#163

“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim […]” João 17:20   Em João 17 vemos claramente pelo menos um conceito-chave da Reforma de maneira explicita: Soli Deo Gloria (glória somente a Deus). Contudo, antes de mais nada, vale contextualizarmos esta oração de Jesus. Em João 12:1-8 vemos componentes que são ecoados à frente nos capítulos 13-16. Jesus havia ceado em Betânia e, naquela ocasião, Maria lava os pés de Jesus e, por fim, narra-se a entrada triunfal em Jerusalém em que há a aclamação: “Hosana! Hosana! Rei de Israel!” Nos capítulos seguintes, Jesus ceia com os discípulos, lava seus pés e ouve, após a oração, a aclamação: “Crucifica-o! Crucifica-o!” (19:15). Aclamação esta voltada ao, como dizia a placa sobre a cruz, “Rei dos Judeus” (19:19). Os capítulos que antecedem a oração são marcantes para que possamos compreendê-la. Jesus termina seu ministério e, aparentemente, seus discípulos parecem não compreender nada do que se estava passando. Dos capítulos 13 a 16 ouvimos de discípulos diferentes (Pedro, João e Tomé) as perguntas:  “Lavar meus pés?”; “Quem vai te trair?”; “Para onde vais?”; “Como podemos saber o caminho se não dizes para onde vais?”. Isso sem contar pedidos como por exemplo o de Filipe: “Mostra-nos o pai”. Sem qualquer ansiedade, Jesus lhes responde conversando; uma conversa pessoal que se resume ao que vemos em João 16:12-30. A ideia de que embora ainda houvesse um longo caminho a percorrer, eles estavam no caminho. Assim, finalmente chegamos ao capítulo 17.   O capítulo 17 inicia com a afirmação: “[…] é chegada a hora”. Ouvimos que a hora... leia mais

#162

“Quão silencioso terá sido este mar; quão preparado para o assombro da palavra!” George Steiner   No texto Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem Walter Benjamin afirma que no “haja” e no “Ele chamou” presentes nos primeiros versículos de Gênesis 1, vemos uma clara relação entre o ato criador e a linguagem. Tudo começa com a onipotência criadora da linguagem divina, e ao final, a linguagem incorpora a si o criado, ela o nomeia. Para Benjamin:   “Em DEUS o nome é criador por ser palavra, e a palavra é saber por ser nome. ‘E DEUS viu que isso era bom’, isto é: Ele conheceu pelo nome. A relação absoluta do nome com o conhecimento só existe em DEUS, só nEle o nome, porque é intimamente idêntico à palavra criadora, é puro meio do conhecimento. Isso quer dizer: DEUS tornou as coisas cognoscíveis ao lhes dar nomes. Mas o homem só nomeia as coisas na medida em que as conhece.”[1]   Em outras palavras, o homem é aquele que conhece na língua em que DEUS cria. Sua essência é a linguagem em que ocorreu a criação. Contudo, de acordo com Gênesis, ao criar o homem, DEUS não o cria a partir da palavra, e ele não o nomeia. DEUS pôs no homem a linguagem que Lhe havia servido como meio da criação. DEUS descansou após depositar no homem seu poder criador. Em Gênesis 2:19-20a lemos: “Havendo, pois, o senhor DEUS formado da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e... leia mais

#161

Em Lucas 7:36-50, lemos que Jesus é convidado a comer na casa de um fariseu chamado Simão. Logo no início da narrativa somos surpreendidos por uma mulher, pecadora, de acordo com o narrador, que invade aquele momento e começa a “regar”os pés de Jesus com lágrimas e os ungia com uma espécie de perfume, secando-os com seus cabelos. Obviamente, esta cena chama a atenção de todo naquele recinto. Na cena seguinte do relato, somos transportados para dentro da cabeça de Simão, o dono da casa, por ouvirmos seus pensamentos: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou porque é pecadora”. Logo na sequencia Jesus dirige-se a Simão e lhe conta uma história de duas pessoas que deviam quantias diferentes a um certo credor. A dívida de uma deles era cem vezes maior que a do outro, mas, como o texto deixa claro, “não tendo nenhum dos dois com que pagar”, foram perdoados. A história contada aparece como que respondendo ao pensamento de Simão sobre Jesus ser ou não um profeta. Obviamente, Simão não sabe disse e nem entende de cara. Somente, Jesus, o narrador, e nós, leitores, sabemos disso. O texto diz que logo ao terminar a história, Jesus se volta para Simão e pergunta: “Qual deles, portanto, amará mais?” (v.42). Simão responde: “Suponho que aquele a quem mais perdoou” (v.43). E Jesus, por fim, diz: “Julgaste bem” (v.43). Esse diálogo é central na narrativa por alguns motivos. A descrição deste ocorrido parece estar estruturada em três blocos de relato+ avaliação/julgamento: Introdução (v.36) 1.relato (vv.37-38) + avaliação (v.39) 2.relato (vv.40-42) + avaliação... leia mais

#160

“É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” Gênesis 3:1   Gênesis 2 antecipa muitos dos temas que serão centrais na narrativa do capítulo seguinte. Em Gênesis 2, DEUS faz homem, animais e árvores do solo e da terra. Na narrativa da queda em Gênesis 3 animais, humanos e árvores serão personagens principais. Quando DEUS planta um jardim para o ser humano em Gênesis 2 o texto indica algumas peculiaridades importantes para o desenvolvimento da narrativa. Esses detalhes podem parecer, em uma primeira leitura, aparentemente descritivos. O verso 9 indica que “do solo Deus fez brotar toda sorte de árvores agradáveis (do verbo chamad, desejável) à vista, e boas (tov, bom) para alimento.”   Gênesis 3 desenvolve a idéia da queda e da introdução do pecado no mundo não como uma ação pontual de Adão e Eva, mas como um processo que inclui inúmeras ações resultando na expulsão do jardim e uma vida longe do ideal divino para o ser humano.   Por mais que para muitos o pecado de fato ocorre apenas quando a mulher come do fruto proibido, a narrativa parece indicar uma complexidade maior para o debate e da elaboração do que significa “pecado” em Gênesis 3 (curioso notar, inclusive, que a palavra “pecado” sequer é mencionada).   “Pecado” em Gênesis 3, e no decorrer de toda a Bíblia, é um processo. O processo começa no nível epistemológico. Na avaliação de possíveis interpretações da realidade (no caso da narrativa da queda, a palavra de DEUS sobre a árvore e a palavra da serpente). Quando a serpente, contrariando DEUS, indica que o... leia mais

#159

Abraão recebeu a visita de DEUS em sua tenda e comeram juntos um cordeiro com coalhada (Gênesis 18:7-8). Depois a conversa entre eles se estendeu para a reafirmação da aliança, com a promessa de que Sara e ele, Abraão, realmente teriam um filho no ano seguinte (Gênesis 18:9-10). Os diálogos em Gênesis 18:9-14 lembram muito Gênesis 17, com diversos ecos, incluindo a risada duvidosa da promessa, tanto de Abraão (Gênesis 17:17), quanto de Sara (Gênesis 18:13).   Depois desse papo, o narrador apresenta algo raro na narrativa, um diálogo interno do próprio DEUS. Essa fala interna já apareceu em um momento crucial, Gênesis 8:21-22 na história de Noé. Aqui, DEUS se questiona se deveria ocultar algo do Seu eleito, se deveria conversar a respeito de tudo, já que o escolheu para praticar a justiça e o juízo, abençoando as nações da terra (Gênesis 18:17-19). A fala de DEUS consigo mesmo é irônica, principalmente pelo diálogo que se segue, onde DEUS diz a Abraão que vai verificar se Sodoma e Gomorra são tão pecadores quanto se tem dito. DEUS, aparentemente, vai investigar se as alegações de prática pecaminosa lá correspondem a verdade (Gênesis 18:20-21). Ora, DEUS não precisaria investigar nada, como de fato acontece na sequência, quando os dois seres angelicais descem até Sodoma e vão até a casa de Ló (Gênesis 19).   Abraão havia libertado o rei de Sodoma e seus habitantes de um cativeiro, história narrada em Gênesis 14. Agora, algumas décadas depois (talvez duas), DEUS resolve destruir as duas cidades. O diálogo entre Abraão e DEUS depois do anúncio de destruição é particularmente interessante, pois aponta... leia mais

#158

Depois de completada a criação de todos os elementos, DEUS se dirige aos seres viventes, especificamente ao ser humano, e lhe dá alimento. Foi a primeira dádiva divina à criatura. A Bíblia diz assim: “E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.” Gênesis 1:29-30 Esse texto carrega uma construção simples, mas, pelo seu tamanho, acaba confundindo alguns. Em primeiro lugar, o que Deus dá é introduzido por um verbo, nātan (נָתַן), precedido por sufixo pronominal de identificação, vos (lāḵem), indicando que o discurso se dirigia ao ser humano, macho e fêmea, criados imediatamente antes disso (1:26-28). Logo depois vem o complemento de objeto direto, ou seja, o que é dado. Depois, no verso 30, o narrador apresenta uma nova identificação do discurso: os outros seres vivos e toda a alma vivente, e um novo complemento de objeto direto. Analisando com atenção a construção, podemos simplificar dizendo que Deus deixou três tipos de comida: plantas que produzem semente, árvores que têm fruto que produz semente, e erva verde. Estes três alimentos são para dois grupos de comedores: o ser humano e os outros seres viventes. Alguns enxergam que há uma diferença entre o alimento dado ao homem e aquele dado aos animais, ou seja, o... leia mais

#157

[Obs.: Neste último final de semana a Terceira Margem do Rio participou de uma vigília organizada pela IASD central de Taguatinga. Tiago Arrais falou a respeito de sola scriptura e, mais tarde, cantou algumas de suas canções; Edson Nunes falou de sola gratia; Lucas Iglesias falou de sola fide e solus Cristus; Leonardo Gonçalves falou de soli Deo gloria e cantou duas canções em hebraico; Felipe Valente também cantou; e tivemos a participação especial de Gabriel Iglesias, que apresentou algumas de suas canções. O ingresso para este evento havia sido estipulado em forma de alimentos não perecíveis que seriam doados para um assentamento do MATR (Movimento de Apoio ao Trabalhador Rural) que regularmente é atendido e assistido por voluntários da IASD central de Taguatinga. Pedimos para que pudéssemos pessoalmente participar da entrega destes alimentos. Ao chegarmos no local, a situação era calamitosa; faltava água e não se sabia quando um carro pipa poderia suprir as necessidades mais básicas e para piorar, um dos membros daquela comunidade, Antônio, havia acabado de falecer. Fizemos uma pequena programação para os membros daquela comunidade que não foram ao enterro de Antônio. Visitamos a viúva, Geralda, que acabara de retornar do funeral de seu marido, e, em uma pequena capela em que não caberiam mais de 20 pessoas, cantamos alguns hinos e Lucas orou por ela e sua família. O texto que segue é fruto destes acontecimentos.]   Hoje orei com quem ficou. Dura é a dor de ficar ao ver partir. Em toda perda, por mais que uma parte de nós também se vá, sofremos com a aridez do ficar. O dia da... leia mais

#156

A narrativa do dilúvio está em duas seções dentro do primeiro livro da Bíblia. A primeira parte aparece no final da terceira seção de Gênesis, que se iniciou em Gênesis 5:1 (“Este é o livro da genealogia[1] de Adão”) e compreende uma espécie de anúncio de enredo, terminando em Gênesis 6:8. A segunda parte está na quarta seção de Gênesis, começando em 6:9 e terminando em 9:29.   O que conecta uma parte à outra é, obviamente, o personagem Noé. Noé é apresentado duas vezes de maneira breve, antes de se tornar o centro das atenções da narrativa que começa em Gênesis 6:9 (“Eis a história[2] de Noé”). Em sua primeira apresentação, na genealogia de Adão, seu nome é explicado por seu pai, Lameque: “Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o SENHOR amaldiçoou” (Gênesis 5:28).   Noé, cujo nome significa “descanso” (da raiz nḥ) carrega a esperança de seu pai de que ele traga descanso da maldição dada por DEUS em Gênesis 3:17-19. Depois dessa primeira apresentação, o estado da terra nos dias de Noé é descrito em Gênesis 6:1-7. Basicamente o que se pode resumir é que havia intensa promiscuidade e violência. A narrativa em Gênesis 6:11-12, por exemplo, ratifica esse estado constante de violência com a construção frasal “estava cheia de violência” e com “pois corrompida está toda carne do seu caminho sobre a terra”.   A descrição negativa de Gênesis 6:1-7 culmina numa declaração em que o personagem Noé é novamente introduzido: “E Noé achou graça nos olhos de Deus” (Gênesis 6:8). Essa declaração soa fora de... leia mais

#155

“Vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor.” Mateus 9.36   Nos últimos textos temos tratado da recorrente questão da falta de misericórdia, da falta de paciência, e de uma religiosidade que, embora se proponha altos ideais, na prática, deixa a desejar. Neste ano de 2017 são muitos os que celebram os 500 anos da Reforma Protestante, contudo, a junção de uma certa frustração religiosa com essa celebração gera sentimentos mistos e acaba produzindo em nós uma certa estranheza. Estranheza, porque o distanciamento do texto, dos conceitos e de uma visão verdadeiramente bíblica é tamanho que a celebração da Reforma é equivalente à celebração de um divórcio. A postura de algumas lideranças religiosas e de pregações em tom “profético” só agrava a situação. Por isso, ao celebrarmos a herança da Reforma, vale a pena ponderar alguns versos de Mateus 23, na tentativa de resgatar justamente o que dia após dia está sendo esquecido e perdido. Observe como cada frase de Jesus é carregada de relevância para os nossos dias de frustração e celebração. Verso 1: “Então falou Jesus à multidão, e aos seus discípulos…” O discurso inteiro será contra a postura dos líderes religiosos da época, porém é dirigido à multidão que seguia Jesus e aos seus próprios discípulos. O discurso é para as “ovelhas sem pastor” (ver Mateus 9:36 e Jeremias 23:1-6). Pessoas que, como Jeremias antecipa, seriam alvo da negligência de pastores. Verso 2: “…dizendo: Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus.” O assento de Moisés, obviamente, não é literal, mas figurativo. Moisés mesmo... leia mais

#154

É como diferente da atitude de Jonas com relação aos Ninivitas que percebemos a parábola da figueira estéril (uma parábola pouco lembrada dentre as várias narradas por Jesus). Em Lucas 13:6-9, lemos: “Então, Jesus proferiu a seguinte parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e, vindo procurar fruto nela, não achou. Pelo que disse ao viticultor: Há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não acho; podes cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra? Ele, porém, respondeu: Senhor, deixa-a ainda este ano, até que eu escave ao redor dela e lhe ponha estrume. Se vier a dar fruto, bem está; se não, mandarás cortá-la.” Essa parábola é contada por Jesus pouco tempo antes dele fazer sua entrada triunfal em Jerusalém. Dentre as inúmeras lições dessa parábola, uma bem clara e que se relaciona com a misericórdia divina apresentada em Jonas é: não interessa qual for a figueira, ela merece mais tempo. Numa época em que, principalmente em alguns ambientes religiosos, muitas pregações parecem enfatizar os atos e hábitos que todos os fiéis devem cumprir –de acordo com a determinação do pregador, o que ele determinar, no tempo que ele determinar– essa parábola nos diz: dê mais tempo. Além disso, contrária à nossa tendência de querer resolver problemas espirituais por amputação, a parábola diz: “ponha estrume”. Diferentemente do discurso daqueles que se consideram os “intermediários” do dono da figueira dizendo que “temos de cortar o mal pela raiz”, a intervenção do trabalhador da figueira surge com um único propósito: pedir mais tempo. Nada há de glamoroso no esterco. Esterco não é um reparo... leia mais

#153

Quem cresceu em um ambiente religioso, conhece a história de Jonas com certa clareza. O profeta de DEUS que recebe o chamado para ir pregar em Nínive, cidade dos maus, violentos e perversos assírios. Ele resolve desconsiderar o chamado divino e fugir para outro lugar. No caminho, DEUS envia uma tempestade e Jonas, sabedor de que se tratava de uma intervenção divina para que ele cumprisse a missão dada, prefere ser jogado ao mar, no meio da tempestade; Jonas prefere morrer a cumprir a missão.   Dentro do animal que o engole no mar, Jonas ora. Sua oração é bonita, recheada de belas palavras e referências ao Templo e ao poder de DEUS, mas sem menção de arrependimento ou pedido de perdão. Na verdade, sua última frase nessa oração é curiosa: “Os que se apegam aos ídolos vãos; afastam de si a sua própria misericórdia.” (Jonas 2:8). Essa frase aponta para o que Jonas continuava achando dos ninivitas, que eram idólatras: não mereciam misericórdia. O profeta sabia que a mensagem de destruição que ele deveria levar a Nínive indicava que Deus ainda lhes concedia misericórdia (ver Jeremias 18), mas, a seu ver, eles não a mereciam.   Misericordiosamente, DEUS ordena ao animal que vomite Jonas na terra. O verbo usado para “vomitar” (qyʾ) é raro, ocorrendo poucas vezes na Bíblia Hebraica. Quando usado, ele se refere a bêbados ou glutões vomitando (que não parece ser o caso aqui) ou a própria terra vomitando (Levítico 18 e 20). No contexto da terra, ela vomita pecadores que a contaminam. O contexto de Jonas é a única ocorrência em que este verbo... leia mais

#152

Outro componente essencial do estudo da narrativa bíblica é sua estrutura. A maioria das narrativas aparece estruturada com os seguintes elementos[1]: (a) resumo; (b) orientação; (c) ação complicadora; (d) avaliação; (e) resolução; e (f) coda. No livro de Rute, por exemplo, a narrativa se inicia com algumas frases que resumem toda a história. Estas frases servem para apresentar, de forma condensada, a respeito de que a história trata. Aparentemente, não vemos isso no livro de Rute, mas “Depois dessas coisa, pôs DEUS Abraão à prova […]” (Gênesis 22:1) é um exemplo. A orientação é onde tempo, lugar, e pessoas da narrativa são identificados. No início do livro de Rute encontramos este tipo de orientação: “Nos dias em que julgavam os juízes […]”(Rute 1:1). Apesar de, para leitores modernos, esta introdução possa parecer um indicativo de que a intenção do livro é ser histórica, na verdade, isto está unicamente colocando a história em um contexto temporal. Deste modo, o narrador se distancia da história e conduz o leitor à estrutura temporal em que a história ocorreu. Apontar exatamente em que momento na história dos juízes isto aconteceu é uma preocupação moderna. Na história não vemos indicações de uma data precisa. Outro exemplo como “[…] saiu a habitar na terra de Moabe” (Rute 1:1) também poderia ser destacado. Em seguida, a ação complicadora é o coração da narrativa. Ela narra o que aconteceu e quando aconteceu. Aqui, a sequência temporal dos eventos se torna importante. Normalmente alguns marcadores aparecem para indicar que a ação está iniciando. Este marcador pode ser um indicador temporal (específico [Ester 1:3] ou geral [Juizes 11:4]), ou... leia mais

#151

Dentre os principais componentes de qualquer narrativa, está a composição de seus personagens. Este fenômeno de caracterização não é diferente no texto bíblico.   Para E. M. Forster, os personagens podem ser distinguidos entre os planos e os completos.[1] Os planos são construídos em torno de uma ideia ou um único conceito, sendo que normalmente não apresentam aspectos de sua vida íntima; os completos, por outro lado, são complexos, auto-conscientes, capazes de desenvolvimento e mudança.   No livro de Rute, Noemi, Rute e Boaz configuram tipo de personagens completos retratados de maneira profunda e complexa através de suas ações, discursos e reações. Qualquer história está, ainda, repleta de personagens que funcionam como agentes para que os personagem maiores/completos se desenvolvam na narrativa. Estes personagens secundários não são importantes em si mesmos, mas, sim, na medida em que auxiliam no desenrolar do enredo. Orfa e o potencial resgatador provavelmente sejam os agentes mais importantes, afinal, servem como contraste com Rute e Boaz ao escolherem exatamente o oposto quando confrontados pela mesma opção de escolha.   Obviamente, a caracterização no texto bíblico é muito mais profunda e rica do que esta simples categorização flexível. Contudo, simplesmente a disposição em considerar a análise dos personagens (e sua caracterização) nas histórias bíblicas, por si só, já é capaz de enriquecer a leitura de qualquer um que se aproxima do texto.   Por exemplo, apesar de ser o livro de Rute, Noemi parece ser a personagem principal. Todos os outros personagens aparecem em relação à ela. Somente em Rute 1:2 Noemi é nomeada em relação ao seu marido, Elimeleque, o que é revertido logo... leia mais

#150

A narrativa[1] é a forma predominante de exposição de idéias na Bíblia Hebraica (BH). A BH tem uma história a contar, e, para contá-la adequadamente, faz uso de todo um arsenal de recursos da arte narrativa hebraica: enredo, caracterização, repetição, descrição física, dentre outros. Além disso, bem mais que a metade do Novo Testamento é composta por narrativas encontradas nos quatro evangelhos e em Atos dos Apóstolos. Isso, porque a forma discursiva predominante empregada para transmitir questões de suprema importância no antigo Israel e no judaísmo do 1º século era, justamente, a narrativa. Foi precisamente isso que o próprio Cristo fez em Suas parábolas, simplesmente dando continuidade à tradição já estabelecida na BH, que explorava o poder das histórias. Este é o tipo de Bíblia que DEUS achou por bem nos dar. Se quisermos ser coerentes com esse tipo de Bíblia, portanto, precisamos lê-la de tal forma que se faça justiça a suas histórias. Como o próprio Laurence Turner afirma, ao invés de apresentar um compêndio com uma série de doutrinas descritas de maneira abstrata, quando Cristo quis ensinar algo sobre salvação, ele disse: “Certo homem tinha dois filhos […]” (Lucas 15:11). E, como vemos através deste recurso, diferentemente da abstração doutrinária que apenas muito dificilmente se pode reproduzir mentalmente, qualquer pessoa consegue repetir a narrativa contada por Jesus depois de ouvi-la apenas uma vez, não importa seu nível social ou cultural. De acordo com Adele Berlin[2], ironicamente, embora contar histórias seja tão importante na tradição bíblica, não há na BH uma palavra para história. Vemos palavras para cânticos, oráculos, hinos, e parábolas. Contudo, não há uma palavra para... leia mais

#149

“Aqueles que pensam que há distinção entre santidade e riso, são intelectualmente constipados” – Robert Alper [1]   Em um trecho do romance O nome da Rosa, Umberto Eco explora uma temática interessante: a relação entre o humor e religião, ou, talvez, humor e santidade. Tal temática aparece através de dois monges (Jorge de Burgos e Guilherme de Baskerville) que debatem se Jesus riu ou não riu quando esteve na terra. Para Jorge de Burgos o riso é fonte de dúvida, desta forma, não pode ser livremente permitido como meio de lidar com a realidade. Diferente da perspectiva do monge de Burgos, a Bíblia parece trazer muitas situações de humor e riso. Isso se dá não somente através de situações cômicas, como também através de descrições que utilizam do humor. Distante de discursos preocupados em condenar gêneros literários e demonizar a relação da cultura com as Escrituras, o escritor bíblico, da mesma forma que utiliza-se da novela e da tragédia para compor seu livro, faz uso também da comédia. Um exemplo pode ser visto na história contada em 2 Reis 6:8-23.   Esta narrativa é contada em 5 estágios: 1o estágio (versos 8-11) – Há informação vaga de que os Sírios estão fazendo guerra contra Israel e acampando em tal e tal lugar. Esta informação apresenta Eliseu na história, que informa ao rei de Israel quais são estes tais e tais lugares. Somente Eliseu sabe quais são os tais e tais lugares. Um toque de humor entra na narrativa quando o rei da Síria, furioso com seus planos sendo frustrados, acusa um dos seus de traição. Isso prepara o... leia mais

#148

“Quando pessoas o suficiente fizerem falsas promessas, palavras deixam de ter significado. E então não haverá mais respostas; apenas mentiras melhores.” Jon Snow   A segunda tentação de Jesus no deserto é narrada por Mateus no capítulo 4 da seguinte maneira: “Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.” Matheus 4:5-7   Após uma primeira tentativa desastrosa de tentar fazer com que transformasse pedras em pães, o diabo conduz Jesus para o pináculo do templo. Sabendo que este havia acabado de citar o texto de Deuteronômio 8:3 como base para não realizar um milagre em favor próprio, o inimigo decide usar textos bíblicos para tentar Jesus, citando Salmo 91 para justificar seu pedido. Salmo 91 começa da seguinte forma: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei. Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.” Salmos 91:1-3   A ironia aqui é clara. O diabo usa um texto que diz respeito à confiança em DEUS, para colocar Jesus a prova, exatamente no quesito de “confiança em DEUS”. Ele usa um texto que reforça a confiança em DEUS, para fazer com que Jesus desconfiasse em DEUS. Brilhante. Mas Jesus... leia mais

#147

O relato de Gênesis 1 encontra paralelos em diversas literaturas antigas. Entretanto, apesar de algumas ligações óbvias, há sempre diferenciações importantes que apontam a singularidade do texto bíblico tanto em sua forma, quanto em seu conteúdo. Em seu princípio, por exemplo, a Bíblia não explica o período anterior a Criação da terra e dos céus, nem descreve Deus ou seu habitat, como o fazem as outras culturas. O relato começa de maneira direta e assertiva, apresentando a divindade apenas em sua relação com a criação: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (1:1).   O verso 2, iniciado por uma clausula disjuntiva, não progride com a narrativa. Na verdade, cada uma das três sentenças é introduzida por uma conjunção em hebraico e faz uma declaração sobre o estado da terra anterior ao primeiro ato criativo de Deus. Assim, a primeira declaração sobre a terra é de sua condição pré-criativa: תֹהוּ (tôhu) e בֹהוּ (vôhu). Essas duas palavras aparentam ser um par usado para criar o que chamamos de hendíadis, ou seja, o uso de dois substantivos ligados por conjunção para transmitir uma ideia que poderia ser dita com apenas um deles e assim tornar o texto mais poético.   São diversas as tentativas de achar uma raiz etimológica para vôhu. As teorias vão desde a ligação com uma deusa canaanita (Bααν) ou com a deusa mesopotâmica Ba-u até uma ligação com o árabe bahiya, que significa “ser vazio”. Já tôhu não foi, até agora, ligado a nenhuma base hebraica, apesar de ser considerado um substantivo primário. Dentre as várias possibilidades da etimologia de tôhu, há o termo... leia mais

#146

  O relato de Gênesis 1:1 – 2:3 guarda uma série de características importantes. Muitos estudaram e estudam esses versos em busca de respostas, mas, infelizmente, a maior parte do tempo se perde a beleza de estudar o texto pelo que ele é, um texto. Isso não significa ignorar as perguntas e repostas normalmente trabalhadas por aqueles que acreditam na Criação, mas olhar o texto com um olhar mais literário e buscar, em sua forma, extrair seu conteúdo primário. A estrutura do texto é bem simples e começa com uma introdução que apresenta o personagem principal do texto, Deus. Deus não é apresentado de maneira tradicional já que não há nenhuma descrição que lhe acompanhe, nem uma biografia. Diferente de outros relatos mesopotâmicos, não há batalhas entre deuses, nem o sangue deles, dos deuses, é usado na criação de algo. A descrição inicial de Deus é baseada em uma ação: criar. Essa narrativa abarcante e generalizada dos atos criativos divinos começa com limites de tempo (“no princípio”) e de espaço (“céus e terra”) e o que vai conectar essas duas dimensões é o verbo בּרא (br’). Para compreender o verbo em questão de fato, é preciso deixar de lado a teologia, já que o entendimento dele é geralmente conectado ao conceito doutrinário de ex nihilo, ou seja, uma criação “do nada”, antes de haver matéria. A discussão de quando a compreensão de uma criação material a partir da não-matéria começou, se no período intertestamentário, antes do Novo Testamento, como uma resposta ao judaísmo helenizado, ou se no período dos apóstolos, por causa de textos como Hebreus 11:1-3 e Romanos... leia mais

#145

“…eu sou o homem solitário de Deus…” Travis Bickle em Taxi Driver   Taxi Driver é provavelmente considerado um dos três melhores filmes do diretor Martin Scorcese. Sua peculiaridade em relação aos outros filmes do diretor e até mesmo dos demais filmes de Hollywood dos anos 70 se dá pela harmonia incrível entre o roteiro (escrito por Paul Schrader) e a maneira como Scorcese desenvolveu e escolheu as imagens do mundo do protagonista, Travis Bickle (interpretado pelo famoso Robert De Niro). Tendo em vista que este é um filme dedicado a desenvolver o conceito de solidão, as primeiras imagens já mostram o mundo de Travis: ou dentro das paredes metálicas de seu taxi, ou em seu pequeno apartamento com travas de ferro nas janelas. Quer seja na rua ou em casa Travis vive aprisionado em sua própria solidão. Ele conversa consigo mesmo, escreve em seu diário, e durante o filme todo esboça algumas das razões que construíram sua condição: os males da sociedade nova-iorquina. Travis encontra fora de si mesmo a raiz de sua condição solitária. Quer seja com uma loira educada e trabalhadora ou com uma loira drogada e prostituta Travis falha em conseguir se conectar a outros seres humanos. Incapaz de lidar com sua realidade, ou de até mesmo compreender que suas observações do mundo se dão por suas próprias escolhas e não por influência externa, Travis decide agir. A última cena do filme registra um estouro de violência ao Travis tentar resgatar uma prostituta de seus donos e acaba por se tornar um herói para a mesma sociedade de que antes se distanciava.   O que... leia mais

#144

“Já naquela altura, depois de tanto abuso, era impossível distinguir homem do porco.” Orwell, A Revolução dos Bichos.   “A Revolução dos Bichos de Orwell” junto com “1984” quase podem ser considerados livros proféticos. Além de esclarecerem nuances de males muitas vezes imperceptíveis de governos e regimes políticos ao redor da Segunda Guerra Mundial, as idéias imersas nesses livros anteciparam tendências que seriam marcantes na sociedade e na política tempos depois. No caso de “A Revolução dos Bichos”, uma das idéias centrais é a forma como revoluções pontuais carregam o risco de voltarem atrás nos princípios básicos que as originaram. Os animais da Fazenda Manor decidem se rebelar contra seus donos humanos, e na promessa de ordem e progresso, acabam numa situação muito pior do que antes pela ganância dos porcos (que se tornaram os líderes da revolução). A ganância dos humanos, no fim do livro, é bem menor do que a ganância dos porcos. Os abusos dos humanos no começo do livro são menores do que os abusos dos animais no fim do livro e, como na frase acima, a situação chega ao ponto de ser impossível distinguir entre humano e animal. No livro, a revolução atinge sua maturidade quando se torna moralmente igual ao objeto de seu ataque original. Orwell aqui toca numa veia central da conduta humana: a ilusão dos grandes discursos e a fragilidade da fé no próprio ser humano.   A Bíblia desenvolve a mesma temática em diversos livros e histórias. A narrativa de David no livro de 1-2 Samuel é terreno fértil para traçar um paralelo entre as Escrituras e Orwell. Muito embora... leia mais

#143

“A minha graça te basta […]” 2Co 12:9   Dentre os vários personagens em O Idiota, de Dostoiévski, o príncipe Michkin merece destaque. A sociedade de São Petersburgo, da qual ele faz parte, é por Dostoiévski retratada como trivial e superficial. Afetação e pose são epidêmicas entre pessoas que se avaliam mutuamente pela quantidade de dinheiro que possuem, pelo tipo de famílias das quais se originam e pelas pessoas que conhecem. O príncipe é recebido em seus salões com cautela, apenas devido à possibilidade de ter conexões com a nobreza. Mas desde o início é alvo de suspeitas. Ignorando a importância dos nomes e da posição social, obviamente não se encaixa.   Desde o início, o príncipe dá a todos a impressão de ser simplório e ingênuo. Ele passa a impressão de não saber como o mundo funciona. As pessoas supõem que ele não possui experiência nas complexidades sociais. É um inocente em relação ao mundo real. Um idiota.   Contudo, pouco a pouco, sem que ninguém saiba explicar o que está acontecendo, o príncipe se torna a pessoa mais importante para essa gente, gente obsessiva e louca por fama, sexo ou dinheiro. Em várias situações, pessoas se interessam por ele afim de usá-lo. Mas ele não é “usável”. Porque ele não é bom em nada, ele simplesmente é bom. No meio da loucura de intrigas de pessoas lutando pelos seus objetivos, ele emerge como alguém importante apenas por sua humanidade. Nastácia Filipovna, das figuras psicologicamente mais intrigantes do romance (uma espécie de Maria Madalena, uma mulher atormentada pelos seus próprios demônios, e explorada pela sociedade), tem na pessoa... leia mais

#142

“…elas [as classes baixas] crescerão… com um ódio ‘instintivo’ aos livros e às flores.” O Diretor em “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley   No livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley o mundo pós-utópico descrito pelo autor é marcado por manipulações genéticas que conduzem e determinam a procriação humana e a condicionam ao lema globalista do estado mundial: comunidade, identidade, estabilidade. Seres humanos, já antes de nascerem, possuem função, personalidade e um lugar específico na sociedade (lugar este que são estimulados a valorizar e amar). Curiosamente, as classes baixas, neste estado mundial, são determinadas –através de diversos métodos aparentemente comportamentalistas– a desenvolverem ódio e rejeição a livros e flores. Nas palavras do diretor de “Incubação e Condicionamento” a rejeição aos livros faria com que as classes mais baixas não tivessem acesso ao conhecimento/sabedoria e a rejeição às flores, por sua vez, faria com que as classes baixas se concentrassem no trabalho nas fábricas e não em distrações da natureza.   Huxley se encaixa em um grupo de autores que “profetizaram” certas características que hoje estão presentes no mundo moderno, antes que estas características existissem. Autores como Ray Bradbury (Farenheit 451) e George Orwell (1984) anteciparam, décadas atrás em suas respectivas obras, muito do que hoje é a realidade ao nosso redor. Parte da razão do porque a Bíblia continua –para a Terceira Margem do Rio– um objeto de estudo fascinante mesmo milênios depois de sua elaboração se dá por esta mesma característica: a habilidade de descrever e antecipar de fato quem o ser humano é e/ou passaria a ser.   O texto de Gênesis 1-2, por exemplo, delineia... leia mais

#141

“A vida acaba onde o ‘Reino de Deus’ começa.” Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, 30.   Um dos textos mais estranhos na Bíblia Hebraica é Êxodo 24:8. Depois de DEUS miraculosamente libertar o povo de Israel do Egito, depois de DEUS cuidar do povo no deserto, depois de DEUS fazer conhecidas suas “palavras”, Moisés ouve da boca de DEUS o que é conhecido como “o livro da aliança”. Várias leis são estabelecidas visando o futuro do povo e suas relações com as nações vizinhas, e no fim desse discurso, em Êxodo 24:3, o povo responde positivamente ao que DEUS estabelece com as seguintes palavras: “Tudo o que o Senhor tem falado faremos.” Após essa afirmação, a aliança entre DEUS e o povo é ratificada através de sacrifícios, e finalizado com um rito atípico, que é quando chegamos ao texto estranho de Êxodo 24:8: “Então tomou Moisés aquele sangue, e espargiu-o sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor tem feito convosco sobre todas estas palavras.” O sangue dos sacrifícios é aspergido sobre o povo. Mantenha isso em mente.   N. T. Wright no livro How God Became King identificou bem um problema que ignoramos. Se fôssemos convocados a contar a história dos Evangelhos de forma resumida, a história provavelmente seguiria (como no Credo de Nicéia): “Jesus nasceu, Jesus viveu, Jesus morreu, e Jesus ressuscitou.” Curiosamente, não é assim que os Evangelhos (especialmente os Sinóticos) apresentam a história. Wright argumenta corretamente que a idéia central dos Evangelhos é falar sobre o Reino de Deus. E de fato, uma leitura rápida de Mateus já mostra a... leia mais

#140

“Escreveu na carta, dizendo: Ponde Urias na frente da maior força da peleja; e deixai-o sozinho, para que seja ferido e morra.” 2 Samuel 11:15   Davi estava desesperado. Suas tentativas de acobertar seu envolvimento com Bateseba haviam falhado. Ao ouvir que ela estava grávida (2Sm 11:5), Davi imediatamente envia mensageiros para que trouxessem Urias do campo de batalha. Ele se esforça para que seu soldado durma com a esposa a fim de que a gravidez de Bateseba passasse a ser atribuída ao próprio marido. Contudo, Urias não coopera.   Assim, Davi parte para uma segunda alternativa: Urias deve morrer. Ao afirmar que Urias deveria ser deixado numa posição mais vulnerável no campo de batalha (2Sm 11:15), aparecem no discurso do rei dois verbos marcantes nas narrativas sobre Davi: “ferir” (נכה) e “morrer” (מות). Esta mesma combinação, por exemplo, aparece em 1Sm 17:35 quando o jovem Davi tenta argumentar com o rei Saul, buscando uma permissão para enfrentar o gigante Golias, dizendo que quando apareceu um animal selvagem  ameaçando seu rebanho ele saiu atrás dele, “o feriu, e o matou” (וְהִכִּתִיו וַהֲמִיתִּיו). Ou também em 1Sm 17:50, em relação à própria batalha com Golias, onde é dito que Davi “prevaleceu contra o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e o feriu, e o matou”.   Curiosamente, quando não associadas à vida de Davi, as mesmas duas palavras aparecem, por exemplo, em 2Sm 3:27 ao Joabe vingar seu irmão Asael. Ou também em 2Sm 4:7 ao Recabe e Baaná tirarem a vida do inocente e justo Isbosete (2Sm 4:11).   Por fim, as mesmas palavras aparecem quando Absalão... leia mais

#139

“Tu és este homem.” 2 Samuel 12:7a   A narrativa dos dois livros de Samuel é marcada por duas quedas. No primeiro livro, a desobediência do rei Saul diante do pedido divino para aniquilar os Amalequitas em 1 Samuel 15; no segundo livro, a sequência de ações que levaram o rei David a matar um homem para ficar com sua esposa em 2 Samuel 12. Saul poupa a vida de um inimigo estrangeiro, contrariando a ordem divina; David, por sua vez, não poupa a vida de um estrangeiro amigo, contrariando a ordem da vida.   Kierkegaard no livro For Self Examination usa a narrativa da queda de David para fazer uma crítica aguda à maneira com que lemos o texto bíblico. David havia cometido um erro grave. Até a visita do profeta Natã, no entanto, a rotina seguia normalmente no palácio. É como se uma rotina estivesse encobrindo tudo o que fora feito, bom ou ruim. O profeta Natã sabia com quem estava lidando. O rei, além de guerreiro, era poeta, um pensador. E diante do poeta de Israel, Natã oferece, ironicamente, uma curta e trágica história:   “Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. O rico possuía muitíssimas ovelhas e vacas. Mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; e ela tinha crescido com ele e com seus filhos; do seu bocado comia, e do seu copo bebia, e dormia em seu regaço, e a tinha como filha. E, vindo um viajante ao homem rico, deixou este de tomar das suas ovelhas e das suas vacas para assar para o viajante que viera a... leia mais

#138

Depois da escolha de Arão e seus filhos como sacerdotes e da tribo de Levi como responsável pelo cuidado e manutenção do Santuário (ver Números 3-4) as leituras e discussões em torno do sacerdócio se resumem a exatamente isso: o que cada um fazia (com papel de destaque para o sumo-sacerdote).   Desta maneira alguns personagens –por exemplo Samuel que serviu como sacerdote (1 Samuel 2-3), ou de Salomão ao oferecer sacrifícios no Templo em sua inauguração (1 Reis 8)– são tratados como exceções ou problemas textuais. No Novo Testamento o próprio papel de Jesus como sacerdote é discutido, visto que ele não era descendente de nem de levitas, tampouco de Arão. Mesmo o famoso texto de sua relação com Melquisedeque (Hebreus 5) é motivo de debate.   Entretanto, é importante notar algo anterior ao estabelecimento do Santuário: o destaque dado ao primogênito. Antes de chamar Israel de “reino de sacerdotes e nação santa”, DEUS o chama de primogênito (Êxodo 4:22). A última praga derramada no Egito, inclusive, possui essa mesma ligação com a primogenitura (Êxodo 12-13).   Na narrativa da construção do Santuário do deserto há uma passagem que também menciona os primogênitos, não só dos animais, mas dos filhos do povo. Quando o texto trata das festas que Israel celebraria, especificamente a Festa dos Pães Asmos (diretamente ligada com a Páscoa), DEUS deixa claro que todo primogênito é dEle: “Todo o que abre a madre é meu, o que abre a madre de vacas e ovelhas. O jumento, porém, que abrir a madre, resgata-lo-ás com cordeiro; mas, se não o resgatares, será desnucado. Remirás todos os primogênitos... leia mais

#137

Depois de selar sua aliança com o povo de Israel (Êxodo 19-24), constituindo-o como reino de sacerdotes e nação santa (vide texto #135), DEUS ordena e dá instruções a respeito da construção do tabernáculo (Êxodo 25-27), detalhando tanto a manufatura dos móveis como também da estrutura. Somente depois disso, a partir de Êxodo 28, que ELE vai estabelecer um sacerdócio para esse tabernáculo.   É interessante notar que em todas as ocorrências da palavra sacerdote (kōhēn –כֹּהֵן), ou mesmo da ideia de sacerdote, até este momento em nenhuma vez houve uma conexão espacial. O sacerdote estava relacionado à benção e dízimos (Melquisedeque, texto #134) e ao chamado para obediência (Israel). Agora, no contexto de Arão e seus filhos, o trabalho do sacerdote passa a estar conectado a um lugar: o tabernáculo.   O ofício sacerdotal ligado ao tabernáculo envolve uma grande variedade de coisas interessantes. Basicamente, Arão e seus filhos estariam responsáveis por todo o ritual que envolvia dois aspectos interligados: sacrifício e intercessão (Êxodo 29-30; Levítico 1-7). Esse ritual está conectado ao perdão de pecados, que são decorrentes da desobediência da lei. O sacerdote recebe o sacrifício do animal, o coloca sobre o altar de sacrifícios e depois adentra o chamado lugar Santo para interceder pelo pecador (ou sua família) no altar de incenso (essa obviamente é uma explicação breve e bem resumida). Em textos posteriores será trabalhada a dinâmica do serviço do tabernáculo e do santuário de maneira mais completa.   O trabalho do sumo-sacerdote e dos sacerdotes, no entanto, não se resumia a isso. Além de representar o povo diante de DEUS e o próprio DEUS... leia mais

#136

“[7]Persuadiste-me, ó Senhor, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu, e prevaleceste; sirvo de escárnio todo o dia; cada um deles zomba de mim. [8]Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do Senhor um opróbrio e ludíbrio todo o dia. [9]Então disse eu: Não me lembrarei dele, e não falarei mais no seu nome; mas isso foi no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; e estou fatigado de sofrer, e não posso mais. [10]Porque ouvi a murmuração de muitos, terror de todos os lados: Denunciai, e o denunciaremos; todos os que têm paz comigo aguardam o meu manquejar, dizendo: Bem pode ser que se deixe persuadir; então prevaleceremos contra ele e nos vingaremos dele. [11]Mas o Senhor está comigo como um valente terrível; por isso tropeçarão os meus perseguidores, e não prevalecerão; ficarão muito confundidos; porque não se houveram prudentemente, terão uma confusão perpétua que nunca será esquecida. [12]Tu, pois, ó Senhor dos Exércitos, que provas o justo, e vês os rins e o coração, permite que eu veja a tua vingança contra eles; pois já te revelei a minha causa. [13]Cantai ao Senhor, louvai ao Senhor; pois livrou a alma do necessitado da mão dos malfeitores.” Jeremias 20:7-13   A tensão relacionada a poder e domínio, no lamento de Jeremias 20:7-13, é desenvolvida por uma série de repetições de palavras, principalmente פתה (pātah – persuadir) e יכל (yākhōl – prevalecer/permanecer).   O profeta protesta contra a persuasão de DEUS (verso 7), contra qual ele não é capaz de prevalecer (verso 9). Os inimigos também esperam pela... leia mais

#135

Como visto no texto anterior, Melquisedeque, um rei caananita, é o primeiro sacerdote assim nomeado na Bíblia Hebraica. Depois dele, ainda em Gênesis, aparecerá um sacerdote de Om (capítulos 41, etc), sempre ligado à história de José no Egito. Em Êxodo, o primeiro sacerdote é Jetro, sogro de Moisés (Êxodo 3, etc) e é somente em Êxodo 19 que vemos a palavra “sacerdote” (כּהן) conectada a Israel de alguma maneira.   O contexto mais amplo envolve a libertação do Egito, os diversos milagres que DEUS operou com o povo ainda cativo (as pragas) e durante o início da peregrinação (maná, codornizes, vitória em guerras, etc). Agora, Israel está acampado na região do Sinai, quase 50 dias depois da Páscoa. Eles estão esperando, uma vez que a nuvem/coluna parou no alto de um monte (quando a nuvem parava, eles acampavam).   O contexto mais específico se refere à aliança que DEUS estava prestes a firmar com Israel. O texto de Êxodo 19 é justamente o início da seção da aliança, que depois segue com os 10 mandamentos, uma série de aplicações desses mandamentos e, por fim, o selamento dessa aliança em Êxodo 24. Basicamente, a chegada ao Sinai e tudo que acontece entre Êxodo 19-24, é uma espécie de ápice da formação de Israel e do seu relacionamento com DEUS. Já se tratou aqui, na Terceira Margem do Rio, do Decálogo (#85, #86 e #87). Agora, no entanto, o assunto é o chamado ao sacerdócio.   A fala divina começa com um lembrete da libertação maravilhosa e milagrosa provida por ELE a Israel quando da saída do Egito (19:4) e... leia mais

#134

O desenvolvimento da ideia de sacerdócio na Bíblia Hebraica é bem interessante e acrescenta camadas interpretativas que podem ajudar o leitor do Novo Testamento a entender diversas passagens relacionadas a Jesus ou mesmo ao notório “sacerdócio de todos os santos” (1 Pedro 2:1-10). A primeira figura sacerdotal bíblica é Melquisedeque. Em hebraico seu nome significa “rei justo”. Sua aparição é súbita e, de certa forma, intrusiva na narrativa de Abrão. Após vencer uma batalha importante contra diversos reis (Gênesis 14:1-16), o rei de Sodoma vai ao seu encontro (Gênesis 14:17) –lembrando que Abrão tinha ido lutar para libertar seu sobrinho, Ló, que morava em Sodoma– entretanto, de repente, antes desse encontro, aparece Melquisedeque. A narrativa do encontro do patriarca com o rei de Sodoma continua em Gênesis 14:21, mas em 14:18-20 temos essa intromissão, três versos em que um personagem é introduzido e, logo depois, desaparece. Sua aparição indica que ele era rei de Salém (da raiz “paz” – שלום) e sacerdote do DEUS Altísissimo (Gênesis 14:18). Vários aspectos curiosos saltam do texto: 1) o primeiro sacerdote que aparece na Bíblia Hebraica, um kōhēn (כֹּהֵן), é um rei de um povo canaanita, que não parece estar ligado a Abrão e sua linhagem; 2) a maneira como ele, Melquisedeque, é relacionado a DEUS é genérica (não usa o tetragrama sagrado – יהוה) e ainda com terminologia canaanita “altíssimo” (‘elyôn – עֶלְיוֹן). No entanto, o mais curioso é realmente a sequência em que Melquisedeque fala e o fato de Abrão responder com uma ação inédita: E ele o abençoou e disse: “Abençoado seja Abrão pelo Deus Altíssimo, criador* dos céus e... leia mais