#155

“Vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor.” Mateus 9.36   Nos últimos textos temos tratado da recorrente questão da falta de misericórdia, da falta de paciência, e de uma religiosidade que, embora se proponha altos ideais, na prática, deixa a desejar. Neste ano de 2017 são muitos os que celebram os 500 anos da Reforma Protestante, contudo, a junção de uma certa frustração religiosa com essa celebração gera sentimentos mistos e acaba produzindo em nós uma certa estranheza. Estranheza, porque o distanciamento do texto, dos conceitos e de uma visão verdadeiramente bíblica é tamanho que a celebração da Reforma é equivalente à celebração de um divórcio. A postura de algumas lideranças religiosas e de pregações em tom “profético” só agrava a situação. Por isso, ao celebrarmos a herança da Reforma, vale a pena ponderar alguns versos de Mateus 23, na tentativa de resgatar justamente o que dia após dia está sendo esquecido e perdido. Observe como cada frase de Jesus é carregada de relevância para os nossos dias de frustração e celebração. Verso 1: “Então falou Jesus à multidão, e aos seus discípulos…” O discurso inteiro será contra a postura dos líderes religiosos da época, porém é dirigido à multidão que seguia Jesus e aos seus próprios discípulos. O discurso é para as “ovelhas sem pastor” (ver Mateus 9:36 e Jeremias 23:1-6). Pessoas que, como Jeremias antecipa, seriam alvo da negligência de pastores. Verso 2: “…dizendo: Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus.” O assento de Moisés, obviamente, não é literal, mas figurativo. Moisés mesmo...

#140

“Escreveu na carta, dizendo: Ponde Urias na frente da maior força da peleja; e deixai-o sozinho, para que seja ferido e morra.” 2 Samuel 11:15   Davi estava desesperado. Suas tentativas de acobertar seu envolvimento com Bateseba haviam falhado. Ao ouvir que ela estava grávida (2Sm 11:5), Davi imediatamente envia mensageiros para que trouxessem Urias do campo de batalha. Ele se esforça para que seu soldado durma com a esposa a fim de que a gravidez de Bateseba passasse a ser atribuída ao próprio marido. Contudo, Urias não coopera.   Assim, Davi parte para uma segunda alternativa: Urias deve morrer. Ao afirmar que Urias deveria ser deixado numa posição mais vulnerável no campo de batalha (2Sm 11:15), aparecem no discurso do rei dois verbos marcantes nas narrativas sobre Davi: “ferir” (נכה) e “morrer” (מות). Esta mesma combinação, por exemplo, aparece em 1Sm 17:35 quando o jovem Davi tenta argumentar com o rei Saul, buscando uma permissão para enfrentar o gigante Golias, dizendo que quando apareceu um animal selvagem  ameaçando seu rebanho ele saiu atrás dele, “o feriu, e o matou” (וְהִכִּתִיו וַהֲמִיתִּיו). Ou também em 1Sm 17:50, em relação à própria batalha com Golias, onde é dito que Davi “prevaleceu contra o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e o feriu, e o matou”.   Curiosamente, quando não associadas à vida de Davi, as mesmas duas palavras aparecem, por exemplo, em 2Sm 3:27 ao Joabe vingar seu irmão Asael. Ou também em 2Sm 4:7 ao Recabe e Baaná tirarem a vida do inocente e justo Isbosete (2Sm 4:11).   Por fim, as mesmas palavras aparecem quando Absalão...

#124

Em O idiota, de Fiódor Dostoiévski, o Príncipe Míchkin, comentando sobre um tempo passado em uma aldeia remota de língua francesa, diz: “[…] seus pais ficaram zangados comigo porque, no fim das contas, as crianças não podiam passar sem mim e estavam sempre aglomeradas ao meu redor, e o mestre-escola acabou virando meu primeiro inimigo por causa das crianças. […] sempre me deixou perplexo a ideia de como os grandes conhecem mal as crianças, os pais e as mães conhecem mal até os próprios filhos. Não se deve esconder nada das crianças sob o pretexto de que são pequenas e ainda é cedo para tomarem conhecimento. Que ideia triste e infeliz! E como as próprias crianças reparam direitinho que os pais acham que elas são pequenas demais e não entendem nada, ao passo que elas compreendem tudo. Os grandes não sabem que até nos assuntos mais difíceis a criança pode dar uma sugestão sumamente importante.” Em 2 Reis 5:1-19, lemos a história de Naamã. Naamã, um poderoso general sírio, estava fragilizado com lepra. Sem mais esperanças, o general ouve uma jovem menina israelita cativa afirmar que o profeta Eliseu, que estava em Samaria, poderia restaurá-lo da doença. Imediatamente, com a permissão do rei sírio, Naamã vai até o profeta com muitos presentes. O profeta, sem sequer sair da sua casa, informa ao general que fosse até o Jordão e se lavasse sete vezes no rio. Indignado, Naamã foi até o rio, mergulhou sete vezes, e após o último mergulho, o texto afirma, “sua carne se tornou como a carne de uma criança” (v.14). Como é comum ao texto bíblico,...

#112

Para responder, mesmo que parcialmente, a pergunta que termina o texto #102, vamos à Gn 32 e 33. Estes dois capítulos narram uma das cenas mais emocionantes de toda Bíblia Hebraica, o reencontro de Jacó e Esaú. Antes deste reencontro, a última informação que temos sobre a relação dos irmãos aparece em Gn 27:41, onde lemos: “Passou Esaú a odiar a Jacó por causa da benção, com que seu pai o tinha abençoado; e disse consigo: Vêm próximos os dias de luto por meu pai; então matarei Jacó”. Temendo uma vingança do irmão, nos vv. 3-5 e 13-19 do capítulo 32, Jacó envia mensageiros ao encontro de Esaú para preparar o caminho com presentes, ou melhor, apaziguar a ira do irmão com presentes. Todavia, a resposta que recebe dos mensageiros é simplesmente: “Fomos a teu irmão Esaú; também ele vem de caminho para encontrar contigo, e quatrocentos homens com ele”.  Jacó teme a notícia e divide o grupo em dois bandos (v.7). E com ele, o leitor participa da espera. Não se sabe o que acontecerá neste encontro. Ou melhor, se seguirmos o anúncio de Gn 27:41, com certeza não será nada bom. Nesta espera, Jacó ora (vv.9-12). Esta oração não tem um paralelo simplesmente com as promessas em Gn 28:15 ou 31:13. O retorno referido por Jacó não se relaciona simplesmente com os capítulos 27-28, mas, acima de tudo, com o retorno de Abraão. Jacó aparece completando a jornada de 3 gerações. Em Jacó, a família de Abraão finalmente retorna à terra, escoltados (Gn 32:1-2). Dentre os vários detalhes desta narrativa, vemos uma palavra que marca este reencontro,...

#111

Nos textos #107 e #108 estivemos tratando do texto de Zacarias 3. Chegamos agora ao verso 9 do referido capítulo. Lemos: “Porque eis aqui a pedra que pus diante de Josué; sobre esta pedra única estão sete olhos; eis que eu lavrarei a sua escultura, diz o Senhor dos Exércitos, e tirarei a iniquidade desta terra, num só dia.” Um dos problemas desse verso é entender o significado da expressão “um dia”. No hebraico, echad (אחד) não é apenas um numeral, também pode funcionar como adjetivo em alguns casos, descrevendo um aspecto distinto do substantivo que o diferencia. Aqui, entendemos ser esse o caso. O dia é único porque não há outro igual. A expressão “um dia” aparece em outros textos, tais como Isaías 9:14, 10:17, 47:9, 66:8 e II Crônicas 28:6, contudo, somente em II Crônicas temos a evidência de que é um dia literal e específico, pois nos textos de Isaías esta expressão parece se referir a um dia de juízo futuro, indefinido temporalmente, mas singular quanto ao acontecimento que ocorrerá. Neste sentido, o “um dia” de Zacarias 3:9, por também estar no contexto de uma profecia (como os texto de Isaías), pode ser específico quanto ao “o que” ocorrerá, mas indefinido em relação ao “quando” e “por quanto tempo” vai ocorrer. Anterior à expressão está o verbo “tirar” (“tirarei a iniquidade da Terra em um só dia”), na qual aparece o verbo hebraico mush (מוש) e que tem um sentido total e eterno (como em Isaías 54:10, 59:21, se referindo a aliança de paz que jamais será tirada). O dia em questão, portanto, é um tempo em...