#110

No final do agora chamado ensino fundamental, me apresentaram um rapaz, neto de um poeta, o nome dele era Matheus. Ele me presenteou com um livro do seu avô, Ferreira Gullar. Até hoje me recordo da sensação de ler os versos do poeta maranhense: euforia. Ferreira Gullar foi a minha porta de entrada na poesia. A porta de entrada de um mundo que tornava o meu mundo melhor, mais belo, mais profundo, mais rico, mais nobre. Os “Sete Poemas Portugueses”, do livro A Luta Corporal foram os primeiros poemas que li e me recordo com clareza. Anos depois, obtive uma gravação de áudio em que o próprio poeta os declamava. Sua voz dava vida aos versos que já viviam em mim: “Nada vos oferto/ além destas mortes/ de que me alimento/ Caminhos não há/ mas os pés na grama/ os inventarão”. Minha adolescência foi pontuada pela leitura constante de diversos de seus livros. Aprendi sua história durante as aulas de literatura do ensino médio e me encantei ainda mais. Um homem envolvido na história do país, na luta pela liberdade, mas um homem de pensamento livre, crítico até das próprias posições, artísticas ou políticas. Em 1997, por convite do Matheus, compareci ao lançamento de Cidades Inventadas, um livro de contos, e pude apertar a mão do poeta pela primeira vez. Seus traços eram finos, o jeito dócil, a voz pausada e grave. No meu último ano na Faculdade de Letras do Centro Universitário Adventista de São Paulo, em Engenheiro Coelho (UNASP-EC), escrevi meu TCC sobre seu livro Barulhos, para mim o melhor de todos. No final da minha escrita,... leia mais

#109

“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto.” João 12:24 A tragédia desta semana pesa sobre todos. Podemos tentar mudar de assunto, focar em política, no futebol, nos afazeres do dia-dia, mas a morte precipitada de jogadores, comissão técnica, jornalistas, líderes e funcionários de aviação ronda os pensamentos de todos os brasileiros. E como uma sombra estes pensamentos nos acompanham nas veredas de nossas rotinas. “Há tempo para nascer e tempo para morrer” diz o sábio de Eclesiastes. Enquanto o nascimento irrompe em choro e gritos de alegria, a morte introduz o silêncio. Morte traz silêncio. Esta semana fomos confrontados mais uma vez com a fragilidade da vida. Enquanto a tendência da humanidade é buscar motivos –técnicos ou teológicos– do porquê disto ter acontecido, o que resta no fim do dia é apenas o silêncio. Podemos entender as causas do acidente, podemos recapitular os textos bíblicos que falam sobre vida e morte, podemos chorar, lamentar, compadecermo-nos, mas quando apagamos a luz e deitamos em nossos leitos o que nos resta é o silêncio. Principalmente para os membros das famílias que perderam entes queridos no vôo, mas também para nós, em em outras circunstâncias: o que permanece é o silêncio. Talvez seja justamente por isto que Paulo, quando escreve aos Tessalonicenses a respeito da morte, enfatiza a quebra do silêncio em três etapas. Três é um número peculiar. Um número na Bíblia que significa a morte completa. Jonas fica 3 dias na barriga de um grande peixe, Lazaro estava morto por 3 dias antes de Jesus aparecer no quarto... leia mais

#108

Em Zacarias 3:5-6 nós lemos: “E disse eu: ponham-lhe um turbante limpo sobre a cabeça. Puseram-lhe, pois, sobre a cabeça um turbante limpo e o vestiram com trajes próprios; e o Anjo do Senhor estava ali, protestou a Josué e disse: […]”. A palavra hebraica que é utilizada para turbante é tsaniph (צניף). Apesar desta palavra ocorrer poucas vezes e em um contexto de festa, outro substantivo derivado da mesma raiz, mitsnefet (מצנפת) é um termo técnico para designar especificamente a mitra sacerdotal (que aparece cerca de 12 vezes no Antigo Testamento) em textos como Êxodo 28:37 (aqui referindo-se ao diadema que ficaria enrolado no turbante), além de outras 10 vezes em Êxodo e Levítico, e uma vez em Ezequiel 21:26, onde também há uma referência ao diadema. Ou seja: as referências de Zacarias 3 ao santuário continuam de maneira evidente. O sétimo verso é uma confirmação da aliança com vocábulos semelhantes aos de Levítico 26 e Deuteronômio 28-30 e uma promessa de que o purificado e justificado por DEUS poderia julgar nos átrios celestiais: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Se andares nos meus caminhos e observares os meus preceitos, também tu julgarás a minha casa e guardarás os meus átrios, e te darei livre acesso entre estes que aqui se encontram.” Neste texto outros indícios do sacerdócio e do Dia da Expiação são evocados: intercessão e juízo.  Isto porque, ao entrar no santuário no Dia da Expiação e dirigir o serviço litúrgico, o sumo-sacerdote representava todo Israel e, portanto, intercedia por ele (Levítico 16:11, 16 + 19), mas também, por se tratar de um dia de purificação... leia mais

#107

Zacarias 3:1 começa dizendo: “Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do Anjo do Senhor, e Satanás estava à mão direita dele, para se lhe opor”.  A imagem que o profeta está passando é a de um julgamento onde há o juiz (Anjo do Senhor), o acusador (Satanás) e o acusado (Josué, o sumo sacerdote). A presença do Anjo do Senhor e de Satanás deixa nítido que a cena se passa em um plano celestial. No verso dois aparece: “Mas o Senhor disse a Satanás: O Senhor te repreende, ó Satanás; sim, o Senhor, que escolheu a Jerusalém, te repreende; não é este um tição tirado do fogo?” Parece haver uma clara ligação entre o Anjo de Senhor (malach Yhwh – מַלְאַ֣ךְ יְהֹוָ֑ה) do verso primeiro e o próprio Senhor do segundo verso (Yhwh – יְהֹוָ֑ה).  Quanto ao “tição tirado do fogo”, podem-se fazer duas inferências interessantes: uma diz respeito ao cativeiro babilônico, ou seja, Israel havia sido liberto do cativeiro por DEUS (o cativeiro neste caso pode ser literal ou espiritual, visto ser Babilônia também um símbolo do pecado, muito embora pelo contexto histórico de Zacarias é mais comum inferir-se um contexto literal de cativeiro); outra diz respeito ao serviço do santuário, mais especificamente às brasas que ficavam sob o altar de incenso. Algo que também chama a atenção é que, no Dia da Expiação, Yom Kippur, o sumo-sacerdote deveria retirar as brasas do altar e colocá-las no incensário e levá-las para além do véu (Levítico 16:12-13).  O terceiro verso: “Ora, Josué, trajado de vestes sujas, estava diante do Anjo” é interessante porque coloca... leia mais

#106

“aparta de ti esse vinho…” 1 Samuel 1:14 Abro este texto com um pensamento de Kierkegaard: “Os escribas e Fariseus se tornaram tão santos, e santas as pessoas sempre se tornam quando elas divinizam a ordem estabelecida, até que sua adoração faz de DEUS um tolo: debaixo da premissa de adoração e honra a DEUS, eles adoram a sua própria invenção [a ordem estabelecida].” O problema de Kierkegaard não era apenas de seu tempo. É nosso, também. É da igreja cristã moderna. É do Israel da antiguidade. Qual problema? A ordem, a organização estabelecida por homens debaixo da premissa da realização do trabalho de DEUS, é, na realidade, voltada apenas para interesses próprios. Anos após a decadência espiritual de Israel descrita no livro de juízes, Israel se encontra desolada. O autor de 1 e 2 Samuel compara a situação de Israel à incapacidade de Ana gerar filhos. Israel é como seu ventre: um território infrutífero. A liderança espiritual de Israel se encontra tão corrompida quanto a nação, mas estão fartos, estão satisfeitos, estão acomodados. O autor sutilmente mostra esta realidade em 1 Samuel 1:9: “Eli, sacerdote, estava sentado num trono junto a um pilar no templo do Senhor.” O uso da palavra trono (no hebraico kisse) neste contexto chama à atenção. A liderança espiritual se tornara liderança política. O assento do sacerdote se transformou em trono. A marca da corrupção espiritual tanto nos tempos de Eli, como nos tempos de Kierkegaard e hoje, é a mudança “assento” para “trono”. Interesses pessoais, corruptos, gananciosos, cobertos de prerrogativas e linguajares religiosos, são mais importantes do que os seres humanos a quem... leia mais

#105

“Lembra-te de mim, quando te for bem…” Gênesis 40.14 José é um personagem atípico. Enquanto todos os patriarcas antes dele tiveram contato direto/vísivel com DEUS, José não teve esta mesma experiência. É como se José fosse um prenúncio daqueles que mais tarde seriam reconhecidos como os que “não viram e creram”. Ao mesmo tempo, a Bíblia não registra nenhum pecado específico ou falha pública cometida por José. A tentativa de achar um pecado sequer na vida de José sempre será frustrada. Normalmente leitores se limitam em reconhecer que ele era mimado e que falava dos erros de seus irmãos ao seu pai. Elie Wiesel observa que “Jacó não recusava nada a José. Ele era dono das roupas mais bonitas, pois ele gostava de ser considerado gracioso e elegante. Ele tinha fome por atenção. Ele sabia que era o favorito e frequentemente se gabava disto… Arrogante, vaidoso, insensível aos sentimentos de outras pessoas, dizia livremente o que lhe vinha à cabeça [e por isso] foi odiado, maltratado e finalmente vendido pelos seus irmãos.” Estes aparentes problemas familiares saciam a sede do leitor de fazer com que José se pareça com qualquer um de nós. E a intenção, na verdade, é esta, mesmo. As tentativas de encontrar qualquer pecado ou desvio de caráter na vida de José são, no fundo, tentativas de humanizar o personagem que, do modo como é apresentado e descrito na narrativa de Gênesis, é perfeito. Mas, afinal, em que aspecto José é como um de nós? Depois de ser vendido por seus irmão, depois de percorrer todo o caminho ao Egito, depois de ser vendido como escravo,... leia mais

#104

“…a paz que carrego é uma carta que não fala nada de mim.” (Cartão Postal, Lorena Chaves e Marcos Almeida) Das palavras hebraicas que os cristãos em geral conhecem, שָׁלוֹם (shalom) talvez seja uma das mais populares. Lembro-me de, quando criança, cantar uma canção que dizia “Shalom, meu amigo, Deus é contigo até o fim”. Nessa música, a expressão funciona como um cumprimento, desejando paz. Cristãos sabatistas às vezes incorporam a expressão judaica Shabbat Shalom que é correspondente ao nosso “Feliz Sábado” ou “Bom Sábado” e expressa a satisfação do descanso sabático. Ou seja, usamos shalom para paz e também para prosperidade. Schökel define shalom como “paz, tranquilidade, serenidade, calma, concórdia; prosperidade, bem-estar, felicidade, sossego.” Ele ainda destaca que os conceitos de paz e prosperidade são inclusivos, se complementam, às vezes enfatizando um ou outro, mas sempre juntos. Outros dicionários acrescentam ainda significados como “completude” e “integridade”, que resgatam o significado da raíz da palavra, שָׁלַם (shalam). Shalom é mais do que paz/tranquilidade/calma e mais do que prosperidade/bem-estar. Shalom é completude. Paz completa. Exatamente por conta desta profundidade de significado que pode ter parecido absurdo o que Deus ordenou que Jeremias dissesse ao povo exilado na Babilônia na carta do capítulo 29 do livro do profeta. Jeremias ainda estava em Jerusalém e endereçou a carta aos cativos que foram levados por Nabucodonosor junto com “o rei Jeconias, a rainha-mãe, os oficiais, os príncipes de Judá e Jerusalém e os carpinteiros e ferreiros”(Jeremias 29:2). Esta investida da Babilônia é narrada em 2 Reis 24 e 2 Crônicas 36 e já havia sido prevista pelo profeta. Nabucodonosor havia levado parte da... leia mais

#103

“E disse a mulher para Elias: agora sei disso: tu és homem de DEUS e a palavra de YHWH[1] na tua boca é verdade.” (1 Rs. 17:24) A análise da narrativa de 1Reis 17 apresenta um mesmo tema repetido duas vezes, o sustento. O autor começa o capítulo com o discurso do profeta Elias para o rei Acabe dizendo que as chuvas cessariam, o que remete as maldições da aliança presentes no livro de Levítico e de Deuteronômio. Nesse discurso alguns elementos são importantes para a narrativa: a expressão חַי־יְהוָה אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל, (Tão certo como vive YHWH, DEUS de Israel) e o uso da conjunção אִם (se). Após a fala do profeta ao rei, vem a palavra de DEUS (v.2) e dá a Elias uma ordem de partir para o ribeiro de Querite e onde será sustentado por corvos. A construção do discurso divino é: צִוִּיתִי לְכַלְכֶּלְךָ (Determinei te sustentar). DEUS determina aos corvos que sustentem Elias. Esse primeiro ato termina com a agua do ribeiro acabando. O autor repete muitos elementos no segundo momento da história. Essa segunda seção começa com a palavra de DEUS novamente vindo a Elias (v. 8) com uma nova ordem para partir, agora em direção a Sarepta. Ele também determina uma viúva para sustentar Elias (צִוִּיתִי לְכַלְכֶּלְךָ). Elias parte e chegando lá se encontra com a viúva e pede água e pão, e em um discurso bem similar ao de Elias ela usa a frase חַי־יְהוָה אֱלֹהֶיךָ (tão certo como vive YHWH, teu DEUS) e a conjunção אִם (se). O autor parece repetir os mesmos elementos para induzir o leitor a imaginar que... leia mais

#102

Como vimos no texto anterior (#101), em Isaías 54:8, DEUS diz a Jerusalém: “em um momento de cólera, escondi de ti o rosto, mas logo me compadeci de ti, levado por amor eterno”. Um dos verbos que marcam o livro de Isaías é o verbo “esconder” (סתר, “esconder”). Não somente isso, mas, dos profetas da Bíblia Hebraica, Isaías é um dos que mais utiliza o verbo associado à palavra “face” (“escondi de ti o rosto”/ histartî pānay – פָנַ֥י הִסְתַּ֨רְתִּי). Para a elucidação desta expressão convém irmos a Êxodo 33. De particular importância na relação entre “face” (na sua forma plural, pānîm – פָּנִ֣ים) e DEUS, o capítulo 33 parece fazer parte de uma unidade (capítulos 32 a 34), que trata, dentre outras coisas, de modos diferentes da presença de DEUS no meio do povo de Israel. Após a destruição do bezerro de ouro e a punição do povo, DEUS promete enviar “seu mensageiro” (malʾāḵî yēlēḵ lep̱āneyḵā – מַלְאָכִ֖י יֵלֵ֣ךְ לְפָנֶ֑יךָ – 32:34) diante da “face” de Moisés. Por mais que tenha prometido não abandonar o povo, a presença por meio de seu mensageiro aparentemente não é vista como algo que encerra o assunto da presença de DEUS para Moisés. Na tenda da congregação, Moisés usa da oportunidade de falar com DEUS face a face (pānîm ʾel-pānîm – פָּנִ֣ים אֶל־פָּנִ֔ים – 33:11) para perguntar a DEUS quem ELE enviaria. Logo em seguida, DEUS responde: “minha presença irá contigo” (“minha face irá contigo” – פָּנַ֥י יֵלֵ֖כוּ – pānay yēlēḵû – verso 14). Assim, vemos que em Êxodo 33:14 e 15 pānîm serve para expressar um senso da presença pessoal de DEUS. Da mesma forma,... leia mais

#101

Em Êxodo 34:6, logo após Moisés interceder pelo povo depois do episódio do bezerro de ouro, Moisés afirma que DEUS é “compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade”. Dentre as palavras e expressões em referência ao ETERNO ‘erekh ‘apayim (אֶ֥רֶךְ אַפַּ֖יִם), traduzida como longânimo, merece especial atenção. Literalmente, ‘erekh ‘apayim tem o sentido de “nariz longo” ou “respiração longa”. Enquanto a raiva é caracterizada por uma respiração violenta, tal expressão está associada à ideia de paciência quanto à ira. Em Naum 1:6 lemos: “quem pode suportar sua indignação? E quem subsistirá diante do furor da sua ira? A sua cólera se derrama como fogo, e as rochas são por ele destruídas […]”. Ao ouvir sobre tão assombrosa ira divina, normalmente associamos tal imagem ao contexto humano que associa ira à perda de controle, compulsão ou algum tipo de perturbação momentânea da mente. A ira de DEUS, todavia, não acontece dentro dos limites da irracionalidade. Pelo contrário, parece que funciona como uma reação ocasionada pela conduta do homem. Não é uma ira explosiva e cega, mas, ao contrário, algo voluntário, com propósito. Uma espécie de indignação justa, como em Salmos 7:11: “DEUS é justo juiz, DEUS que sente indignação todos os dias.” Assim, por mais que o tópico da ira divina normalmente tenha uma atmosfera negativa na maioria de nossas discussões, tal tópico parece ser um álibi em meio a uma sociedade que sofre anestesiada. Em meio a tanta insensibilidade, a ira divina surge como um grito contra a indiferença ao mal [1]. A mensagem da ira divina inclui um chamado ao retorno. Em Jeremias 18:11 lemos:... leia mais

#100

A história é simples. Um pai e dois filhos. O mais moço pede a antecipação da herança e some no mundo. Vai morar em uma terra distante e, sem nenhuma inteligência, gasta tudo. A cidade em que ele decidiu viver é acometida por uma crise e ele passa fome. Certo dia, em meio a sua tragédia, “cai em si” e lembra: “os servos de meu pai tem fartura de pão” (verso 17). Surge uma idéia: “voltarei, reconhecerei meu erro e pedirei para ser recebido como servo”. Esse é um fragmento da narrativa do capítulo 15 do evangelho de Lucas. O texto revela vários aspectos curiosos da natureza humana e, talvez por conta disso, tenha se tornado tão emblemático para tantos pregadores. A narrativa da triste trajetória do filho segue até o momento em que o texto diz que, de tanta fome, ele “desejava comer o que os porcos comiam” (verso 16). Imediatamente após segue a fala do filho, “caindo em si” (verso 17)… Ele se lembra do pai porque tem fome. O pai, que outrora estava morto, passa a ter vida, porque a partir de agora o pai surge como solução para o seu problema. O que se segue é a formulação do discurso que legitimaria a volta: “pequei contra o céu e contra ti, já não sou mais digno de ser chamado teu filho” (verso 18). Ele tem fome, cai em si, e ensaia uma fala que pode funcionar. Está claro: a fome o desumaniza. O filho é incapaz de pensar no pai por qualquer outro motivo que não seja este: “na casa de meu pai os servos... leia mais

#99

Cada vez mais, no tempo em que vivemos, a realidade é mediada por imagens que produzimos. O que se observa é a crescente necessidade do ser humano de dizer algo a respeito de si mesmo para a maior quantidade possível de pessoas. É importante ressaltar que tais imagens ora se comunicam com a realidade de cada um, ora constituem-se mera espetacularização do trivial. Assim, verdadeiras ou falsas, todas as imagens são forjadas. Isso porque a imagem não é a realidade e à despeito do quão fiel se pretenda ser, é inanimada e jamais traduzirá por completo existência. Onde não há vida, a vida não se traduz. Entretanto, vivemos para forjar imagens de nós mesmos. Na era da compressão espaço-tempo[1], as relações se fluidificaram e o presente ascende como protagonista, de modo que é preciso exibir ao mundo o que acontece “aqui e agora”. Maravilhados com o “tempo real”, buscamos nos apresentar “interessantes” ao público e esquecemos o quanto isso pode se tornar cansativo. Viramos reféns da imagem que produzimos de nós mesmos e não percebemos o quanto nos tornamos patéticos. Você não é o que diz ser. Muitas vezes em conflito com o que desejamos apresentar, a sociedade – ou o grupo ao qual estamos atrelados – também espera algo de nós. Invariavelmente respondemos à esse clamor e forjamos outra imagem, fruto desse anseio social. Assim, obedecemos a códigos de conduta moral que nos identificam com o grupo, revelando as imagens que “devemos” apresentar ao mundo. Você não é o que a sociedade quer que seja. Somado à esses dois polos – indivíduo e sociedade – ressalta-se um terceiro,... leia mais

#98

Ainda que separação e afastamento sejam uma tônica comumente ressaltada no relato da queda (Gênesis 3), a narrativa da criação (Gênesis 1) começa com o esforço ativo da divindade para causar divisão. O verbo hebraico badal, traduzido geralmente como “separar”, “dividir”, aparece 5 vezes em Gênesis 1 (versos 4, 6, 7, 14, 18), enquanto o termo para “ajuntar”, qavah, ocorre apenas uma vez no mesmo capítulo (verso 9). O Criador começa separando luz de trevas (verso 4) no primeiro dia e, depois, separa águas debaixo dos céus de águas sobre os céus (versos 6 e 7) no segundo dia. No quarto dia Ele cria luzeiros que fazem separação entre dia e noite, além de servirem de sinais para estações, dias e anos. Neste interim, no terceiro dia, Ele dá uma ordem para que as águas debaixo dos céus se ajuntem num só lugar de forma que apareça a porção seca. No hebraico, o sentido de badal (separar), em todas estas cinco aparições, transmite a idéia de que DEUS é quem provoca a separação: Ele é a causa, a razão, o agente da divisão. Por outro lado, a única aparição de qavah (ajuntar) sugere uma ação a ser acatada e obedecida de forma passiva pela criação, em resposta ao imperativo do Criador: ajuntem-se. Quando é para dividir, Ele é quem separa; quando é para unir, a criação é convocada ajuntar-se. Embora a linguagem predominante seja de separação, estas ações refletem um intento organizacional. Inclusive, outras possíveis traduções para badal são  “distinguir”, “fazer diferenciação entre”. DEUS exerce Seu domínio no mundo de forma que o mesmo possa ser um ambiente de... leia mais

#97

“Morreu ontem. Portanto o seu retrato está completo.” A frase anterior pertence ao poema “retrato” de Mario Quintana; é nele que encontramos a idéia de que o retrato da vida de alguém é o resultado final de sua existência, a imagem concluída. Deve ser difícil resumir a vida de alguém em uma só imagem, mas parece que o escritor de 1 Reis possuía esta incrível capacidade. No capítulo 16:29-30 ele descreve que Acabe se tornou rei em Israel e fez o que era mau perante Yahweh mais do que todos os reis que reinaram antes dele. O que Acabe fez de tão ruim assim? O que há em seus atos que superaram as histórias regadas a idolatria e assassinato dos seis reis anteriores a ele em Israel? Por um lado ele não parece ser o principal vilão da história, é caracterizado como um personagem fraco, manipulado por tudo e por todos, principalmente pela esposa. Apesar de ser débil nas questões morais, ele figura como um grande político e um grande construtor. Até hoje suas construções são vistas como extraordinárias, exemplo disto é o reservatório de água em Megido, um túnel de 36 metros escavado em rocha que se encontra com outro túnel de 60 metros de comprimento que leva até uma fonte fora da cidade e um pátio com instalações para mais de 450 cavalos. A Bíblia também menciona o palácio de marfim que ele construiu e do templo para Baal (1 Reis 16:32 e 22:39). Apesar de Acabe ter, no passado, lutado ao lado de DEUS (1 Reis 20:13), as Escrituras focam no motivo de sua ruína (16:31... leia mais

#96

Na abertura do livro de Salmos encontramos uma descrição opositiva entre o feliz/justo e o ímpio. Esta adversidade é explorada através do movimento. No início do salmo (verso 1) feliz é aquele que se move, anda, não se detêm, não senta. Já o ímpio é uma figura inerte, sem movimento. Em seguida (verso 3) o justo é comparado a uma árvore, agora fixa, não em um lugar qualquer, mas sabiamente plantada junto a correntes de águas enquanto o ímpio (verso 4) voa como uma palha, em um movimento sem direção, gerido pelo acaso das correntes de ar, o vento. Por estar plantada no lugar ideal, a árvore produz a razão maior de sua existência: o fruto. Claramente se enxerga o ciclo do “ser para oferecer” do “receber a benção para abençoar”. Toda boa árvore existe para frutificar. Em oposição a ventos desconexos encontramos aqui uma árvore regida pelo tempo. Não um tempo aleatório, ou pelo acaso, mas ao seu devido tempo (verso 3) com a palavra (beito  בְּעִתּ֗וֹ). Mas como entender o tempo certo de um DEUS Eterno? Esta expressão aparece 12 vezes na Bíblia Hebraica, sendo 11 apresentando DEUS como o autor da ação e 1 como provérbio (Provérbios 15:23). DEUS dá a chuva em seu devido tempo (Deuteronômio 11:24, Deuteronômio 28:12, Jeremias 5:24, Ezequiel 34:26); DEUS dá o alimento em seu devido tempo (Jó 5:26, Salmos 104:27, Salmos 145:15,); DEUS retêm o alimento em seu devido tempo (Oséias 2;11); DEUS cria as constelações em seu devido tempo (Jó 38:32); DEUS tudo criou em seu devido tempo (Eclesiastes 3:11). Estes textos podem ser agrupados em três categorias: chuva,... leia mais

#95

O livro de Salmos é um livro especial. O que é particularmente interessante neste livro é que os escritores não se limitaram em elaborar salmos de conforto e de louvor. Grande parte do conteúdo dos salmos é o desnudar da alma de seus autores, o exercício de ser completamente honesto com DEUS, expondo suas dúvidas e seus medos. A forma elegante, artística e profundamente sincera em que os salmistas se expõem ao externar sua humanidade, suas dúvidas e imperfeições, não parece ser uma propaganda muito boa para a religião pregada atualmente, onde fórmulas de sucesso e prosperidade incondicional a qualquer custo são apresentadas a tiracolo. O verso 1 do Salmo 23 é provavelmente o verso mais conhecido e mais amado de toda a Bíblia. Certamente é o verso com mais músicas compostas, poemas escritos, livros publicados. A figura de DEUS como pastor e Seu povo como suas ovelhas, acompanhadas da intimidade e entrega recíproca entre um e outro, é comum nas Escrituras. A primeira vez em que a idéia aparece é em Gênesis 48:15: “O DEUS em cuja presença de meus pais Abraão e Isaque viveram, o DEUS que tem sido o meu pastor durante toda a minha vida até o dia de hoje.” Esta idéia também aparece em outros Salmos (78:52; 80:1; 119:176). Ao analisar o verso 1 do Salmo 23 na língua original, percebe-se claramente que o autor deste versículo queria dar um enfoque diferente do que normalmente percebemos quando lemos. Uma sugestão de tradução do hebraico seria: “O Salmo de Davi: O Senhor é meu pastor; não irei querer.” A palavra usada para “pastor” denota a... leia mais

#94

Um detalhe que sempre chama à atenção de quem lê a história de Davi x Golias é a armadura. De um lado, o gigante, com todo o seu aparato de guerra: capacete de bronze, couraça, caneleiras de bronze, dardos de bronze, lança com ponta de ferro e um escudo, carregado por outro homem, fora sua espada (1 Samuel 17:5-7). Uma conta rápida sugere que tudo isto pesava algo em torno de 60kg. Do outro lado, Davi, que foi para a luta sem nada, com um cajado, que ele deixou à mostra, e sua funda, dobrada em suas mãos com as cinco pedras escondidas entre sua roupa (1 Samuel 17:40). Esta tática fez com que Golias o desprezasse, pois ele só viu o cajado (1 Samuel 17:43) e deu a Davi a distância necessária para acertar o filisteu no meio da testa. Esta parte desta história esconde uma ironia anterior. Antes de sair ao combate de maneira “civil”, Saul, o rei, conhecido por sua estatura (1 Samuel 9:2), lhe oferece sua própria armadura, constituída de capacete de bronze, couraça e espada (1 Samuel 17:38-39) –basicamente os mesmos elementos, descritos com praticamente as mesmas palavras. A ironia é que, como Golias, Saul também era alto e, como Golias, Saul também tinha uma armadura de guerra. Além disto, Golias era um homem experimentado na guerra, guerreiro conhecido (1 Samuel 17:33) e Saul, em teoria, também era um homem experimentado na guerra, pelo menos desde que assume o reinado. Ou seja: Saul e Golias tinham muita coisa em comum, mas Saul temeu e, por isso, Davi venceu uma batalha que Saul deveria ter... leia mais

#93

1 Samuel 17 apresenta uma das histórias mais conhecidas da Bíblia: Davi versus Golias. O contexto deste capítulo, entretanto, começa bem antes, praticamente na unção de Saul como rei. Desde o início de seu reinado, Saul teve problemas com os filisteus e parece nunca os haver derrotado, aliás, uma das marcas de Saul: nunca derrotar o inimigo completamente (1 Samuel 15 é um bom exemplo disto). Aqui, em mais um enfrentamento de Israel com os filisteus, o narrador faz questão de descrever o cenário, dando uma série de referências geográficas e topográficas (1 Samuel 17:1-3). Também introduz o personagem Golias com riqueza de detalhes. O primeiro detalhe, e o mais importante também, é que Golias era de Gate (1 Samuel 17:4). A procedência deste homem nos remete a Josué 11:21-23, quando o povo guerreou contra os gigantes (os famosos anaquins) e os venceu, restando apenas alguns deles em 3 cidades: Gaza, Asdode e Gate. A própria referência aos gigantes nos faz lembrar de Números 13, quando Moisés envia espias à terra de Canaã que, por ocasião de seu retorno, deram o relato de que gigantes habitavam a terra (Números 13:25-28, 31-33), motivo pelo qual se amedrontaram e até queriam voltar ao Egito ou morrer no deserto (Números 14:1-4). Ou seja: Golias, de Gate, é a memória de dois eventos passados; o primeiro de medo e pecado (Números 13 e 14); o segundo de vitória (Josué 11). Isto se torna mais impactante porque o texto nos diz que este gigante desafiava o povo de Israel, duas vezes ao dia, por 40 dias (1 Samuel 17:16). Aqui, em 1 Samuel 17,... leia mais

#92

Judá experimentou uma terrível seca no período do profeta Jeremias, descrita no capítulo 14:2-6; a situação parece caótica. Os poderosos enviavam criados para buscar água, mas estes voltavam com seus cântaros vazios, afinal as cisternas estavam secas. Os campos não sentiam uma gota de água há muito tempo. Os lavradores estavam decepcionados. Todavia, esta realidade de seca não era algo puramente climático. Em Deuteronômio 28:23-24 e 48, entre as maldições da aliança aparece que se o povo não cumprisse com a aliança feita com DEUS a terra se tornaria em pó por falta de chuva. O povo passaria sede. A seca de Judá era reflexo de uma seca no relacionamento de sua aliança com DEUS. Como diz Jeremias 2:13: “Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retém água.” Aqui, a aliança é apresentada através da metáfora da fidelidade no casamento, pois este texto de Jeremias ecoa Provérbios 5:15-18 onde é dito: “Bebe a água da própria cisterna e das correntes do teu poço. Derramar-se-iam por fora as tuas fontes, e, pelas praças, os ribeiros de água? Sejam para ti somente e não para os estranhos contigo. Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade”. No entanto, em Jeremias 14 vemos a solução. No verso 8, parte da primeira intercessão de Jeremias, DEUS é chamado de “Esperança de Israel”. Em Jeremias 17:13 DEUS também é chamado pelo mesmo título com um adendo: “o nome dos que se apartam será escrito no chão; porque abandonam o SENHOR, a fonte das... leia mais

#91

Os textos #78 e #90 trataram do rei Ezequias. Mais uma vez, voltemos à sua história, desta vez em sua última parte. Esta última seção da narrativa é introduzida pela expressão “naquele tempo” (baet hahi – בָּעֵת הַהִיא). O tempo da história parece ser próximo da vitória de Judá sobre a Assíria e, principalmente, próximo da cura de Ezequias. Este recebe a visita de mensageiros da Babilônia com cartas e um presente de seu rei. Ele mostra aos mensageiros tudo que havia em Judá: “nenhuma coisa houve, nem em sua casa, nem em todo o seu domínio que Ezequias não lhes mostrasse” (2 Reis 20:13b) e “Viram tudo quanto há em minha casa; coisa nenhuma há nos meus tesouros que eu não lhes mostrasse” (2 Reis 20:15b).  O profeta Isaias repreende severamente o rei, prometendo o saque dos bens e até que os descendentes reais seriam eunucos no palácio do rei da Babilônia (2 Reis 20:17-18). A repreensão parece demasiadamente dura, mas o narrador claramente nos dá pistas do porquê: em um curto espaço de texto, ele enfatiza isto, repetindo a mesma idéia seguidamente: tudo o que Ezequias mostrou era material. A ênfase não é despropositada, mas visa demonstrar a conexão entre o rei e o que ele tinha. As bênçãos da aliança –prosperidade e paz– haviam direcionado seus olhos para sua riqueza e tirado seus olhos daquELE que lhe deu as bênçãos e que confirmou com ele a aliança feita com Davi, com Abraão, Isaque e Jacó. Ezequias esqueceu de um mecanismo básico da aliança: a benção é dada para abençoar os outros. Em Gênesis 12:1-3 este mecanismo... leia mais

#90

No texto #78 vimos a primeira parte da história de Ezequias (2 Reis 18:1-19:37). A segunda seção narrativa sobre esse rei começa em 2 Reis 20:1 com o uso da expressão bayamyim hahem (בַּיָּמִים הָהֵם), que significa, literalmente, “nos dias, aqueles”. A pergunta óbvia, então, é: a que dias ele se refere? Bem, o relato deste capítulo trata do anúncio da doença de Ezequias, logo no início. A doença é mortal e o profeta Isaías anuncia ao rei sua iminente morte. O anúncio de enredo no início deste capítulo parece fatídico. O bom rei irá morrer. Este anúncio ecoa dois outros anteriores: em 1 Reis 14:1-20 o filho de Jeroboão, um rei mau, está doente e ao consultar o profeta Aías, este anuncia a morte do menino, o que, de fato, passa a suceder; em 2 Reis 1:1-8 o rei Acazias fica doente e Elias também anuncia sua morte, que, de fato, ocorre. Ou seja: quando o profeta anuncia a morte de alguém, na narrativa dos livros de Reis, geralmente esta morte acontece. O leitor mais avisado, lendo a profecia de Isaías, espera a morte do rei. Na sequência do relato, no entanto, Ezequias faz o que tinha feito antes, ora (2 Reis 20:2-3). Ele ora a DEUS pedindo por sua vida. Seu argumento, embora pareça uma justificação por obras, está baseada na aliança. Isto, porque em 2 Reis 20:7 o profeta o aconselha a colocar pasta de figos sobre a úlcera (em hebraico shechin – שְׁחִין), que é uma das doenças enumeradas, algumas vezes, nas chamadas maldições da aliança de Deuteronômio 28 (Deu teronômio 28:27, 35)[1]. Quer dizer... leia mais

#89

Dentre os livros proféticos, o livro de Jonas é um dos que mais está relacionado ao recurso literário da ironia. Dentre a soma de ironias figura-se, por exemplo: 1) a ironia do homem de DEUS, o profeta, tentar fugir de sua incumbência; 2) a ironia dos marinheiros do navio no qual Jonas embarca, aparentemente terem mais temor a DEUS do que o próprio Jonas; e 3) a ironia do profeta de DEUS que se ira ao ver o povo se arrependendo. Uma outra ironia que parece permear toda a narrativa apresenta a terra e seus habitantes não-humanos como testemunhas divinamente designadas e como agentes de juízo para o profeta. Supostamente, o profeta deveria ser o mediador das mensagens divinas. Comumente é o profeta quem é capaz de sofrer por ver o mundo de maneira mais ampla, através da perspectiva divina. Contudo, no livro de Jonas, algumas criaturas designadas por YHWH como: o peixe (2:1); a planta (4:6) e o verme (7) tomam o papel do profeta. É como se as criaturas não-humanas, ocupassem o lugar de Jonas como mediador das mensagens divinas, tornando, assim, a ironia ainda mais aguda. Por fim, esta ironia central quanto ao papel profético, parece relacionada ao que Jonas sabia que poderia acontecer caso obedecesse ao comando divino. Em Jonas 4:2 lemos: “E orou ao SENHOR e disse: Ah! SENHOR! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és DEUS clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal.” Como ficaria a reputação... leia mais

#88

A Bíblia é um livro que se preocupa com os meios. Esta inquietação com os meios pode ser vista, por exemplo, em Matheus 4, nas tentações de Jesus. Olhando atentamente, o fim de nenhuma das tentações (saciar a fome; restituição do governo; manifestação da glória de DEUS) possui conotações negativas. Seus problemas são os meios. Como se alimentar, como restituir o governo na terra, e como manifestar a glória de DEUS. Por praticamente não existir mais preocupação com os meios, vemos hoje uma confusão dos meios.  Por exemplo, em Matheus 18:1-5, tendo os discípulos perguntado a Jesus quem era o maior no reino dos céus, Ele respondeu: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.” Hoje, vemos as infância como meio para se chegar à fase adulta. No entanto, a criança, segundo Matheus, é o fim, o lugar onde todo adulto deve sonhar chegar. A maturidade da fase adulta repousa em perceber que o cerne da Bíblia é se tornar como criança. Assim, o resultado deste pandemônio dos meios, faz com que julguemos os meios de acordo com o que pensamos ser o meio mais correto. Desta forma, mais uma vez, somos reorientados biblicamente ao ver a peculiaridade insólita de muitos instrumentos escolhidos por DEUS. Em um contexto de promessa de livramento do exílio Babilônico, o leitor é  surpreendido em Isaías 44:28 ao ver Ciro ser apresentado como “pastor” de DEUS, aquele que faria cumprir todas as SUAS promessas. Na sequência, outra surpresa, em Isaías 45:1-6: Ciro é chamado de מָשִיחַ (mashiah – “ungido”),... leia mais

#87

O texto de Êxodo 20:2-17 contém em torno de 172 palavras; o quarto mandamento, que diz respeito ao sábado, representa cerca de um terço disto, com 55 palavras; ou seja: ele toma quase metade de todo o resto do Decálogo (55 palavras para o quarto mandamento e 117 para os outros nove mandamentos). Isto, por si só, já demonstra a relevância do sábado dentro do e para o texto. A centralidade do sábado dentro da unidade do Decálogo, no entanto, também se dá por sua transitividade entre leis que se referem unicamente ao relacionamento com a divindade (os três primeiros mandamentos) e leis que se referem unicamente à humanidade (os seis últimos mandamentos). Outro fator relevante é que o texto referente ao quarto mandamento está, diferentemente do restante, marcado por uma clara inclusão (paralelismo envelope), que se dá pelo paralelo entre Êxodo 20:8 e o final de Êxodo 20:11, respectivamente: “Lembra o dia do sábado para santificá-lo” e “portanto abençoou YAHWEH o dia do sábado e o santificou”. Nos dois casos, no hebraico, o dia de sábado está ligado à raiz קדשׁ (santificar) no tronco piel. Nos dois casos o uso da raiz aparece depois da construção definida que envolve sinal do objeto direto e dois substantivos. A diferença é que em Êxodo 20:8 o homem é instado a santificá-lo e em Êxodo 20:11 o próprio DEUS o santifica. Esta inclusão aponta para o próprio caráter dialógico do sábado, pois a convocação para que o homem o santifique se coloca em paralelo com a santificação do sábado por DEUS. Ainda é possível perceber que a inclusão parece determinar uma... leia mais

#86

Sobre o próprio texto do Decálogo, uma série de nuances valem ser ressaltadas: primeiro, de aspectos gerais e, depois, específicos. Em primeiro lugar, o Decálogo não é parecido com as prescrições habituais da lei bíblica, até por não especificar as punições. É, inclusive, a forma de categóricos imperativos e proibições apodícticas dos mandamentos em Êxodo 20:3-17 mais um fator de relação com as formulações dos tratados de aliança do AOM (Antigo Oriente Médio).

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#85

Há muito o texto de Êxodo 20 (e Deuteronômio 5) é arrolado como similar aos tratados de suserania do Antigo Oriente Médio, em especial aos tratados políticos Hititas. Esta similaridade se dá pela presença de seções comuns no processo de se regular a relação entre entidades diferentes; no caso dos tratados políticos, entre o suserano e o vassalo; no caso bíblico, DEUS e o povo.

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#84

“Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros.” 1 Samuel 15:22

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#83

Onde habita o DEUS bíblico? Em que lugar sua glória se manifesta? Logo depois de fazer uma aliança com Israel, no clímax do relacionamento entre DEUS e Seu povo, Ele ordena que se faça um santuário para que Ele habitasse no meio dos filhos de Israel (Êxodo 25:8). É pelo santuário que DEUS habita entre o povo. DEUS cumpre Sua palavra capítulos depois, quando o livro do Êxodo narra a conclusão da construção do santuário.

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#82

נַחֲמוּ עַמִּי יֺאמַר אֱלֹהֵיכֶם׃ נַחֲמוּ
“Nachamû, nachamû ‘ammî, yi’mar ’elôhêykhem”
“Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso DEUS” (Isaías 40:1)
Na parte final de seu livro, Isaías (40-66) profeticamente apresenta o futuro do remanescente de Judá pós-exílio.

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#81

É impressionante notar o papel das religiões na cultura (ou talvez o contrário, dependendo da escola de pensamento a que você pertença). Por ser polissêmica, a religião pode abarcar qualquer compreensão a respeito de si mesma; e aqui defino o papel da cultura neste processo, pois à medida em que nossas complexas relações se desdobram, o papel da religião (assim como a resposta que damos a ela) sofre alterações inevitáveis, tornando-se, assim, expressão imediata dos valores produzidos pelo homem. Entretanto, como alternativa ao anteriormente afirmado, no campo da fenomenologia, entende-se que o exercício de determinadas religiosidades sempre será carregado de um ferramental que possibilite a relação do homem com a mesma, e é dentro deste contexto que é pertinente pena citar o medo. O medo integra a história da humanidade –sendo ele instintivo pela auto-preservação e sobrevivência, ou socialmente produzido– e no tempo em que vivemos, quando o assunto é a religião à qual pertencemos (como falei anteriormente, por ser polissêmica, aqui ouso identificá-la como uma instituição religiosa), o medo pode também ser entendido como uma eficaz ferramenta de manipulação. Lembro-me que poucas vezes vi a minha igreja tão cheia quanto no culto do dia 12 de setembro de 2001. O medo desenfreado pelo iminente “apocalipse”, que por consequência traria sobre a terra o juízo divino, acarretou as mais variadas elocubrações sobre o “tempo do fim”. Ou ainda, não me escapa da memória o dia em que amigos me contaram a respeito de um rapaz que se dizia ex-pactuante com o diabo. O curioso testemunho do rapaz, contado obviamente dentro de uma igreja, vinha repleto de ensinamentos a respeito das artimanhas... leia mais