#202

Como foi visto em um texto anterior, a estrutura de Gênesis 1:3 a 31 aponta para uma unidade coesa entre os seis dias, que formariam um bloco indivisível. Essa unidade literária é quebrada no início de Gênesis 2, quando o autor não utiliza nenhum refrão anterior. Ainda que retome alguns verbos (“criar”, “fazer”, “abençoar”) e a expressão “céus e terra”, há uma clara cisão textual que marca o sétimo dia:   E terminou os céus e a terra e todo seu exército. E terminou Deus no dia sétimo o seu trabalho que tinha feito E descansou no sétimo dia de todo o seu trabalho que tinha feito E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou Porque nele descansou de todo o seu trabalho que tinha criado Deus para fazer [1]   Durante todo o relato, as ações de DEUS são dirigidas à criação. Há sempre algo acontecendo que envolve os três elementos de Gênesis 1:2 – terra desértica e sem vida; escuridão; águas. Aqui, em Gênesis 2:1-3, entretanto, a ação não possui ligação com o que é criado, pois a criação está terminada. A ação está relacionada ao próprio DEUS. No sétimo dia, diferentemente dos outros seis, Ele faz algo em relação a si mesmo: descansa.   Como se lê acima, o sábado é abençoado e santificado em virtude da ação de DEUS de descansar. O verbo usado aqui, שׁבת (šbt), tem seu significado relacionado à ação de cessar alguma atividade. Essa cessação, no entanto, não implica em uma simples pausa momentânea, mas no fim de todas as ações relacionadas a cessação: “A referência é consistentemente à cessação... leia mais

#201

“A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes instruções: pregai que está próximo o reino dos céus.” Matheus 10:5, 7   Lucas 12:35-48 narra a parábola do servo vigilante. Jesus abre a história dizendo: “cingido esteja vosso corpo, e acesas as vossas candeias… sede vós semelhantes a homens que esperam pelo seu senhor, ao voltar ele das festas de casamento; para que quando vier a bater à porta, logo lha abram. Bem-aventurados aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontre vigilantes.”    Uma má compreensão do que significa o Reino nos Evangelhos pode causar sérios problemas de interpretação textual assim como problemas na vivência do Evangelho. Para muitos o Reino é equivalente ao céu e atuar pelo Reino na terra é equivalente à devoção pessoal, e atuação individual e comunitária em igrejas. Curiosamente não haviam igrejas ainda durante a vida de Jesus (muito menos manuais de devoção pessoal) e pouco do que ele disse se aplicava ao que hoje entendemos por igreja (prédios com paredes e bancos e/ou instituições religiosas), mas quando o conceito de Reino nos Evangelhos é interpretado como uma realidade futura, o que segue fatalmente será confusão.   Se o Reino é uma realidade futura, o presente serve apenas para meu preparo espiritual para “não perder” o Reino futuro. Quando projetamos o Reino como uma realidade futura interpretamos nossa vida de discipulado como uma vida de preparo para o futuro. Buscamos construir nossa relação com DEUS pelo viés de inúmeras disciplinas espirituais que nos manterão debaixo daquilo que pensamos ser a vontade de DEUS: ir a cultos, orar sem cessar (literalmente), nos afastar de... leia mais

#200

É fim de primeiro semestre de 2016, sala do curso de teologia, 3º ano. Um professor, dos que mais admiro, reúne a turma para assistir a um filme: Spotlight. Um drama biográfico a respeito da equipe de jornalismo investigativo do The Boston Globe, laureada com o Prêmio Pulitzer por Serviço Público em 2003 por despir ao mundo o sistemático acobertamento dos casos de pedofilia no interior das paróquias de Boston. O que mais me marcou em todo o filme foi a frase dita por uma personagem, justificando o silêncio da comunidade (que estava ciente dos casos, mas que os ignorava pelo papel social que a Igreja desempenhava nela): “É preciso um bairro inteiro para abusar de uma criança.”   Isso jamais saiu de minha cabeça e me ensinou algo que considero universal: para exercer violência, basta ser humano. O debate que segue, no contexto eclesiástico, portanto, é desafiador, mas necessário: Somos nós também, enquanto comunidade religiosa, capazes deste tipo de corporativismo? A resposta a essa pergunta tem dois “sim”; um evidentemente negativo e outro positivo (e até mesmo indispensável).   Começo pelo segundo “sim”. Ele decorre de um aspecto essencial da literatura profética bíblica: a vulnerabilidade. Aparentemente, ser vulnerável é parte inerente de ser profeta. O profeta, mais que aquele que revela o futuro, é aquele que vê o que DEUS vê e diz o que DEUS quer dizer. Durante esse processo o profeta, enquanto indivíduo, muitas vezes não entende nem concorda com o que DEUS mostra. Ele testemunha daquilo que vê enquanto ao mesmo tempo protesta contra aquilo que vê: mais usualmente, violência praticada no meio e por... leia mais

#199

Durante as últimas semanas (e muito provavelmente pelas próximas duas também) a tensão no país parece impossível de ser ignorada. Apesar do Brasil ser um país em que não há furacões, terremotos ou tsunamis e em que o fundamentalismo religioso diga respeito mais à estética do vestuário e/ou cabelos compridos que por genocídios, a violência difundida através das redes sociais ou em grupos de whatsapp nesses últimos dias tem sido tão assustadora quanto as catástrofes acima mencionadas.    Semelhantemente às torcidas organizadas de futebol, o “nós” versus “eles” parece estar ameaçando o verdadeiro valor do ser humano. Ao reduzirmos pessoas a partidos políticos e candidatos, temos repetido o padrão de interações visível, por exemplo, no trânsito: se eu sou motociclista, obviamente, os carros, os ônibus, e os pedestres são um problema para o bem-estar da minha locomoção; se sou taxista, os carros de passeio são descuidados; se sou ciclista, falta cidadania aos outros. Coincidentemente, todos erram e, desgraçadamente, apenas eu sei dirigir. Assim, nasce o ódio.    Como diz o historiador Leandro Karnal[1]: “Ao vociferar contra os outros, o ódio também me insere numa zona calma. Se berro que uma pessoa x é vagabunda porque nasceu na terra y, por oposição estou me elogiando, pois não nasci naquela terra nem sou vagabundo”. Não tenho certeza se sou muito bom, mas sei que o outro partido é muito ruim, logo, ao menos, sou melhor do que eles.   O problema desse ódio, que nada mais é do que um autoelogio, é a falsa certeza e a falaciosa autoconfiança que dele provém. No final das contas, ambas corroem o diálogo. Afinal,... leia mais

#198

A palavra Bíblia significa, literalmente, livros. Um aspecto curioso é que esse conjunto de livros chamado “Livros” também está cheio de referências a livros. Em Deuteronômio lemos que Moisés escreveu um cântico e o livro da lei (ver os textos 130 e 131); em Jeremias há o livro (rolo), contendo palavras de Jeremias que é destruído pelo rei de Judá (ver os textos 25 e 115); há o livro que Ezequiel deve comer; os livros abertos diante do trono do Ancião de dias em Daniel; o livro que é doce e amargo em Apocalipse; o livro das bênçãos e maldições citado também por Daniel em sua oração; etc.   Há também uma série de ordens para que coisas sejam escritas e mesmo menções de algo ser escrito: é dito que Moisés escreveu os mandamentos (na segunda vez); que Baruque escrevia o que Jeremias ditava; o rei Davi escreve uma carta que acaba por levar Urias à morte; há uma mão misteriosa escrevendo em uma parede no livro de Daniel; o profeta Daniel diz ter escrito exatamente o que viu em visão; Jesus escreve no chão ao ser testado no episódio da mulher adúltera; o próprio DEUS aparece escrevendo em pedra em Êxodo.   Fora isso, há os diversos textos em que livros são lidos diante do povo, que os escuta, como em Êxodo, Josué, Reis, etc. Claramente a ideia da palavra escrita é importante na Bíblia. Deuteronômio 28:58-59 alerta que a leitura do livro é o que os manteria longe da apostasia e manteria a aliança. Obviamente não só a leitura, mas a ação decorrente dessa leitura. O livro... leia mais

#197

No texto anterior (#196), foi apontada a ênfase bíblica na ideia da palavra escrita e sua leitura. Uma outra ênfase interessante na Bíblia é contar e repetir. É uma espécie de modelo alternativo para a leitura. Em Êxodo 12 e em Deuteronômio 6, no estabelecimento da Páscoa, por exemplo, as comemorações futuras deveriam precisamente conter o ato de contar toda a história da Páscoa para as crianças. Basicamente, a observância plena da Páscoa incluía a repetição da história da Páscoa para que todos soubessem o porquê daquela celebração.   Em Êxodo 12:26-27 a forma desse estatuto está resumida, enquanto em Deuteronômio 6:20-24 está mais expandida. Tanto em uma quanto em outra, no entanto, a história não deve ser contada como um ensinamento, uma aula. Não deve ser contada à revelia da vontade da criança, como se fosse uma obrigação. Nos dois textos é a criança que deve perguntar primeiro. A ideia do contar não está associada ao “falar ao vento”, mas, sim, ao desejo de ouvir e saber mais. Possivelmente, ao observar todos os preparativos e as festividades envolvidas na festa da Páscoa, a criança sentiria curiosidade e então perguntaria aos pais sobre tudo aquilo.   Como já visto em outro momento (textos #12 e #26), Páscoa é memória. Ao recontar a história, inclusive, deve-se colocar em primeira pessoa do singular ou do plural: “quando DEUS nos tirou do Egito”, “eu era escravo no Egito”, etc. Sem a repetição da história, não há memória e, portanto, não haverá significado para o presente.   Não há nada místico nesse contar e repetir. Há apenas o fator identitário. A história dos... leia mais

#196

Desde que se começa a estudar literatura, ainda nas aulas de Língua Portuguesa do agora Ensino Fundamental, um destaque importante é dado ao autor e ao momento histórico em que ele viveu ao escrever sua obra literária. Muitas vezes as aulas de Literatura, tanto no Ensino Médio, quanto na Faculdade de Letras, se tornam mais uma análise de contextos socioeconômicos e históricos do que análise literária propriamente dito. É evidente que isso tem o seu valor. A história de vida do autor, seu lugar de origem, o país em que vivia, as circunstâncias sociais, tudo isso pode ajudar a entender melhor a obra, ou nuances dela.    Por exemplo, saber que Ferreira Gullar estava exilado quando escreveu o famoso Poema Sujo é vital para entender o final dele, principalmente. Depois de anos fora do Brasil, morando em Moscou, Santiago e Lima, ele estava em Buenos Aires quando finalizou o poema com as palavras:    cada coisa está em outra de sua própria maneira e de maneira distinta de como está em si mesma   a cidade não está no homem do mesmo modo que em suas quitandas praças e ruas   A cidade –o Rio de Janeiro– estava com ele, nele, ainda que ele estivesse em outra cidade, mas ao mesmo tempo não estava. Essa leitura baseada no contexto e que está presente no poema, pode auxiliar na compreensão, mas não revela uma conclusão mais aprofundada: o poeta está no poema e o poema está nele, mas de maneiras distintas.   Quer dizer, o contexto histórico, socioeconômico, etc., me ajuda a entender literatura, mas não resolve tudo. Se uma... leia mais

#195

Voltando a falar de genealogias (como no texto 169), a fala de Lameque referindo-se ao nascimento do seu filho Noé é, em si, uma forte quebra da estrutura textual da genealogia de Gênesis 5. A construção das genealogias nesse capítulo é repetida e funciona da seguinte maneira: um personagem vive tantos anos e gera um filho, depois que gerou o filho, vive mais tanto tempo e tem filhos e filhas, todos os seus dias são apresentados e então é dito que ele morre. Há apenas duas exceções: Enoque (Gênesis 5:21-24) e Lameque (Gênesis 5:28-31).    Acerca de Enoque o texto diz que ele andou com DEUS e Este o tomou (lqḥ) para Si. A segunda vez em que o verbo lqḥ aparece, tendo DEUS como sujeito e o homem como objeto, quebra a estrutura da genealogia e parece antecipar algo exatamente pela referência a Gênesis 2:15, a primeira vez em que DEUS lqḥ um homem.   A sequência genealógica volta ao normal, com Matusalém, para então sofrer nova quebra com o nascimento de Noé, de quem é dito: “Pôs-lhe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o Senhor amaldiçoou.” (Gênesis 5:29)   Essa frase contém alguns elementos de destaque. Primeiro, é a segunda vez em que a raiz nûaḥ (descansar) aparece, sendo a primeira exatamente em Gênesis 2:15. Em 2:15 é o verbo usado para a ação divina de colocar (ou, literalmente, descansar) o homem no jardim e em 5:29 é o nome do filho de Lameque. As duas quebras de estrutura genealógica em Gênesis 5... leia mais

#194

“…é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha…” Matheus 19:24   Jesus termina o discurso do sermão da montanha com uma série de paralelos. Duas estradas, duas árvores, dois fundamentos. Por séculos autores de diferentes tradições e culturas tentaram decifrar a primeira série de paralelos: porta e caminho. O desafio do texto é simples: não existe um precedente próximo que esclareça o que significa a porta estreita e o caminho estreito assim como a porta larga e o caminho largo já que porta e caminho são introduzidos no discurso apenas no final. Com os paralelos que seguem esse problema não existe. As árvores representam indivíduos que produziriam ou não bons frutos, isto é, ações em harmonia com a vontade do Pai. Os dois fundamentos Jesus também explica: os que ouvem as palavras e não praticam são como o homem que constrói no fundamento instável da areia, e o homem que constrói na pedra representa aqueles que ouvem e praticam as palavras de Cristo.   E aqui estamos, diante de duas portas e dois caminhos, sem uma explicação de Jesus. A falta de um esclarecimento fez e faz com que muitos se sintam livres para inferir no texto aquilo que consideram mais importantes dentro de suas respectivas teologias/sistemas/cosmovisões pessoais. Eis aqui o perigo de toda teologia: falar de DEUS de modo à prioridade ser uma consonância com meu sistema teológico ao invés de uma coerência com o texto em si.   O texto de mateus 7:13-14 diz: “Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz para a perdição, e são muitos... leia mais

#193

No texto anterior foi feito um breve retrospecto dos encontros entre DEUS e Abrão, da evolução da promessa contida naquela aliança e das implicações da decisão de Sarai e Abrão de envolverem Agar neste contexto. Além disso, pincelou rapidamente a providência de DEUS na vida da escrava egípcia que, naquele momento, estava vulnerável dentro de uma relação de dominação.   Após a promessa feita para Agar (Gênesis 16:10-12), a narrativa segue com um novo encontro entre DEUS e Abrão. O capítulo 17 do livro de Gênesis revela uma série de nuances que mereceriam uma abordagem mais ampla, portanto, longe da pretensão de dar conta desta complexidade, gostaria de propor uma observação sobre alguns aspectos do referido capítulo.    Primeiramente DEUS novamente repete a promessa, afirmando que Abrão seria pai de muitas nações (versos 2-4) e muda seu nome para Abraão. O mesmo acontece com Sarai, que passa a ser chamada Sara. Na Bíblia, a mudança do nome possui várias implicações. Em muitas situações, por exemplo, o nome aponta para um fato na história do personagem, evidenciando que a partir daquele acontecimento o indivíduo experimentaria um outro sentido de vida. Este aspecto fica claro na narrativa quando DEUS dá o nome Isaque (aquele que ri) num contexto em que Abraão cai sobre seu rosto e ri (verso 17). Por motivos óbvios, é no mínimo engraçado imaginar que um homem de cem anos e uma mulher de 90 anos teriam condições de gerar um filho, principalmente levando em consideração o agravante de que Sara era estéril. Ou seja, aqui o nome do filho conta um fato marcante na trajetória dos pais... leia mais

#192

“E disse Sarai a Abrão: Eis que o Senhor me tem impedido de dar à luz; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai. (Gênesis 16:2)   A história é conhecida. Sarai, mulher de Abrão, não podia ter filhos. A primeira vez em que DEUS aparece a Abrão, estabelece com ele uma aliança (Gênesis 12:1-3) e no bojo da aliança está a promessa de que este seria pai de uma grande nação. Em seguida, na ocasião em que Abrão e seu sobrinho Ló se separam, DEUS aparece pela segunda vez e repete a mesma promessa, mas desta vez utiliza uma ilustração que intensifica a promessa: a descendência de Abrão seria numerosa como o pó da terra, de modo que nem poderia ser contada (Gênesis 13:16). Mais adiante, depois da narrativa do resgate de Ló (breve relato de uma guerra entre reis que habitavam a mesopotâmia), DEUS reaparece a Abrão e diz que seu galardão seria grande. Abrão, já impaciente, reclama que continuava sem filhos e que o mais proximo que chegara de um herdeiro era o damasco Eliezer, seu mordomo. Pela terceira vez, DEUS reforça a promessa, mas desta vez apresentando a descendência de Abrão como as estrelas do céu, que, igualmente ao pó de Gênesis 13, também não podem ser contadas. Ele creu e isto lhe foi imputado por justiça (Gênesis 15:5 e 6). Até aqui, todas as vezes em que DEUS apareceu a Abrão, a confirmação da aliança contemplava a ele, mas não a Sarai.    Dito isto, voltando ao texto inicial, embora o desenrolar da história aponte para... leia mais

#191

Em 1 Reis 19:1-3 lemos: “Acabe fez saber a Jezabel tudo quanto Elias havia feito e como matara todos os profetas à espada. Então, Jezabel mandou um mensageiro a Elias a dizer-lhe: Façam-me os deuses como lhes aprouver se amanhã a estas horas não fizer eu à tua vida como fizeste a cada um deles. Temendo, pois, Elias, levantou-se, e, para salvar sua vida, se foi, e chegou a Berseba, que pertence a Judá; e ali deixou o seu moço.”   Ironicamente, logo após um evento de intensa manifestação divina no capítulo anterior, Elias teme morrer nas mãos de Jezabel. As frases curtas e com enfoque nas ações, intensificam a atmosfera de pânico e urgência. A rapidez do relato é inversamente proporcional à distancia que Elias percorre. Basicamente, o profeta cruza o território de Israel de norte a Sul.    Assim, quando ao leitor é permitido um tempo para respirar, ouvimos da boca do profeta as seguintes palavras: “Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais.” Curioso é que aqui, o pedido que Elias faz a DEUS está diretamente relacionado ao motivo de sua fuga. Elias, aquele que foge de Jezabel porque teme sua morte, pede pela morte. Provavelmente aqui temos um insight relacionado ao pedido. Se realmente quisesse morrer, provavelmente Elias não fugiria. Talvez o pedido de morte, revele algo mais profundo do que o “simples” pedido de morte. Elias parece desiludido, pois mesmo tendo sido o instrumento através do qual todo aquele espetáculo no monte Carmelo havia sido proporcionado, o rei e a rainha continuam iguais.    A frase... leia mais

#190

1 Reis 18:1, capítulo que dá sequência ao texto da semana passada, diz: “Muito tempo depois, veio a palavra do SENHOR a Elias, no terceiro ano, dizendo: Vai, apresenta-te a Acabe, porque darei chuva sobre a terra”. A seca era intensa. Havia passado muito tempo desde que Elias aparecera diante do rei anunciando a seca e, em seguida,  ter desaparecido. Como conseqüência da seca, a fome também era intensa.    De acordo com a narrativa, Elias partiu para se apresentar ao rei. Nesse momento, o episódio de Elias é interrompido. Elias está a caminho.   Enquanto isso, em Samaria, o rei Acabe chamou seu chefe da casa real, Obadias, para uma conversa. Ao mencionar pela primeira vez o nome de Obadias, o narrador faz um parêntesis para identificar quem era esse chefe da casa real; os vrsos.3-4 dizem: “Obadias temia muito ao SENHOR, porque quando Jezabel exterminava os profetas do SENHOR, Obadias tomou cem profetas, e de cinquenta em cinquenta os escondeu numa cova, e os sustentou com pão e água”.   Obadias, aquele que servia ao rei Acabe no palácio real, é o mesmo cujo nome significa “servo do SENHOR”. Mesmo em um contexto de completa idolatria e depravação, Obadias permaneceu fiel. Até então, não há indícios de que Obadias deveria se colocar diante do rei proferindo mensagens contra a postura do mesmo. Obadias era fiel em silêncio. Obadias servia a DEUS, mas em silêncio. Sem alarde. Não somente isso, Obadias clandestinamente salva da morte cem profetas do DEUS de Israel e os alimenta com pão e água. Tal ocorrido adquire contornos irônicos quando lemos o motivo do... leia mais

#189

Em 1 Reis 17:1 lemos pela primeira vez na Bíblia a respeito de Elias. Sua aparição é abrupta. O texto relata que Elias se apresenta diante do rei Acabe (rei de Israel) e afirma: “Tão certo como vive o Senhor, DEUS de Israel, perante cuja face estou, nem orvalho nem chuva haverá nestes anos, segundo a minha palavra.”    Já nesse primeiro versículo muitos detalhes importantes saltam aos olhos. Primeiro, o fato de não recebermos nenhuma informação a respeito do papel que Elias desempenhava na sociedade israelita, somente que ele era “tesbita, dos moradores de Gileade”. E é desta maneira que este desconhecido ao leitor, surge diante do rei, e anuncia uma grande seca.   A história continua e nos versos 2-6 lemos um novo episódio deste capítulo. A palavra do SENHOR vem a Elias, refrão que se repete ao longo do capítulo, ordenando que ele vá à torrente de Querite, fronteira do Jordão. Sem questionar, ele obedece. Lá, Elias tem acesso à água e é alimentado por DEUS através de corvos que o visitam duas vezes no dia.   Contudo, de maneira surpreendente, no verso 7, lemos que a torrente se secou, porque não chovia sobre a terra. Mais uma vez, vem a palavra do SENHOR a Elias, e lhe ordena que vá à Sarepta, onde uma mulher lhe daria comida. Elias, sem questionar, obedece.   Contudo, antes de partir para o episódio seguinte do mesmo capítulo, é fundamental analisarmos algo propositalmente não mencionado até então. A região de Sarepta, pertencente a Sidom, era um local com grande concentração de adoradores de Baal. Apesar de, ao começar o... leia mais

#188

A respeito das guerras descritas na Bíblia Hebraica, é importante primeiro entender algo sobre o mandamento “não matarás”. Em Êxodo 20:13 é uma das estipulações da aliança entre DEUS e Israel. Um dos fatores diferenciadores dessa estipulação de um corpus legal típico do Antigo Oriente Médio (AOM) é a ausência de explicação do assunto bem como da pena para a transgressão. Além disso, o termo usado na passagem específica é o verbo raṣah (רצח) que, de acordo com estudiosos do hebraico, traz a ideia de matar com uso de força. é importante notar que esse verbo não aparece em contexto de mortes em batalha ou em defesa própria, muito menos em casos de suicídio. O verbo é usado em diversos contextos, mas o que parece ser sua tônica é um crime contra a vida de alguém dentro da comunidade (mesmo que não do povo). Ou seja, as mortes ocorridas em guerras não pertencem a esse mandamento.   As guerras, por sua vez, não eram empreendidas pelo povo de DEUS para estabelecer sua religião, e sim para julgar a maneira vil com que os povos viviam (ver Gênesis 15:15-16, por exemplo). Os comportamentos canaanitas são vastamente conhecidos pelos historiadores. Eles podem não ter sido o povo mais violento e promíscuo da face da terra, mas com certeza não eram vítimas inocentes. A resposta simples aqui é: não é uma religião que legitima uma guerra; mas a justiça divina sim (ver Amós 1-2, por exemplo).   Outro aspecto importante é entender que as guerras que Israel empreendia eram dirigidas por DEUS e conduzidas do Seu jeito. Um exemplo de quando isso... leia mais

#187

Depois da reflexão a respeito da memória (ou a falta dela), o Pregador passa a falar de si mesmo. O maior e mais irrefutável argumento de sua conclusão inicial –tudo passa e, por isso, nada vale a pena– é a sua própria jornada. A primeira parte de sua jornada é dedicada à sabedoria. Ele a buscou e a encontrou: “Eis que me engrandeci e sobrepujei em sabedoria a todos os que antes de mim existiram em Jerusalém” (Eclesiastes 1:16). Sua conclusão, no entanto, é de que a sabedoria aumenta a dor (Eclesiastes 1:18), o que parece ecoar em uma música popular brasileira: “pena não ser burro, assim não sofreria tanto”.    A segunda parte da jornada é dedicada ao trabalho. O pregador realizou muita coisa. Na verdade, o verbo “fazer” (עשה) aparece 7x em Eclesiastes 2:4-11. A conclusão é semelhante, pois o trabalho não satisfaz e também não permanece. O trabalho não dá יתרון (ver texto anterior). Sabedoria e trabalho não permanecem debaixo do sol.   Depois dessa descrição pessoal de sua jornada em busca do que permanece, o Pregador retoma parte do argumento inicial: não há memória de nada. Tanto sábio quanto ignorante morrerão do mesmo jeito e ninguém se lembrará de ambos (Eclesiastes 2:12-17). E as obras que fizemos, as coisas que construímos serão deixadas como herança para alguém que ele não tem como prever ser sábio ou ignorante (Eclesiastes 2:18-19), alguém que não fez nada para receber aquilo e que talvez não lhe dê valor (Eclesiastes 2:21).   No fim, o maior inimigo da memória é a morte. O Pregador vê que a morte iguala a... leia mais

#186

Eclesiastes é um livro que chama muito à atenção. O pregador (qohelet) fala à congregação (qahal) sobre suas impressões acerca da existência. Sua fala inicial, no verso 2, é carregada de uma negatividade profunda: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador, vaidade de vaidades, tudo é vaidade”.   A palavra para vaidade é הבל, que significa vapor, fumaça, efemeridade. הבל é algo passageiro, que começa e logo termina. Seu primeiro uso na Bíblia Hebraica (BH) é como substantivo próprio, o nome Abel (Gênesis 4), narrativa tratada diversas outras vezes nesse site. Seu uso na BH é relativamente curto, em torno de 70 vezes, sendo que em Eclesiastes ela ocorre quase 40 vezes, ou seja, para este livro é tremendamente importante. O superlativo no hebraico, “vaidade de vaidades”, acontece 7 vezes, 2 vezes logo no segundo verso do livro.    Tudo é passageiro, tudo acaba, ainda que injustamente (a relação com a história de Abel é profunda). A afirmação categórica do Pregador precede à pergunta básica e que dá rumo a tudo que será escrito/pregado depois. A pergunta é: “Qual é o ganho para o homem de todo o seu trabalho em que trabalha debaixo do sol?” (Eclesiastes 1:3)   Em primeiro lugar, em uma observação mais simples, nota-se que o Pregador restringe o universo da sua pergunta ao “debaixo do sol”. Essa expressão, que ocorre exclusivamente em Eclesiastes, aponta para o fato do Pregador não estar preocupado com o metafísico ou transcendente; sua pergunta se restringe a seu universo observável. Naquilo que posso ver, naquilo que consigo aferir, sem levar em conta o intangível e imponderável, qual é o ganho?... leia mais

#185

Dando seqüência às reflexões a respeito de Gênesis 11:1-9, existem incontáveis maneiras de dividir a estrutura desse texto, algumas mais mirabolantes do que outras. Sem recorrer a muita forçação de barra e se mantendo dentro de um nível de razoável consenso no meio acadêmico, chegamos à seguinte estrutura: ABXB’A’ (tipo os EPs de OS ARRAIS)   A – vv1-2 narrativa B – vv3-4 fala direta (homem) X – vv5 centro da narrativa B’ – vv6-7 fala direta (DEUS) A’ – vv8-9 narrativa   Há, aqui, pelo menos 4 ironias que podem ser identificadas no texto:   1.) O que os seres humanos não queriam? Ser espalhados por toda a terra. O que acontece no final? São espalhados por toda a terra.   2.) O que os seres humanos queriam com a construção da cidade e da torre? Chegar até aos céus. E o que acontece duas vezes na narrativa? DEUS desce. Primeiro pra ver, porque a cidade e a torre eram tão pequenos que “lá de cima” ELE sequer as conseguia ver. Depois, novamente, pra confundir a sua linguagem.   3.) O que mais os seres humanos queriam? Eles queriam “fazer um nome para si”. Ao DEUS confundir as línguas, os nomes de todas as coisas mudam. Ao ponte de sequer conseguirem se comunicar.    4.) Babel, na verdade, não significa “confusão”. Bab significa “porta” ou “portal” e “EL” significa “DEUS”. Os pós-diluviando denominaram sua cidade “a porta de DEUS” ou “o portal para DEUS”. A palavra em hebraico para confusão é balal. É como se o escritor bíblico quisesse criar uma equivalência: querer se babel (porta para DEUS)... leia mais

#184

1 Ora, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar. 2 Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinar; e habitaram ali. 3 E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. 4 Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. 5 Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; 6 e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. 7 Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. 8 Destarte, o SENHOR os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade. 9 Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra e dali o SENHOR os dispersou por toda a superfície dela. (Gênesis 11:1-9)   A narrativa de Gênesis 11:1-9, que conta o episódio referente à torre de Babel, apresenta algumas curiosidades.   Primeira coisa importante: Babel e Babilônia são a mesma coisa. São apenas versões lingüísticas distintas em línguas diferentes, do mesmo modo que Genéve (francês), Genebra (português) e Genf (alemão) são maneiras diferentes de se referir a uma mesma cidade. Não se sabe ao certo porque nas... leia mais

#183

A palavra grega pathos, comumente traduzida como “paixão”, não possuía conotação positiva em suas primeiras figurações. A ideia de pathos implicava para os gregos em um estado ou condição na qual algo acontece ao ser humano, algo do qual ele é uma vítima passiva.    O termo foi aplicado a emoções como “dor” por se acreditar que estes estados eram frutos de ações externas ao ser humano. Isso produzia a noção de que aquela pessoa estaria controlada por aquela paixão. A pessoa afetada estaria, assim, em uma relação de dependência. Esse estado era considerado como um sinal de fraqueza, já que a dignidade do homem envolvia o controle de suas emoções através da razão. O homem vulnerável a essa emoção adquiria status de doente (o que é patológico se refere à doença).    Contudo, no texto bíblico, nitidamente a fonte do mal não se encontra na emoção, no coração inflamado[1]. Pelo contrário, o mal está associado à dureza de coração, indiferença e insensibilidade. Ao invés de obliterar essa realidade, os escritores bíblicos, muitas vezes, consideram estas emoções como sendo inspiradas e/ou até divinas; afinal, o envolvimento emocional e a participação apaixonada são partes inevitáveis da existência religiosa.   Os salmos estão carregados de emoção, os profetas são inundados pela paixão. Para alguns gregos, o estado ideal do homem era a apatia. Para o escritor bíblico, o estado ideal do homem é a simpatia.   Diferente da passividade compreendida pelos gregos, aquele que é invadido pela paixão divina, age. Como afirma o Salmo 111:10: “O temor do Senhor é o principio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam”.... leia mais

#182

“Há mais ídolos do que realidades no mundo…” Friedrich Nietzsche   …e dentre esses inúmeros ídolos, um dos mais influentes e abrangentes é uma religiosidade e um discipulado divorciado das palavras de Jesus. Pois por mais que Jesus tenha deixado as diretrizes de como deveríamos viver enquanto discípulos, milhares de anos depois estamos discutindo estratégias, métodos e maneiras de discipular, de alcançar pessoas do mundo para atraí-las para dentro de nosso contexto.   E não me entendam mal, caros leitores. Não há nada de errado em pensar, em discutir estratégias e métodos; o problema aqui é transformar o que Jesus disse em algo que ele não disse. De fazer de nossas palavras as palavras de Jesus. De forjar uma imagem de discipulado de acordo com nossos ritos e costumes e dizer que “este é o deus que nos tirou da terra do Egito.” (Êxodo 32:4)   Antes de estratégias, antes de métodos, antes de entender cultura e sociedade precisamos entender a fria realidade de que só pode discipular quem já é discípulo. Entendam, a leitura dos Evangelhos limpa nossos olhos para nos dar as condições de enxergar o que é realidade e o que é idolatria. Entender que só pode discipular quem é um discípulo e discutir métodos é uma realidade. Discutir métodos sem entender ou ser um discípulo é idolatria.    Diante disso a questão seria: o que de fato qualifica alguém como discípulo, ou, o que é um discípulo?    A resposta pode ser variada pois cada Evangelho irá apresentar um ângulo diferente de Jesus e, consequentemente, o que significa seguir a Jesus será apresentado de forma... leia mais

#181

“E entrando na casa do fariseu, reclinou-se à mesa.” (Lucas 7:36)   Uma vida, um ministério, um discipulado marcado por correria e falta de tempo acaba matando a espiritualidade genuína. Eugene Peterson observa que uma vida/ministério/discipulado assim é essencialmente preguiçoso “pois é fazer o mais fácil ao invés do mais difícil… É encher nosso tempo com nossas próprias ações ao invés de prestar atenção na ação de DEUS.”    E isso é tão verdadeiro. A experiência religiosa de nossos dias é marcada por correria. É marcada pela urgência da breve volta de Jesus e nossa participação ativa nesse evento vindouro, pela luta incessante contra os nossos pecados e incoerências, pela busca de uma profunda e consequentemente longa devoção pessoal diária. Mas como não temos tempo, essa correria e essas inúmeras expectativas acabam, de fato, matando a verdadeira espiritualidade.    Jesus teve apenas três anos de ministério nessa terra, e no evangelho de Lucas existem pelo menos cinco instancias em que Jesus “se reclina” na mesa para comer com alguém (fariseus, discípulos, publicanos). O ministério de Jesus era marcado por momentos assim. Momentos à mesa com pessoas, momentos de oração longe das multidões, momentos de conversa ao andar por inúmeras estradas empoeiradas de Israel, momentos de aparente inatividade.   Tenho notado as consequências de uma vida de correria e de inúmeras tarefas no meu trabalho. Passei anos carregando o peso da correria, o peso de achar que trabalho contínuo resultaria em maiores resultados e na minha aceitação como “bom trabalhador”. Mas nesse semestre especificamente decidi mudar algumas coisas nesse cenário. Ao invés de fazer muito “por DEUS” decidi reduzir minhas... leia mais

#180

No relato da Criação, as primeiras palavras que DEUS dirige ao homem e à mulher são uma bênção cujo início abriga três imperativos: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra…” (Gênesis 1:28). Deste modo as criaturas são convocadas a expandir, por meio da atividade reprodutiva, a obra do Criador. A fala divina introduz o tópico da geração de descendentes, uma das linhas de força no livro de Gênesis, que atravessa suas narrativas e se torna ainda mais visível nas diversas genealogias descritas nele. Enquanto as listas genealógicas confirmam a multiplicação dos seres humanos ao exibir o desfile das gerações num ritmo linear, algo reforçado pelo caráter formulaico do registro, as narrativas patriarcais guardam uma circunstância que desafia o cumprimento daquele mandato inaugural: a presença recorrente da esterilidade. Esta condição desestabiliza a progressão natural desenhada nas genealogias, pois estabelece um limite incontornável à capacidade humana de gerar, solicitando, assim, uma intervenção divina.    Sarai é a primeira personagem bíblica apresentada como estéril (Gênesis 11:30), o que alimenta uma tensão formidável com o fato de seu marido Abrão receber a promessa divina de que ele seria o pai de uma grande nação (Gênesis 12:1-3)[1]. Ao longo da trajetória do casal, os dois se empenham em resolver essa questão, porém as sucessivas revelações de DEUS ao patriarca mostram que, a fim de concretizar o Seu anúncio inicial, Ele delineou uma resolução que não cabia nas possibilidades humanas. Para entender a singularidade da ação divina na gravidez de Sara[2], basta comparar as descrições que o narrador oferece acerca do processo de concepção em Gênesis 4, onde são registrados os primeiros nascimentos da história humana,... leia mais

#179

Quando falamos em “adoração”, nossa mente imagina um lugar de adoração a DEUS ou em um culto a DEUS. Pensamos assim porque, na Bíblia, a adoração está quase sempre relacionada à uma atitude de reverência a DEUS. No entanto, a palavra “adorar” não vem qualificada de sinceridade e boas intenções. “Adorar” não é um adjetivo; é um verbo que designa uma ação. Por isso, mesmo quando dizemos que vamos adorar, nossas intenções podem estar carregadas de orgulho e hipocrisia.    Por exemplo, quando os visitantes do Oriente chegaram a Belém da Judeia, eles disseram ter vindo para encontrar o menino rei e O “adorar”, no grego, proskynéō (Matheus 2:2). Por outro lado, Herodes também disse a eles que queria ir “adorar” o menino Jesus (Matheus 2:8). Todos pretendiam adorá-lO. Uns, com sinceridade de coração; Herodes, com aparência de adoração e falsa intenção de prestar culto.   Outro equívoco é pensar que a adoração tem lugar e hora marcados. Por isso, há pessoas que esperam chegar até ao local público de culto para, então, cultuar. A mulher samaritana também achava que a adoração tinha de ser feita em um lugar determinado (para os samaritanos, o local eram os montes Gerizim e Ebal) e argumentou com Jesus: “Nossos pais adoraram neste monte e você diz que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar” (João 4:20).   A resposta de Jesus desmonta a noção de que a adoração está ligada a um lugar fixo, a um modelo litúrgico, a um sistema eclesiástico ou a um dia de culto: “A hora vem em que nem neste monte nem em Jerusalém adorarão... leia mais

#178

Há um trecho do evangelho de Lucas marcado pelos tons coloridos de festa e pelos sons vibrantes de júbilo e alegria. Trata-se de Lucas 14 e 15. Para ser mais específico, a seção intermediária de Lucas 14 (versos 7-24) e Lucas 15 praticamente inteiro.   Festa e comida são termos praticamente intercambiáveis em quase todas as culturas e não é diferente nesse espaço do Evangelho. A história do pastor, da mulher e do pai falam de perdas e achados. Em todas elas, a tônica semelhante é a derradeira alegria e o clima de festa. Mas há mais um elemento semelhante nessas histórias que o barulho da festa ou o calor do júbilo podem nos fazer esquecer. A ideia do sacrifício.   O pastor arrisca a vida e com a pesada ovelha sobre os ombros retorna ao aprisco. A mulher empreende uma grande limpeza e, exausta, encontra a moeda. O pai abre mão de tudo e se torna vulnerável esperando religiosamente à janela o retorno do filho pródigo. Antes da festa, um sacrifício. A festa é de graça para quem a recebe, mas alguém pagou um preço por ela. Essas histórias falam de uma graça incondicional garantida por um alto sacrifício.   Retrocedendo a Lucas 14:15, enxerga-se mais um quadro de festa. Um banquete sendo preparado e convites sendo distribuídos. Todos confirmam a presença no banquete. Mas no começo da comemoração, todos se escusam. A festa é um presente do anfitrião aos convidados, mas exige-se deles um preço para essa relação: a recusa de outros compromissos. Preço este que parecem não estar dispostos a pagar.   Se nos quadros de Lucas 15... leia mais

#177

Para Mia Couto[1] “o importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora”. De fato, a sensação que se tem, é a de que existe uma casa dentro de nós, e mal sabemos explicar como ela foi ali parar. Para alguns, casa é sinônimo de segurança, um lugar de paz, onde o melhor e o pior se evidenciam; mas e para texto bíblico   A primeira vez, das 1708 vezes em que a palavra “casa” aparece na Bíblia Hebraica (BH) é no livro de Gênesis, quando DEUS ordena a Noé:   Faze uma arca de tábuas de cipreste; nela farás compartimentos e a calafetarás com betume por dentro (‎מִבַּ֥יִת) e por fora (וּמִח֖וּץ)” (6:14) (ARA).   Os substantivos em destaque poderiam ser traduzidos por “casa” e “rua”. Interessante pensar que a palavra casa, em sua primeira ocorrência, é utilizada pelo próprio DEUS e que seja definida como o lugar de dentro da arca. O oposto seria rua, fachada, qualquer outra coisa indefinida, mas diferente de ou antagônico à “casa”. A realidade “casa” não estava acessível aos olhos curiosos dos que passavam pelo lado de fora da arca por que “casa” na Bíblia é mais do que aquilo que os olhos podem ver, mais do que aparência externa, mais do que uma bela fachada; para ver “casa” é preciso entrar.   A próxima aparição de “casa” também aparece no contexto do imperativo divino em Gênesis 7:1 quando DEUS diz:   Entra na arca, tu e toda a tua casa (בַּיִת), porque reconheço que tens sido justo diante de mim no meio desta geração (ARA).  ... leia mais

#176

Além de Gênesis 3, somente em um outro lugar na Bíblia encontramos um animal dotado com a capacidade de se comunicar de maneira articulada, a dizer em Números 22, a jumenta de Balaão. Tanto a jumenta quanto a serpente surpreendentemente falam de maneira natural. Nenhum dos dois animais explica sua habilidade, e em contrapartida, esta capacidade de falar é aceita inquestionavelmente por parte dos seres humanos.   Contudo, embora a interrupção animal no mundo humano da fala seja tratada com estilo similar, o conteúdo dos discursos é contrastante em muitos aspectos. Um deles é a relação entre bênção e maldição.   Enquanto nas maldições de Gênesis 3:14-19 o universo perfeito criado nos capítulos anteriores começa a ser “deturpado” como consequência dos esforços da serpente, culminando com a expulsão de Adão e Eva de um lugar de segurança e estabilidade para um de peregrinação errante e vulnerabilidade, a história de Balaão move na direção oposta. Depois do êxodo do Egito, Israel ainda está peregrinando, mas em direção a um local permanente. Israel está vulnerável a ataques, inclusive do rei Balaque em Números 22. Depois de ter seus olhos abertos, Balaão não só deixa de tentar amaldiçoar Israel, como profere bênçãos sobre o povo. Em um dos oráculos de Balaão (Números 24:5-7a), lemos:   Que boas são tuas tendas, ó Jacó! Que boas são as tuas moradas, ó Israel! Como vales que se estendem, como jardins à beira dos rios, como árvores de sândalo que o SENHOR plantou, como cedros junto às águas. Águas manarão de seus baldes, e as suas sementeiras terão águas abundantes;   Embora este simbolismo não seja... leia mais

#175

Entre Gênesis 1:26 e 28, que tratam dessa imagem e semelhança, há um pequeno poema, em Gênesis 1:27, que é interessante por sua construção:   E criou Deus o homem na sua imagem Na imagem de Deus criou ele Macho e fêmea criou eles.[1]   O verbo criar é repetido três vezes, e o nome de Deus, duas vezes, sendo o sujeito do verbo em todas as três vezes em que este ocorre (na última linha, de maneira implícita). A expressão “na imagem” é repetida duas vezes. Por fim, em negrito estão as referências àquilo que Deus cria: o ser humano, que depois é mencionado por sinal do objeto direto mais sufixo pronominal no singular, na segunda linha, e sinal do objeto direto mais sufixo pronominal no plural, na terceira linha, em hebraico. Tudo isto para dizer que o ser humano é imagem e semelhança de Deus, que o ser humano é macho e fêmea e que ambos (juntos/separados) são imagem e semelhança de Deus.   Em Gênesis 2, a criação do ser humano segue dois estágios: primeiro do homem, depois da mulher. O homem é criado (Gênesis 2:7) do pó da terra e recebe um sopro de vida. O nome do homem está conectado diretamente à terra – ʾādām (homem) ʾădāmâ (terra) – sendo “terra” um substantivo feminino, e “homem”, um substantivo masculino, possivelmente da mesma raiz. Os animais, curiosamente, também são criados do pó da terra (Gênesis 2:19), e a ação da criação de ambos, homem e animais, é descrita com o mesmo verbo – formar/moldar (yṣr). O homem, que veio da terra recebe como missão/função cuidar dela (Gênesis 2:15). Como Deus plantou e preparou... leia mais

#174

Temos dificuldades em lidar com derrotas, ou palavras que soem como derrotas. Fracasso, solidão, abandono, tristeza… Parece que somos obrigados, em uma era de coaching, a alcançarmos e sempre vivermos o sucesso.   Pois bem: a Bíblia é um livro diferenciado, principalmente no âmbito dos livros religiosos, porque não esconde as inúmeras derrotas de vários de seus personagens principais. Vários deles erram, mentem, enganam, pecam, são derrotados e vivem cercados e assombrados por algo errado que fizeram. A lista poderia incluir, pra começar, Adão, Noé, Abraão, Jacó, Judá, Moisés, Davi, Paulo, entre outros.   Obviamente que os fracassos desses personagens ocorrem por motivos diversos, em circunstâncias variadas também. Entretanto, todos os derrotados e mesmo os poucos 100% vitoriosos (a Daniel e José, por exemplo, não são imputados pecados na narrativa bíblica) possuem uma característica em comum: foram abandonados em algum momento pelo DEUS ao qual serviam.   A constatação desse fato é impactante. De Adão em diante, todos se sentiram em algum momento abandonados por DEUS. O silêncio dELE, em determinados casos, passa quase despercebido, como no caso de José, em que nenhum contato entre a divindade e o personagem é narrado. Em outros, parece fruto do equívoco de um protagonista, como no caso de Abraão, em que o mesmo experimenta o silêncio de DEUS por longos anos após se deitar com Hagar. Há ainda o silêncio que desespera o personagem a ponto de incomodar o leitor, como no caso de Jó. Em um caso específico, Israel no Sinai, o silêncio é um pedido do povo e, logo depois, se torna motivo para angústia deste mesmo povo que, erroneamente,... leia mais

#173

Na Bíblia Hebraica, principalmente, a descrição que se tem de paternidade é de fracasso. Pais errantes aqui e acolá. Nos casos em que a narrativa se desenvolve suficientemente em algum núcleo familiar –nem sempre isso acontece– as evidências de fracasso se avolumam. Não importa quem seja o pai. Isaque, Jacó, Eli, Samuel, David, entre outros, são clássicos e fáceis exemplos desses fracassos.   Na verdade, o primeiro grande “fracasso” paterno é do próprio DEUS. ELE cria homem e mulher, seus filhos, à Sua imagem e semelhança, e eles se tornam desobedientes. Adão e Eva, com seus dois primeiros filhos, também experimentam o gosto amargo do fracasso paternal quando Caim assassina Abel. E poder-se-ia continuar esta seqüência quase que infinitamente…   A mais importante lição da paternidade é justamente essa: a liberdade, derivada de um amor ilimitado. Talvez por isso a Bíblia não se preocupe em esconder tantos e tantos fracassos, inclusive do Pai de todos.   Quando seu filho nasce, o que um pai mais deseja é livrá-lo de todos os perigos, de todas a escolhas ruins, de todo e qualquer sofrimento. Você deseja que ele nunca experimente derrotas amargas e perdas dolorosas. Esse desejo é fruto de um amor inexplicável. Mas, seu filho –tão semelhante a você e, ao mesmo tempo, um outro ser humano, distinto– inevitavelmente vivenciará tudo aquilo de que você o quis proteger… mais cedo ou mais tarde.   Na verdade, quanto mais experiências de vida ele tiver, quanto mais escolhas ele fizer, tanto mais livre e consciente ele será para tomar decisões sozinho e de maneira madura. A paternidade ensina o fracasso, porque é impossível... leia mais