#141

“A vida acaba onde o ‘Reino de Deus’ começa.” Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, 30.   Um dos textos mais estranhos na Bíblia Hebraica é Êxodo 24:8. Depois de DEUS miraculosamente libertar o povo de Israel do Egito, depois de DEUS cuidar do povo no deserto, depois de DEUS fazer conhecidas suas “palavras”, Moisés ouve da boca de DEUS o que é conhecido como “o livro da aliança”. Várias leis são estabelecidas visando o futuro do povo e suas relações com as nações vizinhas, e no fim desse discurso, em Êxodo 24:3, o povo responde positivamente ao que DEUS estabelece com as seguintes palavras: “Tudo o que o Senhor tem falado faremos.” Após essa afirmação, a aliança entre DEUS e o povo é ratificada através de sacrifícios, e finalizado com um rito atípico, que é quando chegamos ao texto estranho de Êxodo 24:8: “Então tomou Moisés aquele sangue, e espargiu-o sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor tem feito convosco sobre todas estas palavras.” O sangue dos sacrifícios é aspergido sobre o povo. Mantenha isso em mente.   N. T. Wright no livro How God Became King identificou bem um problema que ignoramos. Se fôssemos convocados a contar a história dos Evangelhos de forma resumida, a história provavelmente seguiria (como no Credo de Nicéia): “Jesus nasceu, Jesus viveu, Jesus morreu, e Jesus ressuscitou.” Curiosamente, não é assim que os Evangelhos (especialmente os Sinóticos) apresentam a história. Wright argumenta corretamente que a idéia central dos Evangelhos é falar sobre o Reino de Deus. E de fato, uma leitura rápida de Mateus já mostra a... leia mais

#140

“Escreveu na carta, dizendo: Ponde Urias na frente da maior força da peleja; e deixai-o sozinho, para que seja ferido e morra.” 2 Samuel 11:15   Davi estava desesperado. Suas tentativas de acobertar seu envolvimento com Bateseba haviam falhado. Ao ouvir que ela estava grávida (2Sm 11:5), Davi imediatamente envia mensageiros para que trouxessem Urias do campo de batalha. Ele se esforça para que seu soldado durma com a esposa a fim de que a gravidez de Bateseba passasse a ser atribuída ao próprio marido. Contudo, Urias não coopera.   Assim, Davi parte para uma segunda alternativa: Urias deve morrer. Ao afirmar que Urias deveria ser deixado numa posição mais vulnerável no campo de batalha (2Sm 11:15), aparecem no discurso do rei dois verbos marcantes nas narrativas sobre Davi: “ferir” (נכה) e “morrer” (מות). Esta mesma combinação, por exemplo, aparece em 1Sm 17:35 quando o jovem Davi tenta argumentar com o rei Saul, buscando uma permissão para enfrentar o gigante Golias, dizendo que quando apareceu um animal selvagem  ameaçando seu rebanho ele saiu atrás dele, “o feriu, e o matou” (וְהִכִּתִיו וַהֲמִיתִּיו). Ou também em 1Sm 17:50, em relação à própria batalha com Golias, onde é dito que Davi “prevaleceu contra o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e o feriu, e o matou”.   Curiosamente, quando não associadas à vida de Davi, as mesmas duas palavras aparecem, por exemplo, em 2Sm 3:27 ao Joabe vingar seu irmão Asael. Ou também em 2Sm 4:7 ao Recabe e Baaná tirarem a vida do inocente e justo Isbosete (2Sm 4:11).   Por fim, as mesmas palavras aparecem quando Absalão... leia mais

#139

“Tu és este homem.” 2 Samuel 12:7a   A narrativa dos dois livros de Samuel é marcada por duas quedas. No primeiro livro, a desobediência do rei Saul diante do pedido divino para aniquilar os Amalequitas em 1 Samuel 15; no segundo livro, a sequência de ações que levaram o rei David a matar um homem para ficar com sua esposa em 2 Samuel 12. Saul poupa a vida de um inimigo estrangeiro, contrariando a ordem divina; David, por sua vez, não poupa a vida de um estrangeiro amigo, contrariando a ordem da vida.   Kierkegaard no livro For Self Examination usa a narrativa da queda de David para fazer uma crítica aguda à maneira com que lemos o texto bíblico. David havia cometido um erro grave. Até a visita do profeta Natã, no entanto, a rotina seguia normalmente no palácio. É como se uma rotina estivesse encobrindo tudo o que fora feito, bom ou ruim. O profeta Natã sabia com quem estava lidando. O rei, além de guerreiro, era poeta, um pensador. E diante do poeta de Israel, Natã oferece, ironicamente, uma curta e trágica história:   “Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. O rico possuía muitíssimas ovelhas e vacas. Mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; e ela tinha crescido com ele e com seus filhos; do seu bocado comia, e do seu copo bebia, e dormia em seu regaço, e a tinha como filha. E, vindo um viajante ao homem rico, deixou este de tomar das suas ovelhas e das suas vacas para assar para o viajante que viera a... leia mais

#138

Depois da escolha de Arão e seus filhos como sacerdotes e da tribo de Levi como responsável pelo cuidado e manutenção do Santuário (ver Números 3-4) as leituras e discussões em torno do sacerdócio se resumem a exatamente isso: o que cada um fazia (com papel de destaque para o sumo-sacerdote).   Desta maneira alguns personagens –por exemplo Samuel que serviu como sacerdote (1 Samuel 2-3), ou de Salomão ao oferecer sacrifícios no Templo em sua inauguração (1 Reis 8)– são tratados como exceções ou problemas textuais. No Novo Testamento o próprio papel de Jesus como sacerdote é discutido, visto que ele não era descendente de nem de levitas, tampouco de Arão. Mesmo o famoso texto de sua relação com Melquisedeque (Hebreus 5) é motivo de debate.   Entretanto, é importante notar algo anterior ao estabelecimento do Santuário: o destaque dado ao primogênito. Antes de chamar Israel de “reino de sacerdotes e nação santa”, DEUS o chama de primogênito (Êxodo 4:22). A última praga derramada no Egito, inclusive, possui essa mesma ligação com a primogenitura (Êxodo 12-13).   Na narrativa da construção do Santuário do deserto há uma passagem que também menciona os primogênitos, não só dos animais, mas dos filhos do povo. Quando o texto trata das festas que Israel celebraria, especificamente a Festa dos Pães Asmos (diretamente ligada com a Páscoa), DEUS deixa claro que todo primogênito é dEle: “Todo o que abre a madre é meu, o que abre a madre de vacas e ovelhas. O jumento, porém, que abrir a madre, resgata-lo-ás com cordeiro; mas, se não o resgatares, será desnucado. Remirás todos os primogênitos... leia mais

#137

Depois de selar sua aliança com o povo de Israel (Êxodo 19-24), constituindo-o como reino de sacerdotes e nação santa (vide texto #135), DEUS ordena e dá instruções a respeito da construção do tabernáculo (Êxodo 25-27), detalhando tanto a manufatura dos móveis como também da estrutura. Somente depois disso, a partir de Êxodo 28, que ELE vai estabelecer um sacerdócio para esse tabernáculo.   É interessante notar que em todas as ocorrências da palavra sacerdote (kōhēn –כֹּהֵן), ou mesmo da ideia de sacerdote, até este momento em nenhuma vez houve uma conexão espacial. O sacerdote estava relacionado à benção e dízimos (Melquisedeque, texto #134) e ao chamado para obediência (Israel). Agora, no contexto de Arão e seus filhos, o trabalho do sacerdote passa a estar conectado a um lugar: o tabernáculo.   O ofício sacerdotal ligado ao tabernáculo envolve uma grande variedade de coisas interessantes. Basicamente, Arão e seus filhos estariam responsáveis por todo o ritual que envolvia dois aspectos interligados: sacrifício e intercessão (Êxodo 29-30; Levítico 1-7). Esse ritual está conectado ao perdão de pecados, que são decorrentes da desobediência da lei. O sacerdote recebe o sacrifício do animal, o coloca sobre o altar de sacrifícios e depois adentra o chamado lugar Santo para interceder pelo pecador (ou sua família) no altar de incenso (essa obviamente é uma explicação breve e bem resumida). Em textos posteriores será trabalhada a dinâmica do serviço do tabernáculo e do santuário de maneira mais completa.   O trabalho do sumo-sacerdote e dos sacerdotes, no entanto, não se resumia a isso. Além de representar o povo diante de DEUS e o próprio DEUS... leia mais

#136

“[7]Persuadiste-me, ó Senhor, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu, e prevaleceste; sirvo de escárnio todo o dia; cada um deles zomba de mim. [8]Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do Senhor um opróbrio e ludíbrio todo o dia. [9]Então disse eu: Não me lembrarei dele, e não falarei mais no seu nome; mas isso foi no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; e estou fatigado de sofrer, e não posso mais. [10]Porque ouvi a murmuração de muitos, terror de todos os lados: Denunciai, e o denunciaremos; todos os que têm paz comigo aguardam o meu manquejar, dizendo: Bem pode ser que se deixe persuadir; então prevaleceremos contra ele e nos vingaremos dele. [11]Mas o Senhor está comigo como um valente terrível; por isso tropeçarão os meus perseguidores, e não prevalecerão; ficarão muito confundidos; porque não se houveram prudentemente, terão uma confusão perpétua que nunca será esquecida. [12]Tu, pois, ó Senhor dos Exércitos, que provas o justo, e vês os rins e o coração, permite que eu veja a tua vingança contra eles; pois já te revelei a minha causa. [13]Cantai ao Senhor, louvai ao Senhor; pois livrou a alma do necessitado da mão dos malfeitores.” Jeremias 20:7-13   A tensão relacionada a poder e domínio, no lamento de Jeremias 20:7-13, é desenvolvida por uma série de repetições de palavras, principalmente פתה (pātah – persuadir) e יכל (yākhōl – prevalecer/permanecer).   O profeta protesta contra a persuasão de DEUS (verso 7), contra qual ele não é capaz de prevalecer (verso 9). Os inimigos também esperam pela... leia mais

#135

Como visto no texto anterior, Melquisedeque, um rei caananita, é o primeiro sacerdote assim nomeado na Bíblia Hebraica. Depois dele, ainda em Gênesis, aparecerá um sacerdote de Om (capítulos 41, etc), sempre ligado à história de José no Egito. Em Êxodo, o primeiro sacerdote é Jetro, sogro de Moisés (Êxodo 3, etc) e é somente em Êxodo 19 que vemos a palavra “sacerdote” (כּהן) conectada a Israel de alguma maneira.   O contexto mais amplo envolve a libertação do Egito, os diversos milagres que DEUS operou com o povo ainda cativo (as pragas) e durante o início da peregrinação (maná, codornizes, vitória em guerras, etc). Agora, Israel está acampado na região do Sinai, quase 50 dias depois da Páscoa. Eles estão esperando, uma vez que a nuvem/coluna parou no alto de um monte (quando a nuvem parava, eles acampavam).   O contexto mais específico se refere à aliança que DEUS estava prestes a firmar com Israel. O texto de Êxodo 19 é justamente o início da seção da aliança, que depois segue com os 10 mandamentos, uma série de aplicações desses mandamentos e, por fim, o selamento dessa aliança em Êxodo 24. Basicamente, a chegada ao Sinai e tudo que acontece entre Êxodo 19-24, é uma espécie de ápice da formação de Israel e do seu relacionamento com DEUS. Já se tratou aqui, na Terceira Margem do Rio, do Decálogo (#85, #86 e #87). Agora, no entanto, o assunto é o chamado ao sacerdócio.   A fala divina começa com um lembrete da libertação maravilhosa e milagrosa provida por ELE a Israel quando da saída do Egito (19:4) e... leia mais

#134

O desenvolvimento da ideia de sacerdócio na Bíblia Hebraica é bem interessante e acrescenta camadas interpretativas que podem ajudar o leitor do Novo Testamento a entender diversas passagens relacionadas a Jesus ou mesmo ao notório “sacerdócio de todos os santos” (1 Pedro 2:1-10). A primeira figura sacerdotal bíblica é Melquisedeque. Em hebraico seu nome significa “rei justo”. Sua aparição é súbita e, de certa forma, intrusiva na narrativa de Abrão. Após vencer uma batalha importante contra diversos reis (Gênesis 14:1-16), o rei de Sodoma vai ao seu encontro (Gênesis 14:17) –lembrando que Abrão tinha ido lutar para libertar seu sobrinho, Ló, que morava em Sodoma– entretanto, de repente, antes desse encontro, aparece Melquisedeque. A narrativa do encontro do patriarca com o rei de Sodoma continua em Gênesis 14:21, mas em 14:18-20 temos essa intromissão, três versos em que um personagem é introduzido e, logo depois, desaparece. Sua aparição indica que ele era rei de Salém (da raiz “paz” – שלום) e sacerdote do DEUS Altísissimo (Gênesis 14:18). Vários aspectos curiosos saltam do texto: 1) o primeiro sacerdote que aparece na Bíblia Hebraica, um kōhēn (כֹּהֵן), é um rei de um povo canaanita, que não parece estar ligado a Abrão e sua linhagem; 2) a maneira como ele, Melquisedeque, é relacionado a DEUS é genérica (não usa o tetragrama sagrado – יהוה) e ainda com terminologia canaanita “altíssimo” (‘elyôn – עֶלְיוֹן). No entanto, o mais curioso é realmente a sequência em que Melquisedeque fala e o fato de Abrão responder com uma ação inédita: E ele o abençoou e disse: “Abençoado seja Abrão pelo Deus Altíssimo, criador* dos céus e... leia mais

#133

Para entendermos o início de 2 Reis faz-se necessário ler o final do livro anterior, pois 1 Reis 22:52-54 prepara o caminho para o novo livro. O fim de 1 Reis trata a respeito do fim da vida de Acabe (rei de Israel) e de Josafá, filho de Asa (rei de Judá). Jeorão, filho de Josafá começa a reinar no seu lugar em Judá; e Acazias, filho de Acabe e Jezabel, começa a reinar sobre Samaria. A respeito de Acazias (que reinou por dois anos) lemos nos versos 53 e 54: “Fez o que era mau perante o Senhor; porque andou nos caminhos de seu pai, como também nos caminhos de sua mãe e nos caminhos de Jeroboão, filho de Nebate, que fez pecar a Israel. Ele serviu a Baal, e o adorou, e provocou à ira ao Senhor, Deus de Israel, segundo tudo quanto fizera seu pai”. Embora pareça curiosa a afirmação de que Acazias “serviu a Baal e o adorou”, esta declaração, que não nos surpreende, prepara a atmosfera para o início de 2 Reis. A primeira parte do capítulo 1 relata que Acazias caiu pelas grades de um quarto alto, em seguida adoeceu, e, por conta disso, enviou mensageiros para consultar Baal-Zebube para saber se sararia da doença. No verso 3 o Anjo do Senhor diz a Elias: “Dispõe-te, e sobe para te encontrares com os mensageiros do rei de Samaria, e dize-lhes: Porventura, não há Deus em Israel, para irdes consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom? Por isso, assim diz o Senhor: Da cama a que subiste, não descerás, mas, sem falta, morrerás […]”. Os mensageiros... leia mais

#132

“[…] se DEUS realmente existisse, seria necessário aboli-lO.” Michael Bakunin A narrativa da Torre de Babel em Genesis 11 é trágica. Ela repete uma linha temática que começou no Éden: harmonia – caos – restauração. No Éden tudo estava em perfeita harmonia até o caos consequente da queda. Após a restauração proporcionada por DEUS através da promessa de resolução, o ser humano experimenta mais uma vez um tipo de harmonia. Adão e Eva têm dois filhos e tudo parece tranquilo até Cain matar Abel. Novamente o caos se instala, DEUS reaparece e mais uma vez promete restauração e proteção. Após este episódio uma nova etapa na narrativa bíblica é inaugurada com o nascimento de Sete, cuja descendência “invoca o nome do Senhor” (Gênesis 4:26). Porém de novo a harmonia é destruída pela maldade do ser humano e tem o caos como consequência, desta vez na forma do dilúvio. A aliança após o dilúvio é feita com todos os seres da terra e a promessa de restauração e proteção a acompanha, mas mal passou este episódio e mais uma vez estamos diante de uma nova tragédia, um novo caos: Genesis 11. O mundo e seus habitantes estavam vivendo de forma semelhante aos seres humanos antes do dilúvio em que todo pensamento e ato era continuamente mal. O texto de Gênesis 11 abre dizendo: “Em toda terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar… E partindo eles do oriente deram com uma planíce na terra de Sinar e habitaram ali” (Gênesis 11:1-2). Jacques Doukhan em seu comentário de Genesis diz que a uniformidade de pensamento, fala e conduta... leia mais

#131

O poema/cântico apresentado no texto #130 se desenrola no capítulo 32 de Deuteronômio. São cerca de 460 palavras, com cerca de 69 linhas poéticas. Ela é conhecida como Shirat Haazinu, ou seja, “canção de dar ouvidos”; isso porque sua primeira palavra é justamente haazinu (האזינוּ). Sua estrutura básica pode ser dividida da seguinte maneira: I – Introdução: Convite a exaltar e reconhecer as virtudes de DEUS (32:1-4) II – Histórico da relação entre DEUS e Israel e as imperfeições de Israel (32:5-18) III – A justiça divina contra o povo de Israel (32:19-35) IV – A compaixão e misericórdia divina e o livramento de Israel (32:36-42) V – Conclusão: Convite para louvar a DEUS (32:43) Sobre as metáforas dos primeiros quatro versos, é interessante notar que o conjunto metafórico, no verso 2, é amplamente relevante não só pela relação com diversas maldições (Levítico 26 e Deuteronômio 28, onde a terra fica seca, sem chuva, pela desobediência), mas também por algumas passagens dos profetas (Joel 2, por exemplo) e de Jesus no Novo Testamento (como João 3, onde Jesus convida a mulher a beber água da vida): “goteje como chuva meu ensinamento; destile como orvalho minha fala; como um chuvisco sobre a relva; e como aguaceiro sobre a erva”; a palavra “rocha” (צוּר) aparece oito vezes, o que representa mais ou menos 10% de todas as ocorrências desta palavra em toda a Bíblia Hebraica (enquanto metáfora do Eterno). Aliás, há uma clara oposição entre DEUS, a “rocha” de obras “perfeitas” (32:4) e os filhos de Israel, corruptos (שחת). Além disso, há mais coisas que chamam à atenção nesse poema. Seu... leia mais

#130

O capítulo 31 de Deuteronômio é estruturado de maneira intencional. Basicamente temos duas seções iniciais com discursos mosaicos semelhantes, mas com destinatários diferentes: Israel (31:1-6) e Josué (31:7-8). Deste modo, primeiro Moisés se dirige a todo Israel, dizendo: “Sede fortes e corajosos, não temais, nem vos atemorizeis diante deles, porque o SENHOR, vosso Deus, é quem vai convosco…” (Deuteronômio 31:6) e, logo na sequência, Moisés se dirige a seu substituto, Josué, e as repete privadamente: “Sê forte e corajoso… O SENHOR é quem vai adiante de ti; Ele será contigo, não te deixará, nem te desamparará; não temas, nem te atemorizes” (Deuteronômio 31:7-8). Depois, o texto subitamente se volta para a lei (תורה) que Moisés escreveu e entregou aos sacerdotes, anciãos e líderes, instruindo-os para que fosse lida anualmente na Festa dos Tabernáculos no lugar que DEUS escolhesse. Essa leitura visava o ensino contínuo do povo para que não apenas conhecesse, mas também cumprisse a vontade de DEUS (Deuteronômio 31:9-13). Ou seja: temos três falas de Moisés abrindo o capítulo; duas de encorajamento (ao povo e a Josué) e uma a respeito da Torah. Mais uma vez, de maneira súbita, o texto muda a cena e agora apresenta duas falas divinas. Primeiro DEUS fala com Moisés, confirmando sua morte antes de entrar em Canaã, acrescentando que o povo, depois que Moisés não estivesse mais com eles, se afastaria de DEUS e abandoná-lO-ia (Deuteronômio 31:14-18). DEUS continua, pedindo para que Moisés escreva um cântico (שיר) e que o ensine aos filhos de Israel, para que seja uma testemunha contra eles e para que eles não se esqueçam e, portanto, não... leia mais

#129

No Novo Testamento a unção é um tema recorrente. Em 2 Coríntios 1:21-22 Paulo afirma: “Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo e nos ungiu é Deus, que também nos selou e nos deu o penhor do Espírito em nosso coração.” Aqui, a unção parece acessível a todos. Além disso, aparentemente, há uma associação entre a unção e o Espírito. Mesmo que de maneira não tão clara, em 1 João 2:27, por exemplo, lemos: “Quanto a vós outros, a unção que dele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nele, como também ela vos ensinou.” Esta associação, no entanto, não é peculiaridade apenas do Novo Testamento. Em Zacarias 4:2 o profeta vê um candelabro todo de ouro e um vaso de azeite em cima com tubos que alimentam as lâmpadas deste candelabro. Sem entender a visão, o profeta pergunta: “o que é isto?”. Em Zacarias 4:6 o anjo que falava com o profeta, afirma: “Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel: Não por força, nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos.” A mensagem é clara, o azeite, símbolo do Espírito, alimenta a luz do candelabro. O Espírito sustenta a luz ainda acesa. Um pouco antes, em Zacarias 3:8, vemos uma promessa com tons messiânicos ao DEUS afirmar que faria vir o seu servo, seu Renovo. O tema do Renovo surge também em Isaías 4:2 e 11:1-2. No segundo dos dois textos é dito que este... leia mais

#128

Ainda sobre a unção, vimos no último texto bíblico da semana passada (#127), 1 Reis 19:14-16, algo curioso: a unção de um rei estrangeiro, Hazael, da Síria. Entendendo a unção relacionada à eleição divina, nada impede que vejamos estrangeiros sendo ungidos por profetas. Isaías 45:1 é um exemplo disso: “Assim diz o SENHOR ao seu ungido (לִמְשִׁיחוֹ֮ – limshiho), a Ciro […]”. O rei Ciro, rei estrangeiro, é chamado de ungido (מָשִׁיחַ –  mashiah). Quanto aos reis de Israel, a unção aparece somente em casos quando há uma aparente sucessão real irregular, ou quando o rei é o primeiro de sua casa. Por exemplo, em 1 Samuel 10:1, dentre outros fatores, por ser o primeiro rei, Saul é ungido. Em 1 Samuel 16:13 Davi é ungido enquanto Saul ainda está reinando. Em 1 Reis 1:39 vemos Salomão sendo ungido, porque que ele não era o sucessor legal direto ao trono. Em 2 Reis 11:12, Joás é ungido enquanto Atalia ainda está viva. E em 2 Reis 23:30, Joacaz é ungido, sendo que também não era o sucessor legal direto ao trono. Não é em todos os casos que a unção realizada pelo profeta, sacerdote ou outro representante de DEUS possuía uma função legal intrínseca. Davi não teve o trono em suas mãos no dia seguinte da realização de sua unção pelo profeta Samuel. Assim, nota-se no texto bíblico, especificamente no caso de Davi, um caminho inverso da unção. Próximo a receber o trono, após a morte de Saul, Davi começa a ser reconhecido como o escolhido por DEUS para guiar Israel. Neste momento pode-se notar, em 2 Samuel 2:4... leia mais

#127

A Bíblia é permeada por ações simbólicas convencionais: caminhar entre as partes de animais, compartilhar uma refeição, furar a orelha de um escravo, cobrir uma mulher com manto, remover as sandálias, dentre outras. Como qualquer outro livro, através de seus textos, a Bíblia carrega um vasto número de ações convencionadas com seus próprios significados de acordo com o momento. Uma destas ações, que carregava vasto significado, era a unção. Nota-se que a prática da unção em textos ugaríticos e egípcios ocorrem em contextos e com funções diferentes. Na vida privada do Antigo Oriente Médio, a unção parece estar associada tanto para propósitos higiênicos como cosméticos. Alguns acreditavam que a unção possuía poder inerente de cura. Na esfera legal, a unção muitas vezes aparece associada a compras, relações de suserania e vassalagem, instituição de reis substitutos e também, em alguns casos, do próprio rei em si. No texto bíblico, vemos a unção de objetos, sacerdotes, reis e em uma situação, um profeta. Em Êxodo 28:41, quanto aos sacerdotes recém escolhidos (Arão e seus filhos), lemos: “[…] e os ungirás, e consagrarás, e santificarás, para que me oficiem como sacerdotes”. Logo em seguida, em Êxodo 30:22-30, vemos todas as especificações de como deveria ser preparado este óleo da santa unção. Primariamente, a unção parece ter a função de conferir/dar algo àquele que é ungido. Em Êxodo 29:29 lemos: “As vestes santas de Arão passarão aos seus filhos depois dele, para serem ungidos nelas e consagrados nelas”. A expressão “para serem ungidos” (לְמָשְׁחָ֣ה– lemashehah), aparece em Números 18:8 em referência às ofertas dadas aos sacerdotes quando DEUS diz: “dei-as” (לְמָשְׁחָ֣ה– lemashehah). A... leia mais

#126

“[…] Não é bom que o homem esteja só […]” Gênesis 2:18 A palavra hebraica tov (tradicionalmente traduzida como “bom” ou “belo”) se repete muitas vezes em Gênesis 1 e 2. O uso desta repetição é apenas uma das inúmeras ferramentas literárias que os autores bíblicos utilizavam para destacar uma ideia importante em contextos específicos (dentro de um capítulo/história) ou amplos (ligando ideias e conceitos separados por capítulos dentro de um mesmo livro ou até mesmo em livros diferentes). Dentro da narrativa de Gênesis 1 o uso extenso da palavra oferece algumas possibilidades interpretativas interessantes: a) DEUS não cria em isolamento, DEUS Se comunica, avalia, e compartilha Sua percepção de Sua própria criação; b) a criação não era meramente bela, ela era boa e carregava em cada estágio possibilidades para expansão e domínio (a humanidade deveria dar continuidade à criação através de seu domínio); c) em última instância, DEUS é aquele que determina/sabe o que é bom. Partindo do ponto de vista de que DEUS é um ser que determina/sabe o que de fato é bom para a humanidade o uso da expressão “lo tov” ou “não é bom” em Gênesis 2:18 aparece como uma surpresa. Após plantar uma árvore do conhecimento do bem e do mal, DEUS mais uma vez se apresenta como aquele que sabe a diferença do que é e não é bom para o ser humano. Desta forma, o ser humano parece não receber o livre arbítrio na criação em si, mas liberdade de escolha dentro de um sistema em que DEUS determina e estabelece os limites do que é bom e ruim. É DEUS... leia mais

#125

“O homem age como se ele fosse o moldador e mestre da linguagem, quando na verdade é a linguagem que permanece o mestre do homem.” Martin Heidegger – Poetry, Language, Thought 215. Há milhares de anos, filósofos, escritores, profetas, e pensadores de diversas áreas discorrem a respeito do papel, da função e da estrutura da linguagem. Tendo como foco desde a semântica até o apparatus social que influencia a maneira como certas palavras se comportam dentro dos mais diversos contextos, o pensar a respeito da linguagem se desenvolveu e evoluiu até Derrida sugerir, através de inúmeros mecanismos de desconstrução, que a linguagem nos conduz ao abismo do nada, porque, afinal, sem linguagem, nada podemos dizer a respeito da linguagem. Ainda assim, a Bíblia oferece uma possível perspectiva sobre a natureza e a função da linguagem. Gênesis 1 indiretamente fala a respeito de linguagem. No princípio DEUS cria os céus e a terra e esta criação ocorre através da PALAVRA. A ligação entre PALAVRA e REALIDADE –o quebra cabeça dos filósofos de todos os séculos– chama à atenção. A linguagem não é usada meramente para informar, mas para fabricar a própria natureza da realidade que nos cerca. O ato de pronunciar “haja luz” de fato criou a realidade da luz. Nosso acesso à realidade desde então é através da linguagem. A linguagem –como também o tempo– são condições que precedem a própria existência da raça humana. Antes do nosso tempo e de nossa linguagem já havia tempo e linguagem. A escuridão do mundo anterior à criação é quebrada pela luz que surge através do ato de falar. Como a frase... leia mais

#124

Em O idiota, de Fiódor Dostoiévski, o Príncipe Míchkin, comentando sobre um tempo passado em uma aldeia remota de língua francesa, diz: “[…] seus pais ficaram zangados comigo porque, no fim das contas, as crianças não podiam passar sem mim e estavam sempre aglomeradas ao meu redor, e o mestre-escola acabou virando meu primeiro inimigo por causa das crianças. […] sempre me deixou perplexo a ideia de como os grandes conhecem mal as crianças, os pais e as mães conhecem mal até os próprios filhos. Não se deve esconder nada das crianças sob o pretexto de que são pequenas e ainda é cedo para tomarem conhecimento. Que ideia triste e infeliz! E como as próprias crianças reparam direitinho que os pais acham que elas são pequenas demais e não entendem nada, ao passo que elas compreendem tudo. Os grandes não sabem que até nos assuntos mais difíceis a criança pode dar uma sugestão sumamente importante.” Em 2 Reis 5:1-19, lemos a história de Naamã. Naamã, um poderoso general sírio, estava fragilizado com lepra. Sem mais esperanças, o general ouve uma jovem menina israelita cativa afirmar que o profeta Eliseu, que estava em Samaria, poderia restaurá-lo da doença. Imediatamente, com a permissão do rei sírio, Naamã vai até o profeta com muitos presentes. O profeta, sem sequer sair da sua casa, informa ao general que fosse até o Jordão e se lavasse sete vezes no rio. Indignado, Naamã foi até o rio, mergulhou sete vezes, e após o último mergulho, o texto afirma, “sua carne se tornou como a carne de uma criança” (v.14). Como é comum ao texto bíblico,... leia mais

#123

Em Êxodo 7-11 encontramos as conhecidas “pragas do Egito”. A resposta de Faraó ao primeiro encontro com Moisés e Arão foi bem clara: “Naquele mesmo dia, pois, deu ordem Faraó aos superintendentes do povo e aos seus capatazes, dizendo: Daqui em diante não torneis a dar palha ao povo, para fazer tijolos, como antes; eles mesmos que vão e ajuntem para si a palha. E exigireis deles a mesma conta de tijolos que antes faziam; nada diminuireis dela; estão ociosos e, por isso, clamam: Vamos e sacrifiquemos ao nosso DEUS”. DEUS fala mais uma vez com Moisés e Arão (Êxodo 6:28-7:6), mas, desta vez, elementos a mais fariam parte da tentativa de persuasão ao Faraó: sinais e maravilhas (אֹתוֹת e מוֹפְתִים). Curiosamente, com exceção de Êxodo 11:1 e 1 Samuel 4:8, todos os textos que se referem aos acontecimentos no Egito entre os capítulos 7 a 11¹ os denominam como sinais e maravilhas.² Isso, sem contar que no caso de 1 Samuel 4:8 a palavra “praga” (מַכָּה) ser proferida pela boca de filisteus. Estas perspectivas diferentes quanto aos mesmos eventos trazem à tona uma questão: a quem, afinal, foram direcionadas as pragas? Êxodo 7:3 diz que estes sinais e maravilhas tinham como alvo Faraó, contudo, ao mesmo tempo, as pragas foram direcionadas a todos os egípcios – “saberão os egípcios que eu sou o SENHOR, quando estender EU a mão sobre o Egito e tirar do meio deles os filhos de Israel” (verso 5). Somando-se ao Faraó o povo egípcio, talvez as pragas também tenham possuído a função de fortalecer a fé de Israel no DEUS de seus pais.... leia mais

#122

“[…] não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” 1 João 3:18 Em textos anteriores já tentamos estabelecer o conceito do Cristianismo como sendo essencialmente de ações. Uma das maiores confusões no âmbito cristão, no entanto, está relacionado à concepção de ação. Ações são qualificadas como cristãs ou não cristãs –religiosas ou seculares– não pela ação em si mas por um conceito pré-determinado que avalia essas diferenciações. Isto parece contrastar com a articulação de ações encontrados na Bíblia. A identidade cristã e/ou denominacional não está relacionada a uma interpretação ou a um conceito prévios, mas à própria ação em si. Um exemplo (João 13:35): Jesus diz que pessoas reconheceriam seus discípulos se estes amassem uns aos outros. Não existe aqui uma definição de discipulado distinta do ato de amar. A ausência de tal distinção implica na fria realidade: se você não ama, logo não possui aquilo que o definiria como discípulo. Tendo isto como base, posso seguir afirmando, por exemplo, que eu não acredito no amor. Não acredito no amor como um objeto, como algo que tenho e ofereço, como um conceito ou uma idéia abstrata; não acredito na existência deste tipo de amor. Este amor é uma fabricação. Pois uma vez que amor deixa de ser uma ação e passa a ser um objeto/conceito/idéia, este amor deixa de ser amor no sentido bíblico da palavra. Amor, de fato, é um dos temas mais profundos e complexos da Bíblia. Parece ser o tema que menos entendemos em teoria e ao mesmo tempo o que mais negligenciamos na prática. A Bíblia contém inúmeros exemplos que nos ajudam... leia mais

#121

Ao lermos a respeito das três últimas pragas que caem sobre o Egito em Êxodo 10 e 11, alguns detalhes curiosos chamam à atenção. Já em uma primeira leitura, nota-se que essas três pragas são diferentes tanto em relação a suas atividades como quanto à severidade dos acontecimentos. Na praga dos gafanhotos (8a praga), é dito que eles  “devoraram toda a erva da terra e todo o fruto das árvores que deixara a chuva de pedras; e não restou nada verde nas árvores, nem na erva do campo, em toda a terra do Egito”. Na 9a praga há uma escuridão que impossibilita aos egípcios enxergarem uns aos outros (verso 23) e na 10a, por fim, há a morte dos primogênitos. Muito embora pareçam tão diferentes entre si, nas três últimas pragas há um elemento comum: a escuridão. Na 9a praga a escuridão é auto evidente; a respeito da 8a praga é dito: “porque cobriram a superfície de toda a terra, de modo que a terra se escureceu” (verso15); e na 10a praga, tudo acontece à meia-noite. Êxodo 12:29 diz: “Aconteceu que, à meia-noite, feriu o SENHOR todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se assentava no seu trono, até ao primogênito do cativo que estava na enxovia, e todos os primogênitos dos animais”. Desta maneira o próprio texto sugere perguntar: Porque há uma presença tão incisiva da escuridão nas últimas pragas que caem sobre o Egito? Dentre alguns fatores, nota-se que a escuridão é sinônimo da própria condição de escravidão. Da mesma forma que os israelitas não podiam sair do Egito para adorar... leia mais

#120

“[…] quem pecou?” João 9:2 Já refletimos em outros textos a respeito da natureza do que é, de fato, Cristianismo (lembrando que, como mencionado no texto #71, esta palavra sequer aparece nas Escrituras Sagradas). O propósito aqui é considerar a possibilidade de que Cristianismo talvez não seja nada além de um corpo de ações relacionadas a Cristo. Não necessariamente uma idéia (algo abstrato), mas ações. Se há certas ações, há Cristianismo. Se não as há, não há Cristianismo. Gênesis 2 afirma, logo após à criação do homem, que não é bom que este viva só. Tradicionalmente usa-se este texto para afirmar o plano divino com relação ao casamento entre um homem e uma mulher. Curioso, no entanto, é que uma das características mais fundamentais do que significa ser humano, é relacionar-se. Como diria Heschel: a verdadeira existência culmina em co-existência. Juntos, homem e mulher foram criados para refletir a imagem de um DEUS que também existe na esfera das relações (Pai-Filho-Espírito). Relacionarmo-nos e relacionamentos –a maneira como tratamos uns aos outros– está no âmago do que significa sermos humanos. Isto se torna evidente não apenas na maneira como Cristo vivia, mas estava no cerne daquilo que Ele ensinava. Jesus era sensível às necessidades das pessoas não com foco nas necessidades, mas nas pessoas. Se a verdadeira existência (ou existência plena) é a co-existência, é do bem estar do outro que depende meu próprio bem estar. E esta sensibilidade parece ser um dos requisitos para o corpo de ações que caracterizam o Cristianismo. Pois onde há sensibilidade, ressoa aquilo que Cristo fazia e ensinava. João 9:1-3 diz: “E, passando Jesus,... leia mais

#119

Além de todos os aspectos que vimos nos últimos 3 textos (#116, #117, #118), Cântico dos Cânticos (CdC) possui uma infinidade de temas, elementos e assuntos a serem explorados, como por exemplo, o próprio papel da mulher, que, ao longo do livro não apenas inicia os contatos e as descrições do amado, como também demonstra e verbaliza livremente seu desejo, inclusive sexual. As metáforas e as imagens são desafiadoras, já que estamos distantes histórica e linguisticamente do momento em que o livro possivelmente tenha sido escrito por Salomão. Para concluir esta pequena série sobre este livro desafiador, é importante notar a relação do mesmo com o de Gênesis, mais especificamente no tema do jardim do Éden. Em Gênesis 2-3 este jardim é descrito (2:8-17) e apresentado como o lugar onde o primeira casal viveria. Como vimos no texto #49, a relação do homem, Adão, com o o jardim e da mulher com o homem carregam uma notória relevância com o conceito de imago Dei. Agora, com esta ideia em mente, é possível fazer algumas relações importantes. Em Gênesis 2 homem e mulher estão juntos, no jardim, plenos, sem vergonha um do outro; já em Gênesis 3, em virtude do pecado, se distanciam e se escondem um do outro, envergonhados (veja o texto #50). A punição de ambos, precisamente a da mulher (Gênesis 3:16), acarretaria em um problema de relacionamento. Quando vamos para o outro jardim, de Cântico dos Cânticos, homem e mulher começam separados, mas buscam um ao outro incessantemente. Ela e ele não se envergonham de seus desejos e não se escondem um do outro. Ao contrário de... leia mais

#118

Um outro elemento interessante em Cântico dos Cânticos (CdC) é a água. E embora apareça implicitamente algumas vezes, este texto vai focar apenas em suas aparições explícitas. A primeira ocorre justamente quando a amada é chamada pelo amado de “jardim fechado” (Cantares 4:12), algo que foi visto no texto #116. Está escrito: Jardim fechado és, minha irmã, uma noiva um jardim fechado, uma fonte selada. Seus renovos um pomar de romãs como todos os seus frutos excelentes henas com nardos. Nardo e açafrão, cálamo e cinamomo, com todas as árvores de incenso, mirra e aloés com todas as principais pimentas (ou especiarias). Fonte dos jardins és; poço de águas vivas e correntes do Líbano. (Cantares 4:12-15) Nesta fala do amado ele faz algumas importantes afirmações: Ela não é apenas um jardim fechado, mas uma fonte de águas selada. O verbo selar, ḥatam (חתם), é o verbo clássico para o ato de fechar um documento com o selo de quem o escreve e aparece em diversos contextos desta maneira (inclusive em textos famosos como Daniel 9:24, 12:4 e 9, ou Jeremias 32). Basicamente, denota um selo de autoria e/ou de posse. A mesma raiz aparece como substantivo em outra parte de CdC, a dizer, em seu ápice: “Coloca-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre teu braço…” (Cantares 8:6). Aqui é a amada que pede para que ela se torne um documento do amado. Ela é uma fonte de água, selada. Posse do amado, carrega o selo dele e somente ele pode e deve usufruir desta água, que é exatamente o que acontece em Cântico dos Cânticos 5:1... leia mais

#117

Na mesma seção da aparição das flores conectadas à primavera e ao amor, também aparece a ideia de frutos prontos para a colheita, no caso, os figos: “Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem. Pois eis que o inverno passou, e a chuva cessou e se foi; as flores aparecem na terra; o tempo do cântico chegou; a voz da rolinha é ouvida na nossa terra; a figueira já dá seus figos, e a videira está florescendo, dando sua fragrância. Levanta-te amada minha, formosa minha e vem!” (Cântico dos Cânticos 2:10-13) Este texto tem um paralelismo polissêmico[1] interessante: a palavra “cântico”, do hebraico zmyr (זמיר), também pode ser traduzida como “poda”, ou seja, a polissemia está em que as duas traduções são possíveis e, não só isso, o poeta deve ter usado exatamente esta palavra para que os dois significados soassem simultaneamente. Quer dizer, o tempo do amor não é apenas do cântico e das flores, é também da poda, da colheita. O tempo do amor não envolve apenas a beleza, há também trabalho a ser realizado. A variação no uso dos frutos é extremamente interessante e significativa ao longo do livro. O tempo do amor é descrito em termos de colheita, mas a relação dos amantes está mais para a transformação destes frutos maduros em algo diferente, como o vinho. As vinhas florescem, há o convite. Mas quando há o encontro, não são as uvas, mas sim o vinho que é evocado (Cântico dos Cânticos 1:2 e 4:10, entre outros). Para ficar mais claro, vejamos o exemplo das romãs: elas aparecem em Cântico dos Cânticos cerca de seis... leia mais

#116

As flores são comumente usadas na Bíblia Hebraica (BH) para evocar o caráter transitório da vida (como por exemplo no Salmo 103:15-16; Jó14:2; Isaías 40:6-8). Já em Cântico dos Cânticos elas aparecem conectadas à primavera e ao amor. Isto, porque já em 2:10-13 o amado convida a amada a desfrutar o amor com o exato argumento de que a primavera chegou e as flores apareceram na terra. Este tema, das flores brotando ligadas ao tempo de amar, reaparece em 6:11 e 7:12-13. A flor mais mencionada em Cântico dos Cânticos (CdC) é a shushan (שׁוּשַׁן). Das 17 aparições dela na BH, 8 estão em CdC e mais 4 no livro de Salmos. A Septuaginta a traduz como krinon e a Vulgata como lilium, mais conhecida como Madonna de Lilly, uma flor antiga que pode ser datada em, aproximadamente, 1500 a.e.c. Talvez seja uma referência ao lótus (ou lírio da água) que pode ter sido importado do Egito. Uma das ocorrências desta flor em CdC aparece em 7:2 (ou 3), onde lemos: “O teu umbigo é taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre é monte de trigo, cercado de lírios.” Esta ocorrência está dentro de uma das seções chamadas de wasf (que, em resumo, são um estilo poético típico caracterizado pela descrição física minuciosa). Uma rápida análise aponta que quando é a mulher que está realizando as descrições, ela geralmente começa pela cabeça, se utilizando de imagens (ou metáforas) mais ligadas à realeza e construções materiais, usando elementos que denotem força; já ele, ao descrevê-la, começa dos pés e vai subindo ou da cabeça e vai descendo, com... leia mais

#115

2 Reis 22 relata o episódio em que o rei Josias encontra o Livro da Lei dentro do Templo e, em seguida, efetua uma das maiores reformas oficiais relatadas na Bíblia Hebraica. Logo de início, provavelmente preparando o leitor para o livro que seria encontrado, o escritor bíblico, ao apresentar o jovem rei Josias como aquele que לֹא־סָ֖ר יָמִ֥ין וּשְׂמֹֽאול  (lo’-sar yamin usmo’l – “não se desviou nem para a direita nem para a esquerda” verso 2), remete ao livro de Deuteronômio (Deuteronômio 5:32; 17:11, 20; 28:14)[1]. Josias é o rei que ouve as palavras e “anda no caminho do SENHOR” (Deuteronômio 5:33). Após ouvir as palavras do livro e considerá-las, numa atitude de humildade, Josias rasga suas vestes (evento mencionado no texto #25 aqui da TMR). No entanto, o texto não termina neste ponto. Logo após ouvir as palavras do livro, Josias ordena que a profetisa Hulda fosse consultada acerca das palavras daquele livro. E a resposta dela vem em forma de duas profecias: uma a Judá (versos 16-17) e uma a Josias (versos 18b-20). Ambas começam com a fórmula do mensageiro (“assim diz o SENHOR”) e seguem com as especificações de punição, ou não. Judá teria de lidar com o que já estava estipulado em Deuteronômio 28:15-28, as maldições da aliança. Todavia, a Josias é prometido que seria reunido em paz à sepultura e não veria o mal que seria trazido àquele lugar. Curioso ver que este é um dos primeiros relatos bíblicos descarado de alguém que encontra a palavra de DEUS de forma escrita e aplica às circunstancias presentes. E ao encontrar o Livro da Lei,... leia mais

#114

“não temas…” Matheus 1:20 Passaram-se as festas de final de ano e já nos encontramos naqueles dias sem muito significado ou sequer afazeres. Talvez ainda estejamos um pouco de ressaca (emocional) do desgaste particular da celebração de natal. Porque muito embora celebremos o nascimento de Jesus como se fosse algo próximo de nós e de nossa realidade, a verdade é q ele não está; seguramente está mais próximo da situação das mães e crianças em Aleppo! Mas este não é um texto sobre a não-comemoração do Natal do dia 25 de dezembro. Este texto é uma tentativa de encontrar algo na narrativa do nascimento de Jesus que seja significativo para nós, especialmente nestes dias sem significado, nestes dias de início de ano. A busca é por algo que legitimamente seja compatível com nossa situação. Ou seja: este é um texto egoísta. Matheus 1:18-20 diz: “Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, ela se achou ter concebido do Espírito Santo. E como José, seu esposo, era justo, e não a queria infamar, intentou deixá-la secretamente. E, projetando ele isso, eis que em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria como tua esposa.” O texto abre com “o nascimento foi assim”, mas ao invés de falar da jornada a Belém, da questão de não haver lugar para se hospedarem, do bebê na manjedoura com pastores e anjos cantando, o texto e a mensagem do anjo têm outra prioridade. Uma prioridade que nos encontra na nossa situação confortável do século... leia mais

#113

João, no capítulo 1 de seu Evangelho, traça um paralelo com o primeiro verso da Bíblia (Gênesis 1:1) “No princípio criou Deus o céu e a terra.” Em sua releitura deste verso, lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez.” (João 1:1-3) Em João 1:14, no entanto, ele afirma: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” Segundo o relato de João, a ação criadora de DEUS no princípio, é efetuada por aquele que Se fez carne e habitou entre nós, a dizer: Jesus. Jesus é o agente da criação. Ele é DEUS, Criador do céu e da terra. Ele é Elohim em Gênesis 1 e Ele é Adonai em Gênesis 2. Interessante observar esta reivindicação em todo o livro de João. Quer seja através da validação e do testemunho da maior sumidade religiosa dos últimos 400 anos da história de Israel (João Batista, em João 1:29), quer seja através da ação de Jesus de purificar o templo em João 2, ou até mesmo no encontro de Jesus com Nicodemos e a mulher samaritana em João 3 e 4… Em tudo, João parece tentar demonstrar não apenas que Jesus é DEUS, mas que DEUS –o DEUS da Aliança– se fez carne, tornou-se um de nós e se transformou em Jesus (como Jacques Doukhan gosta de ressaltar). Todos... leia mais

#112

Para responder, mesmo que parcialmente, a pergunta que termina o texto #102, vamos à Gn 32 e 33. Estes dois capítulos narram uma das cenas mais emocionantes de toda Bíblia Hebraica, o reencontro de Jacó e Esaú. Antes deste reencontro, a última informação que temos sobre a relação dos irmãos aparece em Gn 27:41, onde lemos: “Passou Esaú a odiar a Jacó por causa da benção, com que seu pai o tinha abençoado; e disse consigo: Vêm próximos os dias de luto por meu pai; então matarei Jacó”. Temendo uma vingança do irmão, nos vv. 3-5 e 13-19 do capítulo 32, Jacó envia mensageiros ao encontro de Esaú para preparar o caminho com presentes, ou melhor, apaziguar a ira do irmão com presentes. Todavia, a resposta que recebe dos mensageiros é simplesmente: “Fomos a teu irmão Esaú; também ele vem de caminho para encontrar contigo, e quatrocentos homens com ele”.  Jacó teme a notícia e divide o grupo em dois bandos (v.7). E com ele, o leitor participa da espera. Não se sabe o que acontecerá neste encontro. Ou melhor, se seguirmos o anúncio de Gn 27:41, com certeza não será nada bom. Nesta espera, Jacó ora (vv.9-12). Esta oração não tem um paralelo simplesmente com as promessas em Gn 28:15 ou 31:13. O retorno referido por Jacó não se relaciona simplesmente com os capítulos 27-28, mas, acima de tudo, com o retorno de Abraão. Jacó aparece completando a jornada de 3 gerações. Em Jacó, a família de Abraão finalmente retorna à terra, escoltados (Gn 32:1-2). Dentre os vários detalhes desta narrativa, vemos uma palavra que marca este reencontro,... leia mais