#187

Depois da reflexão a respeito da memória (ou a falta dela), o Pregador passa a falar de si mesmo. O maior e mais irrefutável argumento de sua conclusão inicial –tudo passa e, por isso, nada vale a pena– é a sua própria jornada. A primeira parte de sua jornada é dedicada à sabedoria. Ele a buscou e a encontrou: “Eis que me engrandeci e sobrepujei em sabedoria a todos os que antes de mim existiram em Jerusalém” (Eclesiastes 1:16). Sua conclusão, no entanto, é de que a sabedoria aumenta a dor (Eclesiastes 1:18), o que parece ecoar em uma música popular brasileira: “pena não ser burro, assim não sofreria tanto”.    A segunda parte da jornada é dedicada ao trabalho. O pregador realizou muita coisa. Na verdade, o verbo “fazer” (עשה) aparece 7x em Eclesiastes 2:4-11. A conclusão é semelhante, pois o trabalho não satisfaz e também não permanece. O trabalho não dá יתרון (ver texto anterior). Sabedoria e trabalho não permanecem debaixo do sol.   Depois dessa descrição pessoal de sua jornada em busca do que permanece, o Pregador retoma parte do argumento inicial: não há memória de nada. Tanto sábio quanto ignorante morrerão do mesmo jeito e ninguém se lembrará de ambos (Eclesiastes 2:12-17). E as obras que fizemos, as coisas que construímos serão deixadas como herança para alguém que ele não tem como prever ser sábio ou ignorante (Eclesiastes 2:18-19), alguém que não fez nada para receber aquilo e que talvez não lhe dê valor (Eclesiastes 2:21).   No fim, o maior inimigo da memória é a morte. O Pregador vê que a morte iguala a... leia mais

#186

Eclesiastes é um livro que chama muito à atenção. O pregador (qohelet) fala à congregação (qahal) sobre suas impressões acerca da existência. Sua fala inicial, no verso 2, é carregada de uma negatividade profunda: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador, vaidade de vaidades, tudo é vaidade”.   A palavra para vaidade é הבל, que significa vapor, fumaça, efemeridade. הבל é algo passageiro, que começa e logo termina. Seu primeiro uso na Bíblia Hebraica (BH) é como substantivo próprio, o nome Abel (Gênesis 4), narrativa tratada diversas outras vezes nesse site. Seu uso na BH é relativamente curto, em torno de 70 vezes, sendo que em Eclesiastes ela ocorre quase 40 vezes, ou seja, para este livro é tremendamente importante. O superlativo no hebraico, “vaidade de vaidades”, acontece 7 vezes, 2 vezes logo no segundo verso do livro.    Tudo é passageiro, tudo acaba, ainda que injustamente (a relação com a história de Abel é profunda). A afirmação categórica do Pregador precede à pergunta básica e que dá rumo a tudo que será escrito/pregado depois. A pergunta é: “Qual é o ganho para o homem de todo o seu trabalho em que trabalha debaixo do sol?” (Eclesiastes 1:3)   Em primeiro lugar, em uma observação mais simples, nota-se que o Pregador restringe o universo da sua pergunta ao “debaixo do sol”. Essa expressão, que ocorre exclusivamente em Eclesiastes, aponta para o fato do Pregador não estar preocupado com o metafísico ou transcendente; sua pergunta se restringe a seu universo observável. Naquilo que posso ver, naquilo que consigo aferir, sem levar em conta o intangível e imponderável, qual é o ganho?... leia mais

#185

Dando seqüência às reflexões a respeito de Gênesis 11:1-9, existem incontáveis maneiras de dividir a estrutura desse texto, algumas mais mirabolantes do que outras. Sem recorrer a muita forçação de barra e se mantendo dentro de um nível de razoável consenso no meio acadêmico, chegamos à seguinte estrutura: ABXB’A’ (tipo os EPs de OS ARRAIS)   A – vv1-2 narrativa B – vv3-4 fala direta (homem) X – vv5 centro da narrativa B’ – vv6-7 fala direta (DEUS) A’ – vv8-9 narrativa   Há, aqui, pelo menos 4 ironias que podem ser identificadas no texto:   1.) O que os seres humanos não queriam? Ser espalhados por toda a terra. O que acontece no final? São espalhados por toda a terra.   2.) O que os seres humanos queriam com a construção da cidade e da torre? Chegar até aos céus. E o que acontece duas vezes na narrativa? DEUS desce. Primeiro pra ver, porque a cidade e a torre eram tão pequenos que “lá de cima” ELE sequer as conseguia ver. Depois, novamente, pra confundir a sua linguagem.   3.) O que mais os seres humanos queriam? Eles queriam “fazer um nome para si”. Ao DEUS confundir as línguas, os nomes de todas as coisas mudam. Ao ponte de sequer conseguirem se comunicar.    4.) Babel, na verdade, não significa “confusão”. Bab significa “porta” ou “portal” e “EL” significa “DEUS”. Os pós-diluviando denominaram sua cidade “a porta de DEUS” ou “o portal para DEUS”. A palavra em hebraico para confusão é balal. É como se o escritor bíblico quisesse criar uma equivalência: querer se babel (porta para DEUS)... leia mais

#184

1 Ora, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar. 2 Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinar; e habitaram ali. 3 E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. 4 Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. 5 Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; 6 e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. 7 Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. 8 Destarte, o SENHOR os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade. 9 Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra e dali o SENHOR os dispersou por toda a superfície dela. (Gênesis 11:1-9)   A narrativa de Gênesis 11:1-9, que conta o episódio referente à torre de Babel, apresenta algumas curiosidades.   Primeira coisa importante: Babel e Babilônia são a mesma coisa. São apenas versões lingüísticas distintas em línguas diferentes, do mesmo modo que Genéve (francês), Genebra (português) e Genf (alemão) são maneiras diferentes de se referir a uma mesma cidade. Não se sabe ao certo porque nas... leia mais

#183

A palavra grega pathos, comumente traduzida como “paixão”, não possuía conotação positiva em suas primeiras figurações. A ideia de pathos implicava para os gregos em um estado ou condição na qual algo acontece ao ser humano, algo do qual ele é uma vítima passiva.    O termo foi aplicado a emoções como “dor” por se acreditar que estes estados eram frutos de ações externas ao ser humano. Isso produzia a noção de que aquela pessoa estaria controlada por aquela paixão. A pessoa afetada estaria, assim, em uma relação de dependência. Esse estado era considerado como um sinal de fraqueza, já que a dignidade do homem envolvia o controle de suas emoções através da razão. O homem vulnerável a essa emoção adquiria status de doente (o que é patológico se refere à doença).    Contudo, no texto bíblico, nitidamente a fonte do mal não se encontra na emoção, no coração inflamado[1]. Pelo contrário, o mal está associado à dureza de coração, indiferença e insensibilidade. Ao invés de obliterar essa realidade, os escritores bíblicos, muitas vezes, consideram estas emoções como sendo inspiradas e/ou até divinas; afinal, o envolvimento emocional e a participação apaixonada são partes inevitáveis da existência religiosa.   Os salmos estão carregados de emoção, os profetas são inundados pela paixão. Para alguns gregos, o estado ideal do homem era a apatia. Para o escritor bíblico, o estado ideal do homem é a simpatia.   Diferente da passividade compreendida pelos gregos, aquele que é invadido pela paixão divina, age. Como afirma o Salmo 111:10: “O temor do Senhor é o principio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam”.... leia mais

#182

“Há mais ídolos do que realidades no mundo…” Friedrich Nietzsche   …e dentre esses inúmeros ídolos, um dos mais influentes e abrangentes é uma religiosidade e um discipulado divorciado das palavras de Jesus. Pois por mais que Jesus tenha deixado as diretrizes de como deveríamos viver enquanto discípulos, milhares de anos depois estamos discutindo estratégias, métodos e maneiras de discipular, de alcançar pessoas do mundo para atraí-las para dentro de nosso contexto.   E não me entendam mal, caros leitores. Não há nada de errado em pensar, em discutir estratégias e métodos; o problema aqui é transformar o que Jesus disse em algo que ele não disse. De fazer de nossas palavras as palavras de Jesus. De forjar uma imagem de discipulado de acordo com nossos ritos e costumes e dizer que “este é o deus que nos tirou da terra do Egito.” (Êxodo 32:4)   Antes de estratégias, antes de métodos, antes de entender cultura e sociedade precisamos entender a fria realidade de que só pode discipular quem já é discípulo. Entendam, a leitura dos Evangelhos limpa nossos olhos para nos dar as condições de enxergar o que é realidade e o que é idolatria. Entender que só pode discipular quem é um discípulo e discutir métodos é uma realidade. Discutir métodos sem entender ou ser um discípulo é idolatria.    Diante disso a questão seria: o que de fato qualifica alguém como discípulo, ou, o que é um discípulo?    A resposta pode ser variada pois cada Evangelho irá apresentar um ângulo diferente de Jesus e, consequentemente, o que significa seguir a Jesus será apresentado de forma... leia mais

#181

“E entrando na casa do fariseu, reclinou-se à mesa.” (Lucas 7:36)   Uma vida, um ministério, um discipulado marcado por correria e falta de tempo acaba matando a espiritualidade genuína. Eugene Peterson observa que uma vida/ministério/discipulado assim é essencialmente preguiçoso “pois é fazer o mais fácil ao invés do mais difícil… É encher nosso tempo com nossas próprias ações ao invés de prestar atenção na ação de DEUS.”    E isso é tão verdadeiro. A experiência religiosa de nossos dias é marcada por correria. É marcada pela urgência da breve volta de Jesus e nossa participação ativa nesse evento vindouro, pela luta incessante contra os nossos pecados e incoerências, pela busca de uma profunda e consequentemente longa devoção pessoal diária. Mas como não temos tempo, essa correria e essas inúmeras expectativas acabam, de fato, matando a verdadeira espiritualidade.    Jesus teve apenas três anos de ministério nessa terra, e no evangelho de Lucas existem pelo menos cinco instancias em que Jesus “se reclina” na mesa para comer com alguém (fariseus, discípulos, publicanos). O ministério de Jesus era marcado por momentos assim. Momentos à mesa com pessoas, momentos de oração longe das multidões, momentos de conversa ao andar por inúmeras estradas empoeiradas de Israel, momentos de aparente inatividade.   Tenho notado as consequências de uma vida de correria e de inúmeras tarefas no meu trabalho. Passei anos carregando o peso da correria, o peso de achar que trabalho contínuo resultaria em maiores resultados e na minha aceitação como “bom trabalhador”. Mas nesse semestre especificamente decidi mudar algumas coisas nesse cenário. Ao invés de fazer muito “por DEUS” decidi reduzir minhas... leia mais

#180

No relato da Criação, as primeiras palavras que DEUS dirige ao homem e à mulher são uma bênção cujo início abriga três imperativos: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra…” (Gênesis 1:28). Deste modo as criaturas são convocadas a expandir, por meio da atividade reprodutiva, a obra do Criador. A fala divina introduz o tópico da geração de descendentes, uma das linhas de força no livro de Gênesis, que atravessa suas narrativas e se torna ainda mais visível nas diversas genealogias descritas nele. Enquanto as listas genealógicas confirmam a multiplicação dos seres humanos ao exibir o desfile das gerações num ritmo linear, algo reforçado pelo caráter formulaico do registro, as narrativas patriarcais guardam uma circunstância que desafia o cumprimento daquele mandato inaugural: a presença recorrente da esterilidade. Esta condição desestabiliza a progressão natural desenhada nas genealogias, pois estabelece um limite incontornável à capacidade humana de gerar, solicitando, assim, uma intervenção divina.    Sarai é a primeira personagem bíblica apresentada como estéril (Gênesis 11:30), o que alimenta uma tensão formidável com o fato de seu marido Abrão receber a promessa divina de que ele seria o pai de uma grande nação (Gênesis 12:1-3)[1]. Ao longo da trajetória do casal, os dois se empenham em resolver essa questão, porém as sucessivas revelações de DEUS ao patriarca mostram que, a fim de concretizar o Seu anúncio inicial, Ele delineou uma resolução que não cabia nas possibilidades humanas. Para entender a singularidade da ação divina na gravidez de Sara[2], basta comparar as descrições que o narrador oferece acerca do processo de concepção em Gênesis 4, onde são registrados os primeiros nascimentos da história humana,... leia mais

#179

Quando falamos em “adoração”, nossa mente imagina um lugar de adoração a DEUS ou em um culto a DEUS. Pensamos assim porque, na Bíblia, a adoração está quase sempre relacionada à uma atitude de reverência a DEUS. No entanto, a palavra “adorar” não vem qualificada de sinceridade e boas intenções. “Adorar” não é um adjetivo; é um verbo que designa uma ação. Por isso, mesmo quando dizemos que vamos adorar, nossas intenções podem estar carregadas de orgulho e hipocrisia.    Por exemplo, quando os visitantes do Oriente chegaram a Belém da Judeia, eles disseram ter vindo para encontrar o menino rei e O “adorar”, no grego, proskynéō (Matheus 2:2). Por outro lado, Herodes também disse a eles que queria ir “adorar” o menino Jesus (Matheus 2:8). Todos pretendiam adorá-lO. Uns, com sinceridade de coração; Herodes, com aparência de adoração e falsa intenção de prestar culto.   Outro equívoco é pensar que a adoração tem lugar e hora marcados. Por isso, há pessoas que esperam chegar até ao local público de culto para, então, cultuar. A mulher samaritana também achava que a adoração tinha de ser feita em um lugar determinado (para os samaritanos, o local eram os montes Gerizim e Ebal) e argumentou com Jesus: “Nossos pais adoraram neste monte e você diz que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar” (João 4:20).   A resposta de Jesus desmonta a noção de que a adoração está ligada a um lugar fixo, a um modelo litúrgico, a um sistema eclesiástico ou a um dia de culto: “A hora vem em que nem neste monte nem em Jerusalém adorarão... leia mais

#178

Há um trecho do evangelho de Lucas marcado pelos tons coloridos de festa e pelos sons vibrantes de júbilo e alegria. Trata-se de Lucas 14 e 15. Para ser mais específico, a seção intermediária de Lucas 14 (versos 7-24) e Lucas 15 praticamente inteiro.   Festa e comida são termos praticamente intercambiáveis em quase todas as culturas e não é diferente nesse espaço do Evangelho. A história do pastor, da mulher e do pai falam de perdas e achados. Em todas elas, a tônica semelhante é a derradeira alegria e o clima de festa. Mas há mais um elemento semelhante nessas histórias que o barulho da festa ou o calor do júbilo podem nos fazer esquecer. A ideia do sacrifício.   O pastor arrisca a vida e com a pesada ovelha sobre os ombros retorna ao aprisco. A mulher empreende uma grande limpeza e, exausta, encontra a moeda. O pai abre mão de tudo e se torna vulnerável esperando religiosamente à janela o retorno do filho pródigo. Antes da festa, um sacrifício. A festa é de graça para quem a recebe, mas alguém pagou um preço por ela. Essas histórias falam de uma graça incondicional garantida por um alto sacrifício.   Retrocedendo a Lucas 14:15, enxerga-se mais um quadro de festa. Um banquete sendo preparado e convites sendo distribuídos. Todos confirmam a presença no banquete. Mas no começo da comemoração, todos se escusam. A festa é um presente do anfitrião aos convidados, mas exige-se deles um preço para essa relação: a recusa de outros compromissos. Preço este que parecem não estar dispostos a pagar.   Se nos quadros de Lucas 15... leia mais

#177

Para Mia Couto[1] “o importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora”. De fato, a sensação que se tem, é a de que existe uma casa dentro de nós, e mal sabemos explicar como ela foi ali parar. Para alguns, casa é sinônimo de segurança, um lugar de paz, onde o melhor e o pior se evidenciam; mas e para texto bíblico   A primeira vez, das 1708 vezes em que a palavra “casa” aparece na Bíblia Hebraica (BH) é no livro de Gênesis, quando DEUS ordena a Noé:   Faze uma arca de tábuas de cipreste; nela farás compartimentos e a calafetarás com betume por dentro (‎מִבַּ֥יִת) e por fora (וּמִח֖וּץ)” (6:14) (ARA).   Os substantivos em destaque poderiam ser traduzidos por “casa” e “rua”. Interessante pensar que a palavra casa, em sua primeira ocorrência, é utilizada pelo próprio DEUS e que seja definida como o lugar de dentro da arca. O oposto seria rua, fachada, qualquer outra coisa indefinida, mas diferente de ou antagônico à “casa”. A realidade “casa” não estava acessível aos olhos curiosos dos que passavam pelo lado de fora da arca por que “casa” na Bíblia é mais do que aquilo que os olhos podem ver, mais do que aparência externa, mais do que uma bela fachada; para ver “casa” é preciso entrar.   A próxima aparição de “casa” também aparece no contexto do imperativo divino em Gênesis 7:1 quando DEUS diz:   Entra na arca, tu e toda a tua casa (בַּיִת), porque reconheço que tens sido justo diante de mim no meio desta geração (ARA).  ... leia mais

#176

Além de Gênesis 3, somente em um outro lugar na Bíblia encontramos um animal dotado com a capacidade de se comunicar de maneira articulada, a dizer em Números 22, a jumenta de Balaão. Tanto a jumenta quanto a serpente surpreendentemente falam de maneira natural. Nenhum dos dois animais explica sua habilidade, e em contrapartida, esta capacidade de falar é aceita inquestionavelmente por parte dos seres humanos.   Contudo, embora a interrupção animal no mundo humano da fala seja tratada com estilo similar, o conteúdo dos discursos é contrastante em muitos aspectos. Um deles é a relação entre bênção e maldição.   Enquanto nas maldições de Gênesis 3:14-19 o universo perfeito criado nos capítulos anteriores começa a ser “deturpado” como consequência dos esforços da serpente, culminando com a expulsão de Adão e Eva de um lugar de segurança e estabilidade para um de peregrinação errante e vulnerabilidade, a história de Balaão move na direção oposta. Depois do êxodo do Egito, Israel ainda está peregrinando, mas em direção a um local permanente. Israel está vulnerável a ataques, inclusive do rei Balaque em Números 22. Depois de ter seus olhos abertos, Balaão não só deixa de tentar amaldiçoar Israel, como profere bênçãos sobre o povo. Em um dos oráculos de Balaão (Números 24:5-7a), lemos:   Que boas são tuas tendas, ó Jacó! Que boas são as tuas moradas, ó Israel! Como vales que se estendem, como jardins à beira dos rios, como árvores de sândalo que o SENHOR plantou, como cedros junto às águas. Águas manarão de seus baldes, e as suas sementeiras terão águas abundantes;   Embora este simbolismo não seja... leia mais

#175

Entre Gênesis 1:26 e 28, que tratam dessa imagem e semelhança, há um pequeno poema, em Gênesis 1:27, que é interessante por sua construção:   E criou Deus o homem na sua imagem Na imagem de Deus criou ele Macho e fêmea criou eles.[1]   O verbo criar é repetido três vezes, e o nome de Deus, duas vezes, sendo o sujeito do verbo em todas as três vezes em que este ocorre (na última linha, de maneira implícita). A expressão “na imagem” é repetida duas vezes. Por fim, em negrito estão as referências àquilo que Deus cria: o ser humano, que depois é mencionado por sinal do objeto direto mais sufixo pronominal no singular, na segunda linha, e sinal do objeto direto mais sufixo pronominal no plural, na terceira linha, em hebraico. Tudo isto para dizer que o ser humano é imagem e semelhança de Deus, que o ser humano é macho e fêmea e que ambos (juntos/separados) são imagem e semelhança de Deus.   Em Gênesis 2, a criação do ser humano segue dois estágios: primeiro do homem, depois da mulher. O homem é criado (Gênesis 2:7) do pó da terra e recebe um sopro de vida. O nome do homem está conectado diretamente à terra – ʾādām (homem) ʾădāmâ (terra) – sendo “terra” um substantivo feminino, e “homem”, um substantivo masculino, possivelmente da mesma raiz. Os animais, curiosamente, também são criados do pó da terra (Gênesis 2:19), e a ação da criação de ambos, homem e animais, é descrita com o mesmo verbo – formar/moldar (yṣr). O homem, que veio da terra recebe como missão/função cuidar dela (Gênesis 2:15). Como Deus plantou e preparou... leia mais

#174

Temos dificuldades em lidar com derrotas, ou palavras que soem como derrotas. Fracasso, solidão, abandono, tristeza… Parece que somos obrigados, em uma era de coaching, a alcançarmos e sempre vivermos o sucesso.   Pois bem: a Bíblia é um livro diferenciado, principalmente no âmbito dos livros religiosos, porque não esconde as inúmeras derrotas de vários de seus personagens principais. Vários deles erram, mentem, enganam, pecam, são derrotados e vivem cercados e assombrados por algo errado que fizeram. A lista poderia incluir, pra começar, Adão, Noé, Abraão, Jacó, Judá, Moisés, Davi, Paulo, entre outros.   Obviamente que os fracassos desses personagens ocorrem por motivos diversos, em circunstâncias variadas também. Entretanto, todos os derrotados e mesmo os poucos 100% vitoriosos (a Daniel e José, por exemplo, não são imputados pecados na narrativa bíblica) possuem uma característica em comum: foram abandonados em algum momento pelo DEUS ao qual serviam.   A constatação desse fato é impactante. De Adão em diante, todos se sentiram em algum momento abandonados por DEUS. O silêncio dELE, em determinados casos, passa quase despercebido, como no caso de José, em que nenhum contato entre a divindade e o personagem é narrado. Em outros, parece fruto do equívoco de um protagonista, como no caso de Abraão, em que o mesmo experimenta o silêncio de DEUS por longos anos após se deitar com Hagar. Há ainda o silêncio que desespera o personagem a ponto de incomodar o leitor, como no caso de Jó. Em um caso específico, Israel no Sinai, o silêncio é um pedido do povo e, logo depois, se torna motivo para angústia deste mesmo povo que, erroneamente,... leia mais

#173

Na Bíblia Hebraica, principalmente, a descrição que se tem de paternidade é de fracasso. Pais errantes aqui e acolá. Nos casos em que a narrativa se desenvolve suficientemente em algum núcleo familiar –nem sempre isso acontece– as evidências de fracasso se avolumam. Não importa quem seja o pai. Isaque, Jacó, Eli, Samuel, David, entre outros, são clássicos e fáceis exemplos desses fracassos.   Na verdade, o primeiro grande “fracasso” paterno é do próprio DEUS. ELE cria homem e mulher, seus filhos, à Sua imagem e semelhança, e eles se tornam desobedientes. Adão e Eva, com seus dois primeiros filhos, também experimentam o gosto amargo do fracasso paternal quando Caim assassina Abel. E poder-se-ia continuar esta seqüência quase que infinitamente…   A mais importante lição da paternidade é justamente essa: a liberdade, derivada de um amor ilimitado. Talvez por isso a Bíblia não se preocupe em esconder tantos e tantos fracassos, inclusive do Pai de todos.   Quando seu filho nasce, o que um pai mais deseja é livrá-lo de todos os perigos, de todas a escolhas ruins, de todo e qualquer sofrimento. Você deseja que ele nunca experimente derrotas amargas e perdas dolorosas. Esse desejo é fruto de um amor inexplicável. Mas, seu filho –tão semelhante a você e, ao mesmo tempo, um outro ser humano, distinto– inevitavelmente vivenciará tudo aquilo de que você o quis proteger… mais cedo ou mais tarde.   Na verdade, quanto mais experiências de vida ele tiver, quanto mais escolhas ele fizer, tanto mais livre e consciente ele será para tomar decisões sozinho e de maneira madura. A paternidade ensina o fracasso, porque é impossível... leia mais

#172

“Estais calado. Mesmo neste momento, vós ficais calado?” Silêncio, Shusaku Endo   Em Jeremias 28 é possível ver nuances do que é não ser um verdadeiro profeta.   Profeta aqui, como já apresentado em textos anteriores, é aquele que, segundo o texto bíblico, tem como suas palavras a palavra de DEUS, que não consegue lidar com injustiça e opressão e que, com e por amor, intercede. Contudo, todo aquele que se sente parte desse coro profético, muitas vezes, corre o risco de se confundir.  Pensar que suas vontades são a vontade de DEUS. Que sua voz, é a voz dEle (quando deveria ser o contrário).   Vários motivos podem resultar nesta catástrofe profética narcisista, e um deles, talvez um dos primeiros, a falta de autocrítica, do auto-questionamento. Do alto de seu status pseudo-profético não mais questionam a “biblicidade” de suas próprias empreitadas.   Voltemos à Jeremias. DEUS, no capítulo 27 (sugiro lê-lo junto ao 28), pede para que Jeremias fizesse canzis (jugos) e os colocasse sobre o pescoço. Além disso, o profeta deveria enviar outros aos reis de Edom, Moabe, ao rei dos filhos de Amom, ao rei de Tiro, e ao rei de Sidom. Esta encenação serviria a um propósito: “Agora, eu entregarei todas estas terras ao poder de Nabucodonosor, rei da Babilônia, meu servo; e também lhe dei os animais do campo para que o sirvam” (verso 6). O povo de Israel deveria aceitar a submissão à Babilônia. Isso era consequência da infidelidade do povo para com DEUS. Resultado direto da quebra da aliança. Na sequência, acrescenta-se que ninguém deveria dar ouvidos aos profetas e adivinhos que... leia mais

#171

“Porque os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus.” Romanos 2:13   O caminho trilhado por Jesus –mais tarde chamado de Cristianismo– é um caminho marcado pela morte. Hoje, no século 21 e no Ocidente, o imperativo para “tomar a cruz” confunde. Como viver uma vida marcada pela morte se não existe perseguição? E é nesse contexto de conforto que a Bíblia é lida em nossos dias. A leitura através das lentes do conforto é interessante. Ela tende a ignorar ou adocicar textos que confrontam o conforto estabelecido. E quão próprias são as Palavras de Jesus para nosso atual contexto de conforto.   No centro dos ensinamentos de Jesus está a vivência do que foi ensinado. Jacques Ellul no livro The Subversion of Christianity aponta o óbvio: ao ensinar sobre o homem que constrói uma casa na areia e na rocha Jesus estava buscando ensinar e enfatizar que no final das contas apenas a prática é que importa. Jesus termina o sermão da montanha com a parábola dos construtores dizendo: “todo aquele que ouve as minhas palavras e as pratica será comparado…”   Nós conhecemos a história do homem que constrói na areia e do homem que constrói na rocha, mas esquecemos que o principal ensinamento ali contido é apenas este: que ouvir apenas não é suficiente.   Nossa leitura confortável da Bíblia resulta numa prática confusa dentro do contexto religioso e eclesiástico. Uma das mais recentes pesquisas do grupo Barna indica que 61% de adolescentes (geração Z) sentem que encontram DEUS fora da igreja, e 64% entendem que a igreja não é relevante para sua... leia mais

#170

No evangelho de João, duas histórias curiosas são narradas nos capítulos 6 e 11. Embora as duas narrativas provavelmente não possuam uma conexão intencional dentro da abordagem aqui proposta, existe um aspecto da condição humana que vale ser evidenciado, respectivamente, em fragmentos dos capítulos mencionados que serão destacados a seguir.   1) “E, entrando no barco, atravessaram o mar em direção a Cafarnaum; e era já escuro, e ainda Jesus não tinha chegado ao pé deles”. João 6:17   A história é interessante. Jesus acabara de multiplicar pães e alimentar milhares de pessoas junto ao mar de Tiberíades antes de passar para o outro lado rumo a Cafarnaum. Depois de operar tamanho milagre diante dos olhos dos discípulos, os despede e, curiosamente, pede para que eles tomem a dianteira na jornada rumo à referida cidade. Eles entram num barco e durante a travessia o mar se avoluma de tal maneira que até mesmo pescadores experientes, acostumados desde a infância com as rotineiras intempéries do Mar da Galiléia, temem por suas vidas. É neste contexto que João escreve a sentença acima: “e já era escuro, e ainda Jesus não tinha chegado ao pé deles”.   2) “Então Jesus disse-lhes claramente: Lázaro está morto; E folgo, por amor de vós, de que eu lá não estivesse, para que acrediteis; mas vamos ter com ele.” João 11:14,15   A segunda história se conecta à primeira na medida em que as reações humanas à ausência de Cristo se repetem. Relembrando rapidamente. Jesus estava em outra cidade quando recebeu a notícia de que Lazaro estava morrendo. É importante mencionar que os irmãos Lazaro, Marta... leia mais

#169

Há uma palavra importante no livro de Gênesis que se repete diversas vezes: “gerações” (tôlĕdôt – תוֹלְדוֹת). Ela aparece precisamente onze vezes (Gênesis 2:4; 5:1; 6:9; 10:1; 11:10; 11:27; 25:12; 25:19; 36:1, 9; 37:2) e diversos autores a consideram como uma espécie de marcador de início de seção dentro do primeiro livro da Bíblia, sendo Gênesis 1:1-2:3 a única seção que não seria iniciada por ela.   Ao aparecer na narrativa, “gerações” é seguida de duas possibilidades: ou uma narrativa, ou uma genealogia, conforme relacionado abaixo:     Gn 2:4 Céus e Terra Narrativa Gn 5:1 Adão Genealogia* Gn 6:9 Noé Narrativa Gn 10:1 Noé Genealogia* Gn 11:10 Sem Genealogia Gn 11:27 Terá Narrativa Gn 25:12 Ismael Genealogia Gn 25:19 Isaque Narrativa Gn 36:1 Esaú Genealogia Gn 36:9 Esaú Genealogia Gn 37:2 Jacó Narrativa     As seções iniciadas em Gênesis 5:1 e 10:1, apesar de serem genealogias, terminam com pequenas narrativas que criam o background para a própria seção. Por exemplo, Gênesis 6:1-8 constrói o pano de fundo para a seção do dilúvio que começa em Gênesis 6:9.   É interessante notar que tôlĕdôt introduz tanto genealogias quanto narrativas. Por quê? Porque obviamente seu uso em genealogias faz sentido (“essas são as gerações de fulano… Fulano gerou ciclano que gerou beltrano, etc”), mas não faz o mesmo sentido nas narrativas, principalmente porque na grande parte das vezes, a história contada não é a do indivíduo introduzido na fórmula.   Em Gênesis 11:27, por exemplo, ao falar das gerações de Terá, a narrativa vai contar a história de Abraão. Na tôlĕdôt de Gênesis 25:19, a narrativa trata Isaque como... leia mais

#168

O relato da criação de homem e mulher em Gênesis 1 e 2 guarda uma série de aspectos interessantes. Em Gênesis 1:26-27 a descrição da criação do primeiro casal é feita de maneira a ressaltar a relação deles com DEUS. Em Gênesis 2:5-7 e 2:18-22 a estrutura do texto indica que o objetivo é descrever a relação deles entre si e com a criação.   A criação do ser humano, no capítulo 1, segue o padrão literário de toda a seção (1:1-2:3). Primeiramente aparece uma espécie de anúncio do que será criado e, logo em seguida (geralmente com o uso de mesmo verbo e expressões semelhantes), o relato do que foi criado. Assim, em Gênesis 1:26, o anúncio é feito de modo a focar na função que ele (ser humano) teria: ser à imagem e semelhança de DEUS. Dentre as várias possibilidades que esta expressão pode ter, uma que parece carregar um sentido mais próximo ao texto logo em seguida, é a de que ao homem foi delegado o poder de representar a DEUS na criação. Isto, porque após dizer que criaria o homem à Sua imagem e semelhança, a função deste homem é descrita como sendo “dominar sobre a criação”. Após a criação do ser humano (אדם), a ordem divina dada a ele é, além de dominar (רדה), subjugar (כּבשׁ) as outras criaturas. Esta ideia de domínio é a única que difere o homem das outras criaturas, já que, para ambos (homem e criaturas), é ordenado que cresçam, se multipliquem e encham a terra.   A fala divina em Gênesis 1:28 ecoa a de Gênesis 1:26, pois em ambos há... leia mais

#167

“O essencial é invisível aos olhos”. Saint-Euxpéry   Considerando a presença do marcador textual Lech Lecha (sai-te) podemos dividir a narrativa abraâmica em pelo menos dois momentos cruciais, nos quais o verbo ra’ah (ver/olhar) desenvolve um papel estrutural.   Lech Lecha aparece pela primeira vez em Gênesis 12:1, texto no qual o ainda Abrão é convidado a participar de um movimento; movimento esse que parece ser do concreto para o não-concreto; do palpável para o intangível. Abrão é chamado a abandonar o seu passado: “sai da casa de teu pai” (Gênesis 12:1). Nesse sentido ele passaria a viver uma realidade bem próxima à de sua esposa, apresentada numa genealogia sem qualquer indicação de ancestralidade. Sarai não tem pai. É uma filha de ninguém. Exatamente o que Abraão passaria a ser.   A mesma expressão Lech Lecha reaparece em Gênesis 22 como uma espécie de revisitação do drama da primeira partida. Contudo, há uma mudança de perspectiva. Se por um lado, em Gênesis 12, Abraão deve se desenraizar de seu passado, em Gênesis 22, Abraão deve se desligar de sua única conexão com o futuro: Isaque, o filho da promessa. Ao matar Isaque, Abraão mataria sua descendência, sua promessa e sua história. Abraão sofreria um tipo de “esterilidade”, o que novamente traz a lume a imagem de Sarai: a mulher que era estéril e não podia ter filhos.   E é nesse contexto dramático que o verbo ra’ah assume o papel de criar: expectativa, conflito e resolução.   No primeiro caso o patriarca deve sair de casa por um motivo: uma terra que lhe será mostrada (ra’ah). O verbo “mostrar”... leia mais

#166

As “palavras de Amós” (1:1) são marcadas pelo sofisticado uso das raízes שׁוב (šwb) e הפך (hapak) e pela exaustiva repetição da sentença “assim diz” כֹּ֚ה אָמַ֣ר (kō ʾāmar) –um total de 15 aparições em todo o livro. Esta expressão figura mais de 480 vezes na Bíblia Hebraica e usualmente tem como sujeito יהוה (yhwh). Ela recebe o nome de fórmula do mensageiro em razão da proposição formal “assim diz o rei” כֹּ֚ה אָמַ֣ר הַמֶּ֔לֶךְ ‎(kō ʾāmar hammelek) praticada pelos arautos que eram enviados (šlḥ) a representá-lo (ver 2 Reis 1:11).   As 8 primeiras ocorrências seguem uma estrutura homogênea. Elas estabelecem uma progressão de intensidade às advertências de juízo a Damasco, Gaza, Tiro, Edom, Amom e Moabe, tendo por clímax Judá e Israel. Entre os vários marcadores repetidos, está a raiz שׁוב (šwb) “voltar, volver, virar-se”, apresentada aqui na forma causativa לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ (lōʾ ʾăšîbennû), literalmente: “não o farei voltar [castigo implicíto]”. Segue-se, portanto, a seguinte estrutura: “Assim diz o Senhor […] não retirarei (farei voltar) o castigo […]”:   1:3 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:6 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:9 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:11 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:13 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 2:1 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 2:4 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 2:6 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃   Ao final do capítulo 2 e início do 3 temos o resultado da progressão: o juízo incide agora com exclusividade sobre os “filhos de Israel”... leia mais

#165

Conforme já observado no texto #89, o livro de Jonas se destaca entre a literatura profética pela grande medida no uso do recurso da ironia. Elaborada com a intenção de ser reconhecida, a ironia constantemente convida o leitor para participar de sua percepção e construção. Dessa maneira, este recurso exige uma relação bem próxima entre o leitor e o texto, tornando o leitor em um participante ativo na história.   De forma geral, a ironia é composta por alguns requisitos básicos que facilitam seu reconhecimento; neste texto destaco o elemento da “oposição”. A oposição é, basicamente, incongruência articulada na distinção entre o que se espera e o que realmente acontece. E, claro, para o leitor atento, as incongruências não passam despercebidas. A seguir algumas delas:   Apesar de o livro já iniciar com uma série de expectativas frustradas, oposições e contrastes, a resposta de Jonas ao capitão do navio chama à atenção por ser a primeira fala do profeta no livro. Até então ele havia iniciado uma série de ações para “fugir da presença do SENHOR” (1:3), mas nada havia sido dito por ele. No entanto, em meio à sua fuga, sua primeira fala é: “Sou hebreu e temo ao SENHOR, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jonas 1:9).   Se não fosse pelo contexto, que linda profissão de fé! Jonas no meio da tempestade, entre os pagãos, dá seu testemunho. Declara pertencer ao povo escolhido e crer na onipotência de DEUS e em seu domínio sobre terra e mar. Contudo, esta declaração soa completamente estranha aos olhos do leitor que tem acompanhado o... leia mais

#164

Diz o Tolo em seu coração: não existe DEUS corrompem, fazem obra abominável. Não existe feitor bom. YAHWEH do céu olha contra os filhos dos homens para ver se existe sábio procurador de DEUS. Todos apóstatas juntos são corruptos. Não existe feitor bom não existe nem um. (Salmos 14:1-3).[1]   Os três primeiros versos do Salmo 14 iniciam revelando contrastes entre o tolo e o sábio. Apesar do salmo começar com a fala do tolo negando a existência de DEUS, essa negação não é feita abertamente, como fica claro pelo uso do substantivo prefixionado בְּלִבֹּו (no coração). O salmista aponta que o tolo não sai pelas ruas gritando para todos ouvirem que DEUS não existe, mas ele o diz para si mesmo. Ele nega a existência de DEUS dentro do seu coração. Ainda no primeiro verso do poema há uma conexão entre a fala do tolo com o ato de se corromper. Essa conexão parece ressaltar que a negação de DEUS, feita pelo tolo, não está operando no nível das palavras, mas no nível das ações, isto é, o tolo nega a DEUS através do que ele faz.   Neste salmo vê-se uma forte conexão entre o pensar e o agir. O que o tolo, segundo o salmo, pensa, tem influencia sobre o que ele faz. De modo contrário, se o tolo se envereda por caminhos corruptos e perversos, ele nega a realidade de DEUS. Nesse sentido, a pergunta levantada seria, “quem é o tolo?”. A resposta é bem simples, qualquer pessoa. Inclusive quem se auto-intitula parte do povo de DEUS (como inclusive parece ser um dos principais alvos da crítica do salmista).... leia mais

#163

“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim […]” João 17:20   Em João 17 vemos claramente pelo menos um conceito-chave da Reforma de maneira explicita: Soli Deo Gloria (glória somente a Deus). Contudo, antes de mais nada, vale contextualizarmos esta oração de Jesus. Em João 12:1-8 vemos componentes que são ecoados à frente nos capítulos 13-16. Jesus havia ceado em Betânia e, naquela ocasião, Maria lava os pés de Jesus e, por fim, narra-se a entrada triunfal em Jerusalém em que há a aclamação: “Hosana! Hosana! Rei de Israel!” Nos capítulos seguintes, Jesus ceia com os discípulos, lava seus pés e ouve, após a oração, a aclamação: “Crucifica-o! Crucifica-o!” (19:15). Aclamação esta voltada ao, como dizia a placa sobre a cruz, “Rei dos Judeus” (19:19). Os capítulos que antecedem a oração são marcantes para que possamos compreendê-la. Jesus termina seu ministério e, aparentemente, seus discípulos parecem não compreender nada do que se estava passando. Dos capítulos 13 a 16 ouvimos de discípulos diferentes (Pedro, João e Tomé) as perguntas:  “Lavar meus pés?”; “Quem vai te trair?”; “Para onde vais?”; “Como podemos saber o caminho se não dizes para onde vais?”. Isso sem contar pedidos como por exemplo o de Filipe: “Mostra-nos o pai”. Sem qualquer ansiedade, Jesus lhes responde conversando; uma conversa pessoal que se resume ao que vemos em João 16:12-30. A ideia de que embora ainda houvesse um longo caminho a percorrer, eles estavam no caminho. Assim, finalmente chegamos ao capítulo 17.   O capítulo 17 inicia com a afirmação: “[…] é chegada a hora”. Ouvimos que a hora... leia mais

#162

“Quão silencioso terá sido este mar; quão preparado para o assombro da palavra!” George Steiner   No texto Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem Walter Benjamin afirma que no “haja” e no “Ele chamou” presentes nos primeiros versículos de Gênesis 1, vemos uma clara relação entre o ato criador e a linguagem. Tudo começa com a onipotência criadora da linguagem divina, e ao final, a linguagem incorpora a si o criado, ela o nomeia. Para Benjamin:   “Em DEUS o nome é criador por ser palavra, e a palavra é saber por ser nome. ‘E DEUS viu que isso era bom’, isto é: Ele conheceu pelo nome. A relação absoluta do nome com o conhecimento só existe em DEUS, só nEle o nome, porque é intimamente idêntico à palavra criadora, é puro meio do conhecimento. Isso quer dizer: DEUS tornou as coisas cognoscíveis ao lhes dar nomes. Mas o homem só nomeia as coisas na medida em que as conhece.”[1]   Em outras palavras, o homem é aquele que conhece na língua em que DEUS cria. Sua essência é a linguagem em que ocorreu a criação. Contudo, de acordo com Gênesis, ao criar o homem, DEUS não o cria a partir da palavra, e ele não o nomeia. DEUS pôs no homem a linguagem que Lhe havia servido como meio da criação. DEUS descansou após depositar no homem seu poder criador. Em Gênesis 2:19-20a lemos: “Havendo, pois, o senhor DEUS formado da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e... leia mais

#161

Em Lucas 7:36-50, lemos que Jesus é convidado a comer na casa de um fariseu chamado Simão. Logo no início da narrativa somos surpreendidos por uma mulher, pecadora, de acordo com o narrador, que invade aquele momento e começa a “regar”os pés de Jesus com lágrimas e os ungia com uma espécie de perfume, secando-os com seus cabelos. Obviamente, esta cena chama a atenção de todo naquele recinto. Na cena seguinte do relato, somos transportados para dentro da cabeça de Simão, o dono da casa, por ouvirmos seus pensamentos: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou porque é pecadora”. Logo na sequencia Jesus dirige-se a Simão e lhe conta uma história de duas pessoas que deviam quantias diferentes a um certo credor. A dívida de uma deles era cem vezes maior que a do outro, mas, como o texto deixa claro, “não tendo nenhum dos dois com que pagar”, foram perdoados. A história contada aparece como que respondendo ao pensamento de Simão sobre Jesus ser ou não um profeta. Obviamente, Simão não sabe disse e nem entende de cara. Somente, Jesus, o narrador, e nós, leitores, sabemos disso. O texto diz que logo ao terminar a história, Jesus se volta para Simão e pergunta: “Qual deles, portanto, amará mais?” (v.42). Simão responde: “Suponho que aquele a quem mais perdoou” (v.43). E Jesus, por fim, diz: “Julgaste bem” (v.43). Esse diálogo é central na narrativa por alguns motivos. A descrição deste ocorrido parece estar estruturada em três blocos de relato+ avaliação/julgamento: Introdução (v.36) 1.relato (vv.37-38) + avaliação (v.39) 2.relato (vv.40-42) + avaliação... leia mais

#160

“É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” Gênesis 3:1   Gênesis 2 antecipa muitos dos temas que serão centrais na narrativa do capítulo seguinte. Em Gênesis 2, DEUS faz homem, animais e árvores do solo e da terra. Na narrativa da queda em Gênesis 3 animais, humanos e árvores serão personagens principais. Quando DEUS planta um jardim para o ser humano em Gênesis 2 o texto indica algumas peculiaridades importantes para o desenvolvimento da narrativa. Esses detalhes podem parecer, em uma primeira leitura, aparentemente descritivos. O verso 9 indica que “do solo Deus fez brotar toda sorte de árvores agradáveis (do verbo chamad, desejável) à vista, e boas (tov, bom) para alimento.”   Gênesis 3 desenvolve a idéia da queda e da introdução do pecado no mundo não como uma ação pontual de Adão e Eva, mas como um processo que inclui inúmeras ações resultando na expulsão do jardim e uma vida longe do ideal divino para o ser humano.   Por mais que para muitos o pecado de fato ocorre apenas quando a mulher come do fruto proibido, a narrativa parece indicar uma complexidade maior para o debate e da elaboração do que significa “pecado” em Gênesis 3 (curioso notar, inclusive, que a palavra “pecado” sequer é mencionada).   “Pecado” em Gênesis 3, e no decorrer de toda a Bíblia, é um processo. O processo começa no nível epistemológico. Na avaliação de possíveis interpretações da realidade (no caso da narrativa da queda, a palavra de DEUS sobre a árvore e a palavra da serpente). Quando a serpente, contrariando DEUS, indica que o... leia mais

#159

Abraão recebeu a visita de DEUS em sua tenda e comeram juntos um cordeiro com coalhada (Gênesis 18:7-8). Depois a conversa entre eles se estendeu para a reafirmação da aliança, com a promessa de que Sara e ele, Abraão, realmente teriam um filho no ano seguinte (Gênesis 18:9-10). Os diálogos em Gênesis 18:9-14 lembram muito Gênesis 17, com diversos ecos, incluindo a risada duvidosa da promessa, tanto de Abraão (Gênesis 17:17), quanto de Sara (Gênesis 18:13).   Depois desse papo, o narrador apresenta algo raro na narrativa, um diálogo interno do próprio DEUS. Essa fala interna já apareceu em um momento crucial, Gênesis 8:21-22 na história de Noé. Aqui, DEUS se questiona se deveria ocultar algo do Seu eleito, se deveria conversar a respeito de tudo, já que o escolheu para praticar a justiça e o juízo, abençoando as nações da terra (Gênesis 18:17-19). A fala de DEUS consigo mesmo é irônica, principalmente pelo diálogo que se segue, onde DEUS diz a Abraão que vai verificar se Sodoma e Gomorra são tão pecadores quanto se tem dito. DEUS, aparentemente, vai investigar se as alegações de prática pecaminosa lá correspondem a verdade (Gênesis 18:20-21). Ora, DEUS não precisaria investigar nada, como de fato acontece na sequência, quando os dois seres angelicais descem até Sodoma e vão até a casa de Ló (Gênesis 19).   Abraão havia libertado o rei de Sodoma e seus habitantes de um cativeiro, história narrada em Gênesis 14. Agora, algumas décadas depois (talvez duas), DEUS resolve destruir as duas cidades. O diálogo entre Abraão e DEUS depois do anúncio de destruição é particularmente interessante, pois aponta... leia mais

#158

Depois de completada a criação de todos os elementos, DEUS se dirige aos seres viventes, especificamente ao ser humano, e lhe dá alimento. Foi a primeira dádiva divina à criatura. A Bíblia diz assim: “E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.” Gênesis 1:29-30 Esse texto carrega uma construção simples, mas, pelo seu tamanho, acaba confundindo alguns. Em primeiro lugar, o que Deus dá é introduzido por um verbo, nātan (נָתַן), precedido por sufixo pronominal de identificação, vos (lāḵem), indicando que o discurso se dirigia ao ser humano, macho e fêmea, criados imediatamente antes disso (1:26-28). Logo depois vem o complemento de objeto direto, ou seja, o que é dado. Depois, no verso 30, o narrador apresenta uma nova identificação do discurso: os outros seres vivos e toda a alma vivente, e um novo complemento de objeto direto. Analisando com atenção a construção, podemos simplificar dizendo que Deus deixou três tipos de comida: plantas que produzem semente, árvores que têm fruto que produz semente, e erva verde. Estes três alimentos são para dois grupos de comedores: o ser humano e os outros seres viventes. Alguns enxergam que há uma diferença entre o alimento dado ao homem e aquele dado aos animais, ou seja, o... leia mais