#86

Sobre o próprio texto do Decálogo, uma série de nuances valem ser ressaltadas: primeiro, de aspectos gerais e, depois, específicos. Em primeiro lugar, o Decálogo não é parecido com as prescrições habituais da lei bíblica, até por não especificar as punições. É, inclusive, a forma de categóricos imperativos e proibições apodícticas dos mandamentos em Êxodo 20:3-17 mais um fator de relação com as formulações dos tratados de aliança do AOM (Antigo Oriente Médio).

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#85

Há muito o texto de Êxodo 20 (e Deuteronômio 5) é arrolado como similar aos tratados de suserania do Antigo Oriente Médio, em especial aos tratados políticos Hititas. Esta similaridade se dá pela presença de seções comuns no processo de se regular a relação entre entidades diferentes; no caso dos tratados políticos, entre o suserano e o vassalo; no caso bíblico, DEUS e o povo.

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#84

“Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros.” 1 Samuel 15:22

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#83

Onde habita o DEUS bíblico? Em que lugar sua glória se manifesta? Logo depois de fazer uma aliança com Israel, no clímax do relacionamento entre DEUS e Seu povo, Ele ordena que se faça um santuário para que Ele habitasse no meio dos filhos de Israel (Êxodo 25:8). É pelo santuário que DEUS habita entre o povo. DEUS cumpre Sua palavra capítulos depois, quando o livro do Êxodo narra a conclusão da construção do santuário.

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#82

נַחֲמוּ עַמִּי יֺאמַר אֱלֹהֵיכֶם׃ נַחֲמוּ “Nachamû, nachamû ‘ammî, yi’mar ’elôhêykhem” “Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso DEUS” (Isaías 40:1) Na parte final de seu livro, Isaías (40-66) profeticamente apresenta o futuro do remanescente de Judá pós-exílio. Iniciando o capítulo 40 com um chamado à consolação por parte do próprio DEUS –pois Jerusalém foi perdoada e recebera a paga de seu pecado (40:2; Cf. Deuteronômio 28:63-64)– o profeta continua discorrendo sobre a majestade e soberania de YHWH: poderoso (verso 10); galardoador (id.); cuidadoso (verso 11); guia (id.); superior às águas, ao Céu e ao mar (verso 12); sábio (versos 13-14); maior que nações e governantes (versos 15-17, 22-24); incomparável (versos 18-20, 25); o Criador de todas as coisas (versos 26, 28). Contudo, a visão do povo ainda não está clara. Não reconhecem a bondade de DEUS e se queixam: “O Senhor não se interessa pela minha situação; o meu DEUS não considera a minha causa” (verso 27). E a resposta do Eterno é, possivelmente, uma das passagens mais conhecidas das Escrituras: Será que você não sabe? Nunca ouviu falar? O Senhor é o DEUS eterno, o Criador de toda a terra. Ele não se cansa nem fica exausto; sua sabedoria é insondável. Ele fortalece o cansado e dá grande vigor ao que está sem forças. Até os jovens se cansam e ficam exaustos, e os moços tropeçam e caem; mas aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam alto como águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam. (Isaías 40:28-31, ênfase acrescentada) O desconsolado povo recebe ânimo do Senhor que promete fortalecê-los. Interessante é que quando o texto diz... leia mais

#81

É impressionante notar o papel das religiões na cultura (ou talvez o contrário, dependendo da escola de pensamento a que você pertença). Por ser polissêmica, a religião pode abarcar qualquer compreensão a respeito de si mesma; e aqui defino o papel da cultura neste processo, pois à medida em que nossas complexas relações se desdobram, o papel da religião (assim como a resposta que damos a ela) sofre alterações inevitáveis, tornando-se, assim, expressão imediata dos valores produzidos pelo homem. Entretanto, como alternativa ao anteriormente afirmado, no campo da fenomenologia, entende-se que o exercício de determinadas religiosidades sempre será carregado de um ferramental que possibilite a relação do homem com a mesma, e é dentro deste contexto que é pertinente pena citar o medo. O medo integra a história da humanidade –sendo ele instintivo pela auto-preservação e sobrevivência, ou socialmente produzido– e no tempo em que vivemos, quando o assunto é a religião à qual pertencemos (como falei anteriormente, por ser polissêmica, aqui ouso identificá-la como uma instituição religiosa), o medo pode também ser entendido como uma eficaz ferramenta de manipulação. Lembro-me que poucas vezes vi a minha igreja tão cheia quanto no culto do dia 12 de setembro de 2001. O medo desenfreado pelo iminente “apocalipse”, que por consequência traria sobre a terra o juízo divino, acarretou as mais variadas elocubrações sobre o “tempo do fim”. Ou ainda, não me escapa da memória o dia em que amigos me contaram a respeito de um rapaz que se dizia ex-pactuante com o diabo. O curioso testemunho do rapaz, contado obviamente dentro de uma igreja, vinha repleto de ensinamentos a respeito das artimanhas... leia mais

#80

“A falsificação da qual o cristianismo é culpado: não tornar explícito, de forma franca e sem reservas, o requerimento cristão.” Kierkegaard Um dos inúmeros problemas na natureza do que hoje se tornou “cristianismo” é a distinção entre a informação que se tem a respeito de DEUS e o conhecimento/sabedoria de DEUS. O imperativo cristão não é meramente espalhar informação a respeito DEUS, mas sim, o conhecimento e a sabedoria de DEUS (2 Coríntios 2:14). Grande pode ser o abismo entre informação e conhecimento, isto é, a diferença entre as proposições a respeito de DEUS e a vivência diante de DEUS. Enquanto umas se limitam ao âmbito cognitivo, a outra ultrapassa o cognitivo e deságua no modo de viver. Os dois sentidos de conhecimento, no entanto, cognitivo e experiencial, estão contidos na palavra yadah no hebraico (usada tanto para conhecimento de DEUS como para a intimidade de um casal). Tão fundamental é o conhecimento de DEUS na Bíblia que ela está diretamente ligada à salvação. Enquanto o cristianismo em suas diversas formas prega que as ações de Cristo na cruz fazem a realidade da igreja ser voltada para celebração/adoração e não necessariamente para o conhecimento/estudo/vida o texto de João 17:3 diz: “e a vida eterna é esta: que Te conheçam a Ti, como o único DEUS verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que Tu enviaste.” Até mesmo o conceito de discipulado está atrelado ao conhecimento de DEUS manifestado no “permanecer na Palavra” (João 8:31). Os verdadeiros discípulos vivem como seu mestre, pois pensam como seu mestre. Toda liturgia, teologia, canção, ou vida que meramente comunica informação a respeito de DEUS é superficial e rasa. São fins em si mesmo. A informação é passada. Ponto final. Não movem o ser... leia mais

#79

“…o que é então a Cristandade? Não é a ‘Cristandade’ a tentativa mais colossal de servir a Deus sem seguir a Jesus, como Ele ordenou…?” Kierkegaard O texto #71 conclui da seguinte maneira: precisamos desenvolver a honestidade e a coragem de dizer que o “Cristianismo” nos nossos dias não existe… e que esta confissão nos conduza de volta ao texto Bíblico… precisamos redescobrir o que significa, de fato, Cristianismo na Bíblia, pois, atualmente, ele simplesmente não existe. Conclusão dura? Sem dúvidas. Para quem não leu o texto #71 esta conclusão não elimina a realidade de que muitos dentro do que se chama de Cristianismo, de fato vivem a realidade do Reino em suas vidas; que vivem uma antecipação do fim em sua própria existência e ação; que vivem uma orientação de vida voltada ao serviço e não meramente aos próprios interesses; que entendem o texto na ação, e não apenas na esfera cognitiva. O reconhecimento de que Cristianismo não existe deve nos conduzir de volta ao texto para que possamos reconstruir aquilo que –em algum momento da história– ficou pelo caminho. Se tivéssemos apenas os Evangelhos como base/fonte para reconstruir o que hoje chamamos de Cristianismo, como seria este Cristianismo? Uma breve leitura de Mateus 5-7 ou Mateus 23 já mostraria quão longe estamos desta realidade. A leitura dos Evangelhos é uma leitura perigosa. Mas enquanto pensamos que textos mais explícitos com relação à ética Cristã (como Mateus 5-7 e 23) são uma afronta à atual situação do “Cristianismo”, outros textos, que também romantizamos, costumamos ler sem entender o imperativo ético. Mateus 4 por exemplo inicia com Jesus sendo levado para... leia mais

#78

Um anúncio de enredo interessante na Bíblia Hebraica ocorre em 2 Reis 17. Neste capítulo o narrador apresenta a queda do Reino do Norte, Israel(1), diante de Salmaneser, rei dos assírios (2 Reis 17:3-6). Em seguida, o narrador discursa a respeito das causas desta derrocada e lista a adoração de ídolos, a rejeição dos mandamentos, a surdez em face aos apelos dos profetas enviados por Deus, etc. (2 Reis 17:7-23). O anúncio de enredo curioso aparece em 2 Reis 17:19, pois em meio à descrição dos pecados do Reino do Norte, Judá é citado como estando no mesmo caminho e fazendo as mesmas coisas. Ou seja, há uma antevisão do que vai acontecer também com o Reino do Sul, Judá. Espera-se, portanto, que a narrativa do próximo capítulo descreva de que maneira este anúncio do pecado e a consequente destruição de Judá se dará. Mas 2 Reis 18 começa contando a história do rei Ezequias. Na primeira seção da história de Ezequias (2 Reis 18:1-19:37), o rei é introduzido da maneira mais favorável possível: “fez o que era reto perante o SENHOR, segundo tudo o que fizera Davi, seu pai.” (2 Reis 18:3); “Confiou no SENHOR, DEUS de Israel, de maneira que depois dele não houve seu semelhante entre todos os reis de Judá, nem entre os que foram antes dele.” (2 Reis 18:5). Na verdade, a primeira construção linguística aparece em 2 Reis 22:2 se referindo também a Josias e a segunda construção aparece se referindo a Salomão em 1 Reis 13:12. O uso das duas frases acaba por conectar Ezequias a estes dois reis e, obviamente, a menção a Davi também o conecta a este. O texto... leia mais

#77

“eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Gênesis 22:7 A história do Akedah, do amarramento de Isaque, é uma das narrativas mais conhecidas e interpretadas da Bíblia. A história, em si mesma, pode ser atestada de diferentes maneiras nas três grandes religiões mundiais: Judaísmo, Islamismo, e Cristianismo. Na versão da Bíblia Hebraica, Abraão, provado por DEUS, é convocado a sacrificar seu próprio filho. Ele viaja três dias até o monte Moriá, sobe a montanha com seu filho, prepara o sacrifício, porém é impedido de sacrificá-lo por uma voz divina. Por fim, no lugar de seu filho Isaque, sacrifica um carneiro preso com seus chifres num mato. O capítulo encerra com a reafirmação da aliança. Teólogos deliberaram por centenas de anos acerca do ponto central da história. Muitos argumentam que o ponto está, mais uma vez, na fé de Abraão que mesmo ao final de sua vida ainda está disposto –como no seu primeiro chamado em Gênesis 12– a ir aonde Deus mandaria. Outros porém, entendem que o ápice do texto se encontra no fim, na manifestação visível da obediência de Abraão ou no aparecimento do sacrifício substituto. De fato, o pedido de DEUS no começo do capítulo é significativo, justamente porque não soa divino. O pedido de que um ser humano seja sacrificado em nada parece ter relação com o DEUS da aliança, que cria e zela pela vida humana. Soa mais como uma demanda dos deuses das nações ao redor de Abraão. Ele, no entanto, faz o que a voz diz. A voz lhe é familiar. O pedido soa estranho, mas a voz é familiar, as palavras são familiares. Semelhantemente ao primeiro... leia mais

#76

“E o verbo se fez carne e habitou entre nós […]” João 1:14 Tratando de fenômenos linguísticos, uma das alegações medulares do filósofo e linguista Mikhail Bakhtin é o dialogismo. Qualquer texto é parte integrante de seu ambiente dialógico. Fundamentada nestes conceitos, Julia Kristeva, crítica literária búlgaro-francesa, estreitou estas relações entre textos dando ênfase a um fenômeno que chamou de intertextualidade. Basicamente, ela afirma que todos os textos evocam intertextos. Como por exemplo, neste trecho da música de Chico Buarque “Bom Conselho”, onde  vemos eco a alguns ditos populares: “Ouça um bom conselho/Que eu lhe dou de graça/Inútil é dormir que a dor não passa/Espere sentado/Ou você se cansa/Está provado, quem espera nunca alcança”(1). Curioso é que quando vamos ao texto bíblico e o analisamos em sua forma final, há ali nitidamente inúmeros casos de intertextualidade; às vezes explícita, outras vezes implícita. Explicitamente ela aparece, por exemplo, em Mateus 1:22-23, quando é dito: “Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo intermédio do profeta: ‘Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel”. Uma explícita referência a Isaías 7:14. E em outros casos, de forma mais implícita, como por exemplo, o mencionado aqui no texto #55, na relação entre Jeremias 29 e as leis quanto à guerra de Deuteronômio 20:5-10, dando a ideia de que o povo deveria aceitar o jugo Babilônico não se unindo para uma revolta. Além disso, algumas vezes o texto bíblico pode se relacionar com estruturas e textos fora do cânon, como por exemplo, no contexto da aliança, a relação entre o... leia mais

#75

Preocupados em compreender algumas ações bizarras realizadas por profetas na Bíblia Hebraica, alguns estudiosos tendem a valorizar os aspectos sociais, comunicativos e didáticos de tais ações se esquecendo de um ponto chave: o pano de fundo da aliança. Jeremias é um dos livros que mais apresenta relatos de ações simbólicas(1). Em Jeremias 13:1-11, por exemplo, o profeta deveria comprar um cinto de linho e, depois de usá-lo, levá-lo até o Eufrates e escondê-lo. Depois de muitos dias lhe foi feito o pedido que voltasse àquele lugar e buscasse o sinto de linho, agora já apodrecido. Deixando de lado todas questões logísticas para tal ação, curioso é que três vezes é dito a Jeremias que usasse o cinto colocando-o sobre os lombos (versos 1-2, 4). Esta parece ser uma indicação desnecessária, a não ser que tenha havido um possível motivo especial, além do simples fato de especificar como o cinto deveria ser usado. Para entender melhor o porquê de tal indicação, primeiro, devemos lembrar de um trecho do verso 10 no mesmo capítulo, onde é dito: “[…] e anda após outros deuses para os servir e adorar […]”. Esta mesma frase ocorre também em sua forma completa em Deuteronômio 8:19, Juízes 2:19, Jeremias 16:11, e 25:6; todas elas inseridas em um contexto de aparente quebra da aliança. Contudo, não é somente este versículo que evoca aspectos da aliança entre YHWH e Israel. Em Jeremias 13:11, lemos: “[…] para me serem por povo, nome, e louvor e glória […]”. O verso 11 traz uma sequência com as palavras עַם (povo), שֵׁ֣ם (nome), תְהִלָּ֖ה (louvor), e תִפְאָ֑רֶת (glória). O outro único lugar onde aparecem todas... leia mais

#74

Israel havia vencido duas grandes guerras: uma contra o rei Seom e outra contra Ogue. Heshbon e Basã, cidades fortificadas, com muralhas gigantescas e exércitos numerosos, ao atacarem Israel, foram destruídas (Números 21). As duas batalhas possuem diferenças interessantes: contra Seom (Heshbon), mensageiros são enviados para pedir passagem (Números 21:21-22); contra Ogue (Basã), não há envio de mensageiros. Ambos os reis saem para guerrear contra Israel, numa clara demonstração de hostilidade. Entretanto, Basã fazia parte do que era a terra prometida a Israel e Heshbon não. Balaque, rei dos moabitas, tendo conhecimento destas duas vitórias retumbantes de Israel, resolve usar uma nova tática antes de atacar: amaldiçoar o povo de DEUS usando um profeta. Balaão é este profeta e a história dele guarda algumas nuances interessantes. Balaão recebe visitas do rei Balaque que lhe expõe a situação. De maneira estranha, além de ouvir a proposta, ele resolve consultar o Eterno para saber o que Este pensava a respeito de amaldiçoar Seu povo. Balaão recebe uma resposta divina clara: “Não irás com eles, nem amaldiçoarás o povo; porque é povo abençoado” (Números 22:12). Balaque ouve a resposta, mas resolve insistir e envia mensageiros mais honrados e mais presentes. Balaão, mesmo já tendo uma resposta divina quanto ao pedido, decide consultar a DEUS de novo ao que Ele responde: “Se pra te chamar para ir vierem aqueles homens, levanta e vai com eles” (Números 22:20). O interessante é que Balaão não espera os homens virem chamá-lo na manhã seguinte; é ele quem levanta e parte em direção a Moabe! Consequentemente, o Eterno fica irado. A desobediência de Balaão havia sido acintosa. A vontade de Balaão... leia mais

#73

Continuando na história de Esaú e Jacó, há cinco coisas que merecem ser analisadas, de acordo com o texto de Gênesis 25 e 27: 1. serviço – A palavra avad ocorre nas 3 partes da história e enfatiza o serviço de Esaú. No entanto, a mesma palavra aparece na história de Jacó repetidas vezes: servindo Labão (Gênesis 29:15,18,20,25,27,30; 30:26,29; 31:6,41); a DEUS (32:1); e até a Esaú (32:17,19; 33:14). Todos os pontos da narrativa mostram o oposto do anúncio em Gn 25 e 27. Jacó termina até mesmo como servo de Lea (Gênesis 30:16)! Ele foge do irmão que seria seu servo, para servir seu tio e sua mulher. Aquele que deveria ser senhor se torna servo. Ele mesmo se coloca desta maneira em Gênesis 30:26. – O encontro entre Jacó e Esaú, que deveria ser o cumprimento do anúncio feito desde o início da história de ambos, é o oposto disso: Compare Gênesis 32:17-18 com 27:29 e 33:6,7,9; até o final da história de Gênesis não vemos o cumprimento desta profecia e/ou do anúncio de enredo. 2. fertilidade Gênesis 27:28a//27:39b – As bençãos de fertilidade são todas de Jacó e neste sentido nada é dado a Esaú. – De alguma maneira isso se cumpre na história de Jacó parcialmente com seu crescimento (30:43,27), mas há, também, toda a questão esterilidade das mulheres e a briga entre elas para gerar filhos; no entanto duas mulheres e suas concubinas parecem indicar q sua descendência seria, de fato, numerosa. –  Em Gênesis 32:14-15,22 isso fica patente. Gênesis 33:11 – “aceita o presente” birkat q vem de beraka (bênção): Jacó quer compartilhar sua benção, aquela que fora roubada de Esaú (Gênesis 27:41). – Gênesis 33:9 e 36:6 descrevem Esaú como alguém... leia mais

#72

Em Gênesis 25:22-23 um enredo, já nos primeiros momentos, é esboçado: no ventre da mãe –Rebeca– dois fetos em formação lutam (o verbo utilizado significa “esmagar”). Rebeca então reclama e consulta ao ETERNO para tentar entender o que poderia estar havendo. Ela recebe um oráculo: seriam duas nações, dois povos, que seriam divididos e não se ajuntariam. Literalmente ela escuta: “nascidos de você, serão divididos um do outro”. Haveria divisão entre ambos desde antes do nascimento. Aqui ocorre o que se chama, em teoria da narrativa, um anúncio de enredo. O texto acrescenta uma sentença que pode ser traduzida de duas maneiras: a) o mais velho servirá ao mais novo; ou b) o mais forte servirá ao mais fraco. As duas leituras possíveis apontam para um mesmo caminho: além da divisão entre ambos, haverá submissão e haverá domínio. Gênesis 25:25-26 não demora a solucionar o enigma para o leitor: nasce primeiro Esaú, coberto de pelos (daí uma das possibilidades da origem do seu nome). O primogênito sai vencedor da primeira batalha. E na sua cola, como o texto coloca, nasce seu irmão, segurando seu calcanhar e por isso é chamado Jacó (Ya’acov – tornozelo). A diferença entre ambos se estende ao trabalho:  Esaú é homem do campo, um caçador; Jacó é homem pacato, mais bem traduzido como “ingênuo”. A história que segue em Gênesis 25:28-34 fala de como Jacó comprou para si o que a profecia dissera que seria seu. Notem que há um ponto interessante e importante nesta história: o texto bíblico, ao contrário do que se diz, não julga Jacó pela compra da primogenitura, porém julga Esaú pela venda da mesma. O texto... leia mais

#71

“Cristianismo simplesmente não existe.” Søren Kierkegaard E quem seria capaz de contestar esta afirmação de Kierkegaard? Há, de fato, um Cristianismo que não existe. Mas antes de afirmar a não-existência de um Cristianismo aparentemente existente, faz-se necessário explorar o que a própria Bíblia diz a respeito desta palavra. Em que lugar da Bíblia algum autor inspirado cita a palavra Cristianismo? Em nenhum lugar. Peter Leithart nota que na Bíblia ninguém é convidado a proclamar o Cristianismo, a ensinar o Cristianismo, ou sequer a aceitar o Cristianismo. Ainda assim, a palavra existe no nosso vocabulário. Os Evangelhos falam de Cristo e de seus seguidores que eventualmente passaram a ser chamados de Cristãos. Mas a base, a visão, o fundamento da palavra “Cristão” se centrava em Cristo, Suas palavras, Sua vida, e a missão por Ele deixada. Na Bíblia não encontramos a palavra nem o conceito de Cristianismo. Mas após inúmeras expansões territoriais e evangelísticas o “Cristianismo” invadiu o mundo. No entanto, em algum momento desta milenar jornada, o Cristianismo parece ter perdido sua ligação com os Evangelhos. Se tornou um corpo de doutrinas professado por Cristãos, ou uma maneira de adorar o Cristo ressurreto. Tudo muito objetivo e cognitivo. Cristianismo é “isso” e se você aceitar “isso” você se torna um Cristão. Mortes e guerras encontraram suas justificativas no palavra (e no conceito) Cristianismo, riquezas foram acumuladas em nome do Cristianismo e povos foram oprimidos em nome da cruz. Ao se distanciar dos Evangelhos, o Cristianismo –que já não é um conceito Bíblico per se– se tornou algo que, quando muito, remotamente se assemelha à religião bíblica descrita nos Evangelhos. Dostoiévski no capítulo “O Grande Inquisidor” de seu livro Irmãos Karamazov descreve o problema da seguinte... leia mais

#70

Na Bíblia nos deparamos com várias situações em que o poder/posição de DEUS tenta ser usurpado. Isto é evidente, por exemplo em Daniel 1, quando Nabucodonosor se porta como o deus da Babilônia, determinando sobre a vida de todos. Outro exemplo desta tentativa de tomar prerrogativas divinas é o caso do Faraó. Apesar de em Êxodo 5:2 percebermos a arrogância do faraó quanto ao DEUS de Israel (“Quem é o Senhor para que lhe ouça a voz e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor […]”), em Ezequiel 29 isso parece se tornar ainda mais evidente. Advertindo o povo de Israel sobre os perigos das alianças próximo ao período do exílio Babilônico, Ezequiel 28 apresenta o início de uma série de julgamentos divinos contra alguns inimigos vizinhos. A partir do capítulo 29 (até o capítulo 32), a temática é voltada unicamente ao Egito e seu líder. Em Ezequiel 29 são apresentadas promessas de julgamento divino tanto contra o Egito como contra o Faraó. No verso 2, por exemplo, é dito a Ezequiel: “Filho do homem, volve o rosto contra Faraó, rei do Egito, e profetiza contra ele e contra todo o Egito”. Estas promessas de julgamento divino também aparecem em Êxodo 7:4, quando é dito: “Faraó não vos ouvirá; e eu porei a mão sobre o Egito e farei sair as minhas hostes, o meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes manifestações de julgamento”. Em Êxodo vemos um julgamento caindo sobre o Egito e seu Faraó que culmina com a libertação de Israel. E em Ezequiel vemos um segundo julgamento sobre o Egito e... leia mais

#69

No terceiro dia do relato criativo, na primeira das duas ações divinas efetuadas nele, a Bíblia Hebraica diz assim (Gênesis 1:9-10): וַיֹּ֣אמֶר אֱלֹהִ֗ים יִקָּו֨וּ הַמַּ֜יִם מִתַּ֤חַת הַשָּׁמַ֨יִם֙ אֶל־מָק֣וֹם אֶחָ֔ד וְתֵֽרָאֶ֖ה הַיַּבָּשָׁ֑ה וַֽיְהִי־כֵֽן: וַיִּקְרָ֨א אֱלֹהִ֤ים ׀ לַיַּבָּשָׁה֙ אֶ֔רֶץ וּלְמִקְוֵ֥ה הַמַּ֖יִם קָרָ֣א יַמִּ֑ים וַיַּ֥רְא אֱלֹהִ֖ים כִּי־טֽוֹב: “E disse DEUS: sejam reunidas as águas de debaixo dos céus para um único lugar e seja vista terra seca. E assim foi. E chamou DEUS a terra seca de terra e a reunião das águas de mares. E viu Deus que era bom.” Uma das coisas interessantes destes versos é o substantivo yabbashah (יַבָּשָׁה), que pode ser traduzido como “terra seca”. Ele é derivado da raiz ybsh (יבּשׁ) que está sempre relacionada à idéia de tornar algo seco, tanto em seu uso literal quanto metafórico. Como verbo, aparece cerca de 50 vezes e, geralmente, está associado a um evento ou circunstância em que o mar, rios, ou qualquer parte aquosa se torne seco. O substantivo, por sua vez, em seu primeiro uso aparece justamente num contexto de separação entre a parte seca e a parte aquosa. Esta parte seca, yabbashah, é chamada de ‘érets (אֶרֶץ), terra. E a parte aquosa, “as águas” do hebraico mayim  (מַיִם), que Deus ajunta, é chamada de “mares” (yammiym – יַמִּים). O curioso é que praticamente todas as 14 vezes em que houver uso do substantivo yabbashah “terra seca” no texto bíblico, será em oposição a yam (יָם), “mar”, ou seu plural, visto acima (yammiym). O que isto significa? Bom, de certa maneira, a divisão entre o mar e a terra seca em Gênesis 1:9-10 cria o cenário para o... leia mais

#68

O. Palmer Robertson afirma (em The Christ of the Prophets, 2008, página 53.): “O chamado divino dos profetas indica que eles eram agentes religiosos independentes. Eles deviam a origem e continuidade do seu ofício a nenhum outro, senão DEUS. Nem o rei, nem o sacerdote, nem sequer outro profeta era a fonte de sua autoridade, e nenhuma destas pessoas poderia tomar seu ofício. Sua prestação de contas era unicamente ao DEUS majestoso que os havia chamado. No fim de 1 Reis 22, é dito a respeito de Acazias (1 Reis 22:53-54): “Fez o que era mau perante o Senhor; porque andou nos caminhos de seu pai, como também nos caminhos de sua mãe […] Ele serviu a Baal, e o adorou, e provocou à ira ao Senhor”. Apesar de tal relato não causar espanto devido à associação com a descrição dos pais, a declaração sobre Acazias prepara a atmosfera para o início de 2 Reis. No primeiro bloco de 2 Reis 1 é dito que Acazias caiu pelas grades de um quarto alto, adoeceu e enviou mensageiros para consultar Baal-Zebube com a intenção de saber se sararia da doença. No verso 3 o Anjo do SENHOR aparece a Elias dizendo que encontrasse os mensageiros do rei e lhes dissesse as seguintes palavras: “Porventura, não há DEUS em Israel, para irdes consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom? Por isso, assim diz o Senhor: Da cama a que subiste, não descerás, mas, sem falta, morrerás […]”. Os mensageiros voltam ao rei com a mensagem de Elias. No segundo bloco o rei envia um capitão com 50 soldados para que levassem o profeta (que no... leia mais

#67

Há uma espécie de consenso de que o Salmo 1 e o Salmo 2 foram colocados como uma introdução ao saltério. Alguns afirmam ser um mesmo salmo, inclusive. A ligação entre eles realmente é clara: a) O verbo murmurar (הגה – hagah) que aparece em Salmos 1:2 para descrever a ação do homem feliz e em Salmos 2:1 à trama das nações; b) o verbo perder/perecer (אבד – ‘avad) que define o destino dos ímpios no Salmo 1:6 e também daqueles que não ‘beijam’ o Filho em Salmos 2:12; c) o uso da expressão “feliz”, ou “bem-aventurado” (אשׁרי – ‘ashrey) que inicia o Salmo 1 (1:1) e termina o Salmo 2 (2:12). Este último aspecto de ligação acaba por construir uma inclusão, ou moldura, pois o Salmo 1 começa como termina o Salmo 2, falando do homem feliz e/ou bem-aventurado. Além destas conexões, a estrutura do Salmo 2 está dividida em quatro partes de três versos: A – versos 1-3; B – versos 4-6; C – versos 7-9; D – versos 10-12. A primeira parte (versos 1-3) começa com uma pergunta clássica do livro de Salmos e que carrega uma nuance interessante, pois, geralmente, ao fazer este tipo de pergunta (“por quê?”, “até quando?”,  etc.) o salmista/poeta está, na verdade, clamando por justiça. Ele apresenta, em sua pergunta, a conspiração das nações e dos povos contra DEUS e Seu Ungido. As nações e povos querem romper seus laços com o Senhor, no que parece ser um movimento contrário ao descrito pelo profeta Oséias na relação entre Israel e DEUS, pois no capítulo 11:4 de seu livro, DEUS atrai Israel com laços... leia mais

#66

Ainda tratando da linguagem bíblica, nota-se que cada vez mais se tem priorizado uma linguagem de distinção e rigor no ambiente religioso. As palavras são usadas de maneira impessoal para mera informação e definição, afastando cada vez mais a todos do teor pessoal do texto bíblico. No entanto, ao lermos o Evangelho de João, nos deparamos inúmeras vezes com um recurso que contrapõe completamente com esta mentalidade: a metáfora. No decorrer do livro, Jesus afirma ser “o pão da vida” (João 6:35), “a luz do mundo” (João 8:12), “a porta” (João 10:9), “o caminho” (João 14:6), “a videira”(João 15:1), dentre outras coisas. Curioso é que apresentar Jesus como pão, luz, porta, caminho ou videira, não causa confusão em nossa mente. Apesar de uma videira implicar em terrenos, proporções, tipos de galhos, tipos de folhas, etc, sabemos que, aqui, o uso da palavra é metafórico. Ela é e não é o que designa. A metáfora funciona como um convite. Um convite para imaginar a relação entre o visível e o invisível. Percebemos que existe mais do que podemos ver, ouvir, tocar, ou provar. Ainda assim, os dois aspectos, visível e invisível, são indivisíveis. Afinal, em uma única palavra a metáfora transmite a integralidade entre o que se vê e o que se não vê, entre o céu e a terra. Ela é uma tensão entre o que a palavra denota e o que ela conota. Por meio da metáfora, a palavra, levando o leitor/ouvinte como acompanhante, é lançada a outro domínio de significados singulares. Normalmente vemos a palavra tendo a utilidade de um rótulo. No entanto, quando usada como metáfora, a palavra... leia mais

#65

“O que é DEUS para um não-crente que não acredita em nada?” “No Church in the Wild”, Jay-Z/Kanye West Vivemos aproximadamente dois mil anos após o último ponto final do Novo Testamento ter sido dado. Desde então, a história do cristianismo se desenvolveu de uma maneira que, pela falta de outras palavras, vou simplesmente denominar de “complexa”. Ramificações teológicas, expansões missiológicas, refutações de heresias, relações entre o que hoje distinguimos como Judaísmo e Cristianismo vieram e se foram… Renascença, Reforma, Iluminismo, Modernidade… O nascimento da ciência moderna e a “morte de DEUS”… A história desde aquele último ponto final é, de fato, complexa. E nós –independentemente da nossa lucidez em avaliar o que compõe nossa bagagem de pressuposições– herdamos tudo isto. Toda a complexidade histórica que antecede nossa existência criou tanto o contexto em que articulamos a fé, como também o contexto em que a fé é rejeitada. Com isto em mente: A questão que irei brevemente contemplar neste texto (contemplar não necessariamente significa responder) é: o que é DEUS em um contexto de descrença, em um contexto secularizado, em um contexto religioso altamente superficializado? Há inúmeras avenidas em que esta discussão poderia ocorrer, mas aqui gostaria de trilhar apenas uma destas: a questão da comunicação. Não é difícil atestar que palavras como “DEUS”, “cristão”, “crente”, “igreja”, “fé”, “bênção”, “poder” (dentre outras) já estão muito viciadas, desprovidas até de qualquer relação com o texto Bíblico em sua aplicação/funcionalidade atual. Por perderem esta relação fundamental  com o vocabulário bíblico (para muitos desconhecido, inclusive), perderam também, consequentemente, sua relação com a realidade na ótica bíblica (já que adquiriram em algum momento um significado imposto alheio ao texto). Fora do contexto religioso, palavras como “pastor”, “bênção” e... leia mais

#64

Quando se fala de Abraão, geralmente começamos a lidar com sua história a partir de Gênesis 12. A narrativa, entretanto, começa antes, já em Gênesis 11:26-27. Primeiro (verso 26) o então Abrão é inserido na genealogia de Sem (11:10-26) para, logo em seguida, reaparecer na genealogia de Tera (11:27-32). Neste segundo momento, lidando com as gerações de Tera, o texto bíblico apresenta Abrão em relação a seu pai, sua família e sua esposa. Sua esposa é descrita de maneira extremamente peculiar: muito embora a filiação de Milca seja descrita, a de Sarai não é apresentada. Nesta introdução, Sarai não possui ascendência, ou seja, não se sabe de onde veio. Outro aspecto peculiar também é apresentado (11:30): ela é estéril (עקרה – ‘aqarah) e nela não há feto (אין להּ ולד – ’ein lah valad); ‘aqarah parece carregar um sentido externo, já que remete a desenraizar ou jarretear um animal; ’ein lah valad parece carregar um sentido interno. O narrador faz questão de duplamente enfatizar a total impossibilidade de Sarai gerar filhos/descendentes/herdeiros. Após esta breve introdução, Gênesis 12 apresenta Abrão em sua relação com DEUS que, inclusive, é a relação que vai nortear toda a narrativa. DEUS e Abrão são os dois principais personagens e todo o resto terá um plano secundário até Gênesis 22. O início desta relação, entretanto, nos introduz um dilema, uma impossibilidade: ao chamá-lo para ser Seu servo e prometer dar-lhe terra, Ele acrescenta a promessa de uma grande nação procedendo de Abrão. O leitor arguto compreende que a história da relação entre este homem e DEUS é pautada pelo absurdo da promessa de que alguém casado com uma mulher estéril se tornaria pai de uma multidão incontável de descendentes, tal qual à areia do mar... leia mais

#63

O fim de ano parece sempre ser igual. Cansaço, família, festa, comida, presentes e um recorrente roteiro de clichês (“feliz natal”; “que Jesus nasça na sua vida”; “que seu coração seja uma manjedoura”; etc). Estas expressões, por não terem uma significativa referência textual (e consequentemente, possuírem uma correspondência confusa com a realidade), se tornaram tão vazias quanto as caixas de presentes abertos no dia 26 de Dezembro. Surge, então, a pergunta: tendo em vista que a historicidade da celebração do nascimento de Jesus no dia 25 de Dezembro é complexa, será que ainda há alguma coisa especial ou significativa nesta data –ou na história do nascimento de Jesus como um todo– para nós que chegamos ao fim do ano apenas com um acúmulo ainda maior de tristezas, alegrias, culpas, objetivos cumpridos ou frustrados, esperanças e desilusões? Algo além de “o verdadeiro sentido do natal é Jesus”? Talvez não; mas há duas semanas foi postado aqui um texto que fez menção do verbo פּקד (visitar) e nesta semana de natal creio ser apropriado revisitar esta pequena palavra e sua importância para a narrativa bíblica no contexto de nosso predicamento contemporâneo. O fim do livro de Gênesis é marcado pelo verbo פּקד. Duas vezes a palavra é usada antes da morte de José para enfatizar a promessa de que, por mais que o povo passaria muitos anos no Egito (Gênesis 15:13), DEUS certamente os “visitaria” (Gênesis 50:24-25). E, assim, o livro de Gênesis termina. A promessa da Divina visitação é a expectativa que liga Gênesis ao livro que segue, Êxodo. A grande questão na transição entre os dois livros é: quando e como Deus visitará o povo? Até quando? Após... leia mais

#62

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Levítico 19:18 Na literatura sapiencial do Antigo Oriente Médio a discussão de questões éticas era recorrente e seu foco geralmente o dia-a-dia do ser humano e seu relacionamento com os outros. A ética, no entanto, não fazia parte da preocupação do mundo religioso em geral, que via a religião como mágica (convencer os deuses a fazerem o que você deseja); com exceção de Israel. A relação distintiva entre a preocupação com o outro e a religião não só pode ser notada em Gênesis 1:27, ao se apontar que todos seres humanos foram criados à imagem e semelhança de DEUS, mas também em alguns discursos proféticos. Em Isaías 1:2-3, por exemplo, é dito: “criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim […]”; “o boi conhece seu possuidor, e o jumento o dono de sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende.” Apesar de apresentarem atitudes religiosas, o povo de Israel é reprendido por DEUS por falta de conhecimento. E aqui já enxergamos o cerne da questão. Biblicamente conhecer a DEUS significa se preocupar com o outro. Isto é visto claramente na sequência do mesmo capítulo, nos versículos 15 e 17: “Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas”. O profeta Jeremias também parece apontar para a mesma linha de raciocínio ao dizer (Jeremias 22:16): “Julgou a causa do aflito e... leia mais

#61

No livro de Jeremias, logo após uma sequência de profecias contra a casa real de Judá (Jeremias 22), nos deparamos com um oráculo de julgamento sobre os líderes de Israel. Nos quatro primeiros versículos do capítulo 23, lemos: “Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto! – diz o SENHOR. Portanto, assim diz o SENHOR, o DEUS de Israel, contra os pastores que apascentam meu povo: Vós dispersastes minhas ovelhas, e as afugentastes, e delas não cuidastes; mas eu cuidarei em vos castigar a maldade das vossas ações, diz o SENHOR. Eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; serão fecundas e se multiplicarão. Levantarei sobre elas pastores que as apascentem, e elas jamais temerão, nem se espantarão; nem uma delas faltará, diz o SENHOR.” A situação era crítica em Israel. Com a possibilidade de um exílio à porta, a população estava alvoroçada. Os governantes, mais preocupados em cumprir com seus programas e metas, não davam atenção às reais necessidades do povo. Egoísmo e perversidade permeavam a liderança da época. Todos os projetos, que segundo os líderes, serviriam para beneficiar àqueles sob sua tutela, mais escravizavam do que auxiliavam. Afinal: não davam qualquer autonomia ao povo; não atentavam para o que lhes era imprescindível. Esta dura mensagem trazida aos responsáveis por guiar o povo possui detalhes curiosos. Por exemplo, há um jogo com o verbo פּקד (paqad – “visitar”; “numerar”; “punir”)  no verso 2. Aos pastores que não cuidaram (peqadtem – פְקַדְתֶּ֖ם) das ovelhas de DEUS, ELE cuidaria (poqed... leia mais

#60

Gênesis 4 já foi assunto aqui (texto #44), mas voltar a ele se torna mais uma vez necessário. Algumas nuances precisam ser mais bem exploradas. Cain, o personagem principal, mata seu irmão, Abel. pelo simples motivo deste ter sua adoração (sacrifício) reconhecido por DEUS e ele, Cain, não (Gênesis 4:5-8). O motivo é o relacionamento DEUS-homem. O primeiro assassinato no relato bíblico é entre irmãos e por motivo religioso (ou espiritual, como queira). Cain se ressente da atenção que aquilo que Abel faz recebe de DEUS. Cain acha que aquilo que ele fez merece, no mínimo, a mesma atenção. Uma disputa religiosa/espiritual (que só existia na cabeça de Cain) conduz ao assassinato. Após a morte de Abel DEUS inicia o segundo diálogo do texto, que é também o segundo diálogo entre ELE e Cain (Gênesis 4:9-15). Antes de tratar deste diálogo é importante notar a sutileza com que o narrador aborda a ironia do descontentamento de Cain. Cain, que teve a oferta rejeitada, é procurado duas vezes por DEUS para conversar e apesar da punição divina, recebe uma marca graciosa que o manterá vivo. Abel, que teve sua oferta aceita, não conversa com DEUS e não é mantido vivo por ELE. Ou seja, Cain quer o que Abel tem com DEUS, mas não percebe o que ele mesmo tem com ELE. Voltando ao segundo diálogo: após a pergunta divina inicial sobre o paradeiro de Abel, Cain responde: “Não sei. Guardador do meu irmão sou eu?”(Gênesis 4:9). O distanciamento agora é total. O irmão, o outro, não é minha função. Não é meu problema. “Por que entre eu-tu precisa haver o ele?”. As... leia mais

#59

A segunda metade do Salmo 1 continua desenvolvendo a oposição que se iniciou no primeiro verso do poema. Agora, no verso 4, O salmista vai descrever os perversos. Curioso que esses perversos, no plural mesmo, aparecem indefinidos no verso 1, mas agora, no verso 4, estão com artigo (no hebraico), ou seja, definidos. A descrição destes perversos, no entanto, não segue à mesma linha da descrição do homem feliz. Não há descrição nem negativa e nem positiva. Os perversos são apresentados diretamente através da metáfora. Ora, se o homem feliz era descrito como uma árvore, com folhas sempre e frutos no tempo certo, os perversos são descritos, em clara oposição, como palha. Aqui é importante lembrar do aspecto do movimento. Como em tudo no Salmo 1, há oposição: se a árvore está parada, a palha está espalhada. O poeta parece querer acentuar a total discrepância entre o homem feliz e os perversos. Esta metáfora da palha é comum na Bíblia Hebraica para descrever os opositores de DEUS e perversos. Ela aparece em Jó 21:18; Salmo 35:5; Oséias 13:3; Isaías 17:13, por exemplo. Contudo, como na metáfora da árvore, a metáfora da palha não parece indicar o destino dos perversos, mas sua essência, sua natureza. Não há possibilidade de sombra e fruto vindos da palha. A palha é seca e sem vida. O estilo de vida dos perversos é um fim em si mesmo. Já o homem feliz busca o serviço, busca ser a sombra e dar o fruto no tempo certo. Meir Weiss aponta um aspecto muito importante que indica isto e está na construção do salmo: DEUS e... leia mais

#58

O Salmo 1 é breve e conciso. Construído de maneira bem peculiar sobre uma estrutura de oposição. No início do poema o salmista introduz o homem feliz pelo que ele não é. Esta descrição em torno da negação é feita em três linhas seguidas, cheias de movimento. O movimento, no entanto, é em direção ao não movimento. O homem feliz não anda, não para, não senta; ou seja: ele não cessa de movimentar-se, não diminui seu ritmo. Ele não é “atrasado” pelos ímpios, ou pecadores, ou escarnecedores. Até aqui, na utilização de substantivos para descrever o oposto do homem feliz –que aparece no singular com apenas um termo– são usados três substantivos para opor-se a ele (que ainda aparecem no plural). A construção desta oposição inicial é bem interessante em hebraico. Uma proposta de tradução para apontar esta curiosidade seria: “Feliz o homem que: não anda no conselho dos perversos e no caminho dos pecadores não para e no assento dos escarnecedores não senta” (Salmo 1:1) Resumindo as oposições aqui, temos: singular x plural; um substantivo x três substantivos; o homem feliz x o que ele não é. Após esta descrição negativa, o salmista o apresenta em termos positivos no verso 2. O homem feliz se deleita no ensino de DEUS (a palavra ensino aqui é Torah – תּוֹרָה – que carrega uma relação íntima coma a lei de DEUS). E não apenas se deleita, ele murmura/recita este ensinamento dia e noite. Aqui parece haver uma clara ligação com Deuteronômio 6:4-9. Agora, depois de apresentar o homem feliz por oposição e descrevê-lo positivamente na sequência, o poeta ilustra suas... leia mais

#57

Números 6:22-27 parece estabelecer uma relação interessante com Levítico 9:23-24. Isso porque em Levítico 9 é dito que Moisés e Arão saíram do Santuário e abençoaram o povo e em Números 6:22-27 está a benção que eles deveriam dar. Aliás, esta função de dar benção ao povo era uma função sacerdotal – mediadores da benção divina (Deuteronômio 10:8; 21:5). A benção é essa: יְבָֽרֶכְךָ֥ יְהוָֹ֖ה וְיִשְׁמְרֶֽךָ:  יָאֵ֨ר יְהוָֹ֧ה ׀ פָּנָ֛יו אֵלֶ֖יךָ וִֽיחֻנֶּֽךָּ:  יִשָּׂ֨א יְהוָֹ֤ה ׀ פָּנָיו֙ אֵלֶ֔יךָ וְיָשֵׂ֥ם לְךָ֖ שָׁלֽוֹם: Abençoe-te o Senhor e te guarde. Brilhe o Senhor Seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti. Levante o Senhor o Seu rosto sobre ti e faça para ti paz. (Nm. 6:24-26) A métrica em hebraico desta benção (poema?) é bem curiosa. São 3 linhas, com 3 palavras/12 sílabas na primeira linha, 5 palavras/14 sílabas na segunda linha e 7 palavras/ 16 sílabas na última linha. O nome de DEUS (tetragrama sagrado יהוה – YHWH) aparece três vezes. Quer dizer que, além do nome de DEUS, há 12 palavras. São 6 verbos em que o sujeito da ação é DEUS. Nas três linhas DEUS é o sujeito explícito/direto do primeiro verbo e oculto/implícito do segundo. Isso ocorre porque parece haver uma relação de dependência entre os verbos, como se o segundo fosse uma decorrência do primeiro, ou como se a primeira ação resultasse na segunda. Apesar da benção ser dada a todo o povo, os verbos apresentam sufixo pronominal de segunda pessoa do singular. Quer dizer, é coletiva e individual ao mesmo tempo. A primeira linha é mais geral. Há uma conexão com a idéia de aliança (benção x maldição). A... leia mais