferentes (Pedro, João e Tomé) as perguntas:  “Lavar meus pés?”; “Quem vai te trair?”; “Para onde vais?”; “Como podemos saber o caminho se não dizes para onde vais?”. Isso sem contar pedidos como por exemplo o de Filipe: “Mostra-nos o pai”. Sem qualquer ansiedade, Jesus lhes responde conversando; uma conversa pessoal que se resume ao que vemos em João 16:12-30. A ideia de que embora ainda houvesse um longo caminho a percorrer, eles estavam no caminho. Assim, finalmente chegamos ao capítulo 17.   O capítulo 17 inicia com a afirmação: “[…] é chegada a hora”. Ouvimos que a hora...