#173

Na Bíblia Hebraica, principalmente, a descrição que se tem de paternidade é de fracasso. Pais errantes aqui e acolá. Nos casos em que a narrativa se desenvolve suficientemente em algum núcleo familiar –nem sempre isso acontece– as evidências de fracasso se avolumam. Não importa quem seja o pai. Isaque, Jacó, Eli, Samuel, David, entre outros, são clássicos e fáceis exemplos desses fracassos.   Na verdade, o primeiro grande “fracasso” paterno é do próprio DEUS. ELE cria homem e mulher, seus filhos, à Sua imagem e semelhança, e eles se tornam desobedientes. Adão e Eva, com seus dois primeiros filhos, também experimentam o gosto amargo do fracasso paternal quando Caim assassina Abel. E poder-se-ia continuar esta seqüência quase que infinitamente…   A mais importante lição da paternidade é justamente essa: a liberdade, derivada de um amor ilimitado. Talvez por isso a Bíblia não se preocupe em esconder tantos e tantos fracassos, inclusive do Pai de todos.   Quando seu filho nasce, o que um pai mais deseja é livrá-lo de todos os perigos, de todas a escolhas ruins, de todo e qualquer sofrimento. Você deseja que ele nunca experimente derrotas amargas e perdas dolorosas. Esse desejo é fruto de um amor inexplicável. Mas, seu filho –tão semelhante a você e, ao mesmo tempo, um outro ser humano, distinto– inevitavelmente vivenciará tudo aquilo de que você o quis proteger… mais cedo ou mais tarde.   Na verdade, quanto mais experiências de vida ele tiver, quanto mais escolhas ele fizer, tanto mais livre e consciente ele será para tomar decisões sozinho e de maneira madura. A paternidade ensina o fracasso, porque é impossível... leia mais

#172

“Estais calado. Mesmo neste momento, vós ficais calado?” Silêncio, Shusaku Endo   Em Jeremias 28 é possível ver nuances do que é não ser um verdadeiro profeta.   Profeta aqui, como já apresentado em textos anteriores, é aquele que, segundo o texto bíblico, tem como suas palavras a palavra de DEUS, que não consegue lidar com injustiça e opressão e que, com e por amor, intercede. Contudo, todo aquele que se sente parte desse coro profético, muitas vezes, corre o risco de se confundir.  Pensar que suas vontades são a vontade de DEUS. Que sua voz, é a voz dEle (quando deveria ser o contrário).   Vários motivos podem resultar nesta catástrofe profética narcisista, e um deles, talvez um dos primeiros, a falta de autocrítica, do auto-questionamento. Do alto de seu status pseudo-profético não mais questionam a “biblicidade” de suas próprias empreitadas.   Voltemos à Jeremias. DEUS, no capítulo 27 (sugiro lê-lo junto ao 28), pede para que Jeremias fizesse canzis (jugos) e os colocasse sobre o pescoço. Além disso, o profeta deveria enviar outros aos reis de Edom, Moabe, ao rei dos filhos de Amom, ao rei de Tiro, e ao rei de Sidom. Esta encenação serviria a um propósito: “Agora, eu entregarei todas estas terras ao poder de Nabucodonosor, rei da Babilônia, meu servo; e também lhe dei os animais do campo para que o sirvam” (verso 6). O povo de Israel deveria aceitar a submissão à Babilônia. Isso era consequência da infidelidade do povo para com DEUS. Resultado direto da quebra da aliança. Na sequência, acrescenta-se que ninguém deveria dar ouvidos aos profetas e adivinhos que... leia mais

#171

“Porque os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus.” Romanos 2:13   O caminho trilhado por Jesus –mais tarde chamado de Cristianismo– é um caminho marcado pela morte. Hoje, no século 21 e no Ocidente, o imperativo para “tomar a cruz” confunde. Como viver uma vida marcada pela morte se não existe perseguição? E é nesse contexto de conforto que a Bíblia é lida em nossos dias. A leitura através das lentes do conforto é interessante. Ela tende a ignorar ou adocicar textos que confrontam o conforto estabelecido. E quão próprias são as Palavras de Jesus para nosso atual contexto de conforto.   No centro dos ensinamentos de Jesus está a vivência do que foi ensinado. Jacques Ellul no livro The Subversion of Christianity aponta o óbvio: ao ensinar sobre o homem que constrói uma casa na areia e na rocha Jesus estava buscando ensinar e enfatizar que no final das contas apenas a prática é que importa. Jesus termina o sermão da montanha com a parábola dos construtores dizendo: “todo aquele que ouve as minhas palavras e as pratica será comparado…”   Nós conhecemos a história do homem que constrói na areia e do homem que constrói na rocha, mas esquecemos que o principal ensinamento ali contido é apenas este: que ouvir apenas não é suficiente.   Nossa leitura confortável da Bíblia resulta numa prática confusa dentro do contexto religioso e eclesiástico. Uma das mais recentes pesquisas do grupo Barna indica que 61% de adolescentes (geração Z) sentem que encontram DEUS fora da igreja, e 64% entendem que a igreja não é relevante para sua... leia mais

#170

No evangelho de João, duas histórias curiosas são narradas nos capítulos 6 e 11. Embora as duas narrativas provavelmente não possuam uma conexão intencional dentro da abordagem aqui proposta, existe um aspecto da condição humana que vale ser evidenciado, respectivamente, em fragmentos dos capítulos mencionados que serão destacados a seguir.   1) “E, entrando no barco, atravessaram o mar em direção a Cafarnaum; e era já escuro, e ainda Jesus não tinha chegado ao pé deles”. João 6:17   A história é interessante. Jesus acabara de multiplicar pães e alimentar milhares de pessoas junto ao mar de Tiberíades antes de passar para o outro lado rumo a Cafarnaum. Depois de operar tamanho milagre diante dos olhos dos discípulos, os despede e, curiosamente, pede para que eles tomem a dianteira na jornada rumo à referida cidade. Eles entram num barco e durante a travessia o mar se avoluma de tal maneira que até mesmo pescadores experientes, acostumados desde a infância com as rotineiras intempéries do Mar da Galiléia, temem por suas vidas. É neste contexto que João escreve a sentença acima: “e já era escuro, e ainda Jesus não tinha chegado ao pé deles”.   2) “Então Jesus disse-lhes claramente: Lázaro está morto; E folgo, por amor de vós, de que eu lá não estivesse, para que acrediteis; mas vamos ter com ele.” João 11:14,15   A segunda história se conecta à primeira na medida em que as reações humanas à ausência de Cristo se repetem. Relembrando rapidamente. Jesus estava em outra cidade quando recebeu a notícia de que Lazaro estava morrendo. É importante mencionar que os irmãos Lazaro, Marta... leia mais

#169

Há uma palavra importante no livro de Gênesis que se repete diversas vezes: “gerações” (tôlĕdôt – תוֹלְדוֹת). Ela aparece precisamente onze vezes (Gênesis 2:4; 5:1; 6:9; 10:1; 11:10; 11:27; 25:12; 25:19; 36:1, 9; 37:2) e diversos autores a consideram como uma espécie de marcador de início de seção dentro do primeiro livro da Bíblia, sendo Gênesis 1:1-2:3 a única seção que não seria iniciada por ela.   Ao aparecer na narrativa, “gerações” é seguida de duas possibilidades: ou uma narrativa, ou uma genealogia, conforme relacionado abaixo:     Gn 2:4 Céus e Terra Narrativa Gn 5:1 Adão Genealogia* Gn 6:9 Noé Narrativa Gn 10:1 Noé Genealogia* Gn 11:10 Sem Genealogia Gn 11:27 Terá Narrativa Gn 25:12 Ismael Genealogia Gn 25:19 Isaque Narrativa Gn 36:1 Esaú Genealogia Gn 36:9 Esaú Genealogia Gn 37:2 Jacó Narrativa     As seções iniciadas em Gênesis 5:1 e 10:1, apesar de serem genealogias, terminam com pequenas narrativas que criam o background para a própria seção. Por exemplo, Gênesis 6:1-8 constrói o pano de fundo para a seção do dilúvio que começa em Gênesis 6:9.   É interessante notar que tôlĕdôt introduz tanto genealogias quanto narrativas. Por quê? Porque obviamente seu uso em genealogias faz sentido (“essas são as gerações de fulano… Fulano gerou ciclano que gerou beltrano, etc”), mas não faz o mesmo sentido nas narrativas, principalmente porque na grande parte das vezes, a história contada não é a do indivíduo introduzido na fórmula.   Em Gênesis 11:27, por exemplo, ao falar das gerações de Terá, a narrativa vai contar a história de Abraão. Na tôlĕdôt de Gênesis 25:19, a narrativa trata Isaque como... leia mais

#168

O relato da criação de homem e mulher em Gênesis 1 e 2 guarda uma série de aspectos interessantes. Em Gênesis 1:26-27 a descrição da criação do primeiro casal é feita de maneira a ressaltar a relação deles com DEUS. Em Gênesis 2:5-7 e 2:18-22 a estrutura do texto indica que o objetivo é descrever a relação deles entre si e com a criação.   A criação do ser humano, no capítulo 1, segue o padrão literário de toda a seção (1:1-2:3). Primeiramente aparece uma espécie de anúncio do que será criado e, logo em seguida (geralmente com o uso de mesmo verbo e expressões semelhantes), o relato do que foi criado. Assim, em Gênesis 1:26, o anúncio é feito de modo a focar na função que ele (ser humano) teria: ser à imagem e semelhança de DEUS. Dentre as várias possibilidades que esta expressão pode ter, uma que parece carregar um sentido mais próximo ao texto logo em seguida, é a de que ao homem foi delegado o poder de representar a DEUS na criação. Isto, porque após dizer que criaria o homem à Sua imagem e semelhança, a função deste homem é descrita como sendo “dominar sobre a criação”. Após a criação do ser humano (אדם), a ordem divina dada a ele é, além de dominar (רדה), subjugar (כּבשׁ) as outras criaturas. Esta ideia de domínio é a única que difere o homem das outras criaturas, já que, para ambos (homem e criaturas), é ordenado que cresçam, se multipliquem e encham a terra.   A fala divina em Gênesis 1:28 ecoa a de Gênesis 1:26, pois em ambos há... leia mais

#167

“O essencial é invisível aos olhos”. Saint-Euxpéry   Considerando a presença do marcador textual Lech Lecha (sai-te) podemos dividir a narrativa abraâmica em pelo menos dois momentos cruciais, nos quais o verbo ra’ah (ver/olhar) desenvolve um papel estrutural.   Lech Lecha aparece pela primeira vez em Gênesis 12:1, texto no qual o ainda Abrão é convidado a participar de um movimento; movimento esse que parece ser do concreto para o não-concreto; do palpável para o intangível. Abrão é chamado a abandonar o seu passado: “sai da casa de teu pai” (Gênesis 12:1). Nesse sentido ele passaria a viver uma realidade bem próxima à de sua esposa, apresentada numa genealogia sem qualquer indicação de ancestralidade. Sarai não tem pai. É uma filha de ninguém. Exatamente o que Abraão passaria a ser.   A mesma expressão Lech Lecha reaparece em Gênesis 22 como uma espécie de revisitação do drama da primeira partida. Contudo, há uma mudança de perspectiva. Se por um lado, em Gênesis 12, Abraão deve se desenraizar de seu passado, em Gênesis 22, Abraão deve se desligar de sua única conexão com o futuro: Isaque, o filho da promessa. Ao matar Isaque, Abraão mataria sua descendência, sua promessa e sua história. Abraão sofreria um tipo de “esterilidade”, o que novamente traz a lume a imagem de Sarai: a mulher que era estéril e não podia ter filhos.   E é nesse contexto dramático que o verbo ra’ah assume o papel de criar: expectativa, conflito e resolução.   No primeiro caso o patriarca deve sair de casa por um motivo: uma terra que lhe será mostrada (ra’ah). O verbo “mostrar”... leia mais

#166

As “palavras de Amós” (1:1) são marcadas pelo sofisticado uso das raízes שׁוב (šwb) e הפך (hapak) e pela exaustiva repetição da sentença “assim diz” כֹּ֚ה אָמַ֣ר (kō ʾāmar) –um total de 15 aparições em todo o livro. Esta expressão figura mais de 480 vezes na Bíblia Hebraica e usualmente tem como sujeito יהוה (yhwh). Ela recebe o nome de fórmula do mensageiro em razão da proposição formal “assim diz o rei” כֹּ֚ה אָמַ֣ר הַמֶּ֔לֶךְ ‎(kō ʾāmar hammelek) praticada pelos arautos que eram enviados (šlḥ) a representá-lo (ver 2 Reis 1:11).   As 8 primeiras ocorrências seguem uma estrutura homogênea. Elas estabelecem uma progressão de intensidade às advertências de juízo a Damasco, Gaza, Tiro, Edom, Amom e Moabe, tendo por clímax Judá e Israel. Entre os vários marcadores repetidos, está a raiz שׁוב (šwb) “voltar, volver, virar-se”, apresentada aqui na forma causativa לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ (lōʾ ʾăšîbennû), literalmente: “não o farei voltar [castigo implicíto]”. Segue-se, portanto, a seguinte estrutura: “Assim diz o Senhor […] não retirarei (farei voltar) o castigo […]”:   1:3 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:6 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:9 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:11 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 1:13 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 2:1 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 2:4 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃ 2:6 כֹּ֚ה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה […] + לֹ֣א אֲשִׁיבֶ֑נּוּ […]׃   Ao final do capítulo 2 e início do 3 temos o resultado da progressão: o juízo incide agora com exclusividade sobre os “filhos de Israel”... leia mais

#165

Conforme já observado no texto #89, o livro de Jonas se destaca entre a literatura profética pela grande medida no uso do recurso da ironia. Elaborada com a intenção de ser reconhecida, a ironia constantemente convida o leitor para participar de sua percepção e construção. Dessa maneira, este recurso exige uma relação bem próxima entre o leitor e o texto, tornando o leitor em um participante ativo na história.   De forma geral, a ironia é composta por alguns requisitos básicos que facilitam seu reconhecimento; neste texto destaco o elemento da “oposição”. A oposição é, basicamente, incongruência articulada na distinção entre o que se espera e o que realmente acontece. E, claro, para o leitor atento, as incongruências não passam despercebidas. A seguir algumas delas:   Apesar de o livro já iniciar com uma série de expectativas frustradas, oposições e contrastes, a resposta de Jonas ao capitão do navio chama à atenção por ser a primeira fala do profeta no livro. Até então ele havia iniciado uma série de ações para “fugir da presença do SENHOR” (1:3), mas nada havia sido dito por ele. No entanto, em meio à sua fuga, sua primeira fala é: “Sou hebreu e temo ao SENHOR, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jonas 1:9).   Se não fosse pelo contexto, que linda profissão de fé! Jonas no meio da tempestade, entre os pagãos, dá seu testemunho. Declara pertencer ao povo escolhido e crer na onipotência de DEUS e em seu domínio sobre terra e mar. Contudo, esta declaração soa completamente estranha aos olhos do leitor que tem acompanhado o... leia mais

#164

Diz o Tolo em seu coração: não existe DEUS corrompem, fazem obra abominável. Não existe feitor bom. YAHWEH do céu olha contra os filhos dos homens para ver se existe sábio procurador de DEUS. Todos apóstatas juntos são corruptos. Não existe feitor bom não existe nem um. (Salmos 14:1-3).[1]   Os três primeiros versos do Salmo 14 iniciam revelando contrastes entre o tolo e o sábio. Apesar do salmo começar com a fala do tolo negando a existência de DEUS, essa negação não é feita abertamente, como fica claro pelo uso do substantivo prefixionado בְּלִבֹּו (no coração). O salmista aponta que o tolo não sai pelas ruas gritando para todos ouvirem que DEUS não existe, mas ele o diz para si mesmo. Ele nega a existência de DEUS dentro do seu coração. Ainda no primeiro verso do poema há uma conexão entre a fala do tolo com o ato de se corromper. Essa conexão parece ressaltar que a negação de DEUS, feita pelo tolo, não está operando no nível das palavras, mas no nível das ações, isto é, o tolo nega a DEUS através do que ele faz.   Neste salmo vê-se uma forte conexão entre o pensar e o agir. O que o tolo, segundo o salmo, pensa, tem influencia sobre o que ele faz. De modo contrário, se o tolo se envereda por caminhos corruptos e perversos, ele nega a realidade de DEUS. Nesse sentido, a pergunta levantada seria, “quem é o tolo?”. A resposta é bem simples, qualquer pessoa. Inclusive quem se auto-intitula parte do povo de DEUS (como inclusive parece ser um dos principais alvos da crítica do salmista).... leia mais

#163

“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim […]” João 17:20   Em João 17 vemos claramente pelo menos um conceito-chave da Reforma de maneira explicita: Soli Deo Gloria (glória somente a Deus). Contudo, antes de mais nada, vale contextualizarmos esta oração de Jesus. Em João 12:1-8 vemos componentes que são ecoados à frente nos capítulos 13-16. Jesus havia ceado em Betânia e, naquela ocasião, Maria lava os pés de Jesus e, por fim, narra-se a entrada triunfal em Jerusalém em que há a aclamação: “Hosana! Hosana! Rei de Israel!” Nos capítulos seguintes, Jesus ceia com os discípulos, lava seus pés e ouve, após a oração, a aclamação: “Crucifica-o! Crucifica-o!” (19:15). Aclamação esta voltada ao, como dizia a placa sobre a cruz, “Rei dos Judeus” (19:19). Os capítulos que antecedem a oração são marcantes para que possamos compreendê-la. Jesus termina seu ministério e, aparentemente, seus discípulos parecem não compreender nada do que se estava passando. Dos capítulos 13 a 16 ouvimos de discípulos diferentes (Pedro, João e Tomé) as perguntas:  “Lavar meus pés?”; “Quem vai te trair?”; “Para onde vais?”; “Como podemos saber o caminho se não dizes para onde vais?”. Isso sem contar pedidos como por exemplo o de Filipe: “Mostra-nos o pai”. Sem qualquer ansiedade, Jesus lhes responde conversando; uma conversa pessoal que se resume ao que vemos em João 16:12-30. A ideia de que embora ainda houvesse um longo caminho a percorrer, eles estavam no caminho. Assim, finalmente chegamos ao capítulo 17.   O capítulo 17 inicia com a afirmação: “[…] é chegada a hora”. Ouvimos que a hora... leia mais

#162

“Quão silencioso terá sido este mar; quão preparado para o assombro da palavra!” George Steiner   No texto Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem Walter Benjamin afirma que no “haja” e no “Ele chamou” presentes nos primeiros versículos de Gênesis 1, vemos uma clara relação entre o ato criador e a linguagem. Tudo começa com a onipotência criadora da linguagem divina, e ao final, a linguagem incorpora a si o criado, ela o nomeia. Para Benjamin:   “Em DEUS o nome é criador por ser palavra, e a palavra é saber por ser nome. ‘E DEUS viu que isso era bom’, isto é: Ele conheceu pelo nome. A relação absoluta do nome com o conhecimento só existe em DEUS, só nEle o nome, porque é intimamente idêntico à palavra criadora, é puro meio do conhecimento. Isso quer dizer: DEUS tornou as coisas cognoscíveis ao lhes dar nomes. Mas o homem só nomeia as coisas na medida em que as conhece.”[1]   Em outras palavras, o homem é aquele que conhece na língua em que DEUS cria. Sua essência é a linguagem em que ocorreu a criação. Contudo, de acordo com Gênesis, ao criar o homem, DEUS não o cria a partir da palavra, e ele não o nomeia. DEUS pôs no homem a linguagem que Lhe havia servido como meio da criação. DEUS descansou após depositar no homem seu poder criador. Em Gênesis 2:19-20a lemos: “Havendo, pois, o senhor DEUS formado da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e... leia mais

#161

Em Lucas 7:36-50, lemos que Jesus é convidado a comer na casa de um fariseu chamado Simão. Logo no início da narrativa somos surpreendidos por uma mulher, pecadora, de acordo com o narrador, que invade aquele momento e começa a “regar”os pés de Jesus com lágrimas e os ungia com uma espécie de perfume, secando-os com seus cabelos. Obviamente, esta cena chama a atenção de todo naquele recinto. Na cena seguinte do relato, somos transportados para dentro da cabeça de Simão, o dono da casa, por ouvirmos seus pensamentos: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou porque é pecadora”. Logo na sequencia Jesus dirige-se a Simão e lhe conta uma história de duas pessoas que deviam quantias diferentes a um certo credor. A dívida de uma deles era cem vezes maior que a do outro, mas, como o texto deixa claro, “não tendo nenhum dos dois com que pagar”, foram perdoados. A história contada aparece como que respondendo ao pensamento de Simão sobre Jesus ser ou não um profeta. Obviamente, Simão não sabe disse e nem entende de cara. Somente, Jesus, o narrador, e nós, leitores, sabemos disso. O texto diz que logo ao terminar a história, Jesus se volta para Simão e pergunta: “Qual deles, portanto, amará mais?” (v.42). Simão responde: “Suponho que aquele a quem mais perdoou” (v.43). E Jesus, por fim, diz: “Julgaste bem” (v.43). Esse diálogo é central na narrativa por alguns motivos. A descrição deste ocorrido parece estar estruturada em três blocos de relato+ avaliação/julgamento: Introdução (v.36) 1.relato (vv.37-38) + avaliação (v.39) 2.relato (vv.40-42) + avaliação... leia mais

#160

“É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” Gênesis 3:1   Gênesis 2 antecipa muitos dos temas que serão centrais na narrativa do capítulo seguinte. Em Gênesis 2, DEUS faz homem, animais e árvores do solo e da terra. Na narrativa da queda em Gênesis 3 animais, humanos e árvores serão personagens principais. Quando DEUS planta um jardim para o ser humano em Gênesis 2 o texto indica algumas peculiaridades importantes para o desenvolvimento da narrativa. Esses detalhes podem parecer, em uma primeira leitura, aparentemente descritivos. O verso 9 indica que “do solo Deus fez brotar toda sorte de árvores agradáveis (do verbo chamad, desejável) à vista, e boas (tov, bom) para alimento.”   Gênesis 3 desenvolve a idéia da queda e da introdução do pecado no mundo não como uma ação pontual de Adão e Eva, mas como um processo que inclui inúmeras ações resultando na expulsão do jardim e uma vida longe do ideal divino para o ser humano.   Por mais que para muitos o pecado de fato ocorre apenas quando a mulher come do fruto proibido, a narrativa parece indicar uma complexidade maior para o debate e da elaboração do que significa “pecado” em Gênesis 3 (curioso notar, inclusive, que a palavra “pecado” sequer é mencionada).   “Pecado” em Gênesis 3, e no decorrer de toda a Bíblia, é um processo. O processo começa no nível epistemológico. Na avaliação de possíveis interpretações da realidade (no caso da narrativa da queda, a palavra de DEUS sobre a árvore e a palavra da serpente). Quando a serpente, contrariando DEUS, indica que o... leia mais

#159

Abraão recebeu a visita de DEUS em sua tenda e comeram juntos um cordeiro com coalhada (Gênesis 18:7-8). Depois a conversa entre eles se estendeu para a reafirmação da aliança, com a promessa de que Sara e ele, Abraão, realmente teriam um filho no ano seguinte (Gênesis 18:9-10). Os diálogos em Gênesis 18:9-14 lembram muito Gênesis 17, com diversos ecos, incluindo a risada duvidosa da promessa, tanto de Abraão (Gênesis 17:17), quanto de Sara (Gênesis 18:13).   Depois desse papo, o narrador apresenta algo raro na narrativa, um diálogo interno do próprio DEUS. Essa fala interna já apareceu em um momento crucial, Gênesis 8:21-22 na história de Noé. Aqui, DEUS se questiona se deveria ocultar algo do Seu eleito, se deveria conversar a respeito de tudo, já que o escolheu para praticar a justiça e o juízo, abençoando as nações da terra (Gênesis 18:17-19). A fala de DEUS consigo mesmo é irônica, principalmente pelo diálogo que se segue, onde DEUS diz a Abraão que vai verificar se Sodoma e Gomorra são tão pecadores quanto se tem dito. DEUS, aparentemente, vai investigar se as alegações de prática pecaminosa lá correspondem a verdade (Gênesis 18:20-21). Ora, DEUS não precisaria investigar nada, como de fato acontece na sequência, quando os dois seres angelicais descem até Sodoma e vão até a casa de Ló (Gênesis 19).   Abraão havia libertado o rei de Sodoma e seus habitantes de um cativeiro, história narrada em Gênesis 14. Agora, algumas décadas depois (talvez duas), DEUS resolve destruir as duas cidades. O diálogo entre Abraão e DEUS depois do anúncio de destruição é particularmente interessante, pois aponta... leia mais

#158

Depois de completada a criação de todos os elementos, DEUS se dirige aos seres viventes, especificamente ao ser humano, e lhe dá alimento. Foi a primeira dádiva divina à criatura. A Bíblia diz assim: “E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.” Gênesis 1:29-30 Esse texto carrega uma construção simples, mas, pelo seu tamanho, acaba confundindo alguns. Em primeiro lugar, o que Deus dá é introduzido por um verbo, nātan (נָתַן), precedido por sufixo pronominal de identificação, vos (lāḵem), indicando que o discurso se dirigia ao ser humano, macho e fêmea, criados imediatamente antes disso (1:26-28). Logo depois vem o complemento de objeto direto, ou seja, o que é dado. Depois, no verso 30, o narrador apresenta uma nova identificação do discurso: os outros seres vivos e toda a alma vivente, e um novo complemento de objeto direto. Analisando com atenção a construção, podemos simplificar dizendo que Deus deixou três tipos de comida: plantas que produzem semente, árvores que têm fruto que produz semente, e erva verde. Estes três alimentos são para dois grupos de comedores: o ser humano e os outros seres viventes. Alguns enxergam que há uma diferença entre o alimento dado ao homem e aquele dado aos animais, ou seja, o... leia mais

#157

[Obs.: Neste último final de semana a Terceira Margem do Rio participou de uma vigília organizada pela IASD central de Taguatinga. Tiago Arrais falou a respeito de sola scriptura e, mais tarde, cantou algumas de suas canções; Edson Nunes falou de sola gratia; Lucas Iglesias falou de sola fide e solus Cristus; Leonardo Gonçalves falou de soli Deo gloria e cantou duas canções em hebraico; Felipe Valente também cantou; e tivemos a participação especial de Gabriel Iglesias, que apresentou algumas de suas canções. O ingresso para este evento havia sido estipulado em forma de alimentos não perecíveis que seriam doados para um assentamento do MATR (Movimento de Apoio ao Trabalhador Rural) que regularmente é atendido e assistido por voluntários da IASD central de Taguatinga. Pedimos para que pudéssemos pessoalmente participar da entrega destes alimentos. Ao chegarmos no local, a situação era calamitosa; faltava água e não se sabia quando um carro pipa poderia suprir as necessidades mais básicas e para piorar, um dos membros daquela comunidade, Antônio, havia acabado de falecer. Fizemos uma pequena programação para os membros daquela comunidade que não foram ao enterro de Antônio. Visitamos a viúva, Geralda, que acabara de retornar do funeral de seu marido, e, em uma pequena capela em que não caberiam mais de 20 pessoas, cantamos alguns hinos e Lucas orou por ela e sua família. O texto que segue é fruto destes acontecimentos.]   Hoje orei com quem ficou. Dura é a dor de ficar ao ver partir. Em toda perda, por mais que uma parte de nós também se vá, sofremos com a aridez do ficar. O dia da... leia mais

#156

A narrativa do dilúvio está em duas seções dentro do primeiro livro da Bíblia. A primeira parte aparece no final da terceira seção de Gênesis, que se iniciou em Gênesis 5:1 (“Este é o livro da genealogia[1] de Adão”) e compreende uma espécie de anúncio de enredo, terminando em Gênesis 6:8. A segunda parte está na quarta seção de Gênesis, começando em 6:9 e terminando em 9:29.   O que conecta uma parte à outra é, obviamente, o personagem Noé. Noé é apresentado duas vezes de maneira breve, antes de se tornar o centro das atenções da narrativa que começa em Gênesis 6:9 (“Eis a história[2] de Noé”). Em sua primeira apresentação, na genealogia de Adão, seu nome é explicado por seu pai, Lameque: “Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o SENHOR amaldiçoou” (Gênesis 5:28).   Noé, cujo nome significa “descanso” (da raiz nḥ) carrega a esperança de seu pai de que ele traga descanso da maldição dada por DEUS em Gênesis 3:17-19. Depois dessa primeira apresentação, o estado da terra nos dias de Noé é descrito em Gênesis 6:1-7. Basicamente o que se pode resumir é que havia intensa promiscuidade e violência. A narrativa em Gênesis 6:11-12, por exemplo, ratifica esse estado constante de violência com a construção frasal “estava cheia de violência” e com “pois corrompida está toda carne do seu caminho sobre a terra”.   A descrição negativa de Gênesis 6:1-7 culmina numa declaração em que o personagem Noé é novamente introduzido: “E Noé achou graça nos olhos de Deus” (Gênesis 6:8). Essa declaração soa fora de... leia mais

#155

“Vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor.” Mateus 9.36   Nos últimos textos temos tratado da recorrente questão da falta de misericórdia, da falta de paciência, e de uma religiosidade que, embora se proponha altos ideais, na prática, deixa a desejar. Neste ano de 2017 são muitos os que celebram os 500 anos da Reforma Protestante, contudo, a junção de uma certa frustração religiosa com essa celebração gera sentimentos mistos e acaba produzindo em nós uma certa estranheza. Estranheza, porque o distanciamento do texto, dos conceitos e de uma visão verdadeiramente bíblica é tamanho que a celebração da Reforma é equivalente à celebração de um divórcio. A postura de algumas lideranças religiosas e de pregações em tom “profético” só agrava a situação. Por isso, ao celebrarmos a herança da Reforma, vale a pena ponderar alguns versos de Mateus 23, na tentativa de resgatar justamente o que dia após dia está sendo esquecido e perdido. Observe como cada frase de Jesus é carregada de relevância para os nossos dias de frustração e celebração. Verso 1: “Então falou Jesus à multidão, e aos seus discípulos…” O discurso inteiro será contra a postura dos líderes religiosos da época, porém é dirigido à multidão que seguia Jesus e aos seus próprios discípulos. O discurso é para as “ovelhas sem pastor” (ver Mateus 9:36 e Jeremias 23:1-6). Pessoas que, como Jeremias antecipa, seriam alvo da negligência de pastores. Verso 2: “…dizendo: Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus.” O assento de Moisés, obviamente, não é literal, mas figurativo. Moisés mesmo... leia mais

#154

É como diferente da atitude de Jonas com relação aos Ninivitas que percebemos a parábola da figueira estéril (uma parábola pouco lembrada dentre as várias narradas por Jesus). Em Lucas 13:6-9, lemos: “Então, Jesus proferiu a seguinte parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e, vindo procurar fruto nela, não achou. Pelo que disse ao viticultor: Há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não acho; podes cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra? Ele, porém, respondeu: Senhor, deixa-a ainda este ano, até que eu escave ao redor dela e lhe ponha estrume. Se vier a dar fruto, bem está; se não, mandarás cortá-la.” Essa parábola é contada por Jesus pouco tempo antes dele fazer sua entrada triunfal em Jerusalém. Dentre as inúmeras lições dessa parábola, uma bem clara e que se relaciona com a misericórdia divina apresentada em Jonas é: não interessa qual for a figueira, ela merece mais tempo. Numa época em que, principalmente em alguns ambientes religiosos, muitas pregações parecem enfatizar os atos e hábitos que todos os fiéis devem cumprir –de acordo com a determinação do pregador, o que ele determinar, no tempo que ele determinar– essa parábola nos diz: dê mais tempo. Além disso, contrária à nossa tendência de querer resolver problemas espirituais por amputação, a parábola diz: “ponha estrume”. Diferentemente do discurso daqueles que se consideram os “intermediários” do dono da figueira dizendo que “temos de cortar o mal pela raiz”, a intervenção do trabalhador da figueira surge com um único propósito: pedir mais tempo. Nada há de glamoroso no esterco. Esterco não é um reparo... leia mais

#153

Quem cresceu em um ambiente religioso, conhece a história de Jonas com certa clareza. O profeta de DEUS que recebe o chamado para ir pregar em Nínive, cidade dos maus, violentos e perversos assírios. Ele resolve desconsiderar o chamado divino e fugir para outro lugar. No caminho, DEUS envia uma tempestade e Jonas, sabedor de que se tratava de uma intervenção divina para que ele cumprisse a missão dada, prefere ser jogado ao mar, no meio da tempestade; Jonas prefere morrer a cumprir a missão.   Dentro do animal que o engole no mar, Jonas ora. Sua oração é bonita, recheada de belas palavras e referências ao Templo e ao poder de DEUS, mas sem menção de arrependimento ou pedido de perdão. Na verdade, sua última frase nessa oração é curiosa: “Os que se apegam aos ídolos vãos; afastam de si a sua própria misericórdia.” (Jonas 2:8). Essa frase aponta para o que Jonas continuava achando dos ninivitas, que eram idólatras: não mereciam misericórdia. O profeta sabia que a mensagem de destruição que ele deveria levar a Nínive indicava que Deus ainda lhes concedia misericórdia (ver Jeremias 18), mas, a seu ver, eles não a mereciam.   Misericordiosamente, DEUS ordena ao animal que vomite Jonas na terra. O verbo usado para “vomitar” (qyʾ) é raro, ocorrendo poucas vezes na Bíblia Hebraica. Quando usado, ele se refere a bêbados ou glutões vomitando (que não parece ser o caso aqui) ou a própria terra vomitando (Levítico 18 e 20). No contexto da terra, ela vomita pecadores que a contaminam. O contexto de Jonas é a única ocorrência em que este verbo... leia mais

#152

Outro componente essencial do estudo da narrativa bíblica é sua estrutura. A maioria das narrativas aparece estruturada com os seguintes elementos[1]: (a) resumo; (b) orientação; (c) ação complicadora; (d) avaliação; (e) resolução; e (f) coda. No livro de Rute, por exemplo, a narrativa se inicia com algumas frases que resumem toda a história. Estas frases servem para apresentar, de forma condensada, a respeito de que a história trata. Aparentemente, não vemos isso no livro de Rute, mas “Depois dessas coisa, pôs DEUS Abraão à prova […]” (Gênesis 22:1) é um exemplo. A orientação é onde tempo, lugar, e pessoas da narrativa são identificados. No início do livro de Rute encontramos este tipo de orientação: “Nos dias em que julgavam os juízes […]”(Rute 1:1). Apesar de, para leitores modernos, esta introdução possa parecer um indicativo de que a intenção do livro é ser histórica, na verdade, isto está unicamente colocando a história em um contexto temporal. Deste modo, o narrador se distancia da história e conduz o leitor à estrutura temporal em que a história ocorreu. Apontar exatamente em que momento na história dos juízes isto aconteceu é uma preocupação moderna. Na história não vemos indicações de uma data precisa. Outro exemplo como “[…] saiu a habitar na terra de Moabe” (Rute 1:1) também poderia ser destacado. Em seguida, a ação complicadora é o coração da narrativa. Ela narra o que aconteceu e quando aconteceu. Aqui, a sequência temporal dos eventos se torna importante. Normalmente alguns marcadores aparecem para indicar que a ação está iniciando. Este marcador pode ser um indicador temporal (específico [Ester 1:3] ou geral [Juizes 11:4]), ou... leia mais

#151

Dentre os principais componentes de qualquer narrativa, está a composição de seus personagens. Este fenômeno de caracterização não é diferente no texto bíblico.   Para E. M. Forster, os personagens podem ser distinguidos entre os planos e os completos.[1] Os planos são construídos em torno de uma ideia ou um único conceito, sendo que normalmente não apresentam aspectos de sua vida íntima; os completos, por outro lado, são complexos, auto-conscientes, capazes de desenvolvimento e mudança.   No livro de Rute, Noemi, Rute e Boaz configuram tipo de personagens completos retratados de maneira profunda e complexa através de suas ações, discursos e reações. Qualquer história está, ainda, repleta de personagens que funcionam como agentes para que os personagem maiores/completos se desenvolvam na narrativa. Estes personagens secundários não são importantes em si mesmos, mas, sim, na medida em que auxiliam no desenrolar do enredo. Orfa e o potencial resgatador provavelmente sejam os agentes mais importantes, afinal, servem como contraste com Rute e Boaz ao escolherem exatamente o oposto quando confrontados pela mesma opção de escolha.   Obviamente, a caracterização no texto bíblico é muito mais profunda e rica do que esta simples categorização flexível. Contudo, simplesmente a disposição em considerar a análise dos personagens (e sua caracterização) nas histórias bíblicas, por si só, já é capaz de enriquecer a leitura de qualquer um que se aproxima do texto.   Por exemplo, apesar de ser o livro de Rute, Noemi parece ser a personagem principal. Todos os outros personagens aparecem em relação à ela. Somente em Rute 1:2 Noemi é nomeada em relação ao seu marido, Elimeleque, o que é revertido logo... leia mais

#150

A narrativa[1] é a forma predominante de exposição de idéias na Bíblia Hebraica (BH). A BH tem uma história a contar, e, para contá-la adequadamente, faz uso de todo um arsenal de recursos da arte narrativa hebraica: enredo, caracterização, repetição, descrição física, dentre outros. Além disso, bem mais que a metade do Novo Testamento é composta por narrativas encontradas nos quatro evangelhos e em Atos dos Apóstolos. Isso, porque a forma discursiva predominante empregada para transmitir questões de suprema importância no antigo Israel e no judaísmo do 1º século era, justamente, a narrativa. Foi precisamente isso que o próprio Cristo fez em Suas parábolas, simplesmente dando continuidade à tradição já estabelecida na BH, que explorava o poder das histórias. Este é o tipo de Bíblia que DEUS achou por bem nos dar. Se quisermos ser coerentes com esse tipo de Bíblia, portanto, precisamos lê-la de tal forma que se faça justiça a suas histórias. Como o próprio Laurence Turner afirma, ao invés de apresentar um compêndio com uma série de doutrinas descritas de maneira abstrata, quando Cristo quis ensinar algo sobre salvação, ele disse: “Certo homem tinha dois filhos […]” (Lucas 15:11). E, como vemos através deste recurso, diferentemente da abstração doutrinária que apenas muito dificilmente se pode reproduzir mentalmente, qualquer pessoa consegue repetir a narrativa contada por Jesus depois de ouvi-la apenas uma vez, não importa seu nível social ou cultural. De acordo com Adele Berlin[2], ironicamente, embora contar histórias seja tão importante na tradição bíblica, não há na BH uma palavra para história. Vemos palavras para cânticos, oráculos, hinos, e parábolas. Contudo, não há uma palavra para... leia mais

#149

“Aqueles que pensam que há distinção entre santidade e riso, são intelectualmente constipados” – Robert Alper [1]   Em um trecho do romance O nome da Rosa, Umberto Eco explora uma temática interessante: a relação entre o humor e religião, ou, talvez, humor e santidade. Tal temática aparece através de dois monges (Jorge de Burgos e Guilherme de Baskerville) que debatem se Jesus riu ou não riu quando esteve na terra. Para Jorge de Burgos o riso é fonte de dúvida, desta forma, não pode ser livremente permitido como meio de lidar com a realidade. Diferente da perspectiva do monge de Burgos, a Bíblia parece trazer muitas situações de humor e riso. Isso se dá não somente através de situações cômicas, como também através de descrições que utilizam do humor. Distante de discursos preocupados em condenar gêneros literários e demonizar a relação da cultura com as Escrituras, o escritor bíblico, da mesma forma que utiliza-se da novela e da tragédia para compor seu livro, faz uso também da comédia. Um exemplo pode ser visto na história contada em 2 Reis 6:8-23.   Esta narrativa é contada em 5 estágios: 1o estágio (versos 8-11) – Há informação vaga de que os Sírios estão fazendo guerra contra Israel e acampando em tal e tal lugar. Esta informação apresenta Eliseu na história, que informa ao rei de Israel quais são estes tais e tais lugares. Somente Eliseu sabe quais são os tais e tais lugares. Um toque de humor entra na narrativa quando o rei da Síria, furioso com seus planos sendo frustrados, acusa um dos seus de traição. Isso prepara o... leia mais

#148

“Quando pessoas o suficiente fizerem falsas promessas, palavras deixam de ter significado. E então não haverá mais respostas; apenas mentiras melhores.” Jon Snow   A segunda tentação de Jesus no deserto é narrada por Mateus no capítulo 4 da seguinte maneira: “Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.” Matheus 4:5-7   Após uma primeira tentativa desastrosa de tentar fazer com que transformasse pedras em pães, o diabo conduz Jesus para o pináculo do templo. Sabendo que este havia acabado de citar o texto de Deuteronômio 8:3 como base para não realizar um milagre em favor próprio, o inimigo decide usar textos bíblicos para tentar Jesus, citando Salmo 91 para justificar seu pedido. Salmo 91 começa da seguinte forma: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei. Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.” Salmos 91:1-3   A ironia aqui é clara. O diabo usa um texto que diz respeito à confiança em DEUS, para colocar Jesus a prova, exatamente no quesito de “confiança em DEUS”. Ele usa um texto que reforça a confiança em DEUS, para fazer com que Jesus desconfiasse em DEUS. Brilhante. Mas Jesus... leia mais

#147

O relato de Gênesis 1 encontra paralelos em diversas literaturas antigas. Entretanto, apesar de algumas ligações óbvias, há sempre diferenciações importantes que apontam a singularidade do texto bíblico tanto em sua forma, quanto em seu conteúdo. Em seu princípio, por exemplo, a Bíblia não explica o período anterior a Criação da terra e dos céus, nem descreve Deus ou seu habitat, como o fazem as outras culturas. O relato começa de maneira direta e assertiva, apresentando a divindade apenas em sua relação com a criação: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (1:1).   O verso 2, iniciado por uma clausula disjuntiva, não progride com a narrativa. Na verdade, cada uma das três sentenças é introduzida por uma conjunção em hebraico e faz uma declaração sobre o estado da terra anterior ao primeiro ato criativo de Deus. Assim, a primeira declaração sobre a terra é de sua condição pré-criativa: תֹהוּ (tôhu) e בֹהוּ (vôhu). Essas duas palavras aparentam ser um par usado para criar o que chamamos de hendíadis, ou seja, o uso de dois substantivos ligados por conjunção para transmitir uma ideia que poderia ser dita com apenas um deles e assim tornar o texto mais poético.   São diversas as tentativas de achar uma raiz etimológica para vôhu. As teorias vão desde a ligação com uma deusa canaanita (Bααν) ou com a deusa mesopotâmica Ba-u até uma ligação com o árabe bahiya, que significa “ser vazio”. Já tôhu não foi, até agora, ligado a nenhuma base hebraica, apesar de ser considerado um substantivo primário. Dentre as várias possibilidades da etimologia de tôhu, há o termo... leia mais

#146

  O relato de Gênesis 1:1 – 2:3 guarda uma série de características importantes. Muitos estudaram e estudam esses versos em busca de respostas, mas, infelizmente, a maior parte do tempo se perde a beleza de estudar o texto pelo que ele é, um texto. Isso não significa ignorar as perguntas e repostas normalmente trabalhadas por aqueles que acreditam na Criação, mas olhar o texto com um olhar mais literário e buscar, em sua forma, extrair seu conteúdo primário. A estrutura do texto é bem simples e começa com uma introdução que apresenta o personagem principal do texto, Deus. Deus não é apresentado de maneira tradicional já que não há nenhuma descrição que lhe acompanhe, nem uma biografia. Diferente de outros relatos mesopotâmicos, não há batalhas entre deuses, nem o sangue deles, dos deuses, é usado na criação de algo. A descrição inicial de Deus é baseada em uma ação: criar. Essa narrativa abarcante e generalizada dos atos criativos divinos começa com limites de tempo (“no princípio”) e de espaço (“céus e terra”) e o que vai conectar essas duas dimensões é o verbo בּרא (br’). Para compreender o verbo em questão de fato, é preciso deixar de lado a teologia, já que o entendimento dele é geralmente conectado ao conceito doutrinário de ex nihilo, ou seja, uma criação “do nada”, antes de haver matéria. A discussão de quando a compreensão de uma criação material a partir da não-matéria começou, se no período intertestamentário, antes do Novo Testamento, como uma resposta ao judaísmo helenizado, ou se no período dos apóstolos, por causa de textos como Hebreus 11:1-3 e Romanos... leia mais

#145

“…eu sou o homem solitário de Deus…” Travis Bickle em Taxi Driver   Taxi Driver é provavelmente considerado um dos três melhores filmes do diretor Martin Scorcese. Sua peculiaridade em relação aos outros filmes do diretor e até mesmo dos demais filmes de Hollywood dos anos 70 se dá pela harmonia incrível entre o roteiro (escrito por Paul Schrader) e a maneira como Scorcese desenvolveu e escolheu as imagens do mundo do protagonista, Travis Bickle (interpretado pelo famoso Robert De Niro). Tendo em vista que este é um filme dedicado a desenvolver o conceito de solidão, as primeiras imagens já mostram o mundo de Travis: ou dentro das paredes metálicas de seu taxi, ou em seu pequeno apartamento com travas de ferro nas janelas. Quer seja na rua ou em casa Travis vive aprisionado em sua própria solidão. Ele conversa consigo mesmo, escreve em seu diário, e durante o filme todo esboça algumas das razões que construíram sua condição: os males da sociedade nova-iorquina. Travis encontra fora de si mesmo a raiz de sua condição solitária. Quer seja com uma loira educada e trabalhadora ou com uma loira drogada e prostituta Travis falha em conseguir se conectar a outros seres humanos. Incapaz de lidar com sua realidade, ou de até mesmo compreender que suas observações do mundo se dão por suas próprias escolhas e não por influência externa, Travis decide agir. A última cena do filme registra um estouro de violência ao Travis tentar resgatar uma prostituta de seus donos e acaba por se tornar um herói para a mesma sociedade de que antes se distanciava.   O que... leia mais

#144

“Já naquela altura, depois de tanto abuso, era impossível distinguir homem do porco.” Orwell, A Revolução dos Bichos.   “A Revolução dos Bichos de Orwell” junto com “1984” quase podem ser considerados livros proféticos. Além de esclarecerem nuances de males muitas vezes imperceptíveis de governos e regimes políticos ao redor da Segunda Guerra Mundial, as idéias imersas nesses livros anteciparam tendências que seriam marcantes na sociedade e na política tempos depois. No caso de “A Revolução dos Bichos”, uma das idéias centrais é a forma como revoluções pontuais carregam o risco de voltarem atrás nos princípios básicos que as originaram. Os animais da Fazenda Manor decidem se rebelar contra seus donos humanos, e na promessa de ordem e progresso, acabam numa situação muito pior do que antes pela ganância dos porcos (que se tornaram os líderes da revolução). A ganância dos humanos, no fim do livro, é bem menor do que a ganância dos porcos. Os abusos dos humanos no começo do livro são menores do que os abusos dos animais no fim do livro e, como na frase acima, a situação chega ao ponto de ser impossível distinguir entre humano e animal. No livro, a revolução atinge sua maturidade quando se torna moralmente igual ao objeto de seu ataque original. Orwell aqui toca numa veia central da conduta humana: a ilusão dos grandes discursos e a fragilidade da fé no próprio ser humano.   A Bíblia desenvolve a mesma temática em diversos livros e histórias. A narrativa de David no livro de 1-2 Samuel é terreno fértil para traçar um paralelo entre as Escrituras e Orwell. Muito embora... leia mais